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albardeiro

Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!

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A Normalização do Ridículo: Como o Benfica Elegeu a Própria Irrelevância

albardeiro, 09.11.25

Existe um momento preciso em que um clube deixa de ser uma instituição desportiva e se transforma em anedota. O Benfica atravessou essa fronteira sem resistência, sob a presidência de Rui Costa, e depois elegeu-o novamente para garantir que permaneceria do lado errado da história. Não por ignorância do estado das coisas — toda a gente vê, toda a gente sabe, toda a gente sofre. Por algo mais insidioso: a aceitação gradual do inaceitável, até que o ridículo se torna rotina e a mediocridade passa por normalidade.

Cinquenta anos de Estádio da Luz — 1954 a 2004 — produziram quatro derrotas na Liga dos Campeões em casa. Meio século de domínio transformou aquele recinto num santuário intimidante onde as grandes equipas europeias vinham perder. Nos últimos doze jogos dessa mesma competição, no mesmo estádio rebatizado mas esvaziado de mística, acumularam-se oito derrotas. A inversão é tão brutal que desafia a probabilidade estatística. Não se destrói um legado desta magnitude por azar ou conjuntura — destrói-se por incompetência sistemática, perpetuada eleição após eleição.

A contabilidade mórbida de quatro anos de Rui Costa como presidente titular revela uma proeza singular: transformar o Benfica no clube que mais gasta e menos ganha entre os ditos grandes. Um único título em quatro temporadas possíveis. Fortunas despejadas em contratações falhadas enquanto rivais com orçamentos fracionários acumulam troféus. Esta combinação — desperdício financeiro máximo, retorno desportivo mínimo — constituiria, em qualquer organização minimamente funcional, motivo para destituição imediata. No Benfica, constituiu credencial para reeleição.

Porque o eleitorado não escolheu Rui Costa apesar dos resultados. Escolheu-o precisamente por causa deles. Escolheu a garantia de que nada mudaria, de que as derrotas continuariam a acumular-se com regularidade burocrática, de que cada temporada traria novas humilhações cuidadosamente embaladas em discursos sobre "competitividade" e "processos". A derrota, antes exceção traumática, banalizou-se até se tornar expectativa.

"Perdemos mas fomos competitivos" — eis o epitáfio que Rui Costa esculpe para o Benfica. Esta frase, repetida após cada eliminação vergonhosa, cada título falhado, cada humilhação europeia, cristaliza a ambição presidencial: não ganhar, mas perder com dignidade suficiente para evitar demissão. É uma revolução semântica que subverte o próprio conceito de clube grande. Nos grandes clubes, competitividade é ponto de partida, não ponto de chegada. Vitórias são obrigação, não aspiração. Derrotas exigem consequências, não eufemismos.

Mas esta normalização linguística produz efeitos concretos. Quando perder se transforma em "ser competitivo", quando falhar sistematicamente passa por "estar no caminho certo", quando a mediocridade institucionalizada é vendida como "estabilidade", o clube perde a própria noção do que deveria ser. Transforma-se em versão caricatural de si próprio — ainda usa os mesmos símbolos, ainda ocupa o mesmo estádio, mas já não reconhece na vitória um imperativo existencial.

O Benfica tornou-se no meme do campeonato português. Não pela dimensão do plantel ou pelo orçamento — ambos continuam superiores. Pelo contraste grotesco entre recursos e resultados, entre pompa e desempenho, entre o que promete e o que entrega. Os rivais agradecem, comovidos, aos sócios que garantiram a continuidade de Rui Costa. Porque sabem que cada ano de Costa é mais um ano em que não precisam de se preocupar verdadeiramente com o Benfica.

Esta degradação não aconteceu por acidente. Resultou de escolhas deliberadas, repetidas, ratificadas democraticamente. Equipas desmanteladas anualmente, impossibilitando qualquer construção de projeto. Treinadores queimados por falta de condições estruturais, culpabilizados pelos fracassos da gestão. Modalidades abandonadas à míngua enquanto o futebol masculino devora recursos sem produzir resultados. Futebol feminino deliberadamente destruído quando começava a ter visibilidade internacional. Formação esvaziada de identidade e propósito.

Cada uma destas falências foi pública, documentada, irreversível. E os sócios, confrontados com o inventário completo do desastre, escolheram mantê-lo. Não por falta de alternativa — qualquer mudança constituiria melhoria face ao instalado. Por medo de que uma mudança real obrigasse a reconhecer cumplicidade em dezassete anos de declínio.

Vivemos tempos estranhos, em que a incompetência demonstrada se transforma em experiência relevante. Rui Costa gastou dezassete anos a provar que não tem qualificações para dirigir o Benfica — treze como vice-presidente omisso, quatro como presidente desastroso. Cada fracasso deveria ter-lhe custado credibilidade. Em vez disso, acumulou-os até converter a sequência de falhanços em curriculum vitae. Como se perder consecutivamente ensinasse a ganhar, como se gerir mal durante anos preparasse para gerir bem no futuro.

Esta lógica perversa só funciona porque existe uma cumplicidade tácita entre dirigente incompetente e eleitorado acomodado. Rui Costa oferece a ilusão de continuidade, a promessa de que as derrotas futuras não serão piores que as passadas. O eleitorado aceita essa mediocridade garantida porque exigir mais obrigaria a reconhecer que desperdiçou décadas a apoiar quem não o merecia. É um pacto de mediocridade mútua: ele não entrega resultados, eles não exigem consequências.

Ninguém respeita este Benfica. Ninguém o teme. Ninguém o protege. Tornámo-nos no clube onde toda a gente vem pontuar, no adversário que qualquer equipa europeia recebe com alívio, na "equipa grande" que os rivais nacionais enfrentam sem receio porque sabem que, perante dificuldade, este Benfica não reage — desmorona.

A palavra que melhor define a gestão Rui Costa é "amorfo". Sem forma definida, sem identidade reconhecível, sem espinha dorsal institucional. Um Benfica que não sabe o que quer ser, que muda de pele a cada temporada sem nunca encontrar a própria, que importa modelos estrangeiros sem os adaptar, que contrata nomes sem construir equipas, que acumula craques individuais incapazes de funcionar coletivamente.

Esta amorfidade contamina tudo. Não existe projeto desportivo coerente, apenas sucessões de reações às últimas derrotas. Não existe estratégia financeira sustentável, apenas remendos orçamentais que vão empurrando o passivo para os próximos mandatos. Não existe comunicação institucional credível, apenas silêncios estratégicos interrompidos por declarações vazias. Não existe liderança que inspire confiança, apenas gestão que inspira resignação.

E o mais surreal: foi precisamente isto que os sócios escolheram perpetuar. Não por satisfação com o estado das coisas, mas por incapacidade de imaginar alternativa. Acomodaram-se à mediocridade até ao ponto em que mudar parecia mais assustador que continuar a afundar. Preferiram o Benfica amorfo e aborrecido ao risco de um Benfica que tentasse recuperar o que foi.

Sporting e Porto não podem dar-se ao luxo de normalizar derrotas porque não têm a almofada financeira que o Benfica ainda conserva. Cada falhanço ameaça-lhes a sustentabilidade imediata, obriga-os a reagir, força-os a mudar. O Benfica, pelo contrário, pode perder indefinidamente porque as receitas comerciais, os sócios, o património acumulado permitem-lhe sobreviver à incompetência. Esta capacidade de absorver fracassos sem colapsar imediato transformou-se em maldição: eliminou a pressão que forçaria mudança.

Rui Costa pode perder campeonatos, esvaziar estádios, acumular eliminações humilhantes — e continuar, porque o clube aguenta. É uma espécie de imortalidade burocrática: demasiado grande para morrer, demasiado acomodado para viver verdadeiramente. Os rivais agradecem este conforto mórbido que anestesia a exigência. Sabem que enquanto o Benfica se contentar com "ser competitivo", enquanto celebrar incompetência como experiência, enquanto normalizar o inaceitável, não representa ameaça real.

A questão já não é se Rui Costa tem capacidade para reverter o que destruiu — dezassete anos provaram que não tem. A questão é se os benfiquistas conseguirão, algum dia, recuperar a capacidade de se indignar com derrotas, de exigir consequências para fracassos, de recusar a mediocridade mesmo quando ela vem embalada em discursos sobre estabilidade. Porque enquanto continuarem a escolher conscientemente quem os transformou em piada, o problema já não é apenas do presidente. É de quem o mantém.


Albardeiro

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