Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Domingo, 28 de Março de 2021
COMO DISSE?

A propósito da sua última produção, Elogio da dúvida (Lisboa, Edições 70, 2021) diz-nos a filósofa catalã Victoria Camps, “São as certezas que nos atraem, não as dúvidas. Estas, pelo contrário, obrigam-nos a pensar, exigem-nos muito esforço. E é por isso que, habitualmente, os seres humanos se ficam por aquilo que tomam por certo.” (Visão, 11/2/2021). Simplicidade, unidade, homogeneidade, segurança, são os conceitos essenciais deste processo de descomplicação da realidade que, pelo contrário, se apresenta sempre como complexa, ambígua, plural, contraditória e conflituante, diversidade esta geradora de desconfiança, medo e necessidade de proteção e de apaziguamento da consciência.

É neste contexto que o fenómeno político Trump e a generalidade das derivas populistas se podem entender. A investigadora da linguagem, Anna Szilágyi, em entrevista ao Público (18/10/2020), referiu-se à novidade trazida pelo discurso político de Donald Trump, com a utilização de palavras simples, constantemente repetidas, frases que não terminam, até impropérios, naquilo que esta estudiosa caracteriza por “informalidade radical”. Como disse um dia o então candidato às eleições presidenciais norte-americanas de 2016, “I’ve got the best words”. A sensação transmitida a quem o escuta, em virtude da extrema coloquialidade do discurso de Trump, é a de que “ele fala como eu”, levando à imediata identificação. E mais: “Quem ouve pode achar que se esta pessoa fala assim em público, é muito sincera. Ao não ajustar o estilo, pode gerar uma sensação de confiança em quem ouve. Até pode ser vista como heroica, alguém que não se autocensura.” A juntar a isto há a bazófia típica do vendedor – por exemplo, com o recurso constante a superlativos – e a desfaçatez no insulto e estigmatização dos adversários – “crooked Hillary”, “sleepy Joe”, etc. Tudo isto concorre para uma imagem de confiança e energia. E, como afirmou o ideólogo da campanha presidencial de Trump em 2016, Steve Bannon, aquele tinha sido eleito com base em três slogans: “Drenem o pântano”, “Prendam a Clinton”, “Construam o muro na fronteira”. Para Bannon, “Isso era pura raiva”, acrescentando “Raiva e medo são o que faz as pessoas irem às urnas.” (cit. em Maria Vlachou, “A curadoria do desconforto”, Público, 6/2/2021). Nas palavras de Szilágyi, “Este tipo de retórica ativa emoções fortes, provoca sentimentos.” Sobretudo dá-nos uma visão simplista – e necessariamente distorcida – do mundo. No seu esquematismo fundamentalista chega a ser criminosa, porque é enganadora e enfraquece a capacidade de entendimento da realidade e a possibilidade da verdadeira resolução dos problemas.

Ora, é no contexto desta simplificação da realidade – que, dada a sua complexidade intrínseca, nos transmite uma imagem que não pode deixar de ser caricatural – que vem a propósito o conceito de agnatologia, termo usado pela primeira vez em 2008 pelo historiador norte-americano Robert Proctor, professor da Universidade de Stanford, para designar a “ciência da ignorância” e que lhe serviu para analisar o efeito do primeiro ano da presidência de Donald Trump, caracterizado como “a idade de ouro da ignorância”. Desde 2008 que Proctor vem chamando a atenção para a ignorância não como mera ausência de conhecimento, mas como o resultado de um processo de “produção cultural de ignorância”. Como explica a professora e investigadora do Instituto de Comunicações da Universidade Nova, Carla Baptista, que cita o académico estadunidense, “A ignorância é manufaturada, culturalmente induzida e suporta projetos de poder”, acrescentando que “A produção cultural de ignorância utiliza duas estratégias discursivas: exponenciar a dúvida (os dados são manipulados para criar desconfiança sistémica) e promover a controvérsia (fabricar inimigos).” (Carla Baptista, “Os 3D das presidenciais: desigualdade, desinformação e demagogia”, Le Monde Diplomatique, ed. port., fevereiro de 2021).

Num inesperado laivo de lucidez, Carlos Rodrigues, diretor-executivo do Correio da Manhã e da CMTV, invocando Larry King, pôs o dedo na ferida relativamente àquilo que designou como “entrevista argumentativa”. Num artigo intitulado “Ouvir ou falar?” (o falecido jornalista norte-americano Larry King dizia que nunca tinha aprendido nada enquanto falava, mas apenas enquanto ouvia), e a propósito da cobertura televisiva da pandemia de Covid-19, Carlos Rodrigues afirma: “A entrevista argumentativa organiza-se sempre da mesma forma: o jornalista diz que não é um especialista. A seguir a exaltar o óbvio, cita uma série de números e uma quantidade suficientemente avassaladora de estatísticas, com a chancela de uma instituição científica qualquer, idealmente misturando universidades portuguesas e estrangeiras. Segue-se a emissão de uma qualquer síntese, em geral condizente com as mensagens prevalecentes nesse dia nas redes sociais, meio no qual as estrelas do telejornalismo são cada vez mais useiras e vezeiras. Com sorte, e ainda a digerir a quantidade avassaladora de informação que também acabou de ouvir pela primeira vez, o entrevistado consegue balbuciar alguma reflexão que faça sentido, para logo ser interrompido pela reafirmação de alguma contradição/esquecimento ou responsabilidade atribuível ao próprio. Por vezes tudo isto termina após um conjunto de frases desconexas de quem aceitara ser entrevistado, mas que afinal se apanha a ser confrontado com as opiniões do jornalista.” (TVGuia, 18/2/21). A missão de esclarecimento e de informação própria da comunicação social perde-se assim na assunção espúria de um poder que não deve ser o seu. Ao invés, insiste-se na reprodução da ignorância ao serviço de interesses obscuros e, sobretudo, não escrutinados. Esquecem-se as regras mais elementares da relevância informativa e do interesse público, substituídas pela inculcação ideológica mais descarada.

Os debates eleitorais da última campanha presidencial em Portugal são um bom exemplo disso. Como sublinha Carla Batista, “Esta é a realidade comunicacional do Chega: foco máximo na amplificação mediática das mensagens, preocupação mínima com a sua coerência ou seriedade.”, acrescentando, “Ventura em 2020, tal como Trump em 2016, prefigurou-se como o ator principal.” (Carla Batista, op. cit.). Carla Batista conclui de forma lapidar: “Mas a cultura cívica que amplifica as mensagens populistas é fabricada pelos media. A manta de retalhos em que assentou a comunicação eleitoral do Chega espelha as aporias do sistema mediático contemporâneo, alimentado por detritos que gravitam os mundos offline e online. Notícias velhas, (des)informação omissa, imagens fabricadas, excertos de intervenções descontextualizadas, tudo pode e foi utilizado para aumentar descrença e hostilidade. […] Não é expectável que a televisão-espetáculo seja uma instituição credível para regular a política-populista. Ambas se fertilizam, e o futuro provoca o mesmo calafrio do poema de Álvaro de Campos: «Sei que me espera qualquer coisa/Mas não sei que coisa me espera.»



Hugo Fernandez





publicado por albardeiro às 12:45
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito

pesquisar
 
Outubro 2021
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


posts recentes

O TEMPO

DE CIMA

COISAS ASSIM

LIBERDADES

OS FUNDAMENTOS

COMO DISSE?

AMANHÃ ACONTECEU

ANATOMIA DO PENSAMENTO FA...

CRÓNICA AMERICANA

TEMPO DE VÉSPERAS

arquivos

Outubro 2021

Agosto 2021

Julho 2021

Junho 2021

Abril 2021

Março 2021

Fevereiro 2021

Janeiro 2021

Dezembro 2020

Outubro 2020

Julho 2020

Junho 2020

Abril 2020

Fevereiro 2020

Janeiro 2020

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Janeiro 2019

Novembro 2018

Setembro 2018

Julho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Janeiro 2016

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Abril 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

blogs SAPO
subscrever feeds
Em destaque no SAPO Blogs
pub