A Sombra Digital do Totalitarismo: Quando os Ecrãs Substituíram os Megafones
A reflexão que se segue, sobre a evolução dos média como ferramentas de poder – dos totalitarismos dos anos 30 à ascensão da ultradireita e do populismo digital –, foi despoletada por uma entrevista reveladora a Yves Citton no jornal Público. Foi ali que o teórico francês, autor de La Machine à Faire Gagner les Droites, lançou o desafio crucial: "Nas eleições, aqueles que votam não são o povo, são os públicos". Esta perspetiva serve de prisma essencial para desmontar a engrenagem mediática contemporânea.
Partindo do seu livro La Machine à Faire Gagner les Droites, analisamos como esta engrenagem, misto de "maquinação" estratégica e lógica algorítmica incontrolada, redefine o poder: dos megafones totalitários dos anos 30 (rádio, cinema) aos ecrãs digitais que fragmentam sociedades em públicos manipuláveis, alimentando a ultradireita e o populismo tóxico. A mesma infraestrutura que prometia democratizar a informação tornou-se sopro perturbador para o frágil vaso da democracia. Compreendê-la é urgência vital, antes que públicos reativos anulem de vez o povo soberano.
A história da manipulação das massas é inseparável da evolução da tecnologia da comunicação. Nos anos 30 do século passado, o cinema e a rádio emergiram não apenas como entretenimento, mas como as primeiras verdadeiras arquiteturas da persuasão em massa. Através da imagem em movimento hipnotizante e da voz autoritária que invadia os lares, o fascismo e o nazismo forjaram uma nova linguagem de poder. Goebbels, o arquiteto da propaganda nazi, compreendeu como ninguém o poder do filme e da transmissão sonora para criar mitologias coletivas, uniformizar o pensamento e aniquilar o dissenso numa escala industrial e íntima, simultaneamente. Foi a aurora sombria da era da doutrinação tecnológica.
Avancemos meio século, e a paisagem mediática sofreu uma mutação tectónica. A televisão global e em direto, seguida pela explosão caótica da internet e das redes sociais, não democratizou simplesmente o acesso à informação – deslocou radicalmente o seu eixo de controlo e impacto. Enquanto o cinema e a rádio dos totalitarismos eram ferramentas de transmissão vertical, unidirecional, o ecossistema digital contemporâneo opera numa lógica de captura e fragmentação. A ilusão de horizontalidade e participação mascara uma realidade mais insidiosa: estas plataformas, capturadas pelos imperativos do capitalismo de vigilância, prosperam na polarização, no choque e na simplificação grosseira. O algoritmo, esse novo deus ex machina invisível, não busca a verdade ou o bem comum; o seu combustível é o engagement, alimentado frequentemente pelo medo, pela raiva e pelo preconceito.
Este é o terreno fértil onde as forças da ultradireita e os novos populismos encontraram a sua ressonância fatal. Explorando habilmente os vícios estruturais destas plataformas, a viralização do escândalo, a criação de bolhas de realidade paralela, a erosão acelerada da autoridade factual –, estes movimentos ressuscitam velhos demónios com novas roupagens digitais. A sua retórica, amplificada exponencialmente e direcionada com precisão cirúrgica graças à mineração de dados, atinge públicos específicos com mensagens de exclusão e revolta, sem a necessidade dos megafones monolíticos do passado. O espetáculo do direto e a velocidade da desinformação online criam um estado de permanente sobressalto, minando a reflexão crítica e favorecendo respostas emocionais e simplistas.
Eis a nossa tragédia temporal: enquanto a revolução da imprensa levou séculos a ser digerida, permitindo lentamente o florescimento da esfera pública, do Iluminismo e das democracias representativas (num processo cheio de conflitos, mas com tempo para ajustes), a revolução digital desabou sobre nós com a velocidade de um tsunami. Não tivemos tempo, ou, talvez mais condenavelmente, descuidámo-nos, de compreender as suas profundas implicações societais, éticas e políticas antes de ser totalmente colonizada por uma lógica mercantilista. A "atenção" tornou-se a moeda suprema, e a verdade, a nuance e o debate racional são frequentemente os primeiros reféns nesta economia predatória.
A lição histórica é clara e urgente: cada salto tecnológico na comunicação traz consigo o potencial tanto para a emancipação como para a opressão. Se os anos 30 nos ensinaram o poder dos meios de massa unidirecionais para a tirania, as últimas três décadas revelam o perigo ainda mais complexo e difuso de ecossistemas digitais tóxicos, moldados por interesses financeiros obscuros e explorados por forças que procuram fragmentar, não construir. Ignorar esta realidade, adiar a compreensão profunda desta nova revolução e a criação de mecanismos robustos para a sua regulação democrática, não é um lapso; é uma negligência histórica que pode custar o próprio futuro da convivência pluralista. O tempo de compreender o digital não é amanhã; é agora, antes que a democracia se torne mais um algoritmo a ser manipulado.
Albardeiro