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albardeiro

Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!

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Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!

Desfazer os dogmas!

albardeiro, 07.07.25

A Esquerda encontra‑se hoje num dilema de fundo: ergue bandeiras históricas, mas perdeu o sentido prático da política como arte de transformar vidas. Ao refugiar‑se numa retórica moralista, debates identitários, ambições ambientalistas, lutas setoriais, desligou‑se da inquietação central de quem luta por um ordenamento social que funcione de facto: o trabalhador precário que não consegue pagar a renda, o idoso que vê o seu poder de compra evaporar‑se, a família que recua diante de cuidados de saúde inacessíveis.

O Estado Social que, de arquiteto da cidadania, está no seu esvaziamento pragmático, já não é o pilar universal de emancipação; transformou‑se num sistema de apoios seletivos, gerido ao sabor da “tesoura” orçamental. Aquilo que devia ser garantido a todos, educação, saúde, pensões, foi metamorfoseado em socorros de emergência. A solidariedade deixou de ser promessa coletiva e converteu‑se num favor beliscado ao acaso. Para recuperar a confiança, urge resgatar o carácter universal do Estado Social: reforçar direitos em vez de gerir carências, devolver à proteção social a dimensão de instrumento de liberdade efetiva e não mero subsídio residual.

As palavras de esperança convertidas em slogans grandiloquentes já não mobilizam. O desalento instala‑se quando as promessas permanecem no papel. Por isso, a esquerda necessita de uma “teoria do desejo político”: propostas que façam as pessoas verem e sentirem o novo amanhã, transportes públicos sem falhas, rendas ajustadas aos rendimentos, acesso real e imediato a serviços básicos. Apenas assim o cidadão reencontrará motivo para acreditar.

Sem receios e sem rodeios, o mercado exerce um apelo inexorável: é imediato, simples, satisfaz desejos tangíveis. Assim sendo, a opção entre “mercado bom” e “Estado mau” é um falso dilema. Se a esquerda quer afastar fantasmas, a verdadeira ousadia política consiste em “domar” o mercado, estabelecer regras que façam da iniciativa privada aliada do bem‑estar comum. Por que não combinar flexibilidade laboral com garantias salariais e formação contínua? Ou transformar o consumo em ato de cidadania, através de cooperativas (desde a agricultura e produção de alimentos até serviços financeiros e energéticos) e moedas locais… sim, moedas locais (sistemas de troca que complementam a moeda nacional – podem físicas ou digitais) que fortaleçam a economia de proximidade. Esse caminho converte o cidadão‑consumidor em sujeito político, capaz de escolher não só o que compra, mas de moldar o meio em que vive.

Necessitamos de reencontrar a liberdade e a justiça social. Enquanto a direita monopoliza o termo “liberdade” num exercício retórico de reducionismo, menos impostos, menos Estado, a esquerda recua para trincheiras de correção discursiva. É urgente uma libertação alargada: a liberdade de viver sem medo da exclusão económica; de ter acesso a habitação digna; de dispor de tempo para criar e cuidar; de participar, de facto, nas decisões que afetam a comunidade. A bandeira da liberdade não pode ser mera abstração: deve traduzir‑se em mecanismos concretos que garantam autonomia e segurança simultaneamente.

Necessitamos de uma ecologia da atenção: reconectar com quem importa. O maior erro estratégico foi deslocar o interesse para círculos académicos, think‑tanks e redes fechadas, ignorando a periferia urbana e rural onde ardem as micro‑tragédias do dia a dia. Enquanto o populismo ensaia o espetáculo do escândalo permanente, a verdadeira mobilização exige escuta ativa: reuniões de rua, consultas participativas, diagnósticos partilhados. Só assim se constrói uma narrativa de pertença e de afeto político, capaz de vencer o medo com generosidade e projetar um futuro coletivo. Não basta reclamar justiça; é preciso demonstrar como alcançá‑la. A esquerda deve abandonar a simplificação de linhas de rutura — “nós contra eles” — e articular múltiplas frentes: justiça fiscal progressiva, transição ecológica com equidade social, investimento em investigação e cultura popular, reforço dos serviços públicos de proximidade. Tal programa exige coragem para negociar sem trair princípios, para sustentar ruturas necessárias sem se petrificar no dogma.

A encruzilhada em que a esquerda se encontra não é inevitável. Trata‑se de uma oportunidade de refundação: colocar no centro a vida quotidiana, retomar o Estado Social como matriz de liberdade real, compreender o mercado como aliado e transformar o desejo em política tangível. Se regressar ao terreno, ouvir com empatia e transformar a esperança em conquistas visíveis, reencontrará o seu lugar como motor de progresso e justiça. Caso contrário, verá o seu legado dissolver‑se no cinzento do conformismo e da inoperância.

 

Albardeiro

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