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albardeiro

Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!

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Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!

DEMOCRACIA TRANSACIONADA

albardeiro, 16.02.26

Na sequência da intervenção militar norte-americana na Venezuela, nos inícios de janeiro, e questionado sobre os limites do seu poder, Trump respondeu com a desfaçatez e indecência costumeiras: "Sim, há uma coisa, a minha própria moralidade, a minha própria mente. Essa é a única coisa que me pode parar". Décadas de direito internacional, de acordos e normas laboriosamente trabalhados são, desta forma, relegados para o caixote de lixo da história, numa manifestação absoluta de prepotência, uma espécie de versão atualizada da célebre afirmação “L’État c’est moi”, atribuído a Luís XIV. Quem assim fala é um autocrata que, desde sempre, desdenhou a democracia que o elegeu. Não é, infelizmente, uma situação inédita.

Insensível à soberania e integridade territorial das nações existentes – ou a quaisquer regras consensualizadas de convivência internacional – Trump rege-se por princípios geopolíticos meramente transacionais (tradeable Trump), que fazem de cada ação uma oportunidade de investimento americano e de incremento dos seus ativos financeiros. As relações internacionais resumem-se, assim, a um permanente negócio no mercado mundial, sendo a vida e a segurança das populações tratadas como simples "bens transacionáveis" ao serviço dos interesses dos EUA. A extração de recursos, em qualquer ponto do planeta, torna-se uma prerrogativa imperial Yankee. Não sendo também algo original, atingiu uma dimensão nunca antes vista, já que se tornou no elemento definidor da política externa norte-americana, abandonando todas as virtudes – reais ou potenciais – do softpower estadunidense no mundo. Na certeira caracterização do ex-ministro da Economia, António Costa Silva, “Trump é uma combinação de promotor imobiliário e especialista de «reality shows». Para ele tudo se resume a negócio, dinheiro fácil, corrupção, ostentação da força, narcisismo e entretenimento.” (Visão, 29/1/2026).

Em vez de se privilegiar a negociação e o acordo, fatores essenciais de uma influência consistente e duradoura, a administração Trump enveredou, decididamente, pelo confronto e bullying permanentes, pelo desprezo das regras mais elementares da ordem mundial, pelo afastamento das organizações internacionais (mais de 60, entre elas a ONU, a OMS ou a OMC), pela intimidação e chantagem como estratégias de Estado, pela violência da “política da canhoneira” e da lei do mais forte. O mundo está, desta forma, sujeito a um Presidente “cuja irritação pessoal é uma variável geopolítica.”, na sagaz observação de Brian Bennett e Nik Popli na revista Time (Visão, 22/1/2026). Como igualmente sublinha Javier Corrales, professor de Ciência Política do Amherst College, “Ele gosta de abordar o cenário mundial como um ator punitivo. Ele vai tratá-lo sempre mal, até que você apareça com uma oferta notável.” (Visão, 22/1/2026). E assim estamos!

Bem patente nos traços do carácter doentio e perverso de Donald Trump, tal atuação revela toda uma ideologia populista e radical que se expressa neste tipo imprevisível e aparentemente desvairado de governação. São estas, aliás, as premissas essenciais do projeto neofascista do mentor ideológico do governante da Casa Branca, Steve Bannon, e do think tank de extrema-direita, The Heritage Foundation que, com base no seu “Projeto 2025”, tem como objetivo a destruição da democracia americana e a tomada revolucionária do aparelho de Estado por parte dos elementos mais leais ao movimento MAGA (com a institucionalização da mais descarada manipulação política e consequente despedimento de milhares de funcionários públicos), a implosão das instituições independentes de regulação, como a Reserva Federal (FED), o desmantelamento de dezenas de agências governamentais, a usurpação dos poderes do Departamento de Justiça ou do Congresso, o empoderamento da polícia de emigração e alfândegas (ICE), com “licença para matar”: “Desde o início do ano, só tivemos três homicídios na nossa cidade”, afirmou Jacob Frey, presidente da câmara de Minneapolis, “dois deles da autoria da ICE.” Enfim, a destruição de todo o sistema de cheks and balances em que assenta o regime democrático e a concentração total do poder no Presidente. Ecoa a alarmante declaração de Trump na última campanha eleitoral, dirigindo-se aos seus apoiantes: “Não vão precisar de votar outra vez daqui a quatro anos. Vamos refazer tudo tão bem que vocês não vão precisar de voltar a votar.” Steve Bannon reiterou esta vontade de prescindir de eleições e perpetuar ilegalmente Trump no poder, há poucas semanas.

Como não invocar o sucedido na década de 30 do século XX? E se a atuação do ICE faz lembrar as milícias nazis SA e SS, que prepararam a ascensão de Hitler ao poder, aterrorizando e eliminando os seus opositores, a afirmação do vice-presidente, J. D. Vance, segundo o qual “as universidades são o nosso inimigo”, vai precisamente no sentido de uma longa tradição obscurantista e reacionária. Negacionista das alterações climáticas, da eficácia das vacinas e do conhecimento científico em geral, a administração norte-americana pode-se enquadrar no revivalismo do movimento pré-romântico alemão dos finais de setecentos, Sturm und Drang (“Tempestade e Ímpeto”), com o seu desprezo pelo pensamento lógico-racional e a sua apologia da irracionalidade, da intuição e da vontade, assente na mitologia das origens gloriosas e “imaculadas” da nação, na veneração absoluta pela tradição e raízes ancestrais, na pureza da raça e no espírito nacionalista, ou seja, a cartilha política da extrema-direita em todo o seu esplendor.

Aqueles mesmos princípios que, na transição do século XIX para o XX, foram representados pelo movimento populista alemão völkisch, com o seu culto da Terra-Mãe, baseado no mito de uma “Idade do Ouro” germano-gótica – contraposta à latinidade romana decadente – e que tinham sido tão eloquentemente expressos pelo filósofo e escritor alemão Johann Gottfried von Herder, em reação à Europa das “Luzes”, na sua obra Também uma Filosofia da História para a Formação da Humanidade, de 1774: “É certo que desprezavam as artes e as ciências, a opulência e os refinamentos… que afinal tinham devastado a humanidade. Mas, em vez das artes, traziam consigo a natureza, em vez das ciências, a saúde do seu nórdico entendimento, em vez do refinamento, costumes fortes e bons, ainda que selvagens […]. Que grande acontecimento! Vede as suas leis, como respiram uma coragem viril, um sentimento de honra, uma confiança no entendimento, na lealdade e no respeito pelos deuses! Vede a sua organização feudal, como enterrou o tumulto das cidades populosas e opulentas para cultivar os campos e dar trabalho aos homens, criando pessoas saudáveis e, por isso mesmo, satisfeitas.” (cit. in Joaquim Jorge Veiguinha, As Raízes Ideológicas do Pensamento Político da Extrema-Direita, Coimbra, Edições 70, 2025, p. 66). 

É sobretudo contra o “espírito abstrato” e o conhecimento racional que se insurge Herder: “Basta de cultura livresca. Tanto quanto possível, pratiquem-se atos!” (ibid. p. 69); precisamente a apologia da ação vitalista tão característica da brutalidade nazifascista. Epilepsia da ação, comportamento errático e imprevisível, disruptividade incessante, a criação de uma “estratégia de tensão”, tão do agrado das ditaduras totalitárias do século XX, “para gerar um estado de medo e insegurança favorável ao desencadeamento de formas de autoritarismo político.” (ibid. p. 197). Como não estabelecer um paralelismo com a governação de Donald Trump que, por sinal, é de ascendência alemã?





Hugo Fernandez

Entre a Civilização e o Lodo: A Escolha Moral do Nosso Tempo

albardeiro, 07.02.26

O embuste populista, corporizado na figura de André Ventura e dos que o orbitam, move-se pela manipulação primária dos medos e das frustrações. Não propõe soluções: dramatiza problemas. Não argumenta: acusa. O seu discurso, de aparência rebelde, é conservador até ao osso – não no sentido ideológico, mas no sentido mais literal da palavra, pois conserva a lama, o ruído, a desconfiança, a divisão. Tudo nele é cálculo emocional. Quando proclama “defesa da pátria”, o que quer é palco; quando clama “justiça social”, o que pretende é vingança; quando simula indignação, apenas prepara a próxima encenação. Desafia o sistema para legitimá-lo ainda mais, porque o seu poder necessita da tensão que diz combater.

O populismo vive da deturpação emocional do discurso e da desordem intelectual do debate. Alimenta-se do ruído que ele próprio produz, da desinformação travestida de coragem moral e da encenação de um falso heroísmo. O populista apresenta-se como arauto do povo, mas grita contra as paredes do mesmo sistema que o pariu, do qual nunca deixou de ser aprendiz e beneficiário. Não combate o poder: apenas deseja torná-lo seu, usando o ressentimento como escada e a ignorância como chão. Faz-se de profeta e acaba pantomineiro – o eco de um vil teatro onde o ódio é estética e a mentira, método.

Os populismos são a versão ruidosa do conformismo. Transformam a política em espetáculo, a cidadania em claque e o adversário em inimigo. São sistemas fechados de crença que dispensam raciocínio: substituem o pensamento pela adesão. Ventura encarna esse teatro com uma destreza perigosa. Sabe usar cada palavra como gatilho, cada silêncio como pretexto. A sua política não é um projeto, é um grito. E o grito, embora contagiante, é mudo de ideias.

Mas o perigo não reside apenas nos que vociferam; mora também nos que se calam. Há uma cumplicidade silenciosa naqueles que, como Pilatos, lavam as mãos — os que, em nome da prudência, permitem a erosão da decência (Montenegro e os seus “muchachos”). A neutralidade, em tempos de mentira, é uma forma disfarçada de rendição. Quando a ignorância sobe ao púlpito e a manipulação governa o discurso, quem escolhe o conforto do muro escolhe o lado errado da história. A indiferença tem sempre a cor do poder que vence.

A verdadeira divisão político-moral não é entre esquerda e direita, mas entre civilização e barbárie. De um lado, a clareza, a razão, o esforço pela convivência democrática; do outro, o tumulto, o insulto e a simplificação. O populismo sabota a própria ideia de República, porque substitui a pluralidade pelo culto da voz única, a exigência pelo instinto, o argumento pela fúria. A democracia não morre de um golpe: morre de aplausos mal dirigidos e de silêncios cúmplices.

Defender a democracia é, hoje, escolher a compostura contra o histrionismo, a responsabilidade contra o ressentimento. É compreender que a liberdade exige maturidade, e que o voto, em momentos como este, é menos um gesto político do que um ato moral. Entre a serenidade e o barulho, entre a razão e o embuste, entre o respeito e o escárnio, não há meio-termo.

Ou se está com a civilização — ou com o lodaçal.

Albardeiro

A Leveza Perigosa da Promessa

albardeiro, 02.02.26

Havia, naquele país que um dia fora exemplar, um ruído que se expandia como uma mancha de tinta, primeiro discreta, depois impossível de ignorar. Esse ruído não era exatamente uma voz: era um conjunto de proclamações, gestos repetidos, sorrisos calculados; e, como qualquer ruído que insiste, acabou por nos habituar. A história recorda as habituais contradições: como as pedras de uma rua preservam impressões de sapatos antigos, assim permaneciam as marcas de liberdade em cada esquina e, no entanto, o ruído crescia.

O protagonista desta espécie de fábula não é um homem só; é um homem e o seu séquito, e o séquito é um fenómeno social curioso: formado por aprendizes convencidos, por homens que aprenderam a mentira como técnica de sobrevivência, por companheiros cujo talento nunca se revelou e cuja inexperiência se confunde, estranhamente, com autoridade. Eles surgem como atores de uma comédia que perdeu o riso e ganhou o teatro de operações. (É sempre assim: o riso abandona o palco e fica a ressonância daquilo que antes nos fazia rir.)

O líder — e aqui todo o cuidado com as palavras importa, porque uma palavra demasiado forte pode transformar memória em acusação irreparável — esse líder começou por prometer reconstituição. “Tornar grande outra vez” (já sabem do que falo) soava, por um tempo, como uma promessa de retorno, e o retorno tem sempre um perfume de nostalgia: a crença de que podemos regressar ao que nunca mais houve exatamente. Mas o gesto de prometer tinha uma arte própria, e a arte tornou-se sacerdócio: a verdade subjugada à vontade de não perder. E o poder, com o seu hábito de corroer, fez do país algo dividido, cidades que se olhavam como se fossem estranhos numa estação de comboios: cada uma com a sua pequena bagagem de desconfianças.

Vê-se, no entanto, que a perversidade da situação não se revela apenas nas capitais ou nos discursos. Revela-se nos pormenores mais humanos, nos quartos às escuras, nas mesas onde os nomes dos mortos se confundem com os nomes daqueles que lhes deram voz. É aí que as contradições ficam mais claras: quem bate às portas do desalento não grita sempre com o mesmo tom. Há estrangeiros, lê-se no boletim da vida, palavra dura, palavra pequena; há falhas íntimas que se tornam públicas como feridas que não cicatrizam. E, entre estas figuras, circulam as promessas fáceis que aprendem a vencer pelo seu tom convincente, não pela sua substância.

Como explicar, pergunto eu, como se falasse para um amigo que vive nesse país, como se tentasse traduzir uma traição em termos compreensíveis, como é que um povo escolhe aquilo que o destrói? Há sempre respostas prontas: ignorância, medo, compra de consciências, dissimulação. Mas a verdade, talvez menos confortável, é outra: as escolhas surgem também da esperança deturpada. Quando uma sociedade deixa de acreditar em valores sólidos, justiça, verdade, liberdade, dignidade, quando esses valores deixam de funcionar como referências vivas (os “idíolos de sentido” na expressão de Adorno), então a esperança não desaparece… mas torna-se desesperada - aceita qualquer deus que se apresente com uma solução rápida. E um povo cansado prefere, por vezes, a ordem à dúvida, preferindo a mentira que acalma à incerteza que perturba.

Há, contudo, uma cena que eu, assumindo um papel de narrador, insisto em lembrar: uma praça onde, numa tarde já com cheiro a Primavera, se aglomeraram pessoas que não eram políticos profissionais, não eram oradores de tribuna; eram vizinhos, professores, mulheres com mãos calejadas, estudantes com livros gastos. Veio-lhes à cabeça, ou melhor, ao coração, a ideia de uma recusa serena. Não era um plano militar; era um ato de presença. Milhões? Talvez o número importe menos do que a qualidade do gesto: a decisão de, em plena luz, dizer não à destruição. Foi assim que nasceram as insurreições pacíficas nas histórias que valem a pena: não pela massa inorgânica, mas pela convicção composta de rostos, nomes, pequenas rotinas interrompidas pela coragem de continuar a viver.

Há, nesta narrativa, que podia também ser a do nosso país, uma contradição final que não nos deixa descansar: insurgir-se é também reafirmar a liberdade — e a liberdade não é apenas um termo político, é uma condição íntima. É a coragem de lembrar, de contar a própria história, de proteger a memória dos que se foram. (A memória, aqui, não é um arquivo; é um acendedor de lanternas em noites demasiado longas.) E, portanto, o apelo para a ação, para que a nação volte a encontrar a sua dignidade, encontra o seu outro rosto: a necessidade de manter vivos os laços comuns, as pequenas cerimónias civis que nos impedem de nos transformarmos em ilhas.

O que fazer, então? Responderei com a língua dos gestos: conservar as palavras verdadeiras, recusar o espetáculo da mentira, aprender a política como arte do cuidado e não como linguagem de guerra. E, acima de tudo, resistir com a forma calma da cidadania, com manifestações pacíficas, jornais que não traem, escolas que voltam a ensinar a dúvida como disciplina sagrada. Não é uma solução instantânea, soluções instantâneas existem para os demagogos — é um trabalho lento, onde cada gesto quotidiano conta.

No fim, resta uma última imagem: a de uma nação sentada à mesa, dizendo nomes, lembrando rostos, reconhecendo que a sua grandeza nunca foi um estado imóvel, mas um processo frágil, que exige vigilância, memória e, sobretudo, coragem para permanecer humano. E enquanto houver essa coragem — mesmo que escondida entre o ruído — ainda haverá uma chance de manter-se livre.

Albardeiro