Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

albardeiro

Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!

albardeiro

Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!

POR OUTRO LADO

albardeiro, 11.10.12

Com uma execução orçamental desastrosa, as finanças públicas derrapam perto de três mil milhões de euros, pondo claramente em risco o cumprimento do défice previsto no memorando de entendimento com a troika internacional. Os dados da contabilidade oficial, apresentados pelo Instituto Nacional de Estatística em setembro, apontam para um défice de 6,9% do PIB, tendo-se o Estado português comprometido a não ultrapassar, até ao final de 2012 e já após a revisão das metas, os 5% (recorde-se que em 2011, o défice foi de 4,4% do PIB). O total da dívida externa portuguesa, quer a de origem pública, quer a de proveniência privada, atingiu os 233% do nosso PIB, um número impensável e um verdadeiro absurdo que condena a nossa vivência coletiva e a simples existência de Portugal como país independente. Aliás, os 119% relativos à dívida pública já representam um aumento de 13,4 mil milhões de euros face a 2011. Se tivermos em conta que as despesas com os juros dos empréstimos entretanto contraídos aumentaram 20% e são responsáveis por perto de dois terços do total do défice (61%), temos uma noção mais aproximada da desgraça em que nos encontramos.

Por outro lado, em resultado da 5ª avaliação ao programa de ajustamento nacional, a troika premiou o Governo português e decidiu alargar por um ano o prazo de cumprimento das metas acordadas com as autoridades nacionais, que terão que reduzir o défice para um valor inferior a 3% apenas em 2014, sendo que os limites intermédios serão de 5% em 2012, 4,5% em 2013 e 2,5% em 2014. Dir-se-ia que os credores de Portugal estão satisfeitos com a atuação seguida, que permite, desde logo, assegurar por mais tempo uma rentabilidade não despicienda por via dos escandalosos juros cobrados pelos empréstimos concedidos, e a continuação da sujeição do país aos ditames da finança internacional, perpetuando um protetorado perverso e indesejável. Está bem de ver que são “tudo bons rapazes” (goodfellas, diria Martin Scorsese).

Seria expetável uma mudança de política com vista ao relançamento da economia e incentivo ao investimento público e privado para fazer face aos encargos com uma dívida externa em permanente crescimento e à brutal contração do mercado interno, com a consequente queda das receitas fiscais. Seria, mas não é esse o caminho do Governo de Passos Coelho. Pelo contrário, insiste-se no aprofundamento da mesma receita recessiva que tão maus resultados tem dado para o país. Como se explica tal atitude? A tentativa gorada de imposição, para a generalidade dos trabalhadores, de um aumento de 11% para 18% da sua contribuição para a Segurança Social por via da Taxa Social Única (TSU) e, em simultâneo a sua redução de 23% para 18% para as empresas, é um bom exemplo do que está em jogo. Esta transferência forçada dos trabalhadores para os empregadores foi justificada como um estímulo à competitividade das empresas e um incentivo à criação de emprego, quando o que se tratava era tão só de um brutal aumento de impostos sobre os rendimentos do trabalho (2,8 mil milhões de euros a menos nos bolsos dos portugueses), contraindo ainda mais o consumo e afundando a procura interna, com claro prejuízo para o desempenho da generalidade das empresas portuguesas que, passando a vender ainda menos, seriam forçadas a diminuir investimentos e, em consequência, a aumentar o desemprego, pois não haveria condições nem interesse em contratar mais trabalhadores, o que agravaria sobremaneira a recessão já existente (como aliás foi unanimemente reconhecido quer por sindicatos, quer por organizações patronais). Nas palavras do insuspeito José Pacheco Pereira “A medida é injusta, acelera um processo de transferência maciça de recursos dos mais pobres para os mais ricos, que é o principal ajustamento que se está a fazer.” (Sábado, 13/9/12).

Por outro lado, num estudo publicado no Público (21/9/12) conclui-se que bastava taxar em 0,3% o património financeiro existente em Portugal (excluindo os depósitos bancários) para o Estado arrecadar uma receita de 2,5 milhões de euros, isto é, o equivalente ao valor conseguido com a alteração da TSU. A invulgar crispação com que a eminência parda do Governo e autor confesso da TSU, António Borges, reagiu ao chumbo desta medida, demonstra bem que há “outras razões que a razão desconhece” para as opções que têm vindo a ser tomadas. Também Passos Coelho invocou uma pretensa ameaça operária para explicar a rejeição pelos empresários da TSU (um completo disparate, está bem de ver!). Quer se assuma, quer se pretenda dissimular, está em curso uma nova fase de acelerada acumulação de capital e de usufruto, por parte de uma pequena minoria, de lucros predadores (Freitas do Amaral – esse perigoso esquerdista! – em entrevista televisiva nos inícios de setembro chamou-lhes “tubarões”). No cumprimento de uma clara agenda ideológica neoliberal, os grandes interesses, causadores da crise, permanecem intocados, tornando mais do que nunca atual a denúncia feita pelo sociólogo norte-americano C. Wright Mills, na sua obra clássica de 1959, The Power Elite, relativamente à crescente afirmação e poder daqueles “who have more of what there is to have.”

Só assim se percebe que, em substituição da TSU, o Governo se proponha efetuar cortes nas pensões e subsídios (nomeadamente uma nova diminuição temporal do subsídio de desemprego), o aumento da idade de reforma e a redução dos escalões do IRS que resultarão inevitavelmente num agravamento da carga fiscal por efeito do aumento médio das contribuições. Como se quer recuperar a economia portuguesa seguindo uma política que leva à sua destruição? Afinal, o objetivo, ainda que a coberto do cumprimento das metas orçamentais, será mesmo o aumento do desemprego (record de 15,9% em agosto, o 3º pior da União Europeia), a desvalorização do trabalho e o empobrecimento e precarização das condições de vida da generalidade da população. Em dois anos, o rendimento disponível mensal por pessoa (incluindo população ativa e não ativa) caiu 100 euros, a maior queda de que há registo desde, pelo menos, 1999, segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (28/9/12). O rendimento disponível ajustado das famílias – rendimento auferido depois de deduzidos os impostos e transferências sociais (que aliás foram 28,4% mais elevados que em igual período do ano passado) – caiu 4,9% relativamente ao ano anterior. Com isto pretende-se garantir uma mão de obra barata e submissa que aumente a proclamada competitividade das grandes empresas, em especial exportadoras, por via da redução dos custos de trabalho (apesar de, no período entre janeiro e julho do presente ano, as despesas com pessoal terem já caído cerca de 17%), e assegurar os ganhos especulativos da finança internacional.

Por outro lado, o Governo distribuiu benefícios fiscais no valor de 1,23 mil milhões de euros a empresas, sendo que apenas 20 arrecadaram 62% do total e, destas, 17 têm representação no offshore madeirense, conforme dados disponibilizados pelo Ministério das Finanças (28/9/12). Talvez fosse a isto que se referia Passos Coelho na conferência sobre o Desenvolvimento Sustentado, que decorreu no dia 27 de setembro no Centro de Congressos do Estoril, quando, em defesa da TSU, invocou a necessidade de “recentrar a visão institucional do papel das empresas”, explicando, numa grosseira mistificação do que está em causa, que “se a visão que temos das empresas não é a de instituições relevantes, mas estão reconduzidas, por qualquer razão, à dialética do trabalho e do capital, então teremos progredido muito pouco” (Público, 28/9/12).

Não é novo este discurso e estas intenções. Logo em 2011, pouco depois de ter tomado posse, Passos Coelho já havia declarado que “Só vamos sair da crise empobrecendo”. Ora, como referiu o sociólogo Elísio Estanque num artigo de opinião no jornal Público (6/8/12), o princípio prevalecente na nova ordem mundial é o de “cada um segundo as suas capacidades, até à exaustão; a cada um segundo a sua subserviência devota ao capital. Eis o sonho colorido do liberalismo radical: o regresso do trabalho escravo.” Por outro lado…

 

 

Hugo Fernandez