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albardeiro

Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!

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Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!

Uma Choldra Torpe

albardeiro, 21.04.08

Portugal, nas palavras de um atrevido português – em honra ao seu criador e como espelho do que somos!!


– Como é que o senhor definiria Portugal, em quatro palavras?


– Isto é uma choldra.


– Mas não está a melhorar? A política do país não mostra progresso?


– A política! Isso tornou-se moralmente e fisicamente nojento. Os políticos hoje são homens de engonço que fazem gestos e tomam atitudes porque dois ou três financeiros por trás lhes puxam os cordéis... Ainda assim podiam ser bonecos bem recortados, bem envernizados! Mas qual! Aí é que está o horror. Não têm feitio, não têm maneiras, não se lavam, não limpam as unhas... Os três ou quatro salões que em Lisboa recebem todo o mundo, seja quem for, largamente, excluem a maioria dos políticos. E por quê? Porque as senhoras têm nojo.


Quem está com a palavra é João da Ega, português cujo nome soa a escândalo, adepto do "massacre das classes médias", do amor livre e da repartição das terras, tão peculiar pelas ideias como pela figura esgrouviada e seca, os pêlos do bigode arrebitados sob o nariz adunco, um monóculo entalhado no olho direito. Continuemos a entrevista.


– E, no entanto, na imprensa, lêem-se com frequência elogios aos políticos, descritos como homens de grande talento...


– É extraordinário! Neste abençoado país todos os políticos têm "imenso talento". A oposição confessa sempre que os ministros, que ela cobre de injúrias, têm, à parte os disparates que fazem, um "talento de primeira ordem". Por outro lado a maioria admite que a oposição, a quem ela constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de "robustíssimos talentos". De resto todo o mundo concorda que o país é uma choldra. E resulta portanto este fato supracómico: um país governado com imenso talento, que é de todos na Europa, segundo consenso unânime, o mais estupidamente governado!


– O que se deve fazer diante disso?


– Eu proponho isto, a ver: que, como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis!


João da Ega, se o leitor não sabe, é personagem do romance Os Maias, de Eça de Queiroz. As perguntas desta entrevista são inventadas. As respostas são todas extraídas do livro.


– O senhor censura muito a falta de soluções próprias em Portugal...


– Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssima com os direitos de alfândega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas.


 – O senhor seria capaz de dar exemplos do que está a dizer? De como as importações chegam deformadas a Portugal?


– O figurino da bota que veio de fora era levemente estreito na ponta; imediatamente o janota estica-o e aguça-o até ao bico de alfinete. Por seu lado, o escritor lê uma página de Goncourt ou de Verlaine em estilo precioso e cinzelado; imediatamente retorce, emaranha, desengonça a sua pobre frase até descambar no delirante e no burlesco. Por sua vez o legislador ouve dizer que lá fora se levanta o nível da instrução; imediatamente põe no programa dos exames de primeiras letras a metafísica, a astronomia, a filologia, e egiptologia, a cresmática, a crítica das religiões comparadas e outros infinitos terrores.


– O senhor uma vez viu um certo Sousa Neto perguntar se na Inglaterra também havia literatura, como em Portugal. Que faz esse Sousa Neto?


– Oficial superior duma grande repartição do Estado!


– Qual?


– Ora, de qual! De qual há-de ser?... Da instrução pública!


– Uma última pergunta: como é que o senhor definiria Portugal, em cinco palavras?


– Isto é uma choldra torpe. Portugal não precisa de reformas, mas é da invasão espanhola.

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