O Benfica: a Mediocridade e a Agonia do Presente Perpétuo
O Sport Lisboa e Benfica já não é um clube; é um espelho partido que reflete, em estilhaços, a decadência de um projeto outrora maior que o futebol. A sua gestão, nas últimas décadas, não foi apenas incompetente – foi traiçoeira. Traiu a história ao substituí-la por propaganda, a ambição por conformismo, o futuro por um ciclo vicioso de promessas e desilusões. Tal como um regime que se esgota na retórica vazia, o Benfica deixou-se seduzir pelo fetichismo do imediato: contratos inflacionados, decisões sem estratégia, uma liderança que confunde hashtags com legado.
A crise não é desportiva; é existencial. Um clube que já uniu um país em torno da excelência hoje sobrevive de nostalgia e medo, como um velho aristocrata a vender as pratas para pagar as dívidas. O problema não é perder títulos – é não saber sequer o que quer ganhar. O Benfica tornou-se um negócio de emoções a prazo, onde sócios são tratados como consumidores de um produto em falência técnica. E quando um clube deixa de ser um movimento coletivo para se tornar um simulacro, a devoção cega transforma-se em cumplicidade com a decadência.
Não se exige um regresso ingénuo aos "tempos áureos" – exige-se, sim, que o clube deixe de usar o passado como desculpa para a mediocridade do presente. Os adeptos não são fiéis a quem os despreza; merecem mais do que a tirania do "quase" e a demagogia do "ano que vem". O Benfica precisa não de reformas, mas de uma rutura: uma revolução que enterre o culto do improviso e restitua a clareza de rumo.
O que está em jogo não é só a ausência de títulos, mas a própria razão de existir do clube. Grandes instituições não morrem por falta de recursos; morrem por falta de ideias. E o Benfica, hoje, é um gigante sem convicção, condenado a oscilar entre a euforia efémera e o desastre previsível. Se quer resgatar a alma, terá de entender que a grandeza não se herda – reconquista-se, com coragem para cortar com os vícios do presente.
A verdadeira tragédia não é a seca de títulos, mas a normalização da pequenez. Quando um clube como o Benfica se resigna a ser gerido como uma empresa de gestão medíocre, quando aceita que o seu destino seja ditado por interesses de curto prazo, quando troca a ambição desportiva pelo equilíbrio contabilístico, o que não isso acontece, está a abdicar do seu lugar na história. Não é a falta de campeonatos que o diminui – é a falta de audácia para os conquistar.
Os grandes clubes não são feitos apenas de vitórias, mas de uma cultura que as sustenta. O Benfica, hoje, não tem projeto desportivo, não tem filosofia de jogo, não tem sequer a noção clara de que jogadores quer formar ou contratar. Vive de reações, não de visão. E quando um clube perde a capacidade de se antecipar ao futuro, condena-se a ser eternamente ultrapassado por quem ousa pensar mais à frente.
A solução não está em mudar treinadores como quem roda stocks numa prateleira, nem em contratar mais um "salvador da pátria" a preço de ouro. Está em reconstruir, desde as bases, uma identidade que una scouting, formação, equipa técnica e direção num mesmo propósito. O Liverpool não ressurgiu por acaso; o Bayern não domina por sorte. Têm rumo. O Benfica, hoje, navega à deriva.
O pior que pode acontecer a uma instituição não é a crise – é a habituação a ela. E o Benfica parece ter-se conformado com a ideia de que basta ser "grande" no nome para justificar a pequenez na ação. Mas a grandeza não é um estatuto; é um compromisso diário. Exige humildade para reconhecer erros, lucidez para traçar um caminho e, acima de tudo, a coragem para cortar com quem insiste em arrastar o clube para a mesquinhez.
Caso contrário, continuará a definhar, não por falta de amor, mas por falta de dignidade. E nenhum estádio cheio, nenhum "hashtag trending", nenhum discurso inflamado poderá esconder essa verdade cruel: um clube que já foi símbolo de um país hoje é refém da sua própria incapacidade de evoluir. O Benfica não precisa de hinos – precisa de um novo contrato com o futuro. Antes que seja tarde.
Albardeiro