A Gramática das Pedras
A aldeia ensinou-lhe a gramática silenciosa das pedras e o vocabulário secreto dos caminhos que serpenteavam entre oliveiras e azinheiras centenárias. Cada rua desse lugar guardava um nome murmurado pelos avós, cada ângulo escondia histórias que os adultos contavam a medo. Aprendeu a ler o mundo antes de decifrar alfabetos: o cheiro da chuva prenunciava a trovoada, o ladrar dos cães desenhava mapas invisíveis de territórios e hierarquias, o fumo das chaminés revelava quem cozinhava o quê em cada casa. As vizinhas falavam por códigos — um silêncio prolongado valia por três parágrafos de censura, um olhar de soslaio denunciava segredos que nenhuma boca ousaria pronunciar.
Na escola primária, entre paredes caiadas de fresco e o retrato severo de um presidente que não queriam esquecido, os sonhos nasciam feitos de giz e tinta azul. Brincava no recreio com pedras que se transformavam em tesouros, com paus que eram espadas de cavaleiros andantes, com imaginação suficiente para converter o pátio poeirento num reino sem fronteiras. Os livros de leitura traziam mundos improváveis: meninos de outras terras que tinham bicicletas e sapatos novos, enquanto ele calcorreava os mesmos caminhos que o pai e o avô haviam trilhado. Mas havia uma democracia peculiar naquelas páginas gastas — todos podiam sonhar gratuitamente, sem pagar por essa ousadia.
A adolescência chegou com a mudança para a vila maior, onde o liceu se erguia como catedral do conhecimento. Ali descobriu que o mundo cabia em mapas, que a história se escondia em datas e batalhas, que a geometria desenhava verdades absolutas num universo de certezas relativas. Os professores, uns cansados da vida, outros ainda iluminados por vocações intactas, apresentaram-lhe Camões, Garrett, Eça, Aquilino, Torga. Pela primeira vez, reconheceu-se nas páginas: aquele Portugal de contrastes violentos, de beleza agreste e melancolia estrutural, era o seu país interior.
A juventude explodiu em paixões desordenadas. Amou com a fúria de quem acabava de descobrir que o coração podia doer fisicamente, que os poemas não eram ornamentos, mas necessidades vitais. Escreveu manifestos em cadernos baratos, debateu Marx e Sartre em cafés “enfumaçados” onde o fumo misturava sonhos revolucionários com desilusões antigas. Projetou futuros utópicos em noites intermináveis: sociedades perfeitas onde a justiça não seria privilégio, mas direito inato, onde o pão se repartiria equitativamente e ninguém dormiria ao relento enquanto outros tivessem palácios.
Os livros tornaram-se território de exploração sistemática. Cervantes ensinou-lhe que a loucura pode ser a única sanidade possível num mundo invertido. Shakespeare revelou-lhe que reis e plebeus sangram o mesmo sangue vermelho quando a tragédia os visita. Dostoiévski mostrou-lhe os abismos da alma humana, aqueles lugares escuros onde convivem a santidade e o crime, a compaixão e a crueldade. Pessoa multiplicou-o em heterónimos, convencendo-o de que cada homem é uma multidão mal disfarçada de singularidade. A filosofia e a história ensinaram-lhe a questionar tudo, inclusive as questões.
Moldaram-no os amigos, aqueles companheiros de madrugada que partilhavam uns “copos” e as interrogações existenciais. Juntos, construíram utopias em conversas que se prolongavam até o amanhecer tingir o céu de rosa e cinzento. Discordavam violentamente sobre política, filosofia, estética, mas concordavam no essencial: o mundo precisava de ser reinventado. Alguns desses amigos desapareceriam com o tempo, tragados por carreiras convencionais ou por desilusões que os transformaram em cínicos prematuros. Outros permaneceram, constantes, envelhecendo ao seu lado, testemunhas fiéis de quem fora e de quem se tornara.
Construiu o seu próprio mundo com as mãos imperfeitas de todos os construtores. Não procurou a perfeição — sabia que ela era inimiga do realizado. Deixou fissuras propositadas nas paredes, janelas abertas para o imprevisto, portas sem fechaduras para que pudessem entrar os ventos da mudança. Deu ao mundo outra vida, perpetuando o ciclo antigo: tornou-se pai e compreendeu, com terror e maravilhado, que havia criado um refém da fortuna, alguém que não queria ferido pelas mesmas injustiças contra as quais ele próprio lutava (o mesmo para o filho de quem ele é pai).
A batalha por uma sociedade mais justa levou-o a reuniões intermináveis onde a retórica substituía frequentemente a ação. Conheceu a solidariedade genuína — aquela que não espera fotógrafos nem agradecimentos — mas também testemunhou como a vaidade se infiltra nos movimentos mais nobres, como os revolucionários de ontem se tornam os burocratas de hoje. A hipocrisia vestia roupas diversas: ora surgia como falsa modéstia de quem acumulava poder enquanto pregava renúncia, ora se manifestava no discurso progressista de quem mantinha privilégios intocáveis.
A dissimulação revelou-se arte complexa. Nos palácios do poder, fossem edifícios governamentais ou sedes empresariais, aprendeu a decifrar códigos subtis: o cumprimento efusivo que escondia punhais afiados, o elogio que precedia a traição, o silêncio que gritava desaprovação. Conheceu gentes desvairadas em todos os estratos sociais: não eram os pobres ou os ricos que enlouqueciam, mas aqueles que haviam perdido a bússola interior, substituindo-a por âncoras externas — dinheiro, estatuto, aprovação alheia.
Viajou por continentes onde o sol nascia e morria com cores diferentes. Pisou terras sagradas onde profetas haviam caminhado, contemplou ruínas de civilizações que se julgaram eternas, atravessou desertos que ensinavam humildade a qualquer soberba humana. Sobrevoou oceanos refletindo nas suas próprias contradições, reconhecendo-se em cada onda que nascia e morria sem deixar memória. Cada viagem subtraía-lhe certezas e adicionava-lhe perguntas.
Exerceu poder e curvou-se perante ele, compreendendo a dialética cruel desses verbos que se conjugam na mesma voz. Quando mandava, descobria que toda a autoridade é precária, que ninguém obedece por completo, que há sempre resistências subterrâneas minando as ordens mais imperativas. Quando era mandado, aprendia a arte da obediência seletiva, aquela que preserva a dignidade enquanto cumpre o essencial. O poder não o corrompeu completamente — havia uma parte dele que permanecia incorruptível, talvez aquele menino da aldeia que nunca crescera inteiramente.
O idealismo e o realismo habitavam-no simultaneamente, como irmãos gémeos em disputa constante. O idealista projetava futuros luminosos, acreditava na perfetibilidade humana, via em cada erro uma oportunidade de aprendizagem. O realista conhecia a natureza humana nas suas mesquinharias e grandezas, sabia que o progresso é sempre parcial e reversível, reconhecia que algumas batalhas são perdidas antes de começarem. Mas entre estes dois nunca houve síntese definitiva, apenas negociações diárias, armistícios temporários, compromissos que permitiam continuar.
A coragem não lhe faltou, embora não fosse a coragem teatral dos heróis impossíveis. Era a coragem mais modesta de levantar-se após cada queda, de recomeçar quando tudo aconselhava desistir, de dizer não quando o sim era mais confortável. A imaginação fértil salvou-o repetidamente: quando a realidade se tornava insuportável, inventava saídas improváveis que funcionavam contra todas as probabilidades.
Distinguia moinhos de gigantes porque lera Dom Quixote não como fábula infantil, mas como tratado filosófico sobre a condição humana. Compreendera que Cervantes não ridicularizava o cavaleiro andante — lamentava um mundo que o tornara impossível. Reconhecia estalagens mesmo quando outros juravam ver castelos, mas essa lucidez nunca degenerou em cinismo paralisante. Via o mundo tal como era sem renunciar ao que poderia ser.
Proteger os fracos tornou-se não apenas obrigação moral, mas necessidade psicológica. Cada injustiça testemunhada doía-lhe como ferida própria. Intervinha quando outros desviavam o olhar, arriscava-se quando o prudente era silenciar. Nem sempre vencia, frequentemente não vencia, mas a derrota nunca o convenceu a parar de tentar. Sabia que a justiça não é estado permanente, mas prática quotidiana, exercício diário de recusar a naturalização da opressão.
A verdade permaneceu a sua bússola inconstante. Não a Verdade absoluta das doutrinas totalitárias, mas as verdades modestas que se podem verificar, debater, corrigir. Mentiu raramente e quando o fez, ficou-lhe o sabor amargo de quem traiu princípios essenciais. Preferiu sempre a verdade inconveniente à mentira confortável, mesmo quando isso lhe custou amizades, oportunidades, tranquilidade.
No final, embora finais sejam sempre provisórios para quem continua vivo, restavam pegadas na areia de muitas praias. Algumas haviam sido apagadas pela maré do esquecimento, outras permaneciam gravadas em rochas que resistiriam ao tempo. Não construíra monumentos, mas plantara árvores cujas sombras abrigariam gente que nunca conheceria. Não deixava fortuna, mas legava exemplo — imperfeito, contraditório, humano.
Olhando para trás, reconhecia que fora simultaneamente ator e espetador da própria vida. Tomara decisões que mudaram trajetórias, mas também fora moldado por forças que não controlava: o acaso de ter nascido naquela aldeia e não noutra, naquele século e não noutro, naquela família e não noutra. A liberdade e o destino teceram juntos o tecido irregular da sua existência.
E se lhe perguntassem (perguntarem) qual fora o sentido de tudo, talvez respondesse que o sentido estava precisamente em não haver sentido único, em ter recusado narrativas simples para viver a complexidade real. Ou talvez dissesse, mais simplesmente, que tentara, com todos os erros e acertos, com todas as quedas e ressurreições, ser decente num mundo que nem sempre recompensava a decência. E isso, no fim de contas, era o suficiente.
Continuação de BOM domingo.
Albardeiro