DEMOCRACIA TRANSACIONADA
Na sequência da intervenção militar norte-americana na Venezuela, nos inícios de janeiro, e questionado sobre os limites do seu poder, Trump respondeu com a desfaçatez e indecência costumeiras: "Sim, há uma coisa, a minha própria moralidade, a minha própria mente. Essa é a única coisa que me pode parar". Décadas de direito internacional, de acordos e normas laboriosamente trabalhados são, desta forma, relegados para o caixote de lixo da história, numa manifestação absoluta de prepotência, uma espécie de versão atualizada da célebre afirmação “L’État c’est moi”, atribuído a Luís XIV. Quem assim fala é um autocrata que, desde sempre, desdenhou a democracia que o elegeu. Não é, infelizmente, uma situação inédita.
Insensível à soberania e integridade territorial das nações existentes – ou a quaisquer regras consensualizadas de convivência internacional – Trump rege-se por princípios geopolíticos meramente transacionais (tradeable Trump), que fazem de cada ação uma oportunidade de investimento americano e de incremento dos seus ativos financeiros. As relações internacionais resumem-se, assim, a um permanente negócio no mercado mundial, sendo a vida e a segurança das populações tratadas como simples "bens transacionáveis" ao serviço dos interesses dos EUA. A extração de recursos, em qualquer ponto do planeta, torna-se uma prerrogativa imperial Yankee. Não sendo também algo original, atingiu uma dimensão nunca antes vista, já que se tornou no elemento definidor da política externa norte-americana, abandonando todas as virtudes – reais ou potenciais – do softpower estadunidense no mundo. Na certeira caracterização do ex-ministro da Economia, António Costa Silva, “Trump é uma combinação de promotor imobiliário e especialista de «reality shows». Para ele tudo se resume a negócio, dinheiro fácil, corrupção, ostentação da força, narcisismo e entretenimento.” (Visão, 29/1/2026).
Em vez de se privilegiar a negociação e o acordo, fatores essenciais de uma influência consistente e duradoura, a administração Trump enveredou, decididamente, pelo confronto e bullying permanentes, pelo desprezo das regras mais elementares da ordem mundial, pelo afastamento das organizações internacionais (mais de 60, entre elas a ONU, a OMS ou a OMC), pela intimidação e chantagem como estratégias de Estado, pela violência da “política da canhoneira” e da lei do mais forte. O mundo está, desta forma, sujeito a um Presidente “cuja irritação pessoal é uma variável geopolítica.”, na sagaz observação de Brian Bennett e Nik Popli na revista Time (Visão, 22/1/2026). Como igualmente sublinha Javier Corrales, professor de Ciência Política do Amherst College, “Ele gosta de abordar o cenário mundial como um ator punitivo. Ele vai tratá-lo sempre mal, até que você apareça com uma oferta notável.” (Visão, 22/1/2026). E assim estamos!
Bem patente nos traços do carácter doentio e perverso de Donald Trump, tal atuação revela toda uma ideologia populista e radical que se expressa neste tipo imprevisível e aparentemente desvairado de governação. São estas, aliás, as premissas essenciais do projeto neofascista do mentor ideológico do governante da Casa Branca, Steve Bannon, e do think tank de extrema-direita, The Heritage Foundation que, com base no seu “Projeto 2025”, tem como objetivo a destruição da democracia americana e a tomada revolucionária do aparelho de Estado por parte dos elementos mais leais ao movimento MAGA (com a institucionalização da mais descarada manipulação política e consequente despedimento de milhares de funcionários públicos), a implosão das instituições independentes de regulação, como a Reserva Federal (FED), o desmantelamento de dezenas de agências governamentais, a usurpação dos poderes do Departamento de Justiça ou do Congresso, o empoderamento da polícia de emigração e alfândegas (ICE), com “licença para matar”: “Desde o início do ano, só tivemos três homicídios na nossa cidade”, afirmou Jacob Frey, presidente da câmara de Minneapolis, “dois deles da autoria da ICE.” Enfim, a destruição de todo o sistema de cheks and balances em que assenta o regime democrático e a concentração total do poder no Presidente. Ecoa a alarmante declaração de Trump na última campanha eleitoral, dirigindo-se aos seus apoiantes: “Não vão precisar de votar outra vez daqui a quatro anos. Vamos refazer tudo tão bem que vocês não vão precisar de voltar a votar.” Steve Bannon reiterou esta vontade de prescindir de eleições e perpetuar ilegalmente Trump no poder, há poucas semanas.
Como não invocar o sucedido na década de 30 do século XX? E se a atuação do ICE faz lembrar as milícias nazis SA e SS, que prepararam a ascensão de Hitler ao poder, aterrorizando e eliminando os seus opositores, a afirmação do vice-presidente, J. D. Vance, segundo o qual “as universidades são o nosso inimigo”, vai precisamente no sentido de uma longa tradição obscurantista e reacionária. Negacionista das alterações climáticas, da eficácia das vacinas e do conhecimento científico em geral, a administração norte-americana pode-se enquadrar no revivalismo do movimento pré-romântico alemão dos finais de setecentos, Sturm und Drang (“Tempestade e Ímpeto”), com o seu desprezo pelo pensamento lógico-racional e a sua apologia da irracionalidade, da intuição e da vontade, assente na mitologia das origens gloriosas e “imaculadas” da nação, na veneração absoluta pela tradição e raízes ancestrais, na pureza da raça e no espírito nacionalista, ou seja, a cartilha política da extrema-direita em todo o seu esplendor.
Aqueles mesmos princípios que, na transição do século XIX para o XX, foram representados pelo movimento populista alemão völkisch, com o seu culto da Terra-Mãe, baseado no mito de uma “Idade do Ouro” germano-gótica – contraposta à latinidade romana decadente – e que tinham sido tão eloquentemente expressos pelo filósofo e escritor alemão Johann Gottfried von Herder, em reação à Europa das “Luzes”, na sua obra Também uma Filosofia da História para a Formação da Humanidade, de 1774: “É certo que desprezavam as artes e as ciências, a opulência e os refinamentos… que afinal tinham devastado a humanidade. Mas, em vez das artes, traziam consigo a natureza, em vez das ciências, a saúde do seu nórdico entendimento, em vez do refinamento, costumes fortes e bons, ainda que selvagens […]. Que grande acontecimento! Vede as suas leis, como respiram uma coragem viril, um sentimento de honra, uma confiança no entendimento, na lealdade e no respeito pelos deuses! Vede a sua organização feudal, como enterrou o tumulto das cidades populosas e opulentas para cultivar os campos e dar trabalho aos homens, criando pessoas saudáveis e, por isso mesmo, satisfeitas.” (cit. in Joaquim Jorge Veiguinha, As Raízes Ideológicas do Pensamento Político da Extrema-Direita, Coimbra, Edições 70, 2025, p. 66).
É sobretudo contra o “espírito abstrato” e o conhecimento racional que se insurge Herder: “Basta de cultura livresca. Tanto quanto possível, pratiquem-se atos!” (ibid. p. 69); precisamente a apologia da ação vitalista tão característica da brutalidade nazifascista. Epilepsia da ação, comportamento errático e imprevisível, disruptividade incessante, a criação de uma “estratégia de tensão”, tão do agrado das ditaduras totalitárias do século XX, “para gerar um estado de medo e insegurança favorável ao desencadeamento de formas de autoritarismo político.” (ibid. p. 197). Como não estabelecer um paralelismo com a governação de Donald Trump que, por sinal, é de ascendência alemã?
Hugo Fernandez