PÓS-VERDADE
Ou a “apologia da mentira descarada”, apetecia-me acrescentar como subtítulo deste texto. Desde sempre, a distorção da realidade, a propaganda enganadora e a manipulação ideológica, fizeram parte da ação política, em especial em contextos de afirmação de poder ou de guerra. Ficou célebre o slogan “2+2=5” do romance distópico Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, de George Orwell, em que o delegado do Partido, O’Brian, faz Winston Smith – ele próprio funcionário do “Ministério da Verdade” (cujo objetivo era, precisamente, vigiar a informação, reescrever a história e apagar certos assuntos) – acreditar que dois mais dois é igual a cinco, não porque essa equação fosse verdadeira, mas porque esta era a expressão exemplar da anulação de qualquer sentido crítico ou da possibilidade de liberdade de pensamento, assim padronizando crenças e comportamentos e sujeitando os indivíduos aos ditames do ditador omnipresente, o Big Brother. Bem mais real foi a tristemente famosa mentira dos EUA e seus aliados sobre a existência de armas de destruição maciça no Iraque de Saddam Hussein, para justificar a invasão deste país em 2003 (e não a necessidade americana de manutenção da produção de petróleo iraquiano a baixo preço), criando uma enorme convulsão no Médio Oriente, com consequências que ainda hoje se fazem sentir. São inúmeras as situações em que tal sucedeu.
Mas quando a mentira é sistemática e se erige a política de Estado, entramos no mundo da “pós-verdade”. E aqui, os consulados Trump têm sido das mais impressionantes manifestações deste fenómeno. Todos nos lembramos das declarações do assessor de imprensa da Casa Branca, Sean Spicer, alegando que a multidão na tomada de posse do primeiro governo de Trump, em 2017, “era a maior já vista”, apesar de todas as evidências documentais e testemunhais em contrário. E do que disse Kellyanne Conway, assessora sénior do presidente, no programa Meet the Press da NBC, quando o seu apresentador, Chuck Todd a confrontou com a falsidade dessas declarações: “O nosso assessor de imprensa, Sean Spicer, apresentou factos alternativos para essa questão.” Não fez mais, aliás, do que seguir a mesma linha de efabulação do seu chefe. A propósito dos atentados do 11 de setembro de 2001, Donald Trump, então apenas candidato presidencial republicano, afirmou num comício no Alabama, em 2015: “Eu assisti ao desmoronamento do World Trade Center. E assisti em Jersey City, na Nova Jérsia, a milhares e milhares de pessoas a aplaudir quando o edifício estava a cair. Milhares de pessoas estavam a aplaudir”, insistiu. Apesar de prontamente desmentido pelas autoridades locais e policiais, repetiu o dislate, dias depois, numa entrevista no programa This Week da ABC: “Aconteceu de facto. Eu vi-o […]. Estava a dar na televisão. Eu vi-o. Havia pessoas que estavam a aplaudir do outro lado de Nova Jérsia, onde há grandes populações árabes. Estavam a aplaudir quando o World Trade Center caiu” (cf. Stuart Jeffries, Tudo, a Toda a Hora, em Todo o Lado – como nos tornámos pós-modernos, Lisboa, Zigurate, 2024, pp. 325-326). E os exemplos podiam-se multiplicar exponencialmente.
Um dos últimos casos, teve a ver com o despedimento de Erika McEntarfer, a diretora do gabinete americano de estatísticas, o Bureau of Labour Statistics, em consequência da queda dos números do emprego. Donald Trump acusou este organismo de manipulação, mas, como é habitual, sem apresentar qualquer prova disso. Na sua rede social Truth Social, Trump alega, pelo contrário, que a economia está a “florescer”. Como disse, a este propósito, o cartoonista Luís Afonso, no seu conhecido Bartoon, “Que decisão mais idiota/Publicar dados do emprego sem que eles estejam a subir…” (Público, 3/8/2025). Pois…!
Do domínio do anedotário, passamos para algo bem mais sério e dramático. No final de julho, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, chocou o mundo quando afirmou que “Não há fome em Gaza.” No que alegou ser a “batalha pela verdade”, declarou, numa conferência em Jerusalém, que “Israel é apresentado como se estivesse aplicando uma campanha de fome em Gaza. Que mentira ousada! Não há política de fome em Gaza. E não há fome em Gaza.” As reações foram imediatas: "Os fatos estão aí, e são inegáveis", afirmou o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres. E acrescentou: "Os palestinos em Gaza estão enfrentando uma catástrofe humanitária de proporções épicas. Isso não é um aviso. É uma realidade que se desenrola diante dos nossos olhos." Gaza enfrenta “pior cenário possível de fome”, diz órgão de segurança alimentar ligado à ONU, calculando que uma em cada cinco crianças está em situação de desnutrição na Cidade de Gaza. Para além dos cerca de 60 mil mortos resultantes dos ataques israelitas, a Organização Mundial de Saúde calcula que, desde maio, não só centenas de pessoas – sobretudo crianças – já morreram de fome, como foram abatidos mais de mil palestinianos a tentarem ter acesso a alimentos. Até Donald Trump, desmente o seu comparsa: "Isso é fome de verdade. Eu vejo isso e não dá para fingir.” Como é possível dizer-se que algo que é real e amplamente comprovado, não existe. Pode-se disfarçar, mas não há como desmentir. E se, nos primeiros exemplos, estamos apenas perante o espetáculo do grotesco, neste último, estamos a falar de atos criminosos. No primeiro caso, apenas o ego de Trump sai magoado; são os desabafos de um imbecil egocêntrico e mentiroso patológico. Nesta última situação, promove-se o genocídio do povo palestiniano: é um carrasco que fala.
Como refere a economista Susana Peralta, “A sinistra Gaza Humanitarian Foundation, montada e gerida pelo exército israelita, não distribui alimentos nas zonas de maior concentração de civis e o que distribui não está pronto para ser consumido – um requinte de malvadez, numa terra sem água nem combustível para cozinhar.” E cita Rhoda Howard-Hassmann, uma académica judia canadiana, especialista em Direitos Humanos que, numa carta enviada ao embaixador de Israel no Canadá, declara sem contemplações: “O primeiro-ministro Netanyahu negou que exista fome em Gaza. Isto é uma mentira descarada. Israel está a praticar o que a falecida académica (judaica) Helen Fein chamou de genocídio por exaustão. Um exemplo de genocídio por exaustão é o Holocausto. Os judeus que não foram assassinados de imediato, foram mortos à fome, tanto nos campos como nos guetos.” (Público, 1/8/2025).
De igual forma, duas organizações não governamentais israelitas acusaram o governo de Israel de genocídio: B’Tselem e os Médicos Pelos Direitos Humanos de Israel. Segundo as declarações de Daphna Shochat, diretora executiva da B’Tselem, “Nada te prepara para te dares conta de que fazes parte de uma sociedade que comete genocídio. Este é um momento profundamente doloroso para nós”, mas “É crucial dar nomes às coisas neste momento.” (Público, 1/8/2025). Também um dos mais conhecidos escritores israelitas, David Grossman, acusou as autoridades israelitas de estarem a provocar um genocídio em Gaza. Numa entrevista ao jornal italiano La Repubblica, afirma, “Durante muitos anos, recusei-me a usar o termo genocídio, […] mas agora não consigo evitar, não depois do que li nos jornais, não depois das imagens que vi, não depois de falar com pessoas que lá estiveram, não posso evitar usá-lo”, ainda que o faça, confessa, “com uma dor imensa e de coração partido”. Mas este pai, que perdeu um filho morto em combate no Líbano, em 2006, vai mais longe: “Pergunto-me: como chegámos aqui? Como é que chegámos a ser acusados de genocídio? Basta pronunciar essa palavra – genocídio – em referência a Israel, ao povo judeu: só isso, o facto de que essa associação possa nem sequer ser feita, já deveria ser suficiente para nos dizer que está a acontecer connosco algo de muito errado.” (Público, 2/8/2025).
O governo de Netanyahu, envergonha os seus antepassados e escarnece do Holocausto. Que pena merece?
Hugo Fernandez