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albardeiro

Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!

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Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!

Entre a Civilização e o Lodo: A Escolha Moral do Nosso Tempo

albardeiro, 07.02.26

O embuste populista, corporizado na figura de André Ventura e dos que o orbitam, move-se pela manipulação primária dos medos e das frustrações. Não propõe soluções: dramatiza problemas. Não argumenta: acusa. O seu discurso, de aparência rebelde, é conservador até ao osso – não no sentido ideológico, mas no sentido mais literal da palavra, pois conserva a lama, o ruído, a desconfiança, a divisão. Tudo nele é cálculo emocional. Quando proclama “defesa da pátria”, o que quer é palco; quando clama “justiça social”, o que pretende é vingança; quando simula indignação, apenas prepara a próxima encenação. Desafia o sistema para legitimá-lo ainda mais, porque o seu poder necessita da tensão que diz combater.

O populismo vive da deturpação emocional do discurso e da desordem intelectual do debate. Alimenta-se do ruído que ele próprio produz, da desinformação travestida de coragem moral e da encenação de um falso heroísmo. O populista apresenta-se como arauto do povo, mas grita contra as paredes do mesmo sistema que o pariu, do qual nunca deixou de ser aprendiz e beneficiário. Não combate o poder: apenas deseja torná-lo seu, usando o ressentimento como escada e a ignorância como chão. Faz-se de profeta e acaba pantomineiro – o eco de um vil teatro onde o ódio é estética e a mentira, método.

Os populismos são a versão ruidosa do conformismo. Transformam a política em espetáculo, a cidadania em claque e o adversário em inimigo. São sistemas fechados de crença que dispensam raciocínio: substituem o pensamento pela adesão. Ventura encarna esse teatro com uma destreza perigosa. Sabe usar cada palavra como gatilho, cada silêncio como pretexto. A sua política não é um projeto, é um grito. E o grito, embora contagiante, é mudo de ideias.

Mas o perigo não reside apenas nos que vociferam; mora também nos que se calam. Há uma cumplicidade silenciosa naqueles que, como Pilatos, lavam as mãos — os que, em nome da prudência, permitem a erosão da decência (Montenegro e os seus “muchachos”). A neutralidade, em tempos de mentira, é uma forma disfarçada de rendição. Quando a ignorância sobe ao púlpito e a manipulação governa o discurso, quem escolhe o conforto do muro escolhe o lado errado da história. A indiferença tem sempre a cor do poder que vence.

A verdadeira divisão político-moral não é entre esquerda e direita, mas entre civilização e barbárie. De um lado, a clareza, a razão, o esforço pela convivência democrática; do outro, o tumulto, o insulto e a simplificação. O populismo sabota a própria ideia de República, porque substitui a pluralidade pelo culto da voz única, a exigência pelo instinto, o argumento pela fúria. A democracia não morre de um golpe: morre de aplausos mal dirigidos e de silêncios cúmplices.

Defender a democracia é, hoje, escolher a compostura contra o histrionismo, a responsabilidade contra o ressentimento. É compreender que a liberdade exige maturidade, e que o voto, em momentos como este, é menos um gesto político do que um ato moral. Entre a serenidade e o barulho, entre a razão e o embuste, entre o respeito e o escárnio, não há meio-termo.

Ou se está com a civilização — ou com o lodaçal.

Albardeiro