Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Domingo, 4 de Outubro de 2020
TESTE DO PATO

Retratar o Chega como um partido antissistema e o seu líder, André Ventura, como um outsider do regime, só por brincadeira. Ele que foi um quadro dirigente do PSD e candidato autárquico ao município de Loures por este partido pela mão de Passos Coelho (que nunca lhe retirou o apoio até ele abandonar os social-democratas em 2018, respaldando as suas posições extremistas), ele que, para além de comentador desportivo e do crime na BTV e na CMTV – circunstâncias que lhe granjearam uma enorme exposição e popularidade mediáticas (fazendo lembrar outras ascensões, tão fulgurantes, como irrazoáveis e, por fim, deploráveis ou mesmo criminosas, como a de José Sócrates) – , doutorado em Direito na Irlanda e professor em várias universidades, está ligado aos maiores escritórios e sociedades de advogados portugueses, como o Uria Menendez ou Caiado e Guerreiro, bem como à consultora financeira FinPartner, dificilmente pode ser considerado marginal relativamente aos tradicionais circuitos de poder no nosso país. Como foi amplamente demonstrado por Mariana Mortágua numa sessão parlamentar em finais de setembro, são muitas e nebulosas as ligações de responsáveis e financiadores do Chega aos negócios do BES, ao BES Angola e à cleptocracia angolana, aos escândalos do Banif, Vale do Lobo ou aos Panamá papers. Tudo boa gente! Como então disse a deputada bloquista, o Chega não é mais do que “um partido comprometido até ao pescoço com os negócios mais obscuros da elite financeira e económica”. Para quem se diz “fora do sistema”, não está nada mal.

Não constitui, por isso, surpresa que André Ventura e o seu partido queiram reintroduzir as medidas mais gravosas do tempo da troika, como a generalização das privatizações, o aumento do horário de trabalho das 35 para as 40 horas semanais, ou o fim do regime de progressividade do IRS, beneficiando, como sempre, os mais ricos. Contra o sistema? Em quê? O Chega pode não ser politicamente conveniente, mas que faz parte do sistema instalado, parece uma evidência. Quando Ventura se questiona, no Twitter, “Será que só a minha candidatura defende os portugueses comuns, normais? Haverá mais alguém a defender quem trabalha e paga impostos?”, está apenas a ser um vulgar demagogo (alinhando, desta forma, com o figurino habitual da politiquice sistémica; os interesses dominantes permanecem, pois, salvaguardados).

As propostas bárbaras e soezes apresentadas na recente convenção do Chega, em Évora, são suficientemente ilustrativas da matriz extremista e retrograda deste partido. Nesta reunião, que o jornalista Ferreira Fernandes caracterizou como “um grupo de homens e mulheres indecentes” e “sessão, toda ela pornográfica” (Público, 27/9/20), foi apresentada – e votada favoravelmente por 15% dos elementos presentes, sublinhe-se! – uma proposta que defendia a retirada dos ovários às mulheres que abortassem nos hospitais públicos (sintomático este pormenor, que iliba da mutilação as bemzocas que o fazem nas clínicas privadas); foi também o caso da defesa da castração física, da prisão perpétua, da pena de morte e de um sem número de “pérolas” da incivilidade.

Pela mão do seu principal ideólogo, Diogo Pacheco de Amorim (antigo elemento da rede terrorista de extrema-direita no pós-25 de abril), o programa do Chega defende, entre outros princípios, o fim do Sistema Nacional de Saúde e da escola pública, a privatização dos serviços públicos e o desmantelamento do Estado social, a Europa nacionalista e soberanista, bem como a discriminação racial e étnica, o combate à denominada “ideologia de género” (vulgo, todas as conquistas de cidadania e igualdade das mulheres nos últimos cem anos), a defesa de uma visão arcaica e salazarista da família (e posições tão ridículas, como estúpidas, de oposição à roupa unissexo para crianças), etc. A mensagem do Chega é racista, xenófoba, misógina, homofóbica, autoritária e ultraconservadora. O cardápio ideológico da extrema direita em todo o seu esplendor! Onde está o antissistema nisto tudo? Trata-se, isso sim, da versão mais radical – ou, se quisermos, selvagem – do sistema; este que nos governa a nível planetário, o capitalismo neoliberal. E é nesse sentido que a politóloga Marina Costa Lobo nos propõe, no artigo “A «verdade» do Chega”, publicado no jornal Público (11/8/20), o que chama de “teste do pato”, para que não haja dúvidas sobre a natureza de semelhante agremiação política: “se parece um pato, nada como um pato e grasna como um pato, provavelmente é um pato.”

Como diz, com fina ironia, Boaventura de Sousa Santos, “Se a igualdade sexual fosse ideologia de género, a igualdade entre raças seria ideologia racial e a luta contra a pobreza seria ideologia classista. E, em última instância, a luta contra o fascismo seria ideologia… democrática.” (JL, 23/9/20). Pois!



Hugo Fernandez

 


publicado por albardeiro às 20:35
link do post | favorito

Comentar:
De
 
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres



Copiar caracteres

 



pesquisar
 
Abril 2021
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23

25
26
27
28
29
30


posts recentes

OS FUNDAMENTOS

COMO DISSE?

AMANHÃ ACONTECEU

ANATOMIA DO PENSAMENTO FA...

CRÓNICA AMERICANA

TEMPO DE VÉSPERAS

TESTE DO PATO

O HOMEM MAIS PERIGOSO DO ...

NADA COMO DANTES?

SOBREVIVÊNCIA

arquivos

Abril 2021

Março 2021

Fevereiro 2021

Janeiro 2021

Dezembro 2020

Outubro 2020

Julho 2020

Junho 2020

Abril 2020

Fevereiro 2020

Janeiro 2020

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Janeiro 2019

Novembro 2018

Setembro 2018

Julho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Janeiro 2016

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Abril 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

blogs SAPO
subscrever feeds
Em destaque no SAPO Blogs
pub