Uma Choldra Torpe
Portugal, nas palavras de um atrevido português em honra ao seu criador e como espelho do que somos!!
Como é que o senhor definiria Portugal, em quatro palavras?
Isto é uma choldra.
Mas não está a melhorar? A política do país não mostra progresso?
A política! Isso tornou-se moralmente e fisicamente nojento. Os políticos hoje são homens de engonço que fazem gestos e tomam atitudes porque dois ou três financeiros por trás lhes puxam os cordéis... Ainda assim podiam ser bonecos bem recortados, bem envernizados! Mas qual! Aí é que está o horror. Não têm feitio, não têm maneiras, não se lavam, não limpam as unhas... Os três ou quatro salões que em Lisboa recebem todo o mundo, seja quem for, largamente, excluem a maioria dos políticos. E por quê? Porque as senhoras têm nojo.
Quem está com a palavra é João da Ega, português cujo nome soa a escândalo, adepto do "massacre das classes médias", do amor livre e da repartição das terras, tão peculiar pelas ideias como pela figura esgrouviada e seca, os pêlos do bigode arrebitados sob o nariz adunco, um monóculo entalhado no olho direito. Continuemos a entrevista.
E, no entanto, na imprensa, lêem-se com frequência elogios aos políticos, descritos como homens de grande talento...
É extraordinário! Neste abençoado país todos os políticos têm "imenso talento". A oposição confessa sempre que os ministros, que ela cobre de injúrias, têm, à parte os disparates que fazem, um "talento de primeira ordem". Por outro lado a maioria admite que a oposição, a quem ela constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de "robustíssimos talentos". De resto todo o mundo concorda que o país é uma choldra. E resulta portanto este fato supracómico: um país governado com imenso talento, que é de todos na Europa, segundo consenso unânime, o mais estupidamente governado!
O que se deve fazer diante disso?
Eu proponho isto, a ver: que, como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis!
João da Ega, se o leitor não sabe, é personagem do romance Os Maias, de Eça de Queiroz. As perguntas desta entrevista são inventadas. As respostas são todas extraídas do livro.
O senhor censura muito a falta de soluções próprias em Portugal...
Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssima com os direitos de alfândega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas.
O senhor seria capaz de dar exemplos do que está a dizer? De como as importações chegam deformadas a Portugal?
O figurino da bota que veio de fora era levemente estreito na ponta; imediatamente o janota estica-o e aguça-o até ao bico de alfinete. Por seu lado, o escritor lê uma página de Goncourt ou de Verlaine em estilo precioso e cinzelado; imediatamente retorce, emaranha, desengonça a sua pobre frase até descambar no delirante e no burlesco. Por sua vez o legislador ouve dizer que lá fora se levanta o nível da instrução; imediatamente põe no programa dos exames de primeiras letras a metafísica, a astronomia, a filologia, e egiptologia, a cresmática, a crítica das religiões comparadas e outros infinitos terrores.
O senhor uma vez viu um certo Sousa Neto perguntar se na Inglaterra também havia literatura, como em Portugal. Que faz esse Sousa Neto?
Oficial superior duma grande repartição do Estado!
Qual?
Ora, de qual! De qual há-de ser?... Da instrução pública!
Uma última pergunta: como é que o senhor definiria Portugal, em cinco palavras?
Isto é uma choldra torpe. Portugal não precisa de reformas, mas é da invasão espanhola.
