Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Segunda-feira, 4 de Outubro de 2021
O TEMPO

Em meados de agosto, o mundo ficou atónito com a tomada de poder pelos taliban no Afeganistão. Não que não fosse, desde há algum tempo, expectável a queda de Cabul às mãos destes “estudantes islâmicos” oriundos do sul e leste do Afeganistão e formados nas madrassas paquistanesas. O que surpreendeu foi sobretudo o icónico simbolismo de que se revestiu. Perante as imagens dos novos dirigentes no palácio presidencial da capital afegã, dir-se-ia termos recuado vários séculos. É certo que este simbolismo tem, por desgraça, a sua tradução num tipo de pensamento e de ação de caráter marcadamente medieval. Mas os veículos blindados, as armas automáticas, os óculos escuros, relógios e telemóveis de última geração, alimentados pelo tráfico de droga (em especial o cultivo de papoila para a produção de heroína) e pelas grandes redes de contrabando internacional, desmentem de imediato – se tal fosse necessário – esse devaneio. O devir histórico é inexorável e, apesar de fluxos e refluxos (os corsi e ricorsi de que falava Giambattista Vico) por vezes surpreendentes, e da possibilidade da existência, em cada momento, de universos paralelos, há limites para o anacronismo. Quando emergem marcas do passado, não é aquele que renasce, mas sim o choque da sua inserção no presente. E os vários irracionalismos e negacionismos com que nos confrontamos aí estão para comprovar o “fundo arcaico que sobrevive como uma energia sempre pronta a reativar-se.” de que fala o filósofo António Guerreiro (Ípsilon, Público, 20/8/21).

A base da inteligibilidade de todas as realizações humanas reside na sua dimensão histórica. As sociedades existem num espaço e tempo determinados, historicidade estrutural da existência humana a que se referia o filósofo espanhol José Ortega y Gasset na conhecida expressão “Eu sou eu e minha circunstância”. Por isso, o desfasamento temporal promovido pelos taliban só pode conduzir a verdadeiras aberrações. É possível viver na modernidade rejeitando as marcas dessa mesma modernidade? Da mesma forma que seria impensável recuperar para os dias de hoje os tempos do profeta Maomé – os taliban certamente não o fazem (a vida em tendas, deambulando no deserto, e as batalhas com espadas e cavalos são coisas que já não voltam) – é igualmente incompreensível a pretensão de restaurar preceitos e regras medievais na contemporaneidade. Como diz o filósofo italiano Giorgio Agamben, “Un uomo inteligente può odiare il suo tempo, ma sa in ogni caso di appartenergli irrevocabilmente, sa di non poter sfuggire al suo tempo.” (Giorgio Agamben, Che cos’è il contemporaneo?, Milano, Nottetempo, 2019, p. 9). Faz algum sentido, nos dias de hoje, invocar princípios tão arcaicos – e, por isso, necessariamente desfasados da realidade e inaplicáveis – como, “O chefe da mulher é o homem (…). Se a mulher não usar o véu, que lhe seja rapado o cabelo (…). O homem, ele, não deve esconder a cara: ele é a imagem da glória de Deus; mas, a mulher é a glória do homem. (…) E o homem não foi criado para a mulher, a mulher é que foi criada para o homem. Eis a razão por que a mulher deve usar sobre a cara a marca da sua dependência”? Esta injunção à submissão feminina não consta do Corão (embora aí pudesse estar!); foi enunciada pelo apóstolo Paulo na sua primeira epístola aos Coríntios. Ou, como declarou o mesmo Paulo de Tarso na epístola aos Efésios, escrita por volta do ano 65, “Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da Igreja (…). De sorte que, assim como a Igreja está sujeita a Cristo, também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos.”? É suficientemente absurdo para ser pensado, quanto mais aplicado!

Agora que se anunciam no Afeganistão o regresso das execuções, amputações, açoitamentos e apedrejamentos públicos como penas judiciais legítimas, bem como a criação do Ministério da Promoção da Virtude e Prevenção do Vício, a situação das mulheres é particularmente chocante. Tal como aconteceu entre 1996 e 2001, no anterior período de domínio taliban, as mulheres são proibidas de trabalhar, de sair de casa sem serem acompanhados por um familiar masculino adulto, obrigadas a usar burqa que cobre por completo o seu corpo (arriscam-se a ser chicoteadas se mostrarem os tornozelos) e proibidas de usar calçado com salto para não se ouvirem os seus passos; não têm acesso à assistência médica hospitalar (que, em todo o caso, só poderá ser prestada em privado por outras mulheres) e o seu testemunho em tribunal vale metade do dos homens; são proibidas de frequentar a escola depois dos 10 anos e obrigadas a casar a partir dos 15 anos (muitas vezes com os homens que as violaram) – há números que indicam que, em 2017, metade das mulheres afegãs dos 15 aos 49 anos foi vítima de violência por parceiro íntimo. A metade feminina da população afegã é proibida, sequer, de manifestar vontade ou de rir! São difíceis de imaginar violações mais grosseiras dos direitos humanos. Relembrando a célebre formulação de Hannah Arendt, as mulheres afegãs perderam, pura e simplesmente, o “direito a ter direitos”. Mas os taliban interditam também praticamente todas as manifestações culturais existentes: televisão, rádio, música (com exceção da religiosa), cinema, desporto. Proíbem, inclusive, o lançamento de papagaios de papel! Que gente é esta?!

Tamanha insanidade só é possível pela conjugação de interesses geoestratégicos que vão muito além da realidade afegã, das “verdades” corânicas ou das virtudes persuasivas da “lei da bala”. Todas estas tendências extremistas tiveram a complacência ou mesmo o apoio ativo das grandes potências ocidentais – com os EUA e Grã-Bretanha à cabeça – e dos seus protegidos Arábia Saudita e Paquistão (verdadeiras incubadoras das trevas do passado), ao serviço de uma lógica de Guerra Fria e de confronto com o bloco de Leste. Lembremo-nos que, nos anos oitenta do século XX, os mujahidin afegãos foram largamente financiados e armados pelo Ocidente e apelidados de freedom fighters, lutando contra a ocupação soviética do país. Os taliban são os seus descendentes diretos, numa dinastia de terror que engloba a Al-Qaeda, o Daesh, ou o Hamas, apesar de rivalidades intestinas que têm mais a ver com questões de poder do que com divergências doutrinárias.

As potências ocidentais sempre rejeitaram os movimentos mais progressistas e secularizantes destes países, quer fosse o movimento Baath na Síria e no Iraque, a FLN de Houari Boumediene na Argélia, o Egito de Gamal Abdel Nasser, o Irão de Mohammed Mossadegh, as experiências inovadoras da Líbia, do Iemen do Sul ou da Tunísia, e do próprio Afeganistão de Mohammad Najibullah entre 1989 e 1991, alinhando sistematicamente com aqueles que difundiam o wahabismo sunita (tendência islâmica ultraortodoxa oriunda do atual território saudita) e promovendo a sua implantação no mundo muçulmano. Até os curdos (muçulmanos moderados) foram abandonados pelos EUA de Trump no combate ao ISIS na guerra civil da Síria. Foi com o alto patrocínio do Ocidente que inúmeros regimes iníquos alastraram pela região, alimentados por uma espiral de corrupção, de subdesenvolvimento e de pobreza endémica. À falta de alternativas políticas credíveis e de soluções para os enormes problemas económicos enfrentados, o Islão emergiu como o elemento identificador exclusivo – e excludente – para muitas destas populações. Como refere o académico irlandês em Relações Internacionais, Fred Halliday, “As one Algerian oficial commented during the 1991 crisis, the way in which Europe could best help overcome the Front Islamique du Salut (FIS) would be to provide guidelines on how to employ millions of young people.” (Fred Halliday, Islam and the myth of confrontation, London, I. B. Tauris, 1996, p. 129). E este especialista no Médio Oriente conclui: “Economic exclusion and political rejection will fuel fundamentalistic antagonism.” (ibid., p. 130). Aqui com em qualquer outra parte do mundo.

A nation-building americana no Afeganistão – “apoiar o país na construção de uma nação livre e democrática” – só trouxe corrupção e compadrio em benefício de uns poucos e a absoluta miséria para a maior parte da população; em 2017, 54% dos habitantes, em especial nas zonas rurais, vivia abaixo do limiar da pobreza, segundo dados oficiais do Governo afegão. Paralelamente, em 2020, o Afeganistão foi responsável por 85% da produção mundial de ópio, cultura que ocupava mais de 330 mil hectares, com um valor estimado de 5 mil milhões de euros, correspondente a cerca de 30% do PIB do país (Público, 20/8/2021). A fraqueza do Estado central perante os poderes locais de cariz essencialmente étnico e tribal, e o falhanço na implementação de políticas de desenvolvimento e de promoção de direitos que minorassem as enormes carências das populações, só podiam resultar no drama a que assistimos. O espezinhar da metade feminina da sociedade afegã aí está para o demonstrar em toda a sua crueza. Mesmo o atual presidente norte-americano, Joe Biden, num momento de franqueza desconcertante, afirmou, em tempos, “Não vou mandar o meu filho para lá arriscar a vida em nome dos direitos das mulheres!”, segundo consta do livro Our Man, biografia de Richard Holbrooke, enviado especial do presidente Barack Obama para o Afeganistão e Paquistão. Como comenta o jornalista António Rodrigues, “Pelos direitos das mulheres não se mata nem se morre.” (Público, 20/8/2021).

Estaremos a ponto de refutar a asserção de José Ortega y Gasset, segundo o qual existe sempre uma “compacta solidariedad consigo misma que cada época histórica mantiene en todas sus manifestaciones” (José Ortega y Gasset, La deshumanización del Arte y otros ensayos de Estética, Madrid, Espasa-Calpe, 1992, p. 48)? Não me parece. Desenganem-se, por isso, aqueles que creem que o regresso ao passado constitui a via do futuro. Inexorável, o próprio devir histórico tratará de desfazer tais ilusões.



Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 19:36
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