GAVETAS
Em entrevista ao Público no final de outubro, e quando questionado se era de esquerda, o candidato presidencial António José Seguro, apoiado pelo PS, demarcou-se de tal identificação, afirmando, “Eu percebo aonde é que me querem levar. Em Portugal, tentam meter as pessoas em gavetas, em departamentos. Eu dirijo-me a todos os portugueses, sejam eles de esquerda, de direita, de centro.”, ao que acrescentou, “Sou um defensor do Estado social, da qualidade dos serviços públicos e dos serviços públicos. Mas para isso, é necessário que haja criação de riqueza. E uma das minhas prioridades é contribuir para que o país crie mais riqueza. Ora, isso faz de mim o quê? Por que me tentam arrumar em gavetas?” (Público, 28/10/2025). Pretendendo “unir os portugueses em torno de valores”, afirmou-se defensor da liberdade, da igualdade, da fraternidade e da justiça social, e definiu-se como democrata, republicano, progressista e humanista. Mas recusou assumir-se como sendo de esquerda. Ao longo da entrevista, o seu grande mote foi que os valores unem e as etiquetas dividem, contrapondo as eleições presidenciais – assentes na personalidade dos candidatos – às eleições legislativas – onde se sufragam “propostas ideológicas e políticas”. Como se as personagens políticas fossem programaticamente inócuas (como podem então ser personalidades e, ainda para mais, políticas!) e, por outro lado, as etiquetas não decorressem dos valores e os valores não enformassem as etiquetas.
Fosse por hipocrisia, fosse por taticismo, rapidamente o spin da sua campanha o levou a arrepiar caminho e, alguns dias mais tarde, a assumir-se como um candidato de esquerda. Mas esta hesitação – chamemos-lhe assim! – é sintomática de um preconceito antigo, que pretende legitimar opções políticas, tentando obnubilar as diferenças ideológicas que as sustentam. É como parar o vento com as mãos. O objetivo é claro: se a ideologia é sempre dos outros, a nossa posição passa por ser a alternativa mais equilibrada, mais válida e impoluta. Só que a ideologia é uma constituinte indispensável da realidade social e, por isso, as alegações de desideologização são afirmações profundamente ideológicas… e, quase sempre, de direita!
Esta díade concetual está ancorada na realidade e a dicotomia que daí resulta não é meramente descritiva ou instrumental (embora a contingência histórica possa levar ao seu aprofundamento ou à sua mitigação), mas valorativa; esquerda e direita é uma distinção axiológica central do nosso universo político e social, e assim se manterá. O que é mais surpreendente não é que se tenha de confirmar periodicamente a identidade de cada uma das posições, procedimento que faz parte da normal afirmação ideológica, mas que se ponha em causa a legitimidade ou utilidade de tal distinção. É, aliás, paradoxal que se insista nesta litania, já que, ao fazê-lo, valida-se a sua existência e confirma-se a sua validade. Se já não faz sentido falar de esquerda e de direita, por que se teima em invocar esta dicotomia?
Com efeito, é difícil deixar de considerar as diferenças entre uma aspiração igualitária da sociedade, e uma naturalização das desigualdades sociais, entre uma preocupação primordial com o interesse público, ou a valorização do interesse particular, entre uma progressividade dos encargos e uma redistribuição equitativa da riqueza, e uma concentração dos recursos e apropriação privada dos benefícios, entre a cooperação e a concorrência, entre uma economia social e uma economia de mercado, entre a propensão para a inclusão ou para a exclusão. Tais distinções existem e são fundamentais para o nosso entendimento do mundo em que vivemos.
A pretendida superação desta oposição ficou bem patente na célebre afirmação de Margaret Thatcher, para quem a sua maior vitória política teria sido a criação do “New Labour” de Tony Blair. É sabido como a chamada Terceira Via (“Para além da Esquerda e da Direita”, foi precisamente o título do famoso livro de 1994 do principal ideólogo desta corrente, Anthony Giddens) teve enormes responsabilidades no agudizar das desigualdades e injustiças sociais na Grã-Bretanha – exatamente porque governou à direita, limitando-se a gerir, com outras roupagens, as políticas neoliberais – e na generalização, nos anos subsequentes, do ressentimento social e do crescimento da pulsão populista.
Na formulação exemplar de um texto ainda do século passado, publicado no El País/Visão, o escritor espanhol Antonio Muñoz Molina diz-nos, “Não é difícil ser de esquerda: o difícil é não sê-lo, se se olhar com atenção para o estado do mundo. A tristeza vem quando nos cansamos do desgosto pelas coisas, da rebeldia de ter posições políticas, de simpatizar com alguém, e desistimos do gesto mínimo, colossal, de introduzir um papel numa urna de eleições.” (Visão, 4/11/1999). A vergonha de ser de esquerda é, assim, intolerável. Uma coisa é certa: Seguro não merece o voto da esquerda.
Hugo Fernandez