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albardeiro

Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!

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Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!

A Sintaxe Condicional da Utopia Portuguesa: O Peso do "Se"

albardeiro, 18.11.25

A língua portuguesa, na sua infinita sabedoria gramatical, reservou uma partícula notável para aquilo que jamais acontecerá: o "se". Duas letras que carregam o peso de um país inteiro suspenso entre o desejo e a resignação, entre o plano quinquenal e a eternidade.
Se tivéssemos salários condignos — e aqui convém sublinhar a palavra "condignos", essa relíquia vocabular que só emerge em discursos sindicais e programas eleitorais — talvez pudéssemos discutir se o problema é mesmo salarial ou existencial. Mas não temos. Temos ordenados que nos permitem escolher entre pagar a renda ou ir ao dentista, nunca ambos, porque a dor de dentes, como se sabe, é opcional quando comparada com o desabrigo. A classe média descobriu que pertence à classe baixa, mas continua a usar a mesma gramática condicional, como quem recusa aceitar o diagnóstico.
Tomemos o caso do Serviço Nacional de Saúde. Se o SNS fosse mais eficaz — frase que todos proferem com a mesma convicção com que se discute a existência de unicórnios — poderíamos ter consultas em tempo útil. Mas "tempo útil" é um conceito relativo: útil para quem está a morrer, certamente; para quem marca uma consulta de rotina em 2025 para 2027, menos. O SNS funciona segundo princípios darwinianos modernos: sobrevive quem consegue esperar. Os hospitais tornaram-se ginásios de paciência, onde se exercita a capacidade de permanecer sentado numa cadeira de plástico durante sete horas, rodeado de gripes, fraturas e crises existenciais alheias. A triagem não avalia apenas a gravidade clínica, mas a perseverança filosófica do utente.
Se houvesse justiça social — e eis onde a retórica colide frontalmente com a aritmética — os filhos dos deputados frequentariam as mesmas escolas que os filhos dos cantoneiros. Mas existe uma justiça social muito portuguesa: aquela que garante que todos têm igual direito a sonhar com uma vida melhor, desde que não a alcancem simultaneamente. A mobilidade social foi substituída pela mobilidade geográfica: os jovens licenciados não sobem na hierarquia, emigram. O elevador social avariou nos anos oitenta e ninguém chamou o técnico porque, bem, se houvesse manutenção preventiva... mas não há, nunca houve, e quando finalmente a pedirem será tarde de mais.
O planeamento — essa palavra mágica que os políticos pronunciam como um feitiço destinado a adormecer audiências — existe apenas no particípio passado ou no futuro imperfeito. Se tivéssemos planeamento a longo prazo, Portugal não seria o país onde as obras públicas começam seis meses antes das eleições e ficam inacabadas por duas décadas. Temos viadutos para lado nenhum, rotundas que desembocam em olivais e metropolitanos cujas extensões existem mais nos mapas promocionais que na realidade topográfica. O ordenamento do território português segue a lógica do Tetris jogado por alguém com tremuras: as peças caem ao acaso, algumas encaixam por sorte, a maioria fica a flutuar no ar desafiando as leis da física e do bom senso.
A habitação merece capítulo próprio nesta hagiografia do absurdo condicional. Se o mercado imobiliário fosse regulado — frase que provoca urticária ideológica em economistas liberais e gargalhadas em investidores estrangeiros — os portugueses poderiam viver em Portugal. Conceito revolucionário, certamente. Em Lisboa, um T1 custa o equivalente a uma vida de salário mínimo. Solução óbvia: jejuar durante esses anos, ou melhor ainda, trabalhar esses anos sem dormir porque, afinal, se a legislação laboral fosse cumprida... . Há horas extraordinárias que de extraordinário só têm a designação; o resto é ordinário, obrigatório e não pago (exceto para os "dermatologistas" e afins).
O sistema educativo ilustra na perfeição esta gramática do impossível. Se os professores fossem valorizados — tanto financeira quanto simbolicamente — não teríamos escolas a encerrar turmas por falta de docentes que preferiram servir cafés ou emigrar para sítios onde "professor" não é sinónimo de "mártir mal remunerado". Os alunos aprendem desde cedo a conjugar o verbo "desistir" em todos os tempos e modos. As instalações escolares, essas, oscilam entre o degradado e o ruinoso, com pavilhões pré-fabricados que resistem há trinta anos, desafiando todas as previsões de longevidade e senso comum arquitetónico.
Se os transportes públicos funcionassem — condicional tão improvável quanto um Inverno sem greves da CP — poderíamos prescindir do automóvel individual. Mas funcionam segundo calendários quânticos: o comboio está simultaneamente atrasado e cancelado até ao momento em que observamos a aplicação, colapsando então numa das duas realidades. Os autocarros respeitam horários escritos em tinta invisível, visível apenas para iniciados em artes divinatórias.
A cultura política nacional é pródiga em condicionais impossíveis. Se os políticos cumprissem promessas — hipótese tão plausível quanto nevar no Algarve em Agosto — a abstenção eleitoral não seria desporto nacional. Mas vivemos numa democracia representativa onde os representantes representam maioritariamente os seus próprios interesses, numa mise en abyme corporativa que faria corar Escher. Os programas eleitorais são ficção científica sem a ciência: pura especulação sobre universos paralelos onde o erário é infinito e a corrupção uma palavra sem tradução.
Se tivéssemos políticas ambientais coerentes — e não apenas fotocalls com árvores plantadas às vésperas das chuvas de Setembro — talvez as florestas não ardessem com a regularidade de um relógio suíço incendiário. Mas optámos pela estratégia do eucalipto: cresce rápido, arde melhor, repete-se anualmente. O país transformou-se num pira piro-dependente, onde os Canadair são presença estival mais certa que os turistas.
A ironia suprema desta sintaxe condicional reside num facto: todos conhecemos as soluções. Não é ignorância, é preferência pela inércia. Portugal não é o país do "não sabemos", é o país do "sabemos perfeitamente, mas se mudássemos realmente alguma coisa implicaria incomodar quem não quer ser incomodado, e isso, meus amigos, isso é que seria verdadeiramente revolucionário.
Por isso continuamos a conjugar condicionais, esse tempo verbal do desalento disfarçado de esperança, onde mora toda a nossa incapacidade coletiva de converter gramática em ação. O "se" tornou-se o epitáfio nacional: aqui jaz um país que sabia exatamente o que fazer, se tivesse coragem, vontade ou, quem sabe, apenas um pouco menos de apego cómodo à própria mediocridade.

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