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albardeiro

Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!

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Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!

A Gramática das Pedras

albardeiro, 23.11.25

A aldeia ensinou-lhe a gramática silenciosa das pedras e o vocabulário secreto dos caminhos que serpenteavam entre oliveiras e azinheiras centenárias. Cada rua desse lugar guardava um nome murmurado pelos avós, cada ângulo escondia histórias que os adultos contavam a medo. Aprendeu a ler o mundo antes de decifrar alfabetos: o cheiro da chuva prenunciava a trovoada, o ladrar dos cães desenhava mapas invisíveis de territórios e hierarquias, o fumo das chaminés revelava quem cozinhava o quê em cada casa. As vizinhas falavam por códigos — um silêncio prolongado valia por três parágrafos de censura, um olhar de soslaio denunciava segredos que nenhuma boca ousaria pronunciar.

Na escola primária, entre paredes caiadas de fresco e o retrato severo de um presidente que não queriam esquecido, os sonhos nasciam feitos de giz e tinta azul. Brincava no recreio com pedras que se transformavam em tesouros, com paus que eram espadas de cavaleiros andantes, com imaginação suficiente para converter o pátio poeirento num reino sem fronteiras. Os livros de leitura traziam mundos improváveis: meninos de outras terras que tinham bicicletas e sapatos novos, enquanto ele calcorreava os mesmos caminhos que o pai e o avô haviam trilhado. Mas havia uma democracia peculiar naquelas páginas gastas — todos podiam sonhar gratuitamente, sem pagar por essa ousadia.

A adolescência chegou com a mudança para a vila maior, onde o liceu se erguia como catedral do conhecimento. Ali descobriu que o mundo cabia em mapas, que a história se escondia em datas e batalhas, que a geometria desenhava verdades absolutas num universo de certezas relativas. Os professores, uns cansados da vida, outros ainda iluminados por vocações intactas, apresentaram-lhe Camões, Garrett, Eça, Aquilino, Torga. Pela primeira vez, reconheceu-se nas páginas: aquele Portugal de contrastes violentos, de beleza agreste e melancolia estrutural, era o seu país interior.

A juventude explodiu em paixões desordenadas. Amou com a fúria de quem acabava de descobrir que o coração podia doer fisicamente, que os poemas não eram ornamentos, mas necessidades vitais. Escreveu manifestos em cadernos baratos, debateu Marx e Sartre em cafés “enfumaçados” onde o fumo misturava sonhos revolucionários com desilusões antigas. Projetou futuros utópicos em noites intermináveis: sociedades perfeitas onde a justiça não seria privilégio, mas direito inato, onde o pão se repartiria equitativamente e ninguém dormiria ao relento enquanto outros tivessem palácios.

Os livros tornaram-se território de exploração sistemática. Cervantes ensinou-lhe que a loucura pode ser a única sanidade possível num mundo invertido. Shakespeare revelou-lhe que reis e plebeus sangram o mesmo sangue vermelho quando a tragédia os visita. Dostoiévski mostrou-lhe os abismos da alma humana, aqueles lugares escuros onde convivem a santidade e o crime, a compaixão e a crueldade. Pessoa multiplicou-o em heterónimos, convencendo-o de que cada homem é uma multidão mal disfarçada de singularidade. A filosofia e a história ensinaram-lhe a questionar tudo, inclusive as questões.

Moldaram-no os amigos, aqueles companheiros de madrugada que partilhavam uns “copos” e as interrogações existenciais. Juntos, construíram utopias em conversas que se prolongavam até o amanhecer tingir o céu de rosa e cinzento. Discordavam violentamente sobre política, filosofia, estética, mas concordavam no essencial: o mundo precisava de ser reinventado. Alguns desses amigos desapareceriam com o tempo, tragados por carreiras convencionais ou por desilusões que os transformaram em cínicos prematuros. Outros permaneceram, constantes, envelhecendo ao seu lado, testemunhas fiéis de quem fora e de quem se tornara.

Construiu o seu próprio mundo com as mãos imperfeitas de todos os construtores. Não procurou a perfeição — sabia que ela era inimiga do realizado. Deixou fissuras propositadas nas paredes, janelas abertas para o imprevisto, portas sem fechaduras para que pudessem entrar os ventos da mudança. Deu ao mundo outra vida, perpetuando o ciclo antigo: tornou-se pai e compreendeu, com terror e maravilhado, que havia criado um refém da fortuna, alguém que não queria ferido pelas mesmas injustiças contra as quais ele próprio lutava (o mesmo para o filho de quem ele é pai).

A batalha por uma sociedade mais justa levou-o a reuniões intermináveis onde a retórica substituía frequentemente a ação. Conheceu a solidariedade genuína — aquela que não espera fotógrafos nem agradecimentos — mas também testemunhou como a vaidade se infiltra nos movimentos mais nobres, como os revolucionários de ontem se tornam os burocratas de hoje. A hipocrisia vestia roupas diversas: ora surgia como falsa modéstia de quem acumulava poder enquanto pregava renúncia, ora se manifestava no discurso progressista de quem mantinha privilégios intocáveis.

A dissimulação revelou-se arte complexa. Nos palácios do poder, fossem edifícios governamentais ou sedes empresariais, aprendeu a decifrar códigos subtis: o cumprimento efusivo que escondia punhais afiados, o elogio que precedia a traição, o silêncio que gritava desaprovação. Conheceu gentes desvairadas em todos os estratos sociais: não eram os pobres ou os ricos que enlouqueciam, mas aqueles que haviam perdido a bússola interior, substituindo-a por âncoras externas — dinheiro, estatuto, aprovação alheia.

Viajou por continentes onde o sol nascia e morria com cores diferentes. Pisou terras sagradas onde profetas haviam caminhado, contemplou ruínas de civilizações que se julgaram eternas, atravessou desertos que ensinavam humildade a qualquer soberba humana. Sobrevoou oceanos refletindo nas suas próprias contradições, reconhecendo-se em cada onda que nascia e morria sem deixar memória. Cada viagem subtraía-lhe certezas e adicionava-lhe perguntas.

Exerceu poder e curvou-se perante ele, compreendendo a dialética cruel desses verbos que se conjugam na mesma voz. Quando mandava, descobria que toda a autoridade é precária, que ninguém obedece por completo, que há sempre resistências subterrâneas minando as ordens mais imperativas. Quando era mandado, aprendia a arte da obediência seletiva, aquela que preserva a dignidade enquanto cumpre o essencial. O poder não o corrompeu completamente — havia uma parte dele que permanecia incorruptível, talvez aquele menino da aldeia que nunca crescera inteiramente.

O idealismo e o realismo habitavam-no simultaneamente, como irmãos gémeos em disputa constante. O idealista projetava futuros luminosos, acreditava na perfetibilidade humana, via em cada erro uma oportunidade de aprendizagem. O realista conhecia a natureza humana nas suas mesquinharias e grandezas, sabia que o progresso é sempre parcial e reversível, reconhecia que algumas batalhas são perdidas antes de começarem. Mas entre estes dois nunca houve síntese definitiva, apenas negociações diárias, armistícios temporários, compromissos que permitiam continuar.

A coragem não lhe faltou, embora não fosse a coragem teatral dos heróis impossíveis. Era a coragem mais modesta de levantar-se após cada queda, de recomeçar quando tudo aconselhava desistir, de dizer não quando o sim era mais confortável. A imaginação fértil salvou-o repetidamente: quando a realidade se tornava insuportável, inventava saídas improváveis que funcionavam contra todas as probabilidades.

Distinguia moinhos de gigantes porque lera Dom Quixote não como fábula infantil, mas como tratado filosófico sobre a condição humana. Compreendera que Cervantes não ridicularizava o cavaleiro andante — lamentava um mundo que o tornara impossível. Reconhecia estalagens mesmo quando outros juravam ver castelos, mas essa lucidez nunca degenerou em cinismo paralisante. Via o mundo tal como era sem renunciar ao que poderia ser.

Proteger os fracos tornou-se não apenas obrigação moral, mas necessidade psicológica. Cada injustiça testemunhada doía-lhe como ferida própria. Intervinha quando outros desviavam o olhar, arriscava-se quando o prudente era silenciar. Nem sempre vencia, frequentemente não vencia, mas a derrota nunca o convenceu a parar de tentar. Sabia que a justiça não é estado permanente, mas prática quotidiana, exercício diário de recusar a naturalização da opressão.

A verdade permaneceu a sua bússola inconstante. Não a Verdade absoluta das doutrinas totalitárias, mas as verdades modestas que se podem verificar, debater, corrigir. Mentiu raramente e quando o fez, ficou-lhe o sabor amargo de quem traiu princípios essenciais. Preferiu sempre a verdade inconveniente à mentira confortável, mesmo quando isso lhe custou amizades, oportunidades, tranquilidade.

No final, embora finais sejam sempre provisórios para quem continua vivo, restavam pegadas na areia de muitas praias. Algumas haviam sido apagadas pela maré do esquecimento, outras permaneciam gravadas em rochas que resistiriam ao tempo. Não construíra monumentos, mas plantara árvores cujas sombras abrigariam gente que nunca conheceria. Não deixava fortuna, mas legava exemplo — imperfeito, contraditório, humano.

Olhando para trás, reconhecia que fora simultaneamente ator e espetador da própria vida. Tomara decisões que mudaram trajetórias, mas também fora moldado por forças que não controlava: o acaso de ter nascido naquela aldeia e não noutra, naquele século e não noutro, naquela família e não noutra. A liberdade e o destino teceram juntos o tecido irregular da sua existência.

E se lhe perguntassem (perguntarem) qual fora o sentido de tudo, talvez respondesse que o sentido estava precisamente em não haver sentido único, em ter recusado narrativas simples para viver a complexidade real. Ou talvez dissesse, mais simplesmente, que tentara, com todos os erros e acertos, com todas as quedas e ressurreições, ser decente num mundo que nem sempre recompensava a decência. E isso, no fim de contas, era o suficiente.

Continuação de BOM domingo.

Albardeiro

A Sintaxe Condicional da Utopia Portuguesa: O Peso do "Se"

albardeiro, 18.11.25

A língua portuguesa, na sua infinita sabedoria gramatical, reservou uma partícula notável para aquilo que jamais acontecerá: o "se". Duas letras que carregam o peso de um país inteiro suspenso entre o desejo e a resignação, entre o plano quinquenal e a eternidade.
Se tivéssemos salários condignos — e aqui convém sublinhar a palavra "condignos", essa relíquia vocabular que só emerge em discursos sindicais e programas eleitorais — talvez pudéssemos discutir se o problema é mesmo salarial ou existencial. Mas não temos. Temos ordenados que nos permitem escolher entre pagar a renda ou ir ao dentista, nunca ambos, porque a dor de dentes, como se sabe, é opcional quando comparada com o desabrigo. A classe média descobriu que pertence à classe baixa, mas continua a usar a mesma gramática condicional, como quem recusa aceitar o diagnóstico.
Tomemos o caso do Serviço Nacional de Saúde. Se o SNS fosse mais eficaz — frase que todos proferem com a mesma convicção com que se discute a existência de unicórnios — poderíamos ter consultas em tempo útil. Mas "tempo útil" é um conceito relativo: útil para quem está a morrer, certamente; para quem marca uma consulta de rotina em 2025 para 2027, menos. O SNS funciona segundo princípios darwinianos modernos: sobrevive quem consegue esperar. Os hospitais tornaram-se ginásios de paciência, onde se exercita a capacidade de permanecer sentado numa cadeira de plástico durante sete horas, rodeado de gripes, fraturas e crises existenciais alheias. A triagem não avalia apenas a gravidade clínica, mas a perseverança filosófica do utente.
Se houvesse justiça social — e eis onde a retórica colide frontalmente com a aritmética — os filhos dos deputados frequentariam as mesmas escolas que os filhos dos cantoneiros. Mas existe uma justiça social muito portuguesa: aquela que garante que todos têm igual direito a sonhar com uma vida melhor, desde que não a alcancem simultaneamente. A mobilidade social foi substituída pela mobilidade geográfica: os jovens licenciados não sobem na hierarquia, emigram. O elevador social avariou nos anos oitenta e ninguém chamou o técnico porque, bem, se houvesse manutenção preventiva... mas não há, nunca houve, e quando finalmente a pedirem será tarde de mais.
O planeamento — essa palavra mágica que os políticos pronunciam como um feitiço destinado a adormecer audiências — existe apenas no particípio passado ou no futuro imperfeito. Se tivéssemos planeamento a longo prazo, Portugal não seria o país onde as obras públicas começam seis meses antes das eleições e ficam inacabadas por duas décadas. Temos viadutos para lado nenhum, rotundas que desembocam em olivais e metropolitanos cujas extensões existem mais nos mapas promocionais que na realidade topográfica. O ordenamento do território português segue a lógica do Tetris jogado por alguém com tremuras: as peças caem ao acaso, algumas encaixam por sorte, a maioria fica a flutuar no ar desafiando as leis da física e do bom senso.
A habitação merece capítulo próprio nesta hagiografia do absurdo condicional. Se o mercado imobiliário fosse regulado — frase que provoca urticária ideológica em economistas liberais e gargalhadas em investidores estrangeiros — os portugueses poderiam viver em Portugal. Conceito revolucionário, certamente. Em Lisboa, um T1 custa o equivalente a uma vida de salário mínimo. Solução óbvia: jejuar durante esses anos, ou melhor ainda, trabalhar esses anos sem dormir porque, afinal, se a legislação laboral fosse cumprida... . Há horas extraordinárias que de extraordinário só têm a designação; o resto é ordinário, obrigatório e não pago (exceto para os "dermatologistas" e afins).
O sistema educativo ilustra na perfeição esta gramática do impossível. Se os professores fossem valorizados — tanto financeira quanto simbolicamente — não teríamos escolas a encerrar turmas por falta de docentes que preferiram servir cafés ou emigrar para sítios onde "professor" não é sinónimo de "mártir mal remunerado". Os alunos aprendem desde cedo a conjugar o verbo "desistir" em todos os tempos e modos. As instalações escolares, essas, oscilam entre o degradado e o ruinoso, com pavilhões pré-fabricados que resistem há trinta anos, desafiando todas as previsões de longevidade e senso comum arquitetónico.
Se os transportes públicos funcionassem — condicional tão improvável quanto um Inverno sem greves da CP — poderíamos prescindir do automóvel individual. Mas funcionam segundo calendários quânticos: o comboio está simultaneamente atrasado e cancelado até ao momento em que observamos a aplicação, colapsando então numa das duas realidades. Os autocarros respeitam horários escritos em tinta invisível, visível apenas para iniciados em artes divinatórias.
A cultura política nacional é pródiga em condicionais impossíveis. Se os políticos cumprissem promessas — hipótese tão plausível quanto nevar no Algarve em Agosto — a abstenção eleitoral não seria desporto nacional. Mas vivemos numa democracia representativa onde os representantes representam maioritariamente os seus próprios interesses, numa mise en abyme corporativa que faria corar Escher. Os programas eleitorais são ficção científica sem a ciência: pura especulação sobre universos paralelos onde o erário é infinito e a corrupção uma palavra sem tradução.
Se tivéssemos políticas ambientais coerentes — e não apenas fotocalls com árvores plantadas às vésperas das chuvas de Setembro — talvez as florestas não ardessem com a regularidade de um relógio suíço incendiário. Mas optámos pela estratégia do eucalipto: cresce rápido, arde melhor, repete-se anualmente. O país transformou-se num pira piro-dependente, onde os Canadair são presença estival mais certa que os turistas.
A ironia suprema desta sintaxe condicional reside num facto: todos conhecemos as soluções. Não é ignorância, é preferência pela inércia. Portugal não é o país do "não sabemos", é o país do "sabemos perfeitamente, mas se mudássemos realmente alguma coisa implicaria incomodar quem não quer ser incomodado, e isso, meus amigos, isso é que seria verdadeiramente revolucionário.
Por isso continuamos a conjugar condicionais, esse tempo verbal do desalento disfarçado de esperança, onde mora toda a nossa incapacidade coletiva de converter gramática em ação. O "se" tornou-se o epitáfio nacional: aqui jaz um país que sabia exatamente o que fazer, se tivesse coragem, vontade ou, quem sabe, apenas um pouco menos de apego cómodo à própria mediocridade.

Albardeiro

A Normalização do Ridículo: Como o Benfica Elegeu a Própria Irrelevância

albardeiro, 09.11.25

Existe um momento preciso em que um clube deixa de ser uma instituição desportiva e se transforma em anedota. O Benfica atravessou essa fronteira sem resistência, sob a presidência de Rui Costa, e depois elegeu-o novamente para garantir que permaneceria do lado errado da história. Não por ignorância do estado das coisas — toda a gente vê, toda a gente sabe, toda a gente sofre. Por algo mais insidioso: a aceitação gradual do inaceitável, até que o ridículo se torna rotina e a mediocridade passa por normalidade.

Cinquenta anos de Estádio da Luz — 1954 a 2004 — produziram quatro derrotas na Liga dos Campeões em casa. Meio século de domínio transformou aquele recinto num santuário intimidante onde as grandes equipas europeias vinham perder. Nos últimos doze jogos dessa mesma competição, no mesmo estádio rebatizado mas esvaziado de mística, acumularam-se oito derrotas. A inversão é tão brutal que desafia a probabilidade estatística. Não se destrói um legado desta magnitude por azar ou conjuntura — destrói-se por incompetência sistemática, perpetuada eleição após eleição.

A contabilidade mórbida de quatro anos de Rui Costa como presidente titular revela uma proeza singular: transformar o Benfica no clube que mais gasta e menos ganha entre os ditos grandes. Um único título em quatro temporadas possíveis. Fortunas despejadas em contratações falhadas enquanto rivais com orçamentos fracionários acumulam troféus. Esta combinação — desperdício financeiro máximo, retorno desportivo mínimo — constituiria, em qualquer organização minimamente funcional, motivo para destituição imediata. No Benfica, constituiu credencial para reeleição.

Porque o eleitorado não escolheu Rui Costa apesar dos resultados. Escolheu-o precisamente por causa deles. Escolheu a garantia de que nada mudaria, de que as derrotas continuariam a acumular-se com regularidade burocrática, de que cada temporada traria novas humilhações cuidadosamente embaladas em discursos sobre "competitividade" e "processos". A derrota, antes exceção traumática, banalizou-se até se tornar expectativa.

"Perdemos mas fomos competitivos" — eis o epitáfio que Rui Costa esculpe para o Benfica. Esta frase, repetida após cada eliminação vergonhosa, cada título falhado, cada humilhação europeia, cristaliza a ambição presidencial: não ganhar, mas perder com dignidade suficiente para evitar demissão. É uma revolução semântica que subverte o próprio conceito de clube grande. Nos grandes clubes, competitividade é ponto de partida, não ponto de chegada. Vitórias são obrigação, não aspiração. Derrotas exigem consequências, não eufemismos.

Mas esta normalização linguística produz efeitos concretos. Quando perder se transforma em "ser competitivo", quando falhar sistematicamente passa por "estar no caminho certo", quando a mediocridade institucionalizada é vendida como "estabilidade", o clube perde a própria noção do que deveria ser. Transforma-se em versão caricatural de si próprio — ainda usa os mesmos símbolos, ainda ocupa o mesmo estádio, mas já não reconhece na vitória um imperativo existencial.

O Benfica tornou-se no meme do campeonato português. Não pela dimensão do plantel ou pelo orçamento — ambos continuam superiores. Pelo contraste grotesco entre recursos e resultados, entre pompa e desempenho, entre o que promete e o que entrega. Os rivais agradecem, comovidos, aos sócios que garantiram a continuidade de Rui Costa. Porque sabem que cada ano de Costa é mais um ano em que não precisam de se preocupar verdadeiramente com o Benfica.

Esta degradação não aconteceu por acidente. Resultou de escolhas deliberadas, repetidas, ratificadas democraticamente. Equipas desmanteladas anualmente, impossibilitando qualquer construção de projeto. Treinadores queimados por falta de condições estruturais, culpabilizados pelos fracassos da gestão. Modalidades abandonadas à míngua enquanto o futebol masculino devora recursos sem produzir resultados. Futebol feminino deliberadamente destruído quando começava a ter visibilidade internacional. Formação esvaziada de identidade e propósito.

Cada uma destas falências foi pública, documentada, irreversível. E os sócios, confrontados com o inventário completo do desastre, escolheram mantê-lo. Não por falta de alternativa — qualquer mudança constituiria melhoria face ao instalado. Por medo de que uma mudança real obrigasse a reconhecer cumplicidade em dezassete anos de declínio.

Vivemos tempos estranhos, em que a incompetência demonstrada se transforma em experiência relevante. Rui Costa gastou dezassete anos a provar que não tem qualificações para dirigir o Benfica — treze como vice-presidente omisso, quatro como presidente desastroso. Cada fracasso deveria ter-lhe custado credibilidade. Em vez disso, acumulou-os até converter a sequência de falhanços em curriculum vitae. Como se perder consecutivamente ensinasse a ganhar, como se gerir mal durante anos preparasse para gerir bem no futuro.

Esta lógica perversa só funciona porque existe uma cumplicidade tácita entre dirigente incompetente e eleitorado acomodado. Rui Costa oferece a ilusão de continuidade, a promessa de que as derrotas futuras não serão piores que as passadas. O eleitorado aceita essa mediocridade garantida porque exigir mais obrigaria a reconhecer que desperdiçou décadas a apoiar quem não o merecia. É um pacto de mediocridade mútua: ele não entrega resultados, eles não exigem consequências.

Ninguém respeita este Benfica. Ninguém o teme. Ninguém o protege. Tornámo-nos no clube onde toda a gente vem pontuar, no adversário que qualquer equipa europeia recebe com alívio, na "equipa grande" que os rivais nacionais enfrentam sem receio porque sabem que, perante dificuldade, este Benfica não reage — desmorona.

A palavra que melhor define a gestão Rui Costa é "amorfo". Sem forma definida, sem identidade reconhecível, sem espinha dorsal institucional. Um Benfica que não sabe o que quer ser, que muda de pele a cada temporada sem nunca encontrar a própria, que importa modelos estrangeiros sem os adaptar, que contrata nomes sem construir equipas, que acumula craques individuais incapazes de funcionar coletivamente.

Esta amorfidade contamina tudo. Não existe projeto desportivo coerente, apenas sucessões de reações às últimas derrotas. Não existe estratégia financeira sustentável, apenas remendos orçamentais que vão empurrando o passivo para os próximos mandatos. Não existe comunicação institucional credível, apenas silêncios estratégicos interrompidos por declarações vazias. Não existe liderança que inspire confiança, apenas gestão que inspira resignação.

E o mais surreal: foi precisamente isto que os sócios escolheram perpetuar. Não por satisfação com o estado das coisas, mas por incapacidade de imaginar alternativa. Acomodaram-se à mediocridade até ao ponto em que mudar parecia mais assustador que continuar a afundar. Preferiram o Benfica amorfo e aborrecido ao risco de um Benfica que tentasse recuperar o que foi.

Sporting e Porto não podem dar-se ao luxo de normalizar derrotas porque não têm a almofada financeira que o Benfica ainda conserva. Cada falhanço ameaça-lhes a sustentabilidade imediata, obriga-os a reagir, força-os a mudar. O Benfica, pelo contrário, pode perder indefinidamente porque as receitas comerciais, os sócios, o património acumulado permitem-lhe sobreviver à incompetência. Esta capacidade de absorver fracassos sem colapsar imediato transformou-se em maldição: eliminou a pressão que forçaria mudança.

Rui Costa pode perder campeonatos, esvaziar estádios, acumular eliminações humilhantes — e continuar, porque o clube aguenta. É uma espécie de imortalidade burocrática: demasiado grande para morrer, demasiado acomodado para viver verdadeiramente. Os rivais agradecem este conforto mórbido que anestesia a exigência. Sabem que enquanto o Benfica se contentar com "ser competitivo", enquanto celebrar incompetência como experiência, enquanto normalizar o inaceitável, não representa ameaça real.

A questão já não é se Rui Costa tem capacidade para reverter o que destruiu — dezassete anos provaram que não tem. A questão é se os benfiquistas conseguirão, algum dia, recuperar a capacidade de se indignar com derrotas, de exigir consequências para fracassos, de recusar a mediocridade mesmo quando ela vem embalada em discursos sobre estabilidade. Porque enquanto continuarem a escolher conscientemente quem os transformou em piada, o problema já não é apenas do presidente. É de quem o mantém.


Albardeiro