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albardeiro

Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!

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Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!

ANO DE 2025: Quando a Barbárie se Veste de Legalidade

albardeiro, 30.12.25

A transformação de uma democracia em necropolítica não acontece através de ruturas dramáticas, mas pela erosão milimétrica do intolerável em rotina administrativa. O que testemunhamos na era trumpista transcende amplamente o populismo autoritário: trata-se da industrialização da desumanidade, onde campos de detenção (MIGRANTES) se multiplicam sob a camuflagem burocrática de "centros de processamento" e a tortura psicológica de crianças separadas dos pais se dissolve em estatísticas migratórias. Esta metamorfose do abjeto em banal representa o triunfo de uma engenharia social que aprendeu com os piores episódios históricos uma lição perversa: o extermínio moral precede sempre o físico.

O movimento MAGA não pode ser reduzido a um fenómeno de manipulação das massas ignorantes. Estamos perante algo epistemologicamente mais sinistro: a adesão consciente a uma cosmovisão que elege a crueldade como princípio fundador de identidade coletiva. Os seus seguidores não são vítimas de desinformação, são arquitetos voluntários de uma pirâmide civilizacional onde a dignidade humana flutua conforme a origem geográfica, a tonalidade da pele ou a dissonância política. Esta "necroética do desprezo" opera através da convergência entre algoritmos de radicalização nas redes sociais, retórica legislativa que naturaliza a exceção e aparelhos de segurança que catalogam o "outro" como ameaça ontológica. O corpo do migrante, da criança latina, do ativista dissidente deixa de ser sujeito de direitos para se tornar matéria descartável num contrato social refundado sobre o medo e usado como arma, ou instrumentalizado para fins sombrios da política.

Porém, o verdadeiro escândalo desta deriva autoritária não reside apenas na brutalidade dos perpetradores, mas na cumplicidade silenciosa de quem deveria opor resistência intransigente. O mutismo institucional, de parlamentos que ratificam orçamentos para campos de internamento, de tribunais que validam interpretações constitucionais contorcionistas, de organismos internacionais que emitem comunicados cautelosos, não constitui omissão passiva. Trata-se de arquitetura deliberada de uma zona cinzenta onde o estado de exceção se normaliza como paradigma de governação. Este silêncio funciona como permissão jurídica subliminar, tecendo uma rede de imunidade que permite crimes contra a humanidade disfarçarem-se de política migratória soberana.

Os eufemismos envenenam a linguagem pública com eficácia cirúrgica. "Centros de detenção", "processamento expedito", "segurança fronteiriça robusta" — cada expressão asséptica encobre a realidade de seres humanos transformados em não-pessoas dentro de sistemas digitais de catalogação. O génio maligno do fascismo contemporâneo reside precisamente nesta desmaterialização: prescinde de guardas com metralhadoras quando pode contar com funcionários armados de formulários, juízes que interpretam leis com criatividade kafkiana e espetadores globais que aplaudem silenciosamente através da sua indiferença. Cada notícia suavizada nos telejornais, cada omissão editorial, cada discurso diplomático evasivo constitui um tijolo invisível na construção destes muros.

A capitulação da oposição política representa não uma falha tática, mas suicídio ontológico. Quando partidos (e lideranças governamentais) que deveriam defender os fundamentos democráticos recuam perante Trump, refugiando-se em retóricas tímidas ou cálculos eleitorais pusilânimes, traem o princípio axial da própria democracia: a contenção institucional do tirano. A covardia europeia, manifesta nas ambiguidades cúmplices da NATO (todos nos lembramos do que escreveu o secretário-geral da NATO sobre Trump!), nos acenos diplomáticos de chanceleres preocupados com acordos frívolos, revela uma verdade desconfortável: o capitalismo tardio prefere fascismos previsíveis a democracias turbulentas. Corporações multinacionais declaram "neutralidade política" enquanto lucram com a construção de infraestruturas fronteiriças; conglomerados mediáticos transformam a tragédia humana em "conteúdo polémico" para maximizar métricas de engagement. Este não é fracasso civilizacional — é a prova empírica de que as elites globais internalizaram o fascismo como instrumento legítimo de gestão de riscos sistémicos.

Os media, na sua implosão ética, praticam um jornalismo de alcova, mais preocupado com equilíbrios artificiais entre "perspetivas" do que com o testemunho obsessivo da desumanização. Ao converter campos de detenção (concentração) em tópicos para debates televisivos e tortura institucional em matéria para painéis de comentadores, estes aparelhos não falham profissionalmente, operam como cúmplices lucrativos de um projeto de aniquilamento burocrático. A indústria da informação descobriu que o horror, devidamente embalado em formatos digestivos, gera mais receitas publicitárias que a denúncia inconveniente.

A História não oferece lições pedagógicas, “grita” através dos séculos que Auschwitz não começou nas câmaras de gás. Nasceu quando juristas redigiram legislação sobre "proteção racial", quando médicos elaboraram taxonomias de "vidas indignas de viver", quando vizinhos se calaram perante desaparecimentos noturnos. O protocolo contemporâneo da desumanização replica-se em câmara lenta: sob doutrinas de segurança nacional, constitucionalistas “moldam” garantias fundamentais; dissidentes são reclassificados como "terroristas domésticos" em relatórios de intelligence; campos de internamento expandem-se através de emendas orçamentais aprovadas sem escrutínio. O fascismo pós-moderno aperfeiçoou o método: usa linguagem jurídica como veneno de ação retardada, processos administrativos como instrumentos de tortura psicológica, Big Data como máquina de seleção darwinista.

Cada silêncio atual não representa esquecimento, mas repetição ritualística do pacto original que pavimentou os horrores do século XX: a crença confortável de que o Mal acontece sempre "a outros", em geografias distantes, a corpos que não reconhecemos como semelhantes. A neutralidade perante este fascismo algorítmico, camuflado em bandeiras patrióticas e indicadores macroeconómicos, não constitui abstenção ética. É cumplicidade ativa na normalização sistémica da crueldade como política de Estado.

Desmontar esta máquina de desumanização exige coragem política que despreze cálculos eleitorais de curto prazo, insurgência cidadã incansável nas ruas e nas urnas, construção de uma contra-esfera pública global que desmonte a lavagem ideológica em tempo real. O fascismo contemporâneo revela-se um gigante com pés de algoritmos — pode ser sabotado não por exércitos convencionais, mas através de resistência ética constante: juristas que tratem cada emenda autoritária como declaração de guerra ao Direito, jornalistas que abandonem o fetiche do "equilíbrio" em favor do testemunho implacável, cidadãos que reconheçam a impossibilidade moral da neutralidade perante crianças enjauladas.

O epitáfio da nossa era está a ser gravado neste preciso momento. Restam duas inscrições possíveis: "Aqui jaz a humanidade que assistiu em streaming à própria extinção moral" ou "Aqui renasceu a insurreição dos que se recusaram a virar estatística do Mal". A escolha não pertence a gerações futuras, define-se agora, com cada silêncio quebrado, cada lei desafiada, cada grito amplificado. Entre a grandeza nacional como narcótico autoritário e a travagem do pesadelo pela raiz, não existe zona intermédia de conforto. O futuro escalpelizará cada micro-escolha que permitiu que campos de concentração florescessem sob bandeiras manchadas de sangue. Escolhemos já qual verso sobreviverá.

Bom ano de 2026

 

Albardeiro

O Ministro e a Pedagogia do Preconceito de Classe

albardeiro, 18.12.25

As declarações do Ministro Fernando Alexandre carregam um preconceito subtil em relação aos estudantes bolseiros no contexto da degradação das residências universitárias.

As palavras proferidas por Fernando Alexandre, ministro da Educação, Ciência e Inovação, no Teatro Thalia, na terça-feira, ultrapassaram a linha do aceitável numa democracia que se pretende justa e igualitária. Ao afirmar que "quando metemos pessoas que são basicamente todas de rendimentos mais baixos a beneficiar de um serviço público, sabemos que esse serviço público se deteriora", o responsável máximo pela educação portuguesa não cometeu apenas um deslize retórico. Perpetuou uma violência simbólica devastadora contra milhares de estudantes que carregam nas costas, além dos livros e da esperança num futuro melhor, o peso da precariedade económica das suas famílias.

A degradação física de um edifício nunca resulta da condição socioeconómica dos seus ocupantes. Resulta, sim, do desinvestimento crónico, da incúria administrativa, da ausência de manutenção preventiva e corretiva. Culpabilizar os estudantes bolseiros pela deterioração das residências universitárias equivale a responsabilizar os doentes pelo estado dos hospitais ou os utentes pelo colapso dos transportes públicos. Trata-se de uma inversão perversa da causalidade que desvia as atenções do verdadeiro problema: décadas de subfinanciamento estrutural do ensino superior português.

O que torna estas declarações particularmente chocantes é o facto de emanarem precisamente do ministro da Educação — a pasta governamental que deveria, por excelência, combater estereótipos classistas e promover a mobilidade social através do conhecimento. Fernando Alexandre não destruiu apenas a confiança de milhares de estudantes que veem no ensino superior a única via possível para transformar as suas vidas. Legitimou, com a autoridade do cargo que ocupa, uma narrativa perniciosa que associa pobreza a vandalismo, carência a irresponsabilidade, origem humilde a comportamento degradante.

A proposta inicialmente apresentada aos reitores — que previa a mistura de estudantes de diferentes estratos sociais nas residências para evitar a sua degradação — parte de uma premissa falsa e ofensiva: a de que os pobres, quando isolados entre si, destroem aquilo que lhes é confiado. Este raciocínio não encontra sustentação em qualquer estudo sério sobre comportamento social ou gestão de infraestruturas públicas. Fundamenta-se, antes, num preconceito de classe que imaginávamos erradicado do discurso político democrático.

O ministro esquece, ou prefere ignorar, que os estudantes bolseiros representam frequentemente os alunos mais dedicados, aqueles que conhecem o verdadeiro valor da oportunidade que lhes foi concedida. São jovens que acordam cedo para assistir a aulas, que muitos trabalham à noite para complementar rendimentos insuficientes, que estudam em bibliotecas até ao fecho porque os seus quartos partilhados não oferecem condições de concentração. Atribuir-lhes a responsabilidade pela degradação das residências constitui uma injustiça que beira a crueldade política.

Fernando Alexandre afirmou que "vamos ter residências todas renovadas, que daqui a cinco anos vão estar todas degradadas", estabelecendo uma relação direta entre a presença exclusiva de estudantes carenciados e a inevitável deterioração dos espaços. Esta profecia auto-realizada revela uma visão profundamente elitista da sociedade, onde a qualidade dos serviços públicos depende não do investimento do Estado, mas da composição social dos seus utilizadores. Seguindo esta lógica abjeta, deveríamos concluir que escolas públicas, centros de saúde e bairros sociais se degradam não por falta de recursos, mas pela presença de cidadãos pobres.

A tentativa de acabar com o alegado "estigma" das residências exclusivamente destinadas a bolseiros esconde, na verdade, uma cedência ideológica perigosa: a privatização progressiva dos apoios sociais e a transformação de direitos em privilégios comercializáveis. Se as residências universitárias públicas deixarem de ser prioritariamente destinadas a quem delas efetivamente necessita, estaremos a assistir a mais uma erosão do princípio constitucional da igualdade de acesso à educação.

Particularmente gritante é a contradição inerente ao discurso ministerial. Fernando Alexandre defende que as residências académicas "devem ser espaços de integração, de bem-estar e de promoção do sucesso escolar", mas simultaneamente sugere que a presença maioritária de estudantes desfavorecidos impede precisamente essa vocação integradora. Como pode um ministro da Educação não compreender que a verdadeira integração social passa por garantir condições dignas a todos, independentemente da sua origem, e não por diluir a presença dos mais pobres como se fossem um problema a camuflar?

O posterior desmentido do gabinete ministerial, classificando de "totalmente falso" que o ministro tenha responsabilizado estudantes carenciados pela degradação, não apaga as palavras proferidas nem a ideologia que as sustenta. Os portugueses não são estúpidos. Ouviram, leram e compreenderam perfeitamente o sentido das declarações. A tentativa de reinterpretação à posteriori apenas agrava a falta de respeito pela inteligência coletiva e revela uma preocupante ausência de coragem para assumir responsabilidades políticas.

Portugal construiu, ao longo de décadas, um sistema de ação social escolar que, apesar de todas as insuficiências, permitiu que milhares de jovens de famílias humildes acedessem ao ensino superior. Muitos desses jovens são hoje médicos, engenheiros, professores, cientistas, juristas. Contribuem decisivamente para o desenvolvimento do país. Quantos talentos teríamos perdido se a lógica classista agora defendida pelo ministro tivesse prevalecido no passado?

As famílias trabalhadoras que todos os meses fazem sacrifícios inimagináveis para manter os filhos a estudar longe de casa merecem melhor. Merecem um ministro que reconheça o seu esforço heroico, não um governante que insinua que os seus filhos degradam aquilo que tocam. Os estudantes bolseiros que acordam com ansiedade sobre se a bolsa chegará a tempo de pagar o alojamento merecem melhor. Merecem dignidade, reconhecimento, apoio incondicional.

Fernando Alexandre pode ter sido ele próprio bolseiro, como afirmou em sua defesa. Mas essa circunstância biográfica não o redime do erro gravíssimo que cometeu. Talvez até o torne mais incompreensível. Alguém que conheceu as dificuldades deveria ser o primeiro a combater os preconceitos, não a alimentá-los com declarações que insultam a memória de todos quantos estudaram em condições precárias e, apesar de tudo, triunfaram.

Um ministro da Educação tem a obrigação de compreender que a sua função transcende a gestão administrativa ou a engenharia financeira de bolsas e residências. É um guardião simbólico da promessa republicana de que a educação constitui um direito, não um privilégio, e que a origem social de cada jovem não determina o seu futuro. Fernando Alexandre falhou clamorosamente nessa missão. Traiu a confiança de quem mais precisa que o Estado esteja do seu lado.

Estas declarações não representam um mero lapso comunicacional passível de retificação. Expõem uma visão de mundo incompatível com os valores fundamentais de uma democracia social. Nenhum pedido de desculpas, por mais elaborado que seja, conseguirá apagar a violência destas palavras na consciência de milhares de estudantes que hoje se sentem diminuídos, estigmatizados, culpabilizados por uma condição que não escolheram.

O silêncio da sociedade civil perante afirmações deste calibre seria cúmplice. A desigualdade económica já constitui uma violência suficientemente brutal sobre os mais vulneráveis. Não pode ser agravada pela violência simbólica de um discurso governamental que transforma vítimas em culpados, que confunde pobreza com defeito de carácter, que sugere que os desfavorecidos degradam aquilo que usam.

Portugal merece um ministro da Educação que acredite verdadeiramente na força emancipadora do conhecimento e que combata, sem hesitações, todas as formas de discriminação. Um ministro que invista nas residências universitárias em vez de culpar os seus residentes. Um ministro que compreenda que a dignidade de um estudante bolseiro vale tanto quanto a de qualquer outro cidadão português.

Até que tal aconteça, estas declarações permanecerão como um dos episódios mais lamentáveis da história recente da educação portuguesa — um momento em que um ministro se esqueceu que governava para todos e escolheu desprezar precisamente aqueles que mais confiaram na promessa democrática da igualdade de oportunidades.

Albardeiro

GAVETAS

albardeiro, 04.12.25

Em entrevista ao Público no final de outubro, e quando questionado se era de esquerda, o candidato presidencial António José Seguro, apoiado pelo PS, demarcou-se de tal identificação, afirmando, “Eu percebo aonde é que me querem levar. Em Portugal, tentam meter as pessoas em gavetas, em departamentos. Eu dirijo-me a todos os portugueses, sejam eles de esquerda, de direita, de centro.”, ao que acrescentou, “Sou um defensor do Estado social, da qualidade dos serviços públicos e dos serviços públicos. Mas para isso, é necessário que haja criação de riqueza. E uma das minhas prioridades é contribuir para que o país crie mais riqueza. Ora, isso faz de mim o quê? Por que me tentam arrumar em gavetas?” (Público, 28/10/2025). Pretendendo “unir os portugueses em torno de valores”, afirmou-se defensor da liberdade, da igualdade, da fraternidade e da justiça social, e definiu-se como democrata, republicano, progressista e humanista. Mas recusou assumir-se como sendo de esquerda. Ao longo da entrevista, o seu grande mote foi que os valores unem e as etiquetas dividem, contrapondo as eleições presidenciais – assentes na personalidade dos candidatos – às eleições legislativas – onde se sufragam “propostas ideológicas e políticas”. Como se as personagens políticas fossem programaticamente inócuas (como podem então ser personalidades e, ainda para mais, políticas!) e, por outro lado, as etiquetas não decorressem dos valores e os valores não enformassem as etiquetas.

Fosse por hipocrisia, fosse por taticismo, rapidamente o spin da sua campanha o levou a arrepiar caminho e, alguns dias mais tarde, a assumir-se como um candidato de esquerda. Mas esta hesitação – chamemos-lhe assim! – é sintomática de um preconceito antigo, que pretende legitimar opções políticas, tentando obnubilar as diferenças ideológicas que as sustentam. É como parar o vento com as mãos. O objetivo é claro: se a ideologia é sempre dos outros, a nossa posição passa por ser a alternativa mais equilibrada, mais válida e impoluta. Só que a ideologia é uma constituinte indispensável da realidade social e, por isso, as alegações de desideologização são afirmações profundamente ideológicas… e, quase sempre, de direita!

Esta díade concetual está ancorada na realidade e a dicotomia que daí resulta não é meramente descritiva ou instrumental (embora a contingência histórica possa levar ao seu aprofundamento ou à sua mitigação), mas valorativa; esquerda e direita é uma distinção axiológica central do nosso universo político e social, e assim se manterá. O que é mais surpreendente não é que se tenha de confirmar periodicamente a identidade de cada uma das posições, procedimento que faz parte da normal afirmação ideológica, mas que se ponha em causa a legitimidade ou utilidade de tal distinção. É, aliás, paradoxal que se insista nesta litania, já que, ao fazê-lo, valida-se a sua existência e confirma-se a sua validade. Se já não faz sentido falar de esquerda e de direita, por que se teima em invocar esta dicotomia?

Com efeito, é difícil deixar de considerar as diferenças entre uma aspiração igualitária da sociedade, e uma naturalização das desigualdades sociais, entre uma preocupação primordial com o interesse público, ou a valorização do interesse particular, entre uma progressividade dos encargos e uma redistribuição equitativa da riqueza, e uma concentração dos recursos e apropriação privada dos benefícios, entre a cooperação e a concorrência, entre uma economia social e uma economia de mercado, entre a propensão para a inclusão ou para a exclusão. Tais distinções existem e são fundamentais para o nosso entendimento do mundo em que vivemos.

A pretendida superação desta oposição ficou bem patente na célebre afirmação de Margaret Thatcher, para quem a sua maior vitória política teria sido a criação do “New Labour” de Tony Blair. É sabido como a chamada Terceira Via (“Para além da Esquerda e da Direita”, foi precisamente o título do famoso livro de 1994 do principal ideólogo desta corrente, Anthony Giddens) teve enormes responsabilidades no agudizar das desigualdades e injustiças sociais na Grã-Bretanha – exatamente porque governou à direita, limitando-se a gerir, com outras roupagens, as políticas neoliberais – e na generalização, nos anos subsequentes, do ressentimento social e do crescimento da pulsão populista.

Na formulação exemplar de um texto ainda do século passado, publicado no El País/Visão, o escritor espanhol Antonio Muñoz Molina diz-nos, “Não é difícil ser de esquerda: o difícil é não sê-lo, se se olhar com atenção para o estado do mundo. A tristeza vem quando nos cansamos do desgosto pelas coisas, da rebeldia de ter posições políticas, de simpatizar com alguém, e desistimos do gesto mínimo, colossal, de introduzir um papel numa urna de eleições.” (Visão, 4/11/1999). A vergonha de ser de esquerda é, assim, intolerável. Uma coisa é certa: Seguro não merece o voto da esquerda.

 

 

 

Hugo Fernandez