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albardeiro

Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!

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Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!

O Benfica: a Mediocridade e a Agonia do Presente Perpétuo

albardeiro, 19.05.25

O Sport Lisboa e Benfica já não é um clube; é um espelho partido que reflete, em estilhaços, a decadência de um projeto outrora maior que o futebol. A sua gestão, nas últimas décadas, não foi apenas incompetente – foi traiçoeira. Traiu a história ao substituí-la por propaganda, a ambição por conformismo, o futuro por um ciclo vicioso de promessas e desilusões. Tal como um regime que se esgota na retórica vazia, o Benfica deixou-se seduzir pelo fetichismo do imediato: contratos inflacionados, decisões sem estratégia, uma liderança que confunde hashtags com legado.

A crise não é desportiva; é existencial. Um clube que já uniu um país em torno da excelência hoje sobrevive de nostalgia e medo, como um velho aristocrata a vender as pratas para pagar as dívidas. O problema não é perder títulos – é não saber sequer o que quer ganhar. O Benfica tornou-se um negócio de emoções a prazo, onde sócios são tratados como consumidores de um produto em falência técnica. E quando um clube deixa de ser um movimento coletivo para se tornar um simulacro, a devoção cega transforma-se em cumplicidade com a decadência.

Não se exige um regresso ingénuo aos "tempos áureos" – exige-se, sim, que o clube deixe de usar o passado como desculpa para a mediocridade do presente. Os adeptos não são fiéis a quem os despreza; merecem mais do que a tirania do "quase" e a demagogia do "ano que vem". O Benfica precisa não de reformas, mas de uma rutura: uma revolução que enterre o culto do improviso e restitua a clareza de rumo.

O que está em jogo não é só a ausência de títulos, mas a própria razão de existir do clube. Grandes instituições não morrem por falta de recursos; morrem por falta de ideias. E o Benfica, hoje, é um gigante sem convicção, condenado a oscilar entre a euforia efémera e o desastre previsível. Se quer resgatar a alma, terá de entender que a grandeza não se herda – reconquista-se, com coragem para cortar com os vícios do presente.

A verdadeira tragédia não é a seca de títulos, mas a normalização da pequenez. Quando um clube como o Benfica se resigna a ser gerido como uma empresa de gestão medíocre, quando aceita que o seu destino seja ditado por interesses de curto prazo, quando troca a ambição desportiva pelo equilíbrio contabilístico, o que não isso acontece, está a abdicar do seu lugar na história. Não é a falta de campeonatos que o diminui – é a falta de audácia para os conquistar.

Os grandes clubes não são feitos apenas de vitórias, mas de uma cultura que as sustenta. O Benfica, hoje, não tem projeto desportivo, não tem filosofia de jogo, não tem sequer a noção clara de que jogadores quer formar ou contratar. Vive de reações, não de visão. E quando um clube perde a capacidade de se antecipar ao futuro, condena-se a ser eternamente ultrapassado por quem ousa pensar mais à frente.

A solução não está em mudar treinadores como quem roda stocks numa prateleira, nem em contratar mais um "salvador da pátria" a preço de ouro. Está em reconstruir, desde as bases, uma identidade que una scouting, formação, equipa técnica e direção num mesmo propósito. O Liverpool não ressurgiu por acaso; o Bayern não domina por sorte. Têm rumo. O Benfica, hoje, navega à deriva.

O pior que pode acontecer a uma instituição não é a crise – é a habituação a ela. E o Benfica parece ter-se conformado com a ideia de que basta ser "grande" no nome para justificar a pequenez na ação. Mas a grandeza não é um estatuto; é um compromisso diário. Exige humildade para reconhecer erros, lucidez para traçar um caminho e, acima de tudo, a coragem para cortar com quem insiste em arrastar o clube para a mesquinhez.

Caso contrário, continuará a definhar, não por falta de amor, mas por falta de dignidade. E nenhum estádio cheio, nenhum "hashtag trending", nenhum discurso inflamado poderá esconder essa verdade cruel: um clube que já foi símbolo de um país hoje é refém da sua própria incapacidade de evoluir. O Benfica não precisa de hinos – precisa de um novo contrato com o futuro. Antes que seja tarde.

Albardeiro

Ética, Carácter e a Tragédia da Indiferença

albardeiro, 13.05.25

A política, quando divorciada da ética, transforma-se num jogo cínico de interesses, onde o poder não serve o povo, mas alimenta a ambição de quem o exerce. Nunca a política deveria ser palco de escândalos de carácter ou de éticas descartáveis; porém, o caso Spinumviva e as trocas de favores de Trump são lembretes cruéis de que, quando o poder absoluto encontra a ambição sem freios, a república sofre. A seriedade no exercício do cargo não se reduz ao cumprimento da lei, mas estende-se ao respeito pelos limites morais que protegem a confiança pública. Não se trata apenas de legalidade, mas daquilo que Aristóteles chamava "virtude ética": o hábito de agir com excelência moral, mesmo quando ninguém observa.

Montenegro, tal como Trump, personifica a perigosa normalização da duplicidade. A Spinumviva não é um mero caso de conflito de interesses; é a materialização de uma cultura que banaliza a influência privada em cargos públicos. Como alertava Séneca, "Nenhum vento é favorável para quem não sabe a que porto se dirige" — e quando um primeiro-ministro permite que a sua empresa familiar receba dinheiro de uma concessionária estatal, perde-se não só o rumo, mas a legitimidade moral para governar. A questão central não é jurídica (ainda que o seja), mas sim de carácter: a incapacidade de distinguir entre o que é tecnicamente permitido e o que é intrinsecamente corruptor.

Ética não é mera decoração retórica: é um compromisso inegociável entre quem governa e quem governa. No caso de Luís Montenegro, a manutenção de vínculos económicos diretos ou indiretos — via Spinumviva — com uma operadora sujeita a concessão estatal, mesmo sem violar explicitamente normas legais, constitui uma traição ao princípio da impessoalidade e à transparência que se exige a um Primeiro-Ministro. A moral pública, como lembrou Immanuel Kant, impõe que se aja “de tal maneira que a tua ação possa ser uma lei universal” – não basta não infringir leis; é preciso não ceder ao impulso de agir segundo regras privadas que minoram o interesse coletivo.

O filósofo Aristóteles definia o carácter como “a disposição de fazer o bem e de evitar o mal” (Ética a Nicómaco). É no carácter que se fundam as virtudes políticas: a coragem de admitir erros, a temperança de resistir a tentação e a justiça de tratar todos sob a mesma régua. Já Cícero, no seu tratado Sobre o Dever, afirmava: “Não há maior falta de dever do que a traição da confiança”. Se um governante cede à influência de contratos que lhe rendem luvas mensais de 4 500 €, traiu não só a Constituição, mas também o pacto moral com a sociedade.

Ser sério em política significa prever as consequências dos próprios atos e evitar crises artificiais que custam milhões aos contribuintes — tal como aconteceu em Portugal, com a queda antecipada do XXIV Governo Constitucional. Não vale tudo. A instrumentalização de omissões de transparência para gerar narrativa de poder não é apenas má prática; é atentado ao sistema democrático. Como alerta Hannah Arendt, “o poder verdadeiro nasce quando o homem age em conjunto e é reconhecido pelos outros” (Sobre a Violência). Quando um líder se isola num casulo de interesses privados, perde o reconhecimento e, com ele, a legitimidade.

A seriedade na política não é um luxo, mas o alicerce sem o qual nenhum projeto coletivo sobrevive. Platão, na República, avisava que "o preço da indiferença para com a política é ser governado pelos piores". E, no entanto, aqui estamos: a permitir que líderes transformem o poder em negócio, a troco de promessas vazias ou de um suposto "realismo" que não passa de cobardia moral.

O filósofo Montesquieu lembrava que "um governo corrupto é aquele onde ninguém confia, mas todos toleram". E é aqui que a tragédia se aprofunda: quantos cidadãos, desiludidos ou apáticos, ainda votam em figuras como Montenegro, não por ignorância, mas por resignação? Quantos aceitam a lógica perversa de que "todos fazem o mesmo", como se a política fosse um mercado de escassez ética? A indiferença popular é o combustível da impunidade. Quando uma sociedade normaliza a falta de escrúpulos, está a abdicar não só do seu futuro, mas da própria noção de democracia.

Assusta ainda mais perceber que boa parte da população não faz o escrutínio mínimo antes de depositar o seu voto. Votam em rostos bem-desenhados nos cartazes, em promessas vistosas e em quem desperta ondas de emoção, não em quem demonstre retidão de intenções e clareza de procedimentos. Nessa cegueira, permitem-se “tudo serve”, adormecem a cidadania crítica e alimentam um ciclo vicioso em que a falta de carácter é premiada.

 

Perspetivas surpreendentes:

  • A crise de carácter é sistémica. Não se restringe a um indivíduo: é falha estrutural de partidos que elevam a ambição pessoal à condição de mérito.
  • A ética republicana não é voluntária, mas um contrato exigível: sem sanções sociais e políticas imediatas, torna-se letra-morta.
  • A transparência radical — tornar públicos não só contratos, mas comunicações privadas e agendas — poderia travar boa parte das manobras obscuras, embora ponha em causa o conforto da opacidade a que muitos se habituaram.

A política séria exige mais do que discursos eloquentes; requer um calibre de alma capaz de resistir ao mercantilismo de influências. Para que a democracia sobreviva, urge revitalizar o discernimento cívico: questionar cada ligação suspeita, cada presente milionário e cada omissão de informação. Não vale tudo; e só assim recuperaremos a confiança, construindo uma cultura política onde o carácter valha mais do que meros votos. Como disse: não vale tudo. Nunca valeu. Aceitar o contrário é enterrar a esperança de uma sociedade justa — e culpar apenas os políticos é ignorar o nosso próprio papel como cúmplices silenciosos. A democracia não morre com um golpe, mas com um suspiro de desistência. Resta perguntar: até quando?

 

 

Albardeiro