Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Quarta-feira, 24 de Março de 2004
Mais...

Domingo, Dezembro 14, 2003


(WWW.albardeiro.blogger.com.br) 


No dia em que o administrador e porta-voz americano anunciou em comício...perdão, em conferência de imprensa, de forma leonina e seca ¿ ¿apanhámo-lo¿ -, ele e aqueles que ele representa, ainda não perceberam que a questão não é bem essa. A questão... a verdadeira questão, que vai muito para além dessa exibição de pseudo justiça e legalidade, no fundo, esse panfleto para uso dos falcões junto dos media, diz respeito à afirmação da supremacia tecnomilitar ao serviço das corporações americanas e à necessidade do vale tudo para garantir o acesso, onde quer que eles estejam, aos recursos energéticos e às matérias-primas (já agora, a Guarda está cheia de urânio... peçam, que nós prometemos pensar no assunto! Na verdade, apenas um conselho: não se atrevam porque nós iríamos, ressuscitar o José do Telhado, o Remexido, o João Brandão, juntamente com alguns que por aí andam... o Paulo das Feiras..., o complexo industrial-militar das mocas de Rio Maior está pronto). Deixemo-nos de meias verdades, o problema, com mais ou menos captura não se altera, continua a ser essencialmente militar, e em sinal de admiração por alguns pensadores, como Noam Chomsky, Normam Mailer, Susan Sontag, George Steiner, Gore Vidal, etc. ocorre-nos apresentar mais um escrito de natureza ¿chomsky(ano)¿, ou será ¿chomsquista¿, ou... ! Uma coisa é certa, isto é, confirma-se: Nasce um pária internacional ! Se há alguma coisa óbvia na história da guerra, é que pouca coisa pode ser prevista. No Iraque, a força militar mais espantosa da história humana atacou um país muito mais fraco, uma disparidade de forças enorme. Demorará algum tempo até que as consequências disso possam ser avaliadas, ainda que de forma preliminar. Todos os esforços precisam ser dedicados a minimizar os danos, e a fornecer ao povo iraquiano os imensos recursos que lhe serão necessários para reconstruir a sua sociedade, depois de Saddam, à maneira que preferirem, e não como lhes ditarem governantes estrangeiros. Não existe motivo para duvidar da opinião quase universal de que a guerra no Iraque só fará aumentar a ameaça de terror, o desenvolvimento e o uso de armas de destruição em massa, por motivos de vingança ou dissuasão. No Iraque, o governo Bush está tentando realizar uma "ambição imperial", ou seja, em termos claros, assustando o mundo inteiro e fazendo dos Estados Unidos um pária internacional. A intenção declarada da atual. política americana é afirmar um poderio militar que seja supremo no mundo, para além de qualquer desafio. As guerras preventivas norte-americanas poderão ser combatidas da maneira que se quiser, guerras preventivas, e não de preempção. Quaisquer que possam ser as justificativas que existam para uma guerra de preempção, elas não se sustentam no caso das guerras preventivas, uma categoria muito diferente: o uso da força para eliminar uma ameaça forjada. Essa política abre caminho a uma disputa prolongada entre os Estados Unidos e os seus inimigos, alguns dos quais criados pela violência e pela agressão, e não só no Médio Oriente. Quanto a isso, o ataque norte-americano ao Iraque foi uma resposta às preces de Bin Laden. Para o mundo, o que esteve em jogo na guerra e no período que se seguiu tem importância quase suprema. Para seleccionar apenas uma das muitas possibilidades, a desestabilização no Paquistão pode levar à entrega de "armas nucleares perdidas" a uma rede mundial de grupos terroristas, talvez revigorada pela ocupação militar do Iraque. Outras possibilidades, não menos sombrias, são fáceis de imaginar. Mas a perspectiva de um desfecho mais benigno continua a existir, a começar pelo apoio mundial às vítimas da guerra, da brutal tirania e das mortíferas sanções contra o Iraque. Um sinal promissor é que a oposição à invasão, tanto antes quanto depois de consumada, foi inteiramente sem precedentes. Em contraste, 41 anos atrás, quando o governo Kennedy anunciava que pilotos norte-americanos estavam a bombardear e a metralhar alvos no Vietname, quase não houve protestos. E eles não chegaram a atingir um nível significativo ainda por alguns anos. Presentemente, ainda existem sinais e alguns movimentos de protesto contra a guerra em larga escala, dedicado e baseado em princípios, nos Estados Unidos e em todo o mundo. Embora com muitos solavancos e uma agressiva campanha levada a cabo por parte dos falcões e apaniguados do complexo industrial-militar, em todos os media, o movimento pela paz agiu vigorosamente antes mesmo que a nova guerra do Iraque tivesse começado. Isso reflecte o progresso constante, nos últimos anos, da intolerância à agressão e às atrocidades, uma das muitas mudanças que afectaram todo o mundo. Os movimentos activistas dos últimos 40 anos exerceram efeito civilizacional. Agora, a única maneira de os Estados Unidos atacarem um inimigo muito mais fraco é montar uma imensa ofensiva de propaganda retractando-o como a encarnação do mal, ou até mesmo como ameaça à nossa sobrevivência. Esse foi o cenário que Washington defendeu com relação ao Iraque. Mesmo assim, os activistas pela paz estão em posição muito melhor agora para impedir um novo recurso à violência, e isso é uma questão de extraordinária importância. Uma grande parte da oposição à guerra de Bush baseia-se no reconhecimento de que o Iraque foi apenas um caso especial da "ambição imperial" declarada vigorosamente na Estratégia de Segurança Nacional apresentada o ano passado. Para que tenhamos alguma perspectiva, na nossa situação actual., pode ser útil que relembremos episódios da história recente. Em Outubro de 2002 a natureza das ameaças à paz foi dramaticamente sublinhada numa conferência de cúpula realizada em Havana no 40º aniversário da crise dos mísseis de Cuba, à qual compareceram participantes-chave de Cuba, da Rússia e dos EUA. O facto de que tenhamos sobrevivido à crise foi um milagre. Aprendemos que o mundo foi salvo da devastação nuclear por um capitão de submarino russo, Vasili Arkhipov, que cancelou a ordem de disparar mísseis nucleares, quando submarinos russos foram atacados por destróieres americanos perto da linha de "quarentena" imposta por Kennedy. Se Arkhipov tivesse concordado com o disparo, o lançamento nuclear decerto teria criado uma troca de ataques que poderia "destruir o hemisfério Norte", como advertira Eisenhower. A assustadora revelação veio num momento particularmente adequado, dadas as circunstâncias: a raiz da crise dos mísseis era o terrorismo internacional para promover uma "mudança de regime", dois conceitos que estão nos pensamentos de todos hoje em dia. Os ataques terroristas norte-americanos contra Cuba começaram pouco depois que Castro assumiu o poder, e foram vigorosamente reforçados por Kennedy, até ao momento da crise dos mísseis e depois. Os novos estudos demonstram com brilhante clareza os riscos terríveis e imprevistos de ataques contra um "inimigo muito mais fraco", com o objectivo de promover uma "mudança de regime" riscos que podem em breve condenar-nos a todos, não é exagero dizer. Caminhos perigosos Os EUA estão desbravando novos e perigosos caminhos, diante de oposição mundial quase unânime. Há duas maneiras para que Washington responda a ameaças que são, em parte, engendradas pelas suas acções e proclamações surpreendentes. Uma delas é tentar aliviar as ameaças por meio de alguma atenção a queixas legítimas, e algum respeito à ordem mundial e suas instituições. A outra seria construir ainda mais espantosos aparelhos de destruição e domínio, de modo que qualquer desafio que se perceba, por mais remoto que pareça, possa ser esmagado gerando novos e ainda maiores desafios.



publicado por albardeiro às 19:23
link do post | comentar | favorito

Mais Coisas!

Sábado, Dezembro 13, 2003


Depois de um breve interregno por motivos profissionais e académicos aqui estamos novamente, mais animados(!), mais..., mais preocupados, mas sempre bem dispostos! ... nunca vi nada assim. Voltamos à vaca fria. Atenção, isto não é mais do mesmo... é só um poucochinho! Reportagem A guerra e o saque É só por curiosidade: em meados do ano passado, enquanto se estava a incubar ¿esta guerra¿, George W. Bush declarou que "temos de estar prontos para atacar em qualquer obscuro canto do mundo". O Iraque, portanto, é um obscuro canto do mundo. Julgará Bush que a civilização nasceu no Texas e que foram os seus compatriotas que inventaram a escrita? Nunca terá ouvido falar da biblioteca de Ninive, nem da torre de Babel, nem dos jardins suspensos da Babilónia? Não ouviu nem um só dos contos das mil e uma noites de Bagdad? Quem o elegeu presidente do planeta? A mim, ninguém me convocou para votar nessas eleições. E a vocês? Iríamos nós eleger um presidente surdo? Um homem incapaz de ouvir nada mais senão os ecos da sua voz? Surdo perante o troar incessante de milhões e milhões de vozes que pelas ruas do mundo estão declarando paz à guerra? Nem sequer foi capaz de ouvir o carinhoso conselho de Günter Grass. O escritor alemão, compreendendo que Bush tinha necessidade de demonstrar alguma coisa muito importante ao seu pai, recomendou-lhe que consultasse um psicanalista em vez de bombardear o Iraque. Em 1898, o presidente William McKinley declarou que Deus lhe tinha dado ordem de se apoderar das ilhas Filipinas, para civilizar e converter ao cristianismo os seus habitantes. McKinley disse que falou com Deus ao passear, à meia-noite, pelos corredores da Casa Branca. Mais de um século depois, o presidente Bush assegura que Deus esteve/está do seu lado na conquista do Iraque. A que hora e em que lugar recebeu a palavra divina? E porque terá Deus dado ordens tão contraditórias a Bush e ao Papa de Roma? Declarou-se guerra em nome da comunidade internacional, que está farta de guerras. E, como de costume, declarou-se guerra em nome da paz. Não é pelo petróleo, dizem. Mas se o Iraque produzisse rabanetes em lugar de petróleo, a quem passaria pela cabeça invadir esse país? Bush, Dick Cheney e a ¿doce¿ Condolezza Rice, terão renunciado realmente aos seus altos empregos na indústria petrolífera? Porquê esta mania de Tony Blair contra o ditador iraquiano? Não será porque há 30 anos Saddam Hussein nacionalizou a britânica Irak Petroleum Company? Quantos poços espera receber José María Aznar na próxima partilha... e o nosso barão ex-maoísta? A sociedade de consumo, bêbeda de petróleo, tem pânico da síndroma de abstinência. No Iraque, o elixir negro é o menos dispendioso, e se calhar o mais valioso. Numa manifestação pacifista em Nova Iorque, um cartaz perguntava: "Como é que o nosso petróleo foi parar debaixo das areias deles?" Os Estados Unidos anunciaram uma longa ocupação militar, após a vitória. Os seus generais encarregar-se-ão de estabelecer a democracia no Iraque. Será uma democracia igual à que ofereceram ao Haiti, à República Dominicana ou à Nicarágua? Ocuparam o Haiti durante 19 anos e fundaram um poder militar que foi desembocar na ditadura de Francois Duvalier. Ocuparam a Dominicana durante nove anos e fundaram a ditadura de Rafael Leónidas Trujillo. Ocuparam a Nicarágua durante 21 anos e fundaram a ditadura da família Somoza. A dinastia dos Somoza, que os marines puseram no trono, durou meio século, até que em 1979 foi varrida pela fúria popular. Então, o presidente Ronald Reagan montou a cavalo e lançou-se a salvar o seu país ameaçado pela revolução sandinista. A Nicarágua, pobre entre os pobres, tinha, no total, cinco ascensores e uma escada rolante, que não funcionava. Mas Reagan denunciava que a Nicarágua era um perigo; e enquanto ele falava, a televisão mostrava um mapa dos Estados Unidos pintado de vermelho a partir do sul, para ilustrar a invasão iminente. O presidente Bush copia-lhe os discursos que semeiam o pânico? Bush diz Iraque onde Reagan dizia Nicarágua? Títulos dos jornais, nos dias anteriores à guerra: "Os Estados Unidos estão prontos a resistir ao ataque". Recorde de vendas de fitas isolantes, de máscaras anti-gás, de pílulas anti-radiações... Porque é que tem mais medo o verdugo do que a vítima? Só por este clima de histeria colectiva? Ou treme porque pressente as consequências dos seus actos? E se o petróleo iraquiano incendiasse o mundo? Não será esta guerra a melhor vitamina de que está a precisar o terrorismo internacional? Dizem-nos que Saddam Hussein passou (agora?) a alimentar os fanáticos da AL Qaeda. Um ninho de corvos para que lhe arranquem os olhos? Os fundamentalistas islâmicos odiavam-no. É satânico um país onde se viam filmes de Hollywood, onde muitos colégios ensinavam/ensinam inglês, onde a maioria muçulmana não impede os cristãos de andarem com a cruz ao peito e não é de estranhar verem-se mulheres de calças e com blusas ousadas. Não houve nenhum iraquiano entre os terroristas que derrubaram as torres de Nova Iorque. Eram quase todos da Arábia Saudita, o melhor cliente dos Estados Unidos em todo o mundo. Também é saudita Bin Laden, esse bandido que os satélites perseguem enquanto foge a cavalo pelo deserto, e que diz presente de cada vez que Bush precisa dos seus serviços de ogre profissional. Sabiam que o presidente Dwight D. Eisenhower, em 1953, disse que a "guerra preventiva" era uma invenção de Adolfo Hitler? Afirmou: "Francamente, eu não levaria a sério ninguém que viesse propor-me uma coisa semelhante." Os Estados Unidos são o país que mais armas fabrica e vende no mundo. São também a única nação que lançou bombas atómicas contra a população civil. E está sempre, por tradição, em guerra contra alguém. Quem ameaçava/ameaça a paz universal? O Iraque? O Iraque não respeitava as resoluções da Organização das Nações Unidas (ONU)? Respeita-as Bush, que acaba de dar o mais espectacular coice na legalidade internacional? Respeita-as Israel, país especializado em ignorá-las? O Iraque ignorou no período anterior à ocupação, 17 resoluções da ONU. Israel, 64. Irá/pensará Bush bombardear o seu mais fiel aliado? O Iraque foi arrasado, em 1991, pela guerra de Bush pai, e reduzido à fome pelo bloqueio posterior. Que armas de destruição em massa pode esconder este país que foi em massa destruído? Israel, que desde 1967 usurpa terras palestinas, conta com um arsenal de bombas atómicas que lhe garantem a impunidade. E o Paquistão, outro fiel aliado que de resto é um notório ninho de terroristas, exibe as suas próprias ogivas nucleares. Mas o inimigo foi/é o Iraque, porque "poderia ter" essas armas. Se as tivesse, como a Coreia do Norte proclama que as tem, teriam a coragem de atacá-lo como o atacaram? E as armas químicas e biológicas? Quem vendeu a Saddam Hussein as substâncias para fabricar os gases venenosos que asfixiaram os curdos, e os helicópteros para lançar esses gases? Porque não mostra Bush os recibos? Naqueles anos, de guerra contra o Irão, de guerra contra os curdos, Saddam era menos ditador? Até Donald Rumsfeld o visitava em missão de amizade. Porque é que os curdos comovem agora, e antes não? E porque é que só comovem os curdos do Iraque, e não os curdos muito mais numerosos que a Turquia sacrificou? Rumsfeld, actual secretário da Defesa, anunciava que o seu país usaria "gases não mortais" contra o Iraque (se calhar usou e o mundo ainda não deu conta). Seriam gases tão pouco mortais como os que no ano passado usou Vladimir Putin no teatro de Moscovo, e que mataram mais de cem reféns? Durante uns tantos dias, durante a invasão, nas Nações Unidas cobriu-se com uma cortina a Guernica de Picasso, para que essa desagradável cenografia não perturbasse os toques de clarim de Colin Powell. De que tamanho será a cortina que esconderá a carnificina do Iraque, segundo a censura total que o Pentágono impôs aos correspondentes de guerra? Leiam o livro de Carlos Fino. Para onde irão as almas das vítimas iraquianas? Segundo o reverendo Billy Graham, assessor religioso do presidente Bush e agrimensor celestial, o paraíso é bem mais pequeno: mede nada mais que 1500 milhas quadradas. Poucos serão os eleitos. Adivinha: Qual será o país que comprou quase todas as entradas? E uma pergunta final, que peço emprestada a John Le Carré: - Vão matar muita gente, papá? - Ninguém que tu conheças, querido. Só estrangeiros. Nos próximos ¿Posts¿ vão surgir mais textos. Textos de autores por quem temos alguma simpatia, também de quem admiramos, e de quem, por vários anos de cumplicidades nos une uma profunda amizade.



publicado por albardeiro às 19:20
link do post | comentar | favorito

MAIS COISAS

Domingo, Janeiro 18, 2004 (OS originais podem ser vistos em WWW.albardeiro.blogger.com.br)


Foi assim que Miguel Sousa Tavares escreveu na última crónica (16/01/04) no jornal Público, um parágrafo apenas: ¿George W. Bush jamais se fará perguntas dessas. Ele representa o que de pior tem a América profunda, que é o instinto de se fechar sobre si própria, os seus valores e crenças e acreditar que o mundo não vai além do seu pequeno mundo e nada mais deseja do que poder imitá-lo. Esse simplismo de análise - que pode ser uma virtude quando as questões são simples - torna-se perigoso quando se trata de coisas mais fundas e complexas. Não há só os bons e os maus - há também maus que podem ter algumas boas razões e bons que podem ter comportamentos maus. Isso está para além da capacidade de compreensão de George W. Bush: basta olhar para ele. E o que mais assusta é olhar para Bin Laden e perceber que ele é infinitamente mais inteligente que Bush.¿


Domingo, 18 de Janeiro de 2004, O Público publicava também um artigo de KEVIN PHILLIPS sobre: As Ligações Perigosas da Dinastia Bush ao Dinheiro do Médio Oriente, segue-se um pequeno excerto: ¿Já no distante ano de 1964, George H. W. Bush, candidato ao Senado dos Estados Unidos pelo Texas, era apontado pelo adversário democrata Ralph Yarborough como uma marioneta do xeque do Kuwait, para quem a companhia de Bush fazia prospecção "offshore" de petróleo. Nas quatro décadas desde então, os Bush tornaram-se o primeiro clã político dos EUA a misturar-se completamente com famílias reais do Médio Oriente e com o dinheiro do petróleo. Entender como é que estas relações invulgares influenciaram mesmo o "11 de Setembro" e distorceram depois a resposta dos EUA ao terrorismo islâmico exige que se pense na família Bush como uma dinastia.¿ Por mais que doa isto não é anti-americanismo é a verdade dos factos. Confesso que ao ler um artigo de José Arbex Jr.*, não resisto a publicar mais algumas palavras sobre as ideias dos homens do Império que nos controla.


O Pentágono anunciou ao longo do ano que findou um programa que permitirá ao governo controlar todos os dados electronicamente registados de 290 milhões de cidadãos americanos; apesar de tudo, cresce a resistência a Bush. Imagine-se um país cujo governo tivesse acesso a todos os dados electronicamente registados da sua vida privada: gastos com cartão de crédito, levantamentos de dinheiro em caixas multibanco, históricos da vida profissional e privada, compras em supermercados, livros requisitados em bibliotecas, sites visitados na Internet, números de telefone marcados, registos de portagens, fichas dos vídeos alugados. Agora vamos imaginar que, por meio de supercomputadores, tal governo pudesse cruzar todos os dados e classificá-los segundo "padrões de comportamento". E imaginemos ainda que, por qualquer razão, acabamos de ser enquadrados numa "categoria comportamental" considerada perigosa: eu, você, nós poderemos ser detidos por policias que nem sequer terão de informar os motivos, ou poderemos ser interrogados sem que se expliquem as razões, no melhor estilo de Franz Kafka. "O Olho que tudo vê". Não é ficção, mesmo que se tenha pensado em 1984, de George Orwell. O Departamento da Defesa dos Estados Unidos anunciou, no fim de 2002, um vasto programa estratégico, intitulado Conhecimento Total de Informações (TIA, Total Information Awareness), com o objectivo de permitir ao governo rastrear os movimentos dos 290 milhões de cidadãos estadunidenses, para "prevenir ataques terroristas". As informações electrónicas, fornecidas por corporações privadas, além dos registros públicos, serão armazenadas em gigantescos bancos de dados (para mais informações, consulte o site www.epic.org/privacy/profiling/tia/). Detalhe: 45 por cento dos executivos das grandes empresas admitiram já ter passado informações sobre os seus clientes ao governo; 41 por cento declararam-se dispostos a fazê-lo voluntariamente, mesmo sem uma ordem judicial, segundo uma pesquisa realizada pela revista especializada em segurança e endereçada aos executivos, CSO, publicada em 18 de dezembro de 2002 (www.csoonline.com/csoresearch/report49.html). O logotipo do programa diz tudo: o "olho que tudo vê", que aparece no Grande Selo dos Estados Unidos, joga um facho de luz sobre o globo terrestre. O lema do departamento é "Scientia est potentia" (conhecimento é poder). O Big Brother chega em grande estilo. Mas o pior vem agora: o projecto todo foi idealizado por ninguém menos que John Poindexter (já falámos da figura), assessor de segurança nacional do presidente Ronald Reagan em 1985-86, quando foi acusado de liderar a "operação Irão-Contras". Agentes secretos estadunidenses, sob a chefia directa do braço direito de Poindexter, coronel Oliver North (espécie de "Rambo da vida real"), vendiam mísseis a Teerão, de forma clandestina e ilegal, a história como se sabe é mais do que conhecida; os fundos eram destinados a financiar os "contras", guerrilheiros de direita que lutavam para depor o governo sandinista da Nicarágua. Em 1990, Poindexter foi condenado por cinco acusações, incluindo conspiração e mentir ao Congresso, mas acabou absolvido por um tribunal de apelações, pois os seus depoimentos haviam sido dados sob a garantia de imunidade. No governo Bush, Poindexter é director do Escritório para o Conhecimento de Informações (encarregado de implantar o TIA), que por sua vez faz parte da Agência para Pesquisa de Projectos Avançados da Defesa (Darpa, na sigla em inglês), responsável pela criação da Internet.Tudo, menos Poindexter Mesmo aqueles que aceitam, em tese, a ideia do programa não suportam a perspectiva de ter Poindexter na chefia. "Se temos que ter um Grande Irmão, John Poindexter é o último nome da lista que eu escolheria", disse o senador democrata Chuck Schumer. Outros políticos disseram estar dispostos a propor medidas destinadas a garantir o direito à privacidade dos cidadãos (estadunidenses, é claro). Os mais importantes jornais do país ¿ incluindo The New York Times e The Washington Post ¿ criticaram a indicação de Poindexter. Pete Aldridge, subsecretário do Pentágono para pesquisas tecnológicas, tentando acalmar os ânimos, alegou que Poindexter foi o idealizador do projecto, apresentado logo após o atentado de 11 de setembro de 2001, e que só permanecerá na sua chefia durante a fase de pesquisas e instalação. Que bom! Assim ficamos todos mais tranquilos. O anúncio do TIA não deve ser visto como uma iniciativa isolada, um "raio no céu estrelado". Ao contrário, ele é um resultado lógico de uma política de conjunto, articulada por George Bush júnior logo após a destruição das torres gémeas e baptizada como "guerra ao eixo do mal". A expressão política institucional de tal "guerra", o Decreto Patriótico, promulgado sob o impacto do atentado, atribuiu ao Poder Executivo poderes extraordinários de deter, seguir e investigar qualquer cidadão estadunidense, mesmo sem autorização judicial. Com o auxílio dos media, a Casa Branca alimenta a paranóia antiterrorista, criando situações inusitadas. Recentemente, a insuspeita Academia de Ciências dos Estados Unidos queixou-se de que o governo está a impossibilitar trabalhos de pesquisa, retirando do espectro sites da Internet que contêm informações científicas e estatísticas importantes. São censuradas até mesmo informações sobre relevo topográfico e meteorologia, prejudicando produtores rurais. Império ou República Apesar de tudo, embora a comunicação social faça entender o contrário, a resistência a Bush cresce. Dezenas de grupos de defesa das liberdades civis pressionam os congressistas para impedirem que o projecto TIA continue. Gradativamente, recompõem-se as organizações contrárias à globalização e aos planos imperiais da Casa Branca, desarticuladas sob o impacto do atentado. Nos dias 18 e 19 de janeiro, centenas de milhares de pessoas realizaram manifestações, em San Francisco, Nova York, Washington e outras cidades, contra a ocupação no Iraque. Significativamente, as manifestações foram organizadas como forma de comemorar o aniversário do pastor negro protestante Martin Luther King, um dos maiores líderes da luta contra o racismo (15/1/1929 - 4/4/1968), fazendo assim um vínculo directo entre as lutas actuais e aquelas que acabaram por impor a derrota do império no Vietname. No ano passado, recordam-se ainda, quarenta personalidades estadunidenses laureadas com o Prémio Nobel assinaram uma declaração contra a guerra no Iraque. "As consequências médicas, económicas, ambientais, espirituais, políticas e legais de um ataque preventivo dos Estados Unidos ao Iraque podem minar, e não proteger, a segurança dos americanos e a estabilidade do mundo", afirmava a declaração. No último Novembro, milhares de intelectuais, artistas, professores, trabalhadores e jovens ¿ incluindo nomes como Noam Chomsky, Oliver Stone, Jane Fonda, Susan Sarandon, David Harvey, Laurie Anderson, Gore Vidal, Danny Glover ¿ assinaram um forte manifesto contra o ataque ao Iraque, intitulado "Não em Nosso Nome". Devem também recordar-se que o actor Sean Penn fez publicar um anúncio de protesto, no Washington Post, e visitou na altura Bagdade. O Big Brother ainda não venceu. De facto, a batalha está no começo. Como muitos já previram e disseram, a guerra, nos Estados Unidos, será travada entre o império e a república. Os destinos do mundo dependem, em grande parte, de quem vencerá. Prometemos quando houver mais disponibilidade voltar a falar destas questões recorrentes. Agora é tempo de corrigir exames e acabar um trabalho para publicação que já devia estar terminado, na verdade... não digo quando! Nos próximos ¿POSTS¿ serão os amigos a deixar a sua marca. *José Arbex Jr. é jornalista.



publicado por albardeiro às 19:13
link do post | comentar | favorito

COISAS DE HISTÓRIA

Este texto devia ser (mas não é!... Feitios e não há volta a dar, provavelmente com mais prejuízo profissional e académico... digo eu!) a forma de homenagear (sem qualquer embaraço, diria preitear) uma amiga e antiga professora (de mestrado, o primeiro do género em Portugal; neste momento não é importante a sua designação, mas os seus ensinamentos sobre a desconstrução discursiva e intertextualidades permaneceram). Solidária, prestativa e sempre preocupada em valorizar os seus pares, diria que o seu desprendimento pessoal e o seu profundo humanismo, além da dignidade e da ética profissional nunca descuidadas, cativaram-me sempre. Num momento crucial para a sua/nossa Universidade, em que foi Vive-Reitora, ela que sempre sonhou com um Universidade forte e actuante e tantos outros sonhos que tive a oportunidade de a ouvir expressar num colóquio realizado no Rio de Janeiro, à uns atrás e em que tive a honra conjuntamente com outros colegas de participar ao seu lado. Com este texto, que não é mais do que um mero trabalho académico que em tempos realizei para a cadeira que leccionou e que eu frequentei, proponho-me fazer a minha homenagem... à minha maneira! Devido à sua extensão, o texto será publicado em dois ¿POSTS¿.


Falar de ARQUIVOS


O Factor A


Desde o surgimento, no século XIX, do método crítico e do historiador profissional, a questão do "arquivo" nunca mais deixou de ocupar um lugar central nos debates historiográficos. A evolução da história, que se tornou uma disciplina que recorre aos métodos das ciências sociais, especialmente a entrevista, e o surgimento recente de uma "história do tempo presente", que implica a confrontação directa e o diálogo permanente com os vestígios vivos do passado - a memória dos actores -, modificaram de alguma maneira o debate clássico sobre a noção de "arquivo". A isso veio somar-se uma mudança radical no plano epistemológico, com o aparecimento, nos últimos trinta anos, de paradigmas que negam à história a sua pretensão de captar o real, definindo-a como - e às vezes reduzindo-a como muitas vezes aconteceu a - uma narrativa subjectiva, na qual o estabelecimento da prova, portanto o uso do arquivo, não constitui mais a base na qual ela pode legitimamente apoiar-se. Mas, ao mesmo tempo, o desejo cada vez mais explícito na opinião pública de uma história "positiva", baseada em provas irrefutáveis, especialmente para períodos ou acontecimentos trágicos do século XX, tem incessantemente retraído os historiadores, obrigando-os a uma abordagem cada vez mais prudente dos arquivos, remetendo-os mais uma vez a uma pergunta ancestral e contudo incontornável: como chegar à verdade do passado, se é que isso é possível? Basta ver o vigor dos debates recentes, o seu carácter irracional, carregado de ideologia, ou até mesmo de fantasias, sobre os arquivos contemporâneos, a sua inacessibilidade real ou presumida, a expectativa em relação a eles, para compreender que o problema ultrapassa o meio dos arquivistas, dos conservadores ou dos historiadores e tem a ver hoje em dia com o espaço público mais amplo. Isso fica especialmente claro em relação à história da Segunda Guerra Mundial ou à do sistema soviético, cuja queda acarretou um súbito acesso (ainda assim limitado) a jazidas documentais que durante décadas se acreditou estarem enterradas para todo o sempre nas gavetas secretas das burocracias totalitárias. Por outras palavras, exactamente no momento em que toda uma corrente intelectual, inscrita na "pós-modernidade", denunciava a possibilidade de uma restituição objectiva do passado, baseada em vestígios tangíveis, a busca social por uma história que diga a verdade, que exija uma maior "transparência" em relação aos arquivos mais recentes, tornou-se cada vez mais premente. Essa tensão contemporânea nem por isso relega à feira das antiguidades as questões tradicionais suscitadas pelo uso dos arquivos ¿ o Factor A (A= arquivo). Ao contrário, essas questões podem permitir, num certo sentido, reenquadrar os termos do debate. A utilização de um "arquivo" pelos historiadores só pode ser compreendida sob a luz da noção de "fonte". Chamaremos de "fontes" a todos os vestígios do passado que os homens e o tempo conservaram, voluntariamente ou não - sejam eles originais ou reconstituídos, minerais, escritos, sonoros, fotográficos, audiovisuais, ou até mesmo, daqui para a frente e cada vez mais, "virtuais" (contanto, nesse caso, que tenham sido gravados numa memória) -, e que o historiador, de maneira consciente, deliberada e justificável, decide erigir em elementos comprobatórios da informação a fim de reconstituir uma sequência particular do passado, de analisá-la ou de restituí-la aos seus contemporâneos sob a forma de uma narrativa, em suma, de uma escrita dotada de uma coerência interna e refutável, portanto de uma inteligibilidade científica. Se admitirmos essa definição inicial, o "arquivo" no sentido comum do termo, isto é, o documento conservado e depois exumado para fins de comprovação, para estabelecer a materialidade de um "facto histórico" ou de uma acção, não passa de um elemento de informação entre outros. A dificuldade consiste então em distinguir as fontes - os vestígios - umas das outras, a fim de determinar aquelas que permitem uma abordagem racional do passado. Isso implica uma escolha das fontes mais pertinentes, não por elas mesmas, mas em função das perguntas que o observador faz previamente. Se tomarmos duas ou três das fontes mais comuns da história do tempo presente - o testemunho oral, a imprensa e o documento (escrito) obtido nos fundos de arquivos públicos ou privados -, poderemos ilustrar a natureza dos problemas encontrados pelos historiadores diante do seu material usual. O testemunho colhido a posteriori, pela sua própria natureza, é uma das características da história do tempo presente. Ele leva à criação de uma fonte singular na medida em que destinada desde o início seja a formar um arquivo, no sentido de conservar - eis aqui a memória de tal indivíduo ou de tal grupo -, seja a alimentar uma pesquisa específica. Nos dois casos, essa fonte está intrinsecamente ligada ao questionamento preciso do arquivista ou do historiador, voltada para um acontecimento, um indivíduo, um determinado processo histórico, e entra em sinergia ou em oposição com o discurso do actor assim erigido em "testemunha".


2ª PARTE


O documento escrito (carta, circular, auto etc.) proveniente de um fundo de arquivo foi por sua vez produzido por instituições ou indivíduos singulares, tendo em vista não uma utilização ulterior, e sim, na maioria das vezes, um objectivo imediato, espontâneo ou não, sem a consciência da historicidade, do carácter de "fonte" que poderia vir a assumir mais tarde. É quase um truísmo lembrar que um vestígio do passado raramente é o resultado de uma operação consciente, capaz de se pensar enquanto vestígio, e não enquanto acção inscrita no seu tempo, e portanto capaz de antecipar o olhar que lançarão sobre ele as gerações futuras, ainda que às vezes exista em alguns actores a vontade de deixar rastros da sua passagem. Mas mesmo que alguns homens, pequenos ou grandes, tentem escrever em vida uma parte da sua história e influir sobre as narrativas futuras, raras são as iniciativas desse género que resistem à alteridade do tempo ou do olhar dos descendentes, tanto assim que as narrativas do passado, mesmo de natureza mítica ou legendária, não podem hoje livrar-se completamente da crítica, ela própria consequência da afirmação de uma história com pretensão científica que modificou singularmente, ao menos nas sociedades ocidentais, leigas e seculares, a abordagem que uma colectividade faz de seu passado. A diferença de estatuto entre essas duas fontes salta imediatamente aos olhos. Elas não são produzidas na mesma hora: uma é contemporânea dos factos, a outra posterior; elas não têm as mesmas condições de abundância, já que nenhuma pesquisa oral, mesmo sistemática, pode rivalizar com a massa de documentos de todo o tipo produzidos pelo mais insignificante organismo, sobretudo público; elas não têm as mesmas finalidades: uma é de carácter memorial, pretende ser um vestígio induzido, consciente e voluntário do passado; a outra é funcional antes de ser vestígio, tanto é verdade que ninguém pode prever com certeza se este ou aquele documento será conservado ou não, e por quanto tempo. A esta altura, poder-se-ia crer que o que pretendemos é, por caminhos tortuosos, opor mais uma vez o testemunho oral e o arquivo escrito, e levantar a questão, banal e recorrente, da sua respectiva confiabilidade, a fim de determinar qual dos dois teria mais valor para o conhecimento objectivo do passado. Ora, ainda que se trate aí de um debate real, não é esse o nosso objectivo. Ao contrário, queremos menos sublinhar as diferenças que evidenciar as características comuns a toda fonte histórica e, dessa forma, convidar à reflexão não sobre o método histórico e as técnicas do historiador, mas antes sobre os próprios fundamentos da actividade historiadora. Um testemunho colhido ou um documento conservado só deixam de ser vestígios do passado para se tornarem "fontes históricas" no momento em que um observador decide erigi-los como tais. Toda a fonte é uma fonte "inventada", assim como todo o "indivíduo histórico", no sentido em que falava Max Weber, é uma construção, um tipo ideal. A "narrativa histórica" começa com o estabelecimento de um corpus coerente, inteligível sob o ponto de vista de uma investigação precisa, e não sob o ponto de vista de um passado que se pretenderia simplesmente restituir na sua verdade recôndita. Por outras palavras, a constituição da narrativa não é a etapa final - o texto/ensaio/livro de história - a que se chega depois de acumulada a documentação; é intrínseca ao próprio procedimento daquele que interroga o passado. A narrativa começa com as hipóteses, a formulação das perguntas e o estabelecimento de um corpus, uma operação fundamental de selecção que não pode ser desvinculada do objectivo final, mesmo que o resultado possa estar muito distante das intuições do início. Isso não significa que o vestígio não encerre uma verdade intrínseca, ou que o real seria inacessível, mas induz a não pensarmos a "fonte" fora da pergunta e do olhar do historiador que, como um cineasta que desloca os seus reflectores e as suas objectivas ao longo dos planos, vai esclarecer de maneira parcial uma sequência do passado, vai, ele também, criar um vestígio, deixar uma marca, uma mediação. Simplificando, é raro que dois historiadores que fazem a mesma pergunta sobre um mesmo acontecimento ou um mesmo período estabeleçam corpus idênticos e construam os seu(s) facto(s) da mesma maneira - o que não diminui em nada, se o seu procedimento for rigoroso, a (con)fiabilidade do seu trabalho. Escrito, oral ou filmado, o arquivo é sempre o produto de uma linguagem própria, que emana de indivíduos singulares ainda que possa exprimir o ponto de vista de um colectivo (administração, empresa, partido político etc.). Ora, é claro que essa línguagem e essa escrita devem ser decodificadas e analisadas. Mas, mais que de uma simples "crítica interna", para retomar o vocabulário ortodoxo, trata-se aí de uma forma particular de sensibilidade à alteridade, de "um errar através das palavras alheias", para retomar a feliz expressão de Arlette Farge(1) . É esse encontro entre duas subjectividades o que importa, mais que o terreno sobre o qual ele se dá ou o tipo de rastro que o torna possível através do tempo. Nesse sentido, muitas vezes esquecemos que muitos arquivos escritos não passam eles próprios de testemunhos contemporâneos ou posteriores aos factos, dotados de uma componente irredutível de subjectividade e de interpretação que a sua condição de "arquivo" absolutamente não reduz: é o caso dos autos policiais - para tomar apenas um exemplo entre os arquivos ditos "sensíveis" -, que muitas vezes são apenas o resultado de transcrições escritas e conservadas de depoimentos orais que foram objecto de uma mediação, de uma narrativa, a qual não pode senão alterar a declaração original feita pelo actor ou a testemunha interrogada. A escrita, a impressão, portanto a possibilidade de um documento resistir ao tempo e acabar um dia sobre a mesa do historiador não conferem a esse vestígio particular uma verdade suplementar diante de todas as outras marcas do passado: existem mentiras gravadas no mármore e verdades perdidas para sempre.


(1) Arlette Farge, Le goût de l'archive, Seuil, 1989, p. 147


Afinal ainda vai haver uma 3ª PARTE


 


 


Continua o texto de homenagem Vou alterar o título para A Memória ou a sua falta em História: O Factor A 3ª PARTE Da mesma forma, todo o depoimento ou todo o documento exige, para ser significativo, uma recontextualização - especialmente no caso do arquivo escrito - que implica que sejam examinadas séries mais ou menos completas para se compreender a lógica, no tempo e no espaço, do actor ou da instituição que produziu este ou aquele documento. É um tanto incómodo lembrar algo tão óbvio, mas esse é um problema capital na mediatização (no sentido comunicacional do termo) cada vez mais frequente hoje em dia de certos documentos históricos, obtidos ao acaso numa pesquisa ou numa "revelação" espontânea: não apenas esses procedimentos levam a sentidos equivocados, e até mesmo a erros graves de interpretação, como fazem crer que a verdade de um acontecimento decorreria da leitura primária e imediata de um documento que se supõe ser decisivo, comprobatório e definitivo. Esses procedimentos bastante conhecidos (lembremos novamente os arquivos de Vichy, da KGB ou da PIDE) têm o efeito de arrastar os historiadores para um terreno que se acreditava estar abandonado há muito tempo, o de um positivismo rasteiro, estranho a qualquer construção ou questionamento, quando a evolução da disciplina voltou definitivamente as costas para essas concepções ultrapassadas. É essa tensão entre uma história que procura situar-se em níveis de elaboração cada vez mais sofisticados (às vezes até demais) e uma expectativa da opinião pública (e de alguns membros da ¿academia¿) por provas definitivas que torna hoje o trabalho do historiador e o debate sobre os arquivos tão complexos: tivemos inúmeros exemplos com a história do Holocausto, uma escrita em si mesma árdua, que foi acompanhada de uma discussão, até mesmo de uma pressão, para que se enfrentasse as iniciativas negacionistas situando-se no terreno exclusivo da prova material, como o demonstram por exemplo os debates em torno do livro de Jean-Claude Pressac sobre os fornos crematórios de Auschwitz(2) . Poderíamos retomar o mesmo argumento a propósito dos arquivos soviéticos, que, segundo dizem alguns historiadores, devem ser (tem sido) objecto de um exame sistemático e exaustivo, independente de qualquer ¿cerceamento¿ de leitura, sob o pretexto um tanto estranho da "urgência", partindo a priori do princípio de que esses arquivos vão (estão a) provocar uma revolução no conhecimento do mundo comunista, e quem sabe até de toda a história do século XX(3) . Finalmente, o testemunho assim como o arquivo dito escrito revelam pela sua própria existência uma falta, ideia esta tomada emprestada a Michel de Certeau. O vestígio é, por definição, o indício daquilo que foi irremediavelmente perdido: por um lado, pela sua própria definição, o vestígio é a marca de alguma coisa que foi, que passou, e deixou apenas o sinal da sua passagem; por outro lado, esse vestígio que chega até nós é, de maneira implícita, um indício de tudo aquilo que não deixou lembrança e pura e simplesmente desapareceu... sem deixar vestígio - todos os arquivistas e historiadores sabem que perto de nove décimos dos documentos são destruídos para um décimo conservado. Que historiador um dia não foi tomado de desespero diante da tarefa que o espera e dos milhões de documentos a serem lidos, para, no dia seguinte, ser tomado de vertigem diante de tudo o que jamais poderá saber, de tudo o que nunca será nem "memória", nem "história"? Partindo destas observações um tanto sumárias, podemos prevenir-nos contra o fetichismo do documento, tão difundido nos nossos dias, e que caminha lado a lado com a obsessão, igualmente suspeita, de uma transparência absoluta - uma palavra que é aliás problemática, pois tornar alguma coisa transparente é também torná-la invisível... Nenhum documento jamais falou por si só: este é sem dúvida o cliché mais difícil de combater e o mais difundido, sobretudo no que se refere aos arquivos ditos "sensíveis". Existe um abismo entre aquilo que o autor de um documento pôde ou quis dizer, a realidade que esse documento exprime e a interpretação que os historiadores que se sucederão na sua leitura farão mais tarde: é um abismo irremediável, que deve estar sempre presente na consciência pois assinala a distância irredutível que nos separa do passado, essa "terra estrangeira"(4) . O trabalho do historiador é por definição uma operação selectiva, que depende do que foi efectivamente conservado, depende da sua capacidade pessoal e se inscreve num contexto particular. Enfim, e isto é a nosso ver essencial, nenhuma pesquisa oral conduzida por um historiador, nenhum trabalho de selecção de arquivos pode ser feito sem um mínimo de questionamentos e de hipóteses prévias, mas tampouco - e este é um dilema real ¿ se deve fechar à surpresa da descoberta. É preciso, portanto, deixar os caminhos conhecidos, olhar para aquilo que não se pretendia ver a priori, como um "errante", para retomar a expressiva imagem de Arlette Farge(5) . Evidentemente isso significa que o historiador ou o arquivista devem poder ter acesso ao maior número possível de fontes - e aqui encaixa-se o debate sobre o fechamento à consulta de certos arquivos, sobre as "derrogações", em suma, sobre as condições nas quais se exerce a prática profissional da história -, mas significa também que nenhum debate sobre a escrita da história ou sobre a relação com o arquivo se pode furtar a esta pergunta temível: qual é a pergunta para a qual o historiador procura uma resposta e quais são as fontes mais pertinentes para responder a ela? O acesso aos arquivos, por mais liberal e amplo que seja, dá-nos ipso facto a chave do passado? Inversamente, a ausência de documentos ou a impossibilidade de acesso a eles privam-nos realmente de toda a forma de conhecimento sobre este ou aquele aspecto da História? Acessíveis ou fechados, os arquivos são o sintoma de uma falta, e a tarefa do historiador consiste tanto em tentar supri-la e em se inscrever num processo de conhecimento, quanto em tentar exprimi-la de maneira inteligível, a fim de reduzir o máximo possível a estranheza do passado.


(2) Jean-Claude Pressac, Les crématoires d'Auschwitz. La machinerie du meurtre de masse, CNRS Éditions, 1993.


(3) Ver principalmente Simone Courtois e a abordagem mais reconfortante em termos intelectuais de Nicolas Werth.


(4) David Lowenthal, The past is a foreign country, Cambridge University Press, 1985.


(5)Arlette Farge, op. cit., p. 88



publicado por albardeiro às 19:05
link do post | comentar | favorito

pesquisar
 
Novembro 2019
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


posts recentes

UM PAÍS

DONOS DISTO TUDO

CAUSA E EFEITO

CATALUNYA

PAÍS NORMAL

SÍNDROMA PULLMAN

ESPANTO

POR OUTRO LADO

ELES COMEM TUDO

O MAIS

arquivos

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Janeiro 2019

Novembro 2018

Setembro 2018

Julho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Janeiro 2016

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Abril 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds