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albardeiro

Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!

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Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!

O Palhaço da Praça Pública

albardeiro, 08.01.26

Pintava a cara com a tinta da beatitude enquanto os sinos tocavam, não por devoção, mas porque o espetáculo exigia faixa sonora celestial. Ajoelhava-se nas igrejas com a precisão de quem ensaiou cada genuflexão diante do espelho, transformando o terço num adereço de cena mais convincente que qualquer manifesto político. O púlpito serviu-lhe de trampolim: saltou da sacristia para os palanques sem trocar de máscara, apenas ajustando o grau de unção na voz.

A encenação religiosa não era mero oportunismo, constituía estratégia sofisticada de captura emocional. Compreendeu precocemente que a fragmentação da realidade seria a sua arma mais letal. Não precisava de convencer todos da mesma mentira; bastava-lhe que cada tribo habitasse a sua própria versão dos factos, todas incompatíveis, todas fervorosas. A fé transformou-se em ferramenta de segmentação: para uns, exibia o crucifixo; para outros, acenava com promessas de prosperidade; para os mais desesperados, oferecia bodes expiatórios embrulhados em retórica salvífica. Ninguém partilhava a mesma narrativa, mas todos partilhavam a certeza de que ele era o único que os compreendia verdadeiramente.

As instituições democráticas sempre conviveram com divergências ideológicas intensas, mas partilhavam um terreno factual comum. Essa base desapareceu sob os seus pés de palhaço. Já não estamos perante cidadãos com opiniões diferentes; estamos perante populações que habitam universos paralelos onde os mesmos eventos produzem interpretações mutuamente excludentes. Ele percebeu que não precisava de ganhar debates, bastava, através da gritaria, destruir a possibilidade de que houvesse debates. Quando não existe realidade partilhada, cada discussão torna-se teatro de surdos onde todos gritam mas ninguém escuta.

As ideias políticas que vendia vinham embrulhadas em papel de retórica vazia, mas o laço era tão vistoso que ninguém reparava no vazio da caixa. Discursava sobre economia como quem recita lengalengas, misturando chavões com promessas, a competência residia não no conhecimento, mas na capacidade camaleónica de parecer entender tudo sem dominar coisa alguma. Os números que apresentava mudavam conforme a audiência; as soluções que propunha contradiziam-se de semana para semana. Nada disso importava. Numa era onde algoritmos amplificam mensagens que minam a coesão social, a coerência tornou-se dispensável. Importava apenas a intensidade emocional, a capacidade de gerar indignação, o talento para transformar complexidade em slogan.

Enquanto as instituições deliberavam com a velocidade que a prudência democrática impõe, ele tomava dez decisões disruptivas antes do pequeno-almoço. A lentidão processual, outrora garantia contra tirania, tornara-se paralisia diante do caos orquestrado. Instituições democráticas operam através de processos deliberativos estruturados para serem lentos, ponderados, transparentes. Quando confrontadas com um ator que toma múltiplas decisões simultâneas, todas controversas, todas exigindo resposta imediata, essa lentidão transforma-se em impotência. Enquanto o parlamento debatia a legalidade de uma medida, ele já implementara outras cinco e anunciara três. O sistema respirava ao ritmo da maratona; ele impunha o ritmo do sprint. E vencia sempre, não por ser mais rápido, mas por ter compreendido que numa corrida entre deliberação e disrupção, a segunda leva sempre vantagem.

Os algoritmos multiplicavam-lhe a voz exponencialmente, criando não um público, mas sectários que já não partilhavam realidade factual, apenas a fervorosa certeza de que ele representava a sua tribo contra todas as outras. Quando plataformas tecnológicas amplificam mensagens que destroem confiança nas instituições, a soberania democrática fica materialmente comprometida. Não se trata de censura ou de limitar liberdade de expressão; trata-se de reconhecer que a regulação tecnológica se tornou questão de sobrevivência democrática, não de política industrial. Mas ele sabia jogar também este tabuleiro: cada tentativa de regulação era pintada como censura, cada esforço de "fact-checking" denunciado como manipulação das elites. Transformara a própria defesa da democracia em arma contra a democracia.

O público não o adorava: viciava-se nele. Transformara a política num circo ambulante onde era simultaneamente palhaço, domador e ilusionista. A dissimulação atingira tal mestria que já não se distinguia o farsante do papel, talvez nem ele próprio soubesse onde terminava o homem e começava a personagem. Alimentava-se do aplauso como parasita se alimenta do hospedeiro, sugando a lucidez coletiva gota a gota. Cada aplaudente”, por ignorância, julgava defender ideias; defendia, sem o saber, a erosão das condições que tornavam possível qualquer debate de ideias. Acreditavam estar a votar num programa político; estavam, na realidade, a votar pela abolição gradual da possibilidade de escolha futura.

O mais perturbador não era a sua dissimulação, era a cumplicidade tácita de quem aplaudia. Não eram inocentes enganados; eram cúmplices voluntários de um pacto “faustiano” onde trocavam liberdade por pertença tribal, verdade por conforto identitário. Ele oferecia-lhes inimigos claramente identificados, explicações simples para problemas complexos, a ilusão de que bastava segui-lo para que tudo se resolvesse. Em troca, exigia apenas que deixassem de pensar criticamente, que aceitassem as suas contradições sem questionar, que transformassem ceticismo saudável em fé cega. E eles aceitavam. Aceitavam porque a alternativa, reconhecer a complexidade do mundo, admitir a própria incerteza, conviver com a ambiguidade, exigia um esforço cognitivo que já não estavam dispostos a fazer.

Agora candidatava-se. Queria ser presidente, não de um governo, mas da própria nação. Presidente da multidão que o aplaudia em êxtase, naturalmente, mas também, e sobretudo, presidente daqueles que o abjetam. A sua ambição não se contentava com maiorias: exigia totalidade. Compreendeu que o verdadeiro poder não reside em conquistar apoiantes, mas em subjugar opositores. Queria que mesmo quem o desprezava fosse obrigado a chamá-lo de "Senhor Presidente", que mesmo quem via através da dissimulação tivesse de curvar-se perante o cargo. A candidatura transformava-se assim em golpe de génio: utilizaria o voto — esse instrumento sagrado da democracia — para se instalar num cargo que depois usaria para minar a própria democracia que o elegera.

Eis a suprema ironia: utilizava as ferramentas da democracia para cavar a sepultura dessa mesma democracia. Invocava a liberdade de expressão para semear mentiras, empunhava o voto popular como quem brandisse um cetro conquistado, citava a vontade do povo para justificar medidas que minavam a própria capacidade desse povo de formar vontade autónoma. A presidência seria o prémio final, não pelas competências constitucionais que o cargo oferecia, mas pelo simbolismo que representava: ser presidente significava encarnar a nação inteira, ser a voz de todos, mesmo dos que o detestavam. Enquanto as massas aplaudiam extasiadas, a captura institucional avançava — não através de golpe militar espalhafatoso, mas pela erosão quotidiana, pela nomeação estratégica, pela normalização do inaceitável.

Nunca, em parte alguma da história, uma deriva autocrática se auto-reverteu sem resistência organizada. Mas a multidão continuava sentada, fascinada pelo número de malabarismo, incapaz de perceber que as bolas lançadas ao ar eram as liberdades que julgavam eternas. O "resgate" não viria de instituições que magicamente começariam a funcionar, mas de cidadãos que compreendessem que defendiam não um partido, mas as condições de possibilidade da democracia. Isso exigia abandonar ilusões confortáveis: que instituições existentes seriam suficientes, que processos normais produziriam resultados normais, que a ordem democrática poderia ser preservada sem luta.

O momento histórico não oferecia escolhas fáceis. Mas a escolha fundamental permanecia binária: resistir ativamente à erosão autocrática ou acomodar-se gradualmente à sua normalização. A experiência histórica não oferecia conforto à segunda opção. Cada silêncio cúmplice, cada relativização do inaceitável, cada "não é assim tão grave" pavimentava o caminho para o irreversível.

Quando finalmente arrancasse a peruca e revelasse a coroa escondida por baixo, trancando as portas do pavilhão, seria tarde demais. Perceberiam então que o bilhete de entrada fora sempre um contrato de escravidão redigido em letra miúdinha, assinado entre gargalhadas. O palhaço sabia o que os espetadores recusavam admitir: estávamos já a ver no horizonte o ponto de não-retorno, aproximando-se à velocidade que só a inércia democrática permite. Cada acomodação, cada silêncio, cada aplauso irrefletido escrevia mais uma linha num texto que, uma vez completo, não admitiria revisões.

A história não oferece rascunhos — apenas espetadores que percebem tarde demais que não eram plateia, mas figurantes numa tragédia onde o palhaço sempre soube qual seria o último ato. E nesse ato final, quando as luzes se apagassem e as portas se fechassem, já não haveria aplausos. Apenas o silêncio ensurdecedor de quem compreende, demasiado tarde, que a liberdade perdida não se reconquista com a mesma facilidade com que se entrega. O espetáculo terminaria não com estrondo, mas com o clicar de fechaduras — e a perceção súbita de que o circo se tornara prisão, e o palhaço, carcereiro.

Qualquer parecença desta narrativa com a realidade é apenas parecença, e está além da ficção.

 

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