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albardeiro

Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!

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Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!

NOTÁVEIS

albardeiro, 28.04.08

Há coincidências assim. A 25 de Abril de 1983 nascia o Governo do Bloco Central, resultado do entendimento entre o PS de Mário Soares e o PPD de Mota Pinto. Foi este Governo, lembremos, que preparou a adesão de Portugal à CEE, mas sobretudo que iniciou a implementação de uma brutal política de austeridade, à custa dos direitos sociais, para equilibrar a situação orçamental – aquilo que, em tempos mais recentes, veio a ser designado por “obsessão do deficit” – e que abriu as portas à privatização do sector estatal. Estávamos, então, perante objectivos estratégicos para Portugal que eram comuns aos dois partidos que, no entanto, se afirmavam diferentes. Não foi caso único. A coincidência de posições entre PS e PSD tem sido, com raras excepções, uma constante da nossa realidade política. A suposta alternativa de poder que ambos reivindicam, não passa, afinal, de uma convergência substantiva – nas ideias e nos propósitos – a que se deu, apropriadamente, o nome de “centrão”. Mesmo a tradicional divisão sociológica de um eleitorado PS mais urbanizado face a um eleitorado PSD de proveniência mais rural, se fez algum sentido nos inícios da nossa democracia, deixou hoje de ter qualquer relevância.


Mais de 20 anos depois, a cena política portuguesa continua a ser dominada pelos mesmos protagonistas e a colocar estes “irmãos gémeos” numa estrita dependência recíproca. Desta feita, e talvez de forma mais evidente do que em qualquer outra altura, o espaço político preenchido pelo PSD vê-se reduzido à insignificância, a favor de um PS que, por seu lado, mimetiza o primeiro, pelagiando despudoradamente a sua visão do mundo e os seus projectos societais. Enquanto o PS, como partido do poder, capitaliza esta circunstância, o PSD, et pour cause, atravessa uma profunda crise de identidade e de liderança.


Não quero com isto dizer que não haja diferenças entre as duas formações políticas, nem que, sem mais, esteja aberto o caminho da fusão, como sugeriu há poucos dias José Miguel Judice. Até porque à sobreposição de projectos políticos obsta uma efectiva diferenciação de clientelas – mais do que de interesses gerais – a sustentar. Mas que os pontos comuns são muito mais significativos que as divergências, parece-me uma evidência histórica. A começar pelo desfocagem ideológica que ambos os partidos, desde sempre, apresentaram: um partido que se diz socialista e que sempre foi social-democrata e um partido dito social-democrata que é, na verdade, liberal. Tudo se torna ainda mais nebuloso quando, no presente, os dois advogam, em perfeita sintonia, políticas claramente neo-liberais.


Penso que só à luz destas considerações se pode interpretar a afirmação de Pedro Lomba de que “O PSD é um partido negativo composto por pessoas radicalmente diferentes que têm apenas uma convicção em comum: não são do PS.” (Diário Económico 23/4/08). Com efeito, esta afirmação permite evidenciar o carácter clubístico – e não, como era suposto, ideológico-político – na definição do respectivo espaço partidário.


Aliás, os jogos de poder despoletados pela actual crise de liderança no PSD demonstram-no em todo o seu esplendor. A luta entre os “barões” e seus “sindicatos de votos” – os notáveis e os interesses (ou deveria antes dizer os notáveis interesses!) – reflectem o grau zero daquilo que se podia esperar de um combate partidário. Discutem-se pessoas e não ideias, lugares e não projectos. O insuperável Luís Afonso (Público, 25/4/08) retrata fielmente a situação no seu Bartoon; quando uma cliente lê no jornal que “Alberto João Jardim diz que está próximo ideologicamente de Santana Lopes” e se questiona “Santana Lopes está ideologicamente onde?” o barman hesita, mas acaba por responder “Já sei! Próximo de Jardim”. Por isso, também não podia estar mais de acordo com Vasco Pulido Valente, quando diz “O que divide o PSD não é o programa ou a ideologia, em sentido estrito, mesmo porque o programa e a ideologia contam pouco num movimento populista. O que divide o PSD é uma questão política, a questão nua e crua do poder: quem manda ou não manda no partido.” (Público 25/4/08). Será diferente no PS? Não creio.


Uma coisa é certa. Quando José Sócrates perder a maioria absoluta em 2009, todos sabemos com quem se irá aliar.


Hugo Fernandez

Uma Choldra Torpe

albardeiro, 21.04.08

Portugal, nas palavras de um atrevido português – em honra ao seu criador e como espelho do que somos!!


– Como é que o senhor definiria Portugal, em quatro palavras?


– Isto é uma choldra.


– Mas não está a melhorar? A política do país não mostra progresso?


– A política! Isso tornou-se moralmente e fisicamente nojento. Os políticos hoje são homens de engonço que fazem gestos e tomam atitudes porque dois ou três financeiros por trás lhes puxam os cordéis... Ainda assim podiam ser bonecos bem recortados, bem envernizados! Mas qual! Aí é que está o horror. Não têm feitio, não têm maneiras, não se lavam, não limpam as unhas... Os três ou quatro salões que em Lisboa recebem todo o mundo, seja quem for, largamente, excluem a maioria dos políticos. E por quê? Porque as senhoras têm nojo.


Quem está com a palavra é João da Ega, português cujo nome soa a escândalo, adepto do "massacre das classes médias", do amor livre e da repartição das terras, tão peculiar pelas ideias como pela figura esgrouviada e seca, os pêlos do bigode arrebitados sob o nariz adunco, um monóculo entalhado no olho direito. Continuemos a entrevista.


– E, no entanto, na imprensa, lêem-se com frequência elogios aos políticos, descritos como homens de grande talento...


– É extraordinário! Neste abençoado país todos os políticos têm "imenso talento". A oposição confessa sempre que os ministros, que ela cobre de injúrias, têm, à parte os disparates que fazem, um "talento de primeira ordem". Por outro lado a maioria admite que a oposição, a quem ela constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de "robustíssimos talentos". De resto todo o mundo concorda que o país é uma choldra. E resulta portanto este fato supracómico: um país governado com imenso talento, que é de todos na Europa, segundo consenso unânime, o mais estupidamente governado!


– O que se deve fazer diante disso?


– Eu proponho isto, a ver: que, como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis!


João da Ega, se o leitor não sabe, é personagem do romance Os Maias, de Eça de Queiroz. As perguntas desta entrevista são inventadas. As respostas são todas extraídas do livro.


– O senhor censura muito a falta de soluções próprias em Portugal...


– Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssima com os direitos de alfândega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas.


 – O senhor seria capaz de dar exemplos do que está a dizer? De como as importações chegam deformadas a Portugal?


– O figurino da bota que veio de fora era levemente estreito na ponta; imediatamente o janota estica-o e aguça-o até ao bico de alfinete. Por seu lado, o escritor lê uma página de Goncourt ou de Verlaine em estilo precioso e cinzelado; imediatamente retorce, emaranha, desengonça a sua pobre frase até descambar no delirante e no burlesco. Por sua vez o legislador ouve dizer que lá fora se levanta o nível da instrução; imediatamente põe no programa dos exames de primeiras letras a metafísica, a astronomia, a filologia, e egiptologia, a cresmática, a crítica das religiões comparadas e outros infinitos terrores.


– O senhor uma vez viu um certo Sousa Neto perguntar se na Inglaterra também havia literatura, como em Portugal. Que faz esse Sousa Neto?


– Oficial superior duma grande repartição do Estado!


– Qual?


– Ora, de qual! De qual há-de ser?... Da instrução pública!


– Uma última pergunta: como é que o senhor definiria Portugal, em cinco palavras?


– Isto é uma choldra torpe. Portugal não precisa de reformas, mas é da invasão espanhola.