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albardeiro

Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!

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Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!

A Leveza Perigosa da Promessa

albardeiro, 02.02.26

Havia, naquele país que um dia fora exemplar, um ruído que se expandia como uma mancha de tinta, primeiro discreta, depois impossível de ignorar. Esse ruído não era exatamente uma voz: era um conjunto de proclamações, gestos repetidos, sorrisos calculados; e, como qualquer ruído que insiste, acabou por nos habituar. A história recorda as habituais contradições: como as pedras de uma rua preservam impressões de sapatos antigos, assim permaneciam as marcas de liberdade em cada esquina e, no entanto, o ruído crescia.

O protagonista desta espécie de fábula não é um homem só; é um homem e o seu séquito, e o séquito é um fenómeno social curioso: formado por aprendizes convencidos, por homens que aprenderam a mentira como técnica de sobrevivência, por companheiros cujo talento nunca se revelou e cuja inexperiência se confunde, estranhamente, com autoridade. Eles surgem como atores de uma comédia que perdeu o riso e ganhou o teatro de operações. (É sempre assim: o riso abandona o palco e fica a ressonância daquilo que antes nos fazia rir.)

O líder — e aqui todo o cuidado com as palavras importa, porque uma palavra demasiado forte pode transformar memória em acusação irreparável — esse líder começou por prometer reconstituição. “Tornar grande outra vez” (já sabem do que falo) soava, por um tempo, como uma promessa de retorno, e o retorno tem sempre um perfume de nostalgia: a crença de que podemos regressar ao que nunca mais houve exatamente. Mas o gesto de prometer tinha uma arte própria, e a arte tornou-se sacerdócio: a verdade subjugada à vontade de não perder. E o poder, com o seu hábito de corroer, fez do país algo dividido, cidades que se olhavam como se fossem estranhos numa estação de comboios: cada uma com a sua pequena bagagem de desconfianças.

Vê-se, no entanto, que a perversidade da situação não se revela apenas nas capitais ou nos discursos. Revela-se nos pormenores mais humanos, nos quartos às escuras, nas mesas onde os nomes dos mortos se confundem com os nomes daqueles que lhes deram voz. É aí que as contradições ficam mais claras: quem bate às portas do desalento não grita sempre com o mesmo tom. Há estrangeiros, lê-se no boletim da vida, palavra dura, palavra pequena; há falhas íntimas que se tornam públicas como feridas que não cicatrizam. E, entre estas figuras, circulam as promessas fáceis que aprendem a vencer pelo seu tom convincente, não pela sua substância.

Como explicar, pergunto eu, como se falasse para um amigo que vive nesse país, como se tentasse traduzir uma traição em termos compreensíveis, como é que um povo escolhe aquilo que o destrói? Há sempre respostas prontas: ignorância, medo, compra de consciências, dissimulação. Mas a verdade, talvez menos confortável, é outra: as escolhas surgem também da esperança deturpada. Quando uma sociedade deixa de acreditar em valores sólidos, justiça, verdade, liberdade, dignidade, quando esses valores deixam de funcionar como referências vivas (os “idíolos de sentido” na expressão de Adorno), então a esperança não desaparece… mas torna-se desesperada - aceita qualquer deus que se apresente com uma solução rápida. E um povo cansado prefere, por vezes, a ordem à dúvida, preferindo a mentira que acalma à incerteza que perturba.

Há, contudo, uma cena que eu, assumindo um papel de narrador, insisto em lembrar: uma praça onde, numa tarde já com cheiro a Primavera, se aglomeraram pessoas que não eram políticos profissionais, não eram oradores de tribuna; eram vizinhos, professores, mulheres com mãos calejadas, estudantes com livros gastos. Veio-lhes à cabeça, ou melhor, ao coração, a ideia de uma recusa serena. Não era um plano militar; era um ato de presença. Milhões? Talvez o número importe menos do que a qualidade do gesto: a decisão de, em plena luz, dizer não à destruição. Foi assim que nasceram as insurreições pacíficas nas histórias que valem a pena: não pela massa inorgânica, mas pela convicção composta de rostos, nomes, pequenas rotinas interrompidas pela coragem de continuar a viver.

Há, nesta narrativa, que podia também ser a do nosso país, uma contradição final que não nos deixa descansar: insurgir-se é também reafirmar a liberdade — e a liberdade não é apenas um termo político, é uma condição íntima. É a coragem de lembrar, de contar a própria história, de proteger a memória dos que se foram. (A memória, aqui, não é um arquivo; é um acendedor de lanternas em noites demasiado longas.) E, portanto, o apelo para a ação, para que a nação volte a encontrar a sua dignidade, encontra o seu outro rosto: a necessidade de manter vivos os laços comuns, as pequenas cerimónias civis que nos impedem de nos transformarmos em ilhas.

O que fazer, então? Responderei com a língua dos gestos: conservar as palavras verdadeiras, recusar o espetáculo da mentira, aprender a política como arte do cuidado e não como linguagem de guerra. E, acima de tudo, resistir com a forma calma da cidadania, com manifestações pacíficas, jornais que não traem, escolas que voltam a ensinar a dúvida como disciplina sagrada. Não é uma solução instantânea, soluções instantâneas existem para os demagogos — é um trabalho lento, onde cada gesto quotidiano conta.

No fim, resta uma última imagem: a de uma nação sentada à mesa, dizendo nomes, lembrando rostos, reconhecendo que a sua grandeza nunca foi um estado imóvel, mas um processo frágil, que exige vigilância, memória e, sobretudo, coragem para permanecer humano. E enquanto houver essa coragem — mesmo que escondida entre o ruído — ainda haverá uma chance de manter-se livre.

Albardeiro