ANO DE 2025: Quando a Barbárie se Veste de Legalidade
A transformação de uma democracia em necropolítica não acontece através de ruturas dramáticas, mas pela erosão milimétrica do intolerável em rotina administrativa. O que testemunhamos na era trumpista transcende amplamente o populismo autoritário: trata-se da industrialização da desumanidade, onde campos de detenção (MIGRANTES) se multiplicam sob a camuflagem burocrática de "centros de processamento" e a tortura psicológica de crianças separadas dos pais se dissolve em estatísticas migratórias. Esta metamorfose do abjeto em banal representa o triunfo de uma engenharia social que aprendeu com os piores episódios históricos uma lição perversa: o extermínio moral precede sempre o físico.
O movimento MAGA não pode ser reduzido a um fenómeno de manipulação das massas ignorantes. Estamos perante algo epistemologicamente mais sinistro: a adesão consciente a uma cosmovisão que elege a crueldade como princípio fundador de identidade coletiva. Os seus seguidores não são vítimas de desinformação, são arquitetos voluntários de uma pirâmide civilizacional onde a dignidade humana flutua conforme a origem geográfica, a tonalidade da pele ou a dissonância política. Esta "necroética do desprezo" opera através da convergência entre algoritmos de radicalização nas redes sociais, retórica legislativa que naturaliza a exceção e aparelhos de segurança que catalogam o "outro" como ameaça ontológica. O corpo do migrante, da criança latina, do ativista dissidente deixa de ser sujeito de direitos para se tornar matéria descartável num contrato social refundado sobre o medo e usado como arma, ou instrumentalizado para fins sombrios da política.
Porém, o verdadeiro escândalo desta deriva autoritária não reside apenas na brutalidade dos perpetradores, mas na cumplicidade silenciosa de quem deveria opor resistência intransigente. O mutismo institucional, de parlamentos que ratificam orçamentos para campos de internamento, de tribunais que validam interpretações constitucionais contorcionistas, de organismos internacionais que emitem comunicados cautelosos, não constitui omissão passiva. Trata-se de arquitetura deliberada de uma zona cinzenta onde o estado de exceção se normaliza como paradigma de governação. Este silêncio funciona como permissão jurídica subliminar, tecendo uma rede de imunidade que permite crimes contra a humanidade disfarçarem-se de política migratória soberana.
Os eufemismos envenenam a linguagem pública com eficácia cirúrgica. "Centros de detenção", "processamento expedito", "segurança fronteiriça robusta" — cada expressão asséptica encobre a realidade de seres humanos transformados em não-pessoas dentro de sistemas digitais de catalogação. O génio maligno do fascismo contemporâneo reside precisamente nesta desmaterialização: prescinde de guardas com metralhadoras quando pode contar com funcionários armados de formulários, juízes que interpretam leis com criatividade kafkiana e espetadores globais que aplaudem silenciosamente através da sua indiferença. Cada notícia suavizada nos telejornais, cada omissão editorial, cada discurso diplomático evasivo constitui um tijolo invisível na construção destes muros.
A capitulação da oposição política representa não uma falha tática, mas suicídio ontológico. Quando partidos (e lideranças governamentais) que deveriam defender os fundamentos democráticos recuam perante Trump, refugiando-se em retóricas tímidas ou cálculos eleitorais pusilânimes, traem o princípio axial da própria democracia: a contenção institucional do tirano. A covardia europeia, manifesta nas ambiguidades cúmplices da NATO (todos nos lembramos do que escreveu o secretário-geral da NATO sobre Trump!), nos acenos diplomáticos de chanceleres preocupados com acordos frívolos, revela uma verdade desconfortável: o capitalismo tardio prefere fascismos previsíveis a democracias turbulentas. Corporações multinacionais declaram "neutralidade política" enquanto lucram com a construção de infraestruturas fronteiriças; conglomerados mediáticos transformam a tragédia humana em "conteúdo polémico" para maximizar métricas de engagement. Este não é fracasso civilizacional — é a prova empírica de que as elites globais internalizaram o fascismo como instrumento legítimo de gestão de riscos sistémicos.
Os media, na sua implosão ética, praticam um jornalismo de alcova, mais preocupado com equilíbrios artificiais entre "perspetivas" do que com o testemunho obsessivo da desumanização. Ao converter campos de detenção (concentração) em tópicos para debates televisivos e tortura institucional em matéria para painéis de comentadores, estes aparelhos não falham profissionalmente, operam como cúmplices lucrativos de um projeto de aniquilamento burocrático. A indústria da informação descobriu que o horror, devidamente embalado em formatos digestivos, gera mais receitas publicitárias que a denúncia inconveniente.
A História não oferece lições pedagógicas, “grita” através dos séculos que Auschwitz não começou nas câmaras de gás. Nasceu quando juristas redigiram legislação sobre "proteção racial", quando médicos elaboraram taxonomias de "vidas indignas de viver", quando vizinhos se calaram perante desaparecimentos noturnos. O protocolo contemporâneo da desumanização replica-se em câmara lenta: sob doutrinas de segurança nacional, constitucionalistas “moldam” garantias fundamentais; dissidentes são reclassificados como "terroristas domésticos" em relatórios de intelligence; campos de internamento expandem-se através de emendas orçamentais aprovadas sem escrutínio. O fascismo pós-moderno aperfeiçoou o método: usa linguagem jurídica como veneno de ação retardada, processos administrativos como instrumentos de tortura psicológica, Big Data como máquina de seleção darwinista.
Cada silêncio atual não representa esquecimento, mas repetição ritualística do pacto original que pavimentou os horrores do século XX: a crença confortável de que o Mal acontece sempre "a outros", em geografias distantes, a corpos que não reconhecemos como semelhantes. A neutralidade perante este fascismo algorítmico, camuflado em bandeiras patrióticas e indicadores macroeconómicos, não constitui abstenção ética. É cumplicidade ativa na normalização sistémica da crueldade como política de Estado.
Desmontar esta máquina de desumanização exige coragem política que despreze cálculos eleitorais de curto prazo, insurgência cidadã incansável nas ruas e nas urnas, construção de uma contra-esfera pública global que desmonte a lavagem ideológica em tempo real. O fascismo contemporâneo revela-se um gigante com pés de algoritmos — pode ser sabotado não por exércitos convencionais, mas através de resistência ética constante: juristas que tratem cada emenda autoritária como declaração de guerra ao Direito, jornalistas que abandonem o fetiche do "equilíbrio" em favor do testemunho implacável, cidadãos que reconheçam a impossibilidade moral da neutralidade perante crianças enjauladas.
O epitáfio da nossa era está a ser gravado neste preciso momento. Restam duas inscrições possíveis: "Aqui jaz a humanidade que assistiu em streaming à própria extinção moral" ou "Aqui renasceu a insurreição dos que se recusaram a virar estatística do Mal". A escolha não pertence a gerações futuras, define-se agora, com cada silêncio quebrado, cada lei desafiada, cada grito amplificado. Entre a grandeza nacional como narcótico autoritário e a travagem do pesadelo pela raiz, não existe zona intermédia de conforto. O futuro escalpelizará cada micro-escolha que permitiu que campos de concentração florescessem sob bandeiras manchadas de sangue. Escolhemos já qual verso sobreviverá.
Bom ano de 2026
Albardeiro