Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Sexta-feira, 3 de Junho de 2022
SOCIEDADE DO DESCONHECIMENTO

Imagine-se a seguinte cena: numa escola americana, um aluno (Danny) confronta a professora por ter tido má nota num teste de Matemática. A professora explica-lhe que está com dificuldades nas operações de adição, exemplificando que este respondeu 22 à soma de 2+2. Numa atitude pedagógica, a professora diz: “Não fiques aborrecido; estás aqui para aprender e nós aprendemos com os nossos erros.”, ao que o petiz profere um sonoro e frustrado “Nãaaao!” A professora tenta demonstrar-lhe o cálculo que devia ter feito mas, perante a resposta correta, o aluno exclama, “Isso é estúpido”, insistindo que o resultado certo é 22 em vez de 4, e saindo intempestivamente da sala. No dia seguinte, a professora recebe a visita dos pais do Danny. Quando esta lhes diz que o aluno respondeu 22 ao resultado da soma de 2+2, os pais olham surpreendidos um para o outro e questionam, “E…?”, ao que a professora esclarece, incrédula, que essa não é a resposta certa, mas sim 4. A mãe da criança pergunta, então, à professora, “Quem disse?”, ao que esta responde calmamente, “A Matemática disse”. A troca de palavras sobe de tom, com os pais a acusarem a docente de estar a chamar o seu filho de “burro”, o que esta prontamente nega. Irritado, o pai pergunta-lhe: “Quem é você para afirmar que a sua resposta está certa e a do meu filho errada?” Começam os insultos, com o pai a alegar que o filho “é um livre pensador”. A professora acaba por ser agredida pela mãe do aluno. É apresentada queixa à direção da escola, que exige à docente um pedido de desculpa aos pais, alegando que “não é trabalho dos professores dizer quando os alunos estão certos ou errados.” Perante a recusa em pedir desculpa, a docente é suspensa de funções, enquanto “reconsidera as suas atitudes extremistas”.

Entretanto os pais do Danny promovem uma campanha pública contra a professora, processando a escola por esta ter causado “stress emocional a um menor”. Dias depois, face à posição assumida, a docente é chamada à administração escolar e instada a declarar que está “aberta à possibilidade de existirem várias respostas certas”, ao que a docente, indignada, alega que “isso não é verdade”. É, então, despedida. A questão chega aos media e o desnorte e desinformação sobre o episódio atingem o seu auge. Convocada a comparecer na escola para receber a indemnização pelo despedimento e, perante o testemunho dos jornalistas, prevenir situações futuras, o diretor entrega-lhe um cheque no valor de quatro mil dólares, correspondendo a dois mil dólares pelo pagamento do último ordenado, mais dois mil dólares de compensação. É então que a professora alega – deliciosa vingança – que a conta está errada e que a escola lhe deve, como ficou demonstrado pela acusação que lhe fizeram, vinte e dois mil dólares! Este pequeno filme tornou-se viral na internet e o seu lado anedótico e certamente exagerado, revela muitas das disfuncionalidades e distorções presentes nas nossas escolas e que as sociedades contemporâneas enfrentam quotidianamente.

Vivemos numa sociedade do desconhecimento? Nas palavras iniciais do seu estudo sobre a ignorância, a conclusão dos historiadores da ciência da Universidade de Stanford, Robert Proctor e Londa Schiebinger, deixa pouca margem para dúvidas: “We live in an age of ignorance” (Robert Proctor e Londa Schiebinger, Agnatology. The making and unmaking of ignorance, Stanford, California, SUP, 2008, p. VII), quer esta ignorância seja deliberadamente induzida (secretismo, censura ou destruição de informação), quer tenha uma raiz negligente (mecanismos de educação e divulgação deficitários), quer advenha de crenças e tradições inquestionadas ou de preconceitos infundados, quer seja produzida pela seletividade informativa. Em todo o caso, poucos estão dispostos a assumir que “Education is a progressive discovery of our own ignorance.” (ibid. p. 29), como disse o filósofo e historiador norte-americano Will Durant.

Mais do que isso, recusamo-nos a aprender, pondo em causa os sistemas periciais e as opiniões avalizadas ao nosso dispor. É pelo menos essa a convicção de Tom Nichols, professor de Relações Internacionais e Segurança na Universidade de Harvard, quando afirma que “Vivemos tempos perigosos. Nunca tantas pessoas tiveram tanto acesso a tanto conhecimento, sendo completamente resistentes a aprender seja o que for.” (Tom Nichols, A morte da competência, Lisboa, Quetzal, 2018, p. 19). Claro que este estado de coisas tem consequências. Como refere Nichols para o caso americano – mas que facilmente pode ser replicado à escala mundial – “Os Estados Unidos são hoje um país obcecado em venerar a sua própria ignorância.”, sendo que “o grande problema é que nos orgulhamos de não saber.”. E passa a explicar: “É uma nova Declaração da Independência: já não defendemos que estas verdades são evidentes, defendemos que todas as verdades são evidentes, mesmo as que não são verdadeiras. Tudo é passível de se conhecer e uma opinião sobre qualquer assunto vale tanto como outra qualquer.” (ibid., pp. 9-10), num processo em que os indivíduos passam de desinformados a mal informados, para se tornarem “agressivamente errados”.

Mas nem tudo é do âmbito da opinião, em especial daquela que não é informada; há coisas certas e erradas, e é inaceitável o postulado de que “a minha ignorância vale o mesmo que o teu conhecimento”, na certeira formulação de Isaac Asimov (Tom Nichols, op. cit., p. 17). A “ignorância convicta” e o questionamento sem dados comprovados, mas apenas a partir de crenças – a fezada do “achismo” – acerca do conhecimento científico e das ilações dos sistemas periciais, faz Nichols afirmar que “As pessoas não se limitam a acreditar em coisas parvas, mas resistem ativamente a aprender só para não terem de abdicar dessas crenças.” (ibid., p. 11). E as histórias que ouviu de médicos, advogados ou professores confirmam esta asserção: “Estas histórias surpreenderam-me: não eram sobre pacientes ou clientes que faziam perguntas sensatas, mas sobre esses mesmos pacientes e clientes a explicarem convictamente àqueles profissionais porque é que a opinião deles estava errada. Em todos estes casos, a ideia de que o perito sabia o que estava a fazer era praticamente rejeitada à partida.”, acrescentando, “Pior, aquilo que me choca particularmente hoje em dia não é que as pessoas descartem a competência, mas a frequência com que o fazem, em relação a assuntos tão diversos, e a raiva com que o fazem.” (ibid., p. 12). O académico norte-americano conclui: “Os americanos já não conseguem separar a frase «não tens razão» da frase «és estúpido». Discordar é o mesmo que desrespeitar. Corrigir o outro é o mesmo que insultá-lo. E não reconhecer todas as opiniões como igualmente dignas de consideração, por mais fantasiosas e ilógicas que sejam, equivale a ser-se intolerante.” (ibid., p. 46). Situação particularmente preocupante se tivermos em consideração que, segundo a National Science Foundatiom, um em cada cinco americanos considera que é o Sol que gira à volta da Terra; mas pior do que isso é que, quando confrontados com o erro, têm orgulho em reitera-lo (cf. ibid., p. 283). Assim estamos!

A verdade é que as nossas sociedades não conseguiriam funcionar sem que cada um de nós reconheça os limites do seu conhecimento e, em consequência, tenha que confiar no saber de outros, daqueles que tiveram a formação e o treino necessários ao exercício das funções que desempenham. A complexidade das questões com que nos defrontamos, a todos os níveis, obriga a uma interdependência permanente. Mas é esta circunstância que nem todos estão dispostos a assumir. E é essa sensação de crescente falta de autonomia individual que leva à assunção de posições tão extremadas quanto perigosas. Ao refletir sobre este fenómeno, o historiador e politólogo Richard Hofstadter, na sua obra Anti-intellectualism in american life (1963), constata que “a complexidade do mundo moderno reduziu paulatinamente as tarefas que o cidadão normal pode desempenhar sozinho com inteligência e competência”, dando-nos um exemplo muito claro desta situação: “No sonho original e populista da América, a omnicompetência do homem comum era fundamental e indispensável. […] Hoje, ele tem consciência de que nem sequer é capaz de fazer o pequeno-almoço sem a ajuda de aparelhos que lhe são, de certa forma, misteriosos e que lhe foram disponibilizados pela competência especializada. Quando se senta para tomar o pequeno-almoço e pega no jornal, lê sobre um leque vasto de assuntos e temas que, se for honesto consigo mesmo, terá de reconhecer que não tem competência para avaliar.” (Tom Nichols, op. cit., pp. 36-37).

Como o episódio com que iniciamos este texto amplamente demonstra, a “complexidade avassaladora” das sociedades modernas cria uma sensação de impotência que alimenta um ressentimento da população face à crescente dependência das aptidões dos especialistas. Tal hostilidade traduz-se na ideia errada e sumamente perversa de que todas as opiniões sobre qualquer assunto valem o mesmo. Mas, como é evidente, não valem! Trata-se, pelo contrário, de uma ameaça ao bem-estar de todos. Porque, mesmo reconhecendo que os especialistas podem, por vezes, errar, é uma sorte os leigos conseguirem acertar alguma vez. E isso faz toda a diferença. Para além da formação adequada e aquisição de uma serie de competências específicas, o perito dedica toda ou uma parte substancial da sua vida a trabalhar nas matérias em que é especialista, o que torna o seu saber necessariamente habilitado e exclusivo. Em quaisquer circunstâncias, o seu veredito é muito mais confiável do que o de um leigo.

Será esta, certamente, uma das raízes do fenómeno populista a que todos assistimos. Não é por acaso que o filósofo basco Daniel Innerarity começa o seu livro Uma teoria da democracia complexa, com a seguinte advertência: “A principal ameaça à democracia não é a violência nem a corrupção, ou a ineficiência, mas sim a simplicidade.” (Daniel Innerarity, Uma teoria da democracia complexa, Lisboa, Ideias de Ler, 2021, p. 13). A “rebelião contra a complexidade” de que fala o filósofo alemão Peter Sloterdijk, baseia-se no processo que Innerarity caracteriza desta forma: “A uniformidade, a simplificação e os antagonismos toscos exercem uma grande sedução sobre aqueles que não toleram a ambiguidade, a heterogeneidade e a plurissignificação do mundo, que são incapazes de reconhecer de maneira construtiva a conflitualidade social.” (ibid. pp. 13-14). E acrescenta: “As soluções simples costumam produzir uma descompressão momentânea da perplexidade e dos conflitos, mas acabam por piorar as coisas, no plano do conhecimento e da ação, diminuindo a nossa capacidade cognitiva e as nossas opções práticas.” (ibid., p. 17). Como disse o jornalista e crítico social norte-americano Henry Louis Mencken, “Por cada problema complexo existe uma resposta que é clara, simples e falsa.” (ibid., p. 59).

A complexidade decorre, antes de mais, do aprofundamento e especialização do conhecimento e da necessária diferenciação funcional das nossas sociedades. Assumir a incompletude do saber é uma atitude que parte do pressuposto certo de que a ciência é uma busca incessante – e, por isso, necessariamente imperfeita e provisória – de conhecimento. É uma atitude que nada tem a ver com a ignorância que, ao invés, é profundamente autossuficiente, ineficaz e intolerante. Neste contexto, um dos dilemas essenciais das nossas sociedades é a circunstância de dependermos do saber dos outros para a condução da vida de cada um, isto numa era de crescente indeterminação e incerteza, onde “quase tudo é possível, quase nada é previsível.”, nas palavras de Innerarity (op. cit., p. 359). Até porque, como sublinha o autor basco, “Os limites entre o saber e o não-saber não são inquestionáveis, nem evidentes, nem estáveis. Em muitos casos, o quanto se pode ainda saber, o que já não se pode saber ou o que nunca se saberá são questões em aberto.” (ibid. p. 67), ainda que só os que sabem se apercebam realmente deste problema. É a confiança nos outros que está aqui em jogo, em sociedades baseadas na ganância individual e crescentemente deslassadas pela exploração e desigualdade sociais. Mas, a não ser que concordemos com o ex-secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger, quando este dizia que “Para ter a certeza absoluta de algo, é preciso saber tudo ou nada sobre o assunto” (Visão, 26/5/2022), não temos alternativa senão aproveitar o que de melhor os sistemas periciais nos podem proporcionar.

Numa crónica antiga no Público (24/6/2021), Miguel Esteves Cardoso fez um impressivo diagnóstico da situação que vivemos: “O ser humano gravita inexoravelmente para o artificioso, para o falso, para o adocicado. Somos fáceis de enganar, porque queremos ser enganados e não temos coragem de o admitir.” E conclui: “Que acontecerá aos nossos olhos depois de tantos anos a comer só açúcar?” Fica a pergunta.



Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 22:30
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Quinta-feira, 5 de Maio de 2022
O ECLIPSE

Imaginem uma eleição decisiva para a governação de um país disputada entre Cotrim de Figueiredo e André Ventura. Não precisam imaginar; foi o que se passou em França no passado dia 24 de abril (uns dias antes, os húngaros tiveram que fazer uma escolha semelhante nas eleições legislativas que deram o 4º mandato a Viktor Orbán). E o principal problema não está nesta evidente falta de escolha, mas na ausência da esquerda. Pela segunda vez consecutiva, a esquerda esteve ausente da 2ª volta das eleições presidenciais francesas. Jean-Luc Mélenchon, com os seus quase 8 milhões de eleitores, mais os 3,5 milhões de outros candidatos de esquerda, representando cerca de 30% do eleitorado (Emmanuel Macron atingiu os 28% e Marine Le Pen quedou-se pelos 23%), perderam, mais uma vez, a oportunidade de juntarem as suas forças e impedirem aquilo que o historiador Manuel Loff designou como uma “escolha horrível” entre “o radicalismo neoliberal e o radicalismo fascista” (Público, 19/4/2022). Cita, a este propósito, o historiador e sociólogo francês Marcel Gauchet que, já em 2019, avisava que “se em 2022 tivermos uma segunda volta Macron/Le Pen, dir-nos-ão a mesma coisa que da última vez: ‘Cuidado, [Le Pen] é uma ameaça para a República’. E eu concordo plenamente. Mas estaremos a prevenirmo-nos contra uma ameaça potencial com um candidato que é uma ameaça comprovada para a República!” Como é possível que, num dos mais importantes e influentes países europeus, não haja uma alternativa de esquerda a disputar não só esta, mas todas as eleições?

Como se explica este autêntico eclipse da esquerda? Uma primeira tentativa de resposta está na sua fragmentação endémica. A outra, na sua incapacidade analítica e falta de clarividência sobre os reais problemas e anseios da população. Em 2017, o mandato de Emmanuel Macron iniciou-se com a eliminação do imposto de solidariedade sobre as grandes fortunas (ISF), a redução da carga fiscal sobre os lucros empresariais e uma “reforma” do Código de Trabalho altamente favorável ao patronato. De entre as dez medidas-chave que foram agora a escrutínio contam-se o adiamento da idade da reforma dos 62 para os 65 anos e a obrigação dos beneficiários do rendimento de solidariedade ativa (RSA) trabalharem mais quinze horas por semana, proporcionando às empresas uma mão-de-obra barata e a recusa do aumento dos salários em setores em que as ofertas de emprego têm dificuldade em ser preenchidas. Um autêntico bingo neoliberal que foi apresentado como “uma medida de justiça” (cf. Serge Halimi, “Eleições francesas sob impacto internacional”, Le Monde Diplomatique, ed. portuguesa, abril de 2022).

Acresce que, perante o regresso – e a previsível escalada – da inflação, não está prevista qualquer medida de apoio aos rendimentos dos mais desfavorecidos ou de mitigação do aumento do custo de vida, preservando, isso sim, as margens de lucro das empresas (ameaçadas pela redução da procura) e os dividendos dos respetivos acionistas, em especial daquelas que integram o índice bolsista CAC40 e que tiveram lucros históricos de 160 mil milhões de euros em 2021. Não é, aliás, por acaso que, em novembro de 2021, a revista britânica The Economist tenha publicado um artigo com o título provocatório “A França está a sair-se bem mas a sentir-se miserável” (Público 9/4/2022), destacando a melhoria geral da situação económica do país relativamente aos outros parceiros europeus (com um crescimento na ordem dos 7%), com menos desemprego e um aumento da produção no âmbito da estratégia governamental Made in France, bem como um acréscimo considerável dos lucros empresariais. Mas este desempenho só foi conseguido à custa de um aumento dos horários de trabalho, de uma forte contenção salarial, de um agravamento brutal do custo de vida e da degradação dos serviços de saúde e dos apoios sociais, situação que piorou com a pandemia e, mais agora, com os efeitos inflacionistas da guerra na Ucrânia, aspetos naturalmente omitidos na análise da publicação supracitada.

O dossier temático do Le Monde Diplomatique (ed. portuguesa) de janeiro de 2022 intitulado “Encruzilhadas da Esquerda”, sintetiza, desta forma, o problema: “O inverno atinge grande parte da esquerda na Europa. As novas formações críticas da social-democracia, como o Podemos em Espanha ou o Die Linke na Alemanha, estão hoje longe das esperanças que inicialmente suscitaram, enquanto o desaparecimento do Partido Comunista em Itália, em abril de 1991, deixou o campo progressista desorientado.”, concluindo, “Incapaz de escutar as aspirações populares e de beneficiar do descontentamento geral, a esquerda fecha-se muitas vezes num discurso em que o pathos compete com a frivolidade.” Trata-se de um diagnóstico impiedoso, mas certeiro.

Como aí é referido, em 2002, os sociais-democratas dirigiam 13 dos 15 governos da União Europeia; passados vinte anos, restam apenas 7 em 27 estados-membros (Alemanha, Finlândia, Suécia, Dinamarca, Espanha, Portugal e Malta). Semelhante colapso encontra uma explicação no paradoxo cruel enunciado em 2020 pelo velho senador socialista, Jean-Pierre Chevènement: “A globalização neoliberal, através da liberdade de circulação de bens, serviços, capitais e seres humanos, não está posta em causa pela esquerda, que em grande medida se uniu ao social-liberalismo, mas pela chamada direita «populista»”. E aqui reside parte substancial da tragédia da esquerda.

Comentando tal circunstância, Benoît Bréville e Serge Halimi explicam que “Para serem concretizados, os objetivos de transformação social têm de se apoiar num forte movimento das classes populares. Já ninguém ignora que a consciência dos fracassos de uma política, ou até da ilegitimidade de um sistema, não faz nascer automaticamente a vontade de os derrotar. Quando faltam instrumentos para o conseguir, a revolta ou a cólera cedem muitas vezes caminho ao desenrascanço, ao salve-se-quem-puder ou à convicção de que os direitos sociais do vizinho constituem privilégios.” (Le Monde Diplomatique, ed. portuguesa, janeiro de 2022). Esta disposição favorece, obviamente, a extrema-direita populista. Quando teve responsabilidades governamentais, a esquerda não falhou porque aplicou o seu programa; falhou porque alinhou com o programa dos seus adversários. E isso os povos não lhe perdoam. Ficou tristemente célebre a sentença do presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker quando, na sequência da vitória do Syriza nas eleições de 2015, advertiu os gregos que “Não pode haver uma escolha democrática contra os tratados europeus”. Perante este estado de coisas, advém uma sensação absoluta de impotência, indutora do desespero. A “despolitização” e abstenção crescentes de amplas camadas da população de que se fala, resulta certamente da constatação de que as alternativas estão bloqueadas, nada muda e nada se pode vir a ganhar no atual jogo político.

O perigo da esquerda se tornar insignificante reside essencialmente na sua incapacidade de ultrapassar dogmas e sectarismos totalmente irrelevantes para responder às atuais preocupações das pessoas. Como diz o ex-dirigente comunista Domingos Lopes, “A sociedade mudou. Não podemos repetir o que não tem sentido dadas as novas condições. A atualidade de Marx é, em muitos aspetos, muito mais rica do que a de muitos dos seus intérpretes, que lhe transformaram o pensamento em mandamento, em texto sagrado, algo totalmente contrário ao espírito do filósofo da práxis.”, concluindo que “o passado é apenas um ponto de referência para perscrutar o futuro.” (Domingos Lopes, 100 anos do PCP. Resgatar e reconfigurar o ideal comunista, Lisboa, Guerra & Paz, 2022, p. 33).

Fica a ingente questão colocada pelo jornalista Rui Guedes, diretor-executivo da revista Visão, a propósito das eleições francesas: “O que raio terá acontecido à democracia quando nos resignamos, sem sobressalto, à hipótese de ela desaparecer?” (Visão, 21/4/2022).

Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 22:15
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Domingo, 17 de Abril de 2022
Atualidades - velhas e novas "coisas" do mundo

Estudos Globais

Falar do altermundismo do altercapitalismo, da crise do capitalismo, da crise da democracia, da desorientação da esquerda, da recomposição dos totalitarismos através da pressão dos nacionalismos, falar disto tudo, é falar de erros das democracias, dos sistemas políticos e dos seus dirigentes. Tema introdutório apresentado no seminário do doutoramento de Estudos Globais da UAb.

Como sabemos o Fórum Social Mundial (FSM), no seus primeiros anos (início em 2001 em Porto Alegre - Brasil) foi o principal território no compartilhar da experiência das esquerdas e dos movimentos pela transformação social. Mais do que um espaço para multiplicar iniciativas e redes militantes, significou uma política da composição e de partilha, uma estratégia organizacional mais aberta, afirmativa, transnacional, com múltiplos sentidos e objetivos: médias, internet, minorias, luta pela terra, cultura, políticas urbanas (cidades e territórios mais sustentáveis), — bem no espírito do movimento da participação cidadã e também pela defesa dos direitos das minorias autóctones da América. Desde a primeira edição, o FSM foi objeto de muitas críticas, internas e externas.

O altermundismo estaria enquadrado e “capturado” por instâncias representativas tradicionais, rapidamente cooptado por governos e líderes. Estaria também hegemonizado por uma esquerda moderada, que não fez jus à contestação sistémica, manifestada pelas lutas dos anos 1990. Foi ainda infestado pela febre das ONGs, que capturaram os movimentos populares, para comodamente se instalarem como entidades da sociedade civil em parceria com os estados. Estaria ainda rendido à ideia de um capitalismo mais humano e sustentável: a ideologia por excelência das classes médias ilustradas, liberais e “terapeutizadas” (a dita conversa dos afetos…). Em suma, seria anticapitalista mas pelo lado “fofinho” . Não soube, não se preocupou e não lhe interessou em traçar a linha entre o dentro e o fora, e acabou engolido no lamaçal geral das próprias concessões e ambiguidades. Em parte, essas críticas até têm razão de ser. Já em 1996, no “pós-Glasnost”, os movimentos que pugnavam por uma “nova esquerda” diagnosticavam a importância de abrir as práticas, contra qualquer esboço de esquerdismo ou isolacionismo, de militantes nostálgicos de outros tempos históricos. Viúvas de Seattle (as manifestações contra o encontro da OMC de novembro de 1999) e Génova (manifestações contra a reunião do G8 em Génova, julho de 2001) lamentam o “adesismo”, a subserviência e a impudência de novas alianças e composições políticas. Declaram-se extrema-esquerda, que é outra forma de dizer-se mais esquerda do que os outros. Munidos de “esquerdómetro”, passam a monopolizar o parâmetro de julgamento para separar o joio do trigo. Esse julgamento com fundo moral e em tom de denúncia, professado como compromisso mais puro e convicto do que os demais, passa então a infiltrar-se nas atividades e posturas mais quotidianas dos coletivos esquerdistas, infetando tudo de uma moralidade que é insuportável a longo prazo. Uma fração do que hoje se denomina luta anticapitalista está permeada dessa cultura política negativa e sectária, cuja impotência se reflete na incapacidade de agregar bases sociais minimamente significativas.

Noutra medida, contudo, essas críticas ao altermundismo têm a sua razão de ser. Porque a abertura do FSM também deixou a porta aberta para a diluição da revolta, da recusa e do poder constituinte por formas neutralizadas, ou mediante a captura pura e simples pelo espírito do capitalismo. Isso desde a primeira edição. Ao longo dos anos 2000, aconteceu, de facto, um movimento de “adoçamento” generalizado. A geração descafeinada (a geração descafeinada é a do tempo presente que perdeu o estímulo pelas coisas importantes na vida e por esta razão vive na dependência de quem a estimule) dos anos 2000 toma o lugar da geração revoltada dos 1990. Com a domesticação, o discurso radical ganha um duplo mutilado, um gémeo esmorecido, sem a mesma verve. Assim, o ambientalismo é reduzido ao ecologismo verde; a desigualdade social reduzida à sustentabilidade e assistência; a opressão de raça e género, ao culto da diversidade e ao politicamente correto; a falência da lógica representativa, a um problema de gestão e profissionalismo. Enquanto isso, a corrupção institucionalizada e sistémica tornar-se-à uma questão individual e moral; e a democracia, uma questão de procedimentos e transparência; os novas médias, de capacitação jornalística e blogosfera progressista; a cultura livre, de novos modelos de negócios; e a revolução digital desregulada está a caminhar para uma nova profecia redentora que unificará a humanidade pela própria força utópica além da luta de classe. Militância torna-se uma palavra pesada e é substituída por ativismo. O campo das esquerdas é capturado por missionários deste neo-ativismo de classe média, entre verdes, gente das ONGs (os ditos ongueiros), humanistas liberais e o bom e velho gestor capitalista autossustentável. É o Zeitgeist do altercapitalismo: responsabilidade social, consciência planetária e sacos de plástico tornam-se palavras-de-ordem no melhor interesse geral… do capitalismo. Starts with you! Se alguns anticapitalistas falham em considerar como processos de transformação não se dão simplesmente porque queremos, mas em virtude de forças políticas sobre os quais eles se apoiam; os altercapitalistas exprimem forças e direcionam esses processos exatamente no sentido de uma reestruturação conservadora da ordem capitalista.

A par das vacinas antiCovid, talvez uma vacina antropofágica, nome poético para a urgentemente necessária esquizoanálise altermundialista da cultura em que vivemos. O próprio sistema capitalista já tomou consciência da necessidade de reestruturar-se e reinventar-se: ser outro. Desde 2008 até estes tempos atuais, em que um Estado de oligarcas declara e invade um país, uma nação….na maior crise sistémica desde a quebra da Bolsa de 1929 e consequente segunda guerra mundial, os seus pensadores, dirigentes e consultores têm esforçado por trabalhar por algo como um novo New Deal. Afrontado com um ciclo de lutas potentíssimo e sem conclusão à vista, o altercapitalismo está na ordem do dia no seio do próprio establishment. Eles sabem que as coisas não serão como antes, então é preciso adaptar-se, ceder os anéis para não perder os dedos, e contemplar novos territórios de exploração e acumulação, agora mais intensiva e horizontal. O capitalista sabe como nunca que precisa empreender criativamente. Nesse contexto, em 2022, subsiste uma convergência geral no discurso de sustentabilidade, da gestão, do desenvolvimento humano, da responsabilidade social, do empreendedorismo criativo e da consciência global.

Se certo anticapitalismo não é alternativa, à altura do horizonte de lutas em 2022; por outro lado, o altermundismo parece estar encerrado como processo constituinte, esgotado das suas polivalências e (algumas) brechas constituintes — e não é à toa que alguns já falam em pós-altermundismo. Outro nome para o novo capitalismo? Para onde vamos? O tempo é de perplexidade. As lutas globais de 2011-14 (tempos da troika) certamente não se perderam. Existem vetores de transformação por dentro dessa bifurcação? O facto é que será necessário voltar a pensar, às cartografias sociais e urbanas, à antropologia dos movimentos, na imanência das lutas. È imperativo e necessário derrapar pela tangente das grandes sínteses e fazer postular as feridas de um discurso cada vez mais asséptico, neutralizado. A invocação de convergências e consensos deve ser respondida com a agressividade teórica e prática. Uma nova imanência e um novo materialismo, eis aí o desafio da geração que ainda pulsa. Que isto inspire o apoio convergente de nacionalistas, neofascistas e comunistas em diversos países do mundo mostra bem a crise de civilização em que vivemos.

Albardeiro



publicado por albardeiro às 14:05
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Sábado, 26 de Março de 2022
JOGO DE ESPELHOS

O mito ultraliberal do mercado autorregulado e sem necessidade de intervenção pública, e a constatação de que o crescimento económico não significa necessariamente desenvolvimento social, podendo, ao invés, ser indutor de pobreza, encontra o seu expoente máximo na Rússia de Vladimir Putin. A rápida e generalizada desestatização e desregulação da economia russa, numa sociedade carente de uma estrutura jurídica e institucional minimamente preocupada com garantias de coesão social, fez com que o boom económico prometido após o fim da União Soviética, não viesse a acontecer. Pelo contrário, a economia caiu para metade, a deterioração do nível de vida foi brutal, o número dos que viviam em condições de pobreza (cerca de 4 dólares por dia), aumentou de 2% para perto de 50%, enquanto os expedientes mafiosos e as privatizações generalizadas transformavam em multimilionários uma clique de poderosos, numa altura em que o governo não tinha sequer dinheiro para pagar aos pensionistas e funcionários do Estado. A liberalização da economia provocou, nestas circunstâncias, a fuga maciça de capitais e a colocação das fortunas dos oligarcas em mercados financeiros mais apetecíveis ou em paraísos fiscais mais protegidos (cf. Joseph Stiglitz, “Prefácio” a Karl Polanyi, A grande transformação, Lisboa, Edições 70, 2012, p. 73).

A Rússia ficava dependente de todo o tipo de esquemas criminosos, com a entrega dos ativos económicos a um conjunto de comparsas fiéis, sempre na expetativa de comissões e retribuições várias, através da criação de uma complexa teia de avençados – o “capitalismo mafioso” de que fala Joseph Stiglitz (op. cit., p. 77) – com consequências sociais catastróficas e sob o domínio autocrata de um novo Czar, esquecendo “os muitos indivíduos que são precipitados na pobreza, ou os muitos postos de trabalho destruídos por comparação com os criados, ou o aumento dos níveis de violência, ou a extensão do sentimento de insegurança ou de redução à impotência.” (ibid.). Ou seja, o gigante euro-asiático tornou-se um dos sistemas mais extremados de exploração capitalista, de selvajaria de mercado e de pura cleptocracia (com toda a coorte de corrupção endémica, lavagem de dinheiro, especulação financeira, violação sistemática de leis e regulamentos), exemplo paradigmático da ordem neoliberal globalizada.

Os casos relatados por João Miguel Tavares relativos ao comportamento de governantes russos são, não só verdadeiramente escandalosos, como deveras elucidativos. Conta-nos o jornalista que um anterior ministro da Defesa, Anatoli Serdiukov, teve de se demitir em 2012, porque a sua amante, funcionária no ministério, andou a vender propriedades pertencentes ao Estado a preço de saldo, algumas das quais compradas com dinheiro roubado de uma empresa estatal de manutenção de equipamentos de aviação sob a tutela do próprio Serdiukov. Por sua vez, o atual ministro, Serguei Shoigu, construiu em segredo um sumptuoso palácio de 20 milhões de euros nos arredores de Moscovo, que registou em nome da filha, e uma sua cúmplice fechou negócios no valor de 100 milhões de dólares com o próprio Ministério da Defesa. João Miguel Tavares cita, a este propósito, o economista e prémio Nobel da Economia em 2008, Paul Krugman, em artigo publicado no The New York Times (“A lavagem de dinheiro pode ser o calcanhar de Aquiles de Putin”), em que este estima que a elite russa terá bens num valor correspondente a 85% do PIB russo fora do país, dados confirmados pela ONG Transparência Internacional, que assegura que, entre 2008 e 2020 – em pleno consulado de Putin – atuais e antigos altos funcionários do Estado russo adquiriram 28 mil propriedades em 85 países (cf. Público, 19/3/2022).

Neste contexto, é útil relembrar a reflexão premonitória de Vladimir Ilyich Ulianov (Lenine) – nomeadamente na sua obra O imperialismo, fase superior do capitalismo, de 1917 – que constitui um clássico da análise marxista acerca do imperialismo, processo de acumulação capitalista à escala mundial na fase que o autor russo designou por “capitalismo monopolista”, e que a atual globalização tão bem representa. Na caracterização que faz deste processo, Lenine conclui que as potências capitalistas dividem o mundo em esferas de influência, e que essa divisão abre a possibilidade de uma futura luta intercapitalista para redividir o mundo. Foi nesse quadro, aliás, que ele identificou as causas da Grande Guerra e que o Comintern encontrou também os fundamentos da II Guerra Mundial (pelo menos até à invasão nazi da União Soviética).

O fenómeno imperialista, manifestando-se, obviamente, de formas diversas e em contextos históricos diferenciados, tem expressão matricial nas relações hegemónicas entre as superpotências e os países das respetivas áreas de influência, quer em termos de estratégias neocoloniais exploradoras e extrativistas, quer em termos de subjugação militar e da exigência de vassalagem política. É a este processo que assistimos com a presente invasão da Ucrânia pela Rússia. Para Putin, a soberania da Ucrânia é um obstáculo à restauração do seu projeto imperial pan-eslavo, autêntico “espaço-vital” russófono (a lembrar outros Lebensraum de triste memória!) baseado na agregação dos territórios de Minsk, Kiev e Moscovo. Não é por acaso que, em 2005, no discurso sobre o estado da nação, Putin declarou que “o fim da URSS foi a maior catástrofe geopolítica do século XX. Para o povo russo, isto constituiu um verdadeiro drama”. Referindo-se ao abandono da Rússia por parte de milhões de habitantes dos novos países independentes, na sequência da desagregação da União Soviética em 1991, Putin empregou a expressão “tragédia humana em larga escala” (Público, 16/3/2022). Significativo! Como disse em 1994, na revista Foreign Affairs, Zbigniew Brzezinski, diplomata e Conselheiro Nacional de Segurança do Presidente norte americano Jimmy Carter, “Sem a Ucrânia, a Rússia deixa de ser um império; mas com a Ucrânia subornada e subjugada, a Rússia converte-se automaticamente num império.” (Visão, 10/3/2022).

Em qualquer caso, não há imperialismos “bons” e “maus” e nenhum impulso irracional de tipo pavloviano os poderá jamais justificar. Nas justas palavras de Rui Tavares, “quem for anti-imperialista não pode ser agora outra coisa senão inimigo da estratégia de Putin e capaz de lhe contrapor outra melhor: mais libertadora, mais respeitadora das muitas identidades de que somos feitos, mais prenhe de futuro e, portanto, mais capaz de mobilizar os seus muitos milhões com uma visão positiva digna do século XXI.” (Público, 1/3/2022). Certamente a Ucrânia não é um modelo de democracia; é mesmo provável que nunca o venha a ser. Mas tem todo o direito de seguir o seu caminho como qualquer outro país soberano. E só a independência nacional e a liberdade da sua população para tomar as decisões que muito bem entenda, asseguram que tal aconteça.

Numa emissão televisiva em novembro de 2016, ao perguntar a uma criança de 9 anos onde terminava a fronteira russa, Putin teve como resposta “estreito de Bering”. Imediatamente corrigiu o seu pequeno interlocutor, retorquindo que “A fronteira da Rússia não acaba em lado nenhum”. Confessaria, mais tarde, que estava a “brincar” (Visão, 3/3/2022). Mas este lapsus linguae é revelador do pensamento do autocrata. E, como refere António Guerreiro, “Um país que olha para o passado e o vê à sua frente e não atrás de si tem de facto uma existência muito complexa, a precisar de um tratamento radical que a história acabará por lhe ministrar.” (Ípsilon, Público, 4/3/2022).


Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 21:59
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Terça-feira, 1 de Março de 2022
CONSEQUENTE

Se não fosse trágico, dir-se-ia uma anedota. António Filipe, o histórico deputado comunista e vice-presidente da Assembleia da República – que agora falhou a eleição para o Parlamento – concluiu, em declarações ao Diário de Notícias (21/2/22), que “Não é expectável que o PCP possa ter a influência política e social que já teve”. A justificação para esta lapalissada é a lacónica afirmação, “Não era o que desejávamos e lutámos para que assim não fosse, mas aconteceu que foi.” Por seu lado, a líder do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, em entrevista ao Público (18/2/22), e refletindo sobre o que falhou nas eleições legislativas antecipadas de 30 de janeiro, reitera que “o partido não se arrepende de ter votado contra o Orçamento do Estado de 2022.” Culpa-se o clima de medo criado quer pela pandemia, quer pelo avanço da extrema-direita, com a consequente bipolarização política e a concentração de votos no PS. E é tudo.

Claro que o PS, perante a fraqueza dos partidos à sua esquerda (de que as eleições presidenciais e autárquicas foram sinais inequívocos) quis livrar-se dos parceiros da “geringonça” e forçar eleições, para conquistar a maioria absoluta. Contou para isso com a colaboração ativa do Presidente da República, que almejava acabar o mandato colocando o PSD, ou uma versão alaranjada do bloco central, no poder. Montada a armadilha, foi esticar a corda no momento oportuno. O OE para 2022 não era pior do que os anteriores, que mereceram a viabilização da esquerda à esquerda do PS. Mas a situação destes partidos era consideravelmente mais frágil. Quiseram ir a jogo sem terem condições para tal. Perderam. Perdemos.

Há uns anos, era usual fazer-se a distinção entre a esquerda “consequente” e a “inconsequente”, para explicar a diferença entre o PCP e o BE, por um lado, e o PS, por outro. Por pouco rigorosa que fosse a terminologia usada, essa divisão fazia sentido e correspondia a uma efetiva divisão no seio da esquerda. A demarcação passava pela postura oportunista de um PS onde, como acontece em todos os catch all party, os princípios tendem a adequar-se a uma vasta gama de interesses e raramente constituem obstáculos para um variado leque de opções, numa espécie de pragmatismo de alta flexibilidade. Foi, aliás, este ecleticismo ideológico que, ao longo da história, o levou a aliar-se mais frequentemente às forças de direita do que às outras formações de esquerda. Por outro lado, havia a esquerda “a sério”, que se pautava por uma análise rigorosa da realidade, pela defesa intransigente de princípios políticos justos e por uma luta inspirada “num profundo sentimento de insatisfação e de sofrimento perante as iniquidades das sociedades contemporâneas”, na definição certeira do conhecido filósofo político italiano Norberto Bobbio (Direita e Esquerda, Lisboa, Presença, 1995, p. 21). Habituamo-nos a ver nesta esquerda consequente um porto seguro e a garantia da defesa dos interesses dos desfavorecidos e injustiçados. E o povo de esquerda, como se viu, apreciava o papel do PCP e o BE na fórmula política encontrada em 2015. Era a pressão exercida por seu intermédio que permitia manter o PS alinhado com objetivos de esquerda, assegurando benefícios importantes para a população. Por isso, não percebeu nem aceitou o chumbo do Orçamento, penalizando fortemente estes partidos.

A gestão satisfatória da crise pandémica, a manutenção de um papel significativo do Estado social e do SNS, o aumento do salário mínimo, das pensões e das prestações sociais, o novo regime de passes e a baixa no preço dos transportes, os manuais escolares gratuitos, a redução de propinas e avanços na progressividade fiscal serão, para alguns, coisa pouca. Mas eram conquistas que estavam consolidadas. E, certamente, seria mais avisado esperar pelo fim da legislatura para o ajuste de contas político. Não é por acaso que foi na margem sul do Tejo, onde se concentra muito do eleitorado tradicionalmente comunista e bloquista, que houve maior transferência de votos para o PS (cerca do dobro da média nacional).

É por isso que as declarações do dirigente bloquista Jorge Costa, são incompreensíveis. Em nome de uma “posição de coerência”, assume a espantosa bravata, “Se soubéssemos o resultado das eleições, manteríamos o voto”, reiterando, “Se o Bloco fosse um partido eleitoralista, poderia ter cedido ao calculismo eleitoral e ter definido outro sentido de voto no OE”, mas que “o BE não procede segundo esses critérios” (Público, 4/2/2022). É certo que a “chantagem política” do PS nesta legislatura, os efeitos da bipolarização com o PSD – este último de braço dado com a extrema-direita – e a perspetiva do regresso ao pesadelo da troika neoliberal, deu uma maioria absoluta a António Costa que ninguém podia prever e um afundamento – que, esse sim, muitos anteciparam – da esquerda consequente. Mas o que irão conseguir agora PCP e Bloco, reduzidos à insignificância parlamentar é à irrelevância política?

Pouco sentido fará, aliás, questionar-se sobre “O que seria da esquerda a longo prazo, se se remetesse a essa posição de roda suplente do carro do PS?”, como faz Jorge Costa. Não se tratava de apoiar o PS, mas de respaldar as políticas que reconhecidamente beneficiavam os cidadãos. De defender um património que é principalmente da esquerda consequente – de que o BE faz parte – e não deixar fugir a oportunidade de continuar uma ação minimamente eficaz nas várias áreas da luta política. Isto não será coerência? É que coerência não significa dogmatismo, mas assertividade e eficácia na defesa dos princípios de sempre. Da mesma forma que uma prática política que não atende à teoria se pauta pelo simples oportunismo, uma teoria que não tem em consideração a realidade concreta, não passa de mera especulação ou voluntarismo estéril, por mais bem intencionado que seja. Como escreve a direção da revista Manifesto (publicação semestral da Associação Fórum Manifesto, fundada por Miguel Portas), “as soluções políticas de convergência à esquerda só não ficarão inscritas na história do nosso país como um simples parêntese, como um momento único e singular, se houver alternativas genuínas e com capacidade de convergir.” (Manifesto, inverno de 2021). Para se ser consequente é preciso, antes de mais, ser. E, como se sabe, a política tem horror ao vazio.

Claro que se pode alegar que, em 2002, PCP e BE tinham um número de votos semelhante ao que tiveram agora (cerca de meio milhão), passando em 2015, devido à sua luta contra a troika, para o dobro e impondo a derrota à direita. Mas não me parece que a situação que vivemos possa ser comparável à dessa época. A vitimização de Costa com o chumbo do OE para 2022 pelos partidos à sua esquerda, funcionou. Muito melhor, aliás, do que ele próprio esperava. Fez o seu jogo político e ganhou em toda a linha. Mas a falta de visão de PCP e BE que, não só caíram na armadilha, como foram incapazes de ler os sinais que o povo de esquerda lhes transmitia, isso sim, é o mais preocupante. Doravante ver-nos-emos confrontados com um PS em roda livre, com políticas mais restritivas e OE certamente piores do que o que aqueles partidos chumbaram: brilhante estratégia! E como ficará a mobilização para as lutas sociais e para os confrontos laborais que se adivinham?

No editorial do Le Monde Diplomatique (fevereiro de 2022), Sandra Monteiro fez, de forma muito lúcida, o rescaldo do que aconteceu: “Nas eleições legislativas de 30 de janeiro, o medo de ter ainda menos superou a vontade de ter um pouco mais.” O medo de uma vitória da direita coligada com a extrema-direita e o regresso dos “anos de chumbo” da troika, fizeram os votantes de esquerda escolher o mal menor, através do que ela apelidou de “votos anti austeridade”. E, num país em que 5% dos portugueses concentram 42% da riqueza nacional e onde 22,4% da população (cerca de 2,3 milhões de pessoas) vive na pobreza (sendo que quase metade destas, trabalha), “o ano de 2022 começa com piores condições para resolver os seus problemas.” E aqui, a culpa não morre solteira.

Esta esquerda permanecerá consequente. Mas será confiável?


Hugo Fernandez





publicado por albardeiro às 12:41
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Domingo, 2 de Janeiro de 2022
72 QUILÓMETROS

No Afeganistão, 45 milhas (cerca de 72 quilómetros) marca, a partir de agora, uma nova fronteira da indignidade. Desde o passado dia 26 de dezembro, os taliban anunciaram que as mulheres têm de ser acompanhadas por um parente do sexo masculino para realizarem viagens de longa distância, recomendando aos motoristas dos transportes coletivos que apenas aceitem passageiras portadoras de véu islâmico. Tal absurdo, emanado de um autointitulado “Ministério para a Promoção da Virtude e da Prevenção do Vício” – designação sinistra para a atuação de um poder totalitário – vem demonstrar, mais uma vez, aquilo que era já uma certeza: a barbárie que se abateu sobre o Afeganistão com a chegada dos taliban ao poder, em agosto deste ano, “vai tornar as mulheres afegãs prisioneiras”, conforme denunciou Heather Barr, da organização não-governamental Human Rights Watch (Público, 27/12/2021).

Porque é de direitos humanos que se trata; nada mais. E tal como é inconcebível, nos nossos dias, que um ser humano seja propriedade de outro, como acontecia com a escravatura no mundo antigo, é igualmente intolerável que a metade feminina da população afegã seja considerada inferior, desprovida de direitos, de razão e de vontade, a ponto de ter que se sujeitar a uma tutela masculina, tão aviltante para as mulheres como vergonhosa para os próprios homens. Infelizmente não é caso único. Mas não pode deixar de ser considerada uma aberração e de merecer a mais firme condenação da Humanidade.

Uma das principais conquistas da modernidade é a perceção da evolução das sociedades e a noção clara de que não se pode parar o tempo histórico. Não é possível reviver o século VII em pleno século XXI. Claro que, filosoficamente, os direitos humanos são contingentes à própria historicidade, mas a força da sua facticidade decorre da aprovação universal dos seus postulados e do reconhecimento formal da Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU (1948), por países de todas as proveniências e tradições culturais, incluindo o Afeganistão. Nas palavras do filósofo germânico Jürgen Habermas, “los derechos humanos provienen menos del transfondo cultural particular de la civilización occidental que del intento de responder a desafios específicos planteados por una modernidade social que ha acabado por abarcar todo el globo” (cit. in Perry Anderson, Spectrum, Madrid, Akal, 2008, p. 168).

Aliás, como bem lembra Rui Tavares a propósito da génese deste documento (Público, 27/8/21), foram as delegadas indiana, Hansa Mehta, e brasileira, Bertha Lutz, que propuseram, logo nas primeiras sessões da Comissão da ONU encarregue da sua elaboração, a denominação mais inclusiva de “Direitos Humanos”, em vez de “Direitos do Homem” (como anteriores documentos históricos europeus consignavam). Foram também os representantes filipino, Carlos Romulo, o chinês PC Chang e o libanês Charles Malik, que mais defenderam o caráter universal dos seus postulados. Nenhum deles era ocidental.

Há um velho provérbio afegão que diz: “Vocês têm relógios, mas nós temos tempo”. Mas, como justamente lembrou o nosso compatriota Padre António Vieira já nos idos de seiscentos, “Não há poder maior no mundo que o do tempo: tudo sujeita, tudo muda, tudo acaba”. Que realidade é esta que irrompeu no Afeganistão? Certamente não falamos de espiritualidade devota, mas da ditadura de uma súcia de tiranos que a coberto da legitimação religiosa asseguram uma autoridade discricionária e absoluta. A isso costuma chamar-se fascismo!

Hugo Fernandez



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Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2021
TEATRO DO ABSURDO

Há dias em que nos deparamos com uma sequência de afirmações públicas que são expressão do mais puro disparate. É o caso de Maria Helena Costa, porta-voz do movimento “Deixem as crianças em paz” (o que quer que este movimento seja!). Conforme revelou Joana Marques no seu programa radiofónico Extremamente desagradável, da Rádio Renascença (do qual o artigo de Bárbara Reis, no Público de 13/11/2021 faz eco), tal personagem publicou um vídeo nas redes sociais em que declarava, “Um pai entrou em contacto comigo e disse-me que, em Viana do Castelo, há escolas a passarem filmes pornográficos, pelo menos uma vez por semana, para alunos de 11 e 12 anos!”, ou “O meu filho adorava-me, muito mesmo. Até o socialismo dominar a mente dele”. Mas há mais pérolas desta fervorosa crítica da disciplina curricular de Cidadania e Desenvolvimento: “[As ideias da identidade de género são] puramente ideológicas e servem os interesses de associações radicalizadas, altamente financiadas por grupos que querem baixar rapidamente a população mundial.” Para esta ex-chefe de distribuição no Grupo Jerónimo Martins, que se define como “cristã, esposa e mãe – a ordem é mesmo essa” (como faz questão de sublinhar), “O problema é quando nós vivemos numa sociedade em que os meios de comunicação social são claramente marxistas, claramente reféns do Estado”, rematando com o seguinte delírio: “Vem meia dúzia de iluminados para a televisão dizer que aquilo que estamos a dizer é mentira e as pessoas, simplesmente – como eles aparecem na televisão, como alguns são ministros – acreditam mais depressa neles do que em quem estuda, quem pesquisa e quem está a lutar contra este flagelo [itálicos meus]. Faz lembrar a Alemanha: quando os alemães deram conta, já milhões de judeus tinham morrido nas câmaras de gás.” Hã?!

Também temos exemplos de sinal contrário, isto é, do domínio do “politicamente correto”. Na recente produção de “Romeu e Julieta”, levada à cena pela Shakespeare’s Globe Theatre, em Londres, procurou-se não ferir a sensibilidade dos espetadores, ao distribuir um folheto com avisos do seguinte teor: “No final, quando Romeu bebe veneno, e o ator vomita e entra em convulsões, isso não é real – e não, o ator não está doente.”, ou “Há uma luta no palco. A violência, no entanto, não é real e não deve ser imitada. Há sangue no palco – mas não é real.” (Ler, verão/outono de 2021). Os responsáveis do teatro, com a preocupação de protegerem os espetadores mais impressionáveis – e como “ativistas da saúde mental”, conforme declaram – disponibilizam mesmo uma consulta num hospital para quem, ainda assim, ficar chocado com a morte de Julieta! Não sei o que é pior; se a infantilização dos espetadores, se o despropósito da inquietação, se a insensatez da proposta.

Há, de facto, dias em que parece estarmos a viver uma qualquer peça do chamado “teatro do absurdo”, designação dada em 1961 pelo crítico húngaro Martin Esslin à dramaturgia dos aspetos inusitados da nossa existência, do “sentido do sem sentido da condição humana”, aqui versado no abandono do mais ténue resquício de bom senso e na dissolução dos mais elementares princípios da racionalidade, pela indução da ignorância extrema e do fanatismo mais descabelado. Neste contexto, do simples absurdo, facilmente podemos resvalar para o domínio da iniquidade e para a afirmação verdadeiramente indecorosa. Entrevistado a propósito do seu mais recente livro, O Jardim dos Animais com Alma, e depois de uma série de patetices sobre a capacidade pensante dos animais, o jornalista José Rodrigues dos Santos sai-se com esta declaração espantosa: “Se descobrimos que as galinhas têm inteligência e emoções, matamo-las? Então nós, que nos indignamos com o que se passou em Auschwitz e nos Gulags, temos isso à porta de casa?!” (TVGuia, 11/11/2021). Sem comentários! (apesar de apetecer lembrar a José Rodrigo dos Santos que – helás – Adolf Hitler era vegetariano).

Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 16:05
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Segunda-feira, 1 de Novembro de 2021
ATITUDES

Poucas coisas são mais irritantes no nosso quotidiano do que alguém que dá o golpe numa fila ou que ostensivamente nos passa à frente sem razão para tal. “Quem é que pensas que és?” é, normalmente (e numa versão civilizada!) a interpelação ouvida. De igual modo, constitui um dado empírico incontestado que é de muito mau gosto alguém perguntar sobranceiramente a outro “e tu, quem és?”, sobretudo se esse alguém ocupa uma posição social mais vantajosa do que aquele a quem se dirige. Marcar as diferenças é considerado, de uma maneira geral, uma atitude socialmente ofensiva e, por isso, amplamente, reprovada. Há razões históricas que explicam tal atitude. Quando, há cerca de duzentos anos, as revoluções liberais puseram fim ao Antigo Regime e se basearam na igual consideração social dos cidadãos e na igualdade de direitos e deveres cívicos, plasmada no reconhecimento normativo de que “a lei é igual para todos” (conforme consta, por exemplo, no art.º 9º da Constituição Política da Monarquia Portuguesa de 1822, a nossa primeira constituição e texto fundador da ordem liberal em terras lusas), instaurava-se uma matriz de poder e de organização da sociedade radicalmente distinta da de antanho.

Ora, esta atitude, que de tão enraizada já entrou, nos dias que correm, no domínio do senso comum, ainda se confronta com resistência atávicas que persistem em nos surpreender. Ficou famosa, no início de setembro, a cena de pesporrência e insuportável abuso de autoridade por parte do ex-juiz Rui Fonseca e Castro (justamente expulso da magistratura uns dias mais tarde), perante uma força policial destacada para controlar a multidão truculenta dos seus apoiantes, desafiadores da ordem pública, à entrada para a audiência no Conselho Superior da Magistratura para ajuizar da sua conduta no exercício das funções forenses. O diálogo então entabulado tem tanto de escandaloso como de simbólico. Dirigindo-se ao comandante da referida força, invetivava o juiz, “Ponha-se no seu lugar; eu sou a autoridade judiciária aqui”, ao que o oficial da polícia respondeu, com o poder que a lei lhe conferia e com uma calma verdadeiramente seráfica, “E o senhor ponha-se no seu lugar”, ao que o juiz retorquiu, irado, “O meu lugar é este: acima de si, acima de si! [sic] a perceber? O senhor abaixo de mim, portanto o senhor não vai tocar em ninguém.”

Para além do delicioso – e elucidativo! – pormenor do com que se dirigiu ao comandante policial, Fonseca e Castro parece ainda não ter percebido que as hierarquias funcionais não podem justificar desconsiderações de tratamento, nem diferenciação de estatutos cívicos – o invocar estar acima ou abaixo de alguém, ainda para mais no desempenho legítimo de uma ação pública, é coisa que, felizmente, não é admissível. Neste caso, nem hierarquia funcional havia, já que a força policial presente estava destacada no exercício de funções oficiais e ao abrigo das determinações do Estado de direito no respeito pela lei e manutenção da ordem pública (decorrentes, precisamente, da defesa da liberdade de manifestação, por exemplo, na necessária solicitação da licença para o efeito, que não existiu), circunstâncias que qualquer juiz a sério imediatamente sancionaria.

Não resisto a contar duas outras situações relacionadas com a assimilação dos princípios básicos de cidadania. Uma pertence ao anedotário da Revolução Francesa. A outra é verdadeira e passou-se nos anos 80 do século passado, nos EUA. Ainda hoje, em França, se contam as desventuras do Marquês de Saint-Cyr durante a Revolução Francesa. Sendo interpelado na rua por uma patrulha de revolucionários que lhe pedem a identificação, este responde “Marquês de Saint-Cyr”, ao que os guardas contestam “Já não há marqueses!”. O primeiro emenda, então, o seu nome para “Saint-Cyr”, ao que os revolucionários respondem “Já não há santos!” Por fim, o interpelado diz “Cyr”, ao que o grupo de interpelantes, confundindo o nome com a designação inglesa da aristocracia, afirmam “Já não há sire’s”. Desconcertado, o marquês responde então. “Deixem-me V. Senhorias seguir, já que ninguém sou.” (cf. Paulo Ferreira da Cunha, Constituição, Direito e Utopia, Coimbra, Coimbra Editores, 1996, p. 401).

Conta-nos Miguel Esteves Cardoso, a partir do relato do próprio Al Gore, que, em 1987, os senadores Al Gore e Bill Bradley estavam num banquete onde este último ia fazer o discurso de honra. “Vendo que um empregado estava a distribuir doses de manteiga, Bradley pediu-lhe mais uma. O empregado respondeu: «Desculpe, mas é uma dose de manteiga por pessoa.» «Mas eu preferia ter duas, se não se importa», disse Bradley. O empregado, taxativo, insistiu: «Lamento, mas é só uma dose por pessoa.» Aí, Bradley mudou de estratégia: «Se calhar, não está a ver quem eu sou: sou Bill Bradley, fui jogador profissional de basquete, fui campeão mundial e agora sou senador do estado de New Jersey.» O empregado: «Se calhar, o senhor também não sabe quem eu sou.» Bradley mostrou-se interessado: «Pois não, não estou a ver – quem é o senhor?» E o empregado respondeu, «Sou o gajo que manda na manteiga».” (Público, 9/10/2021).

Apetece dizer como o humorista brasileiro Millôr Fernandes: “Se todos os homens recebessem exatamente o que merecem, ia sobrar muito dinheiro no mundo”!


Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 22:40
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Segunda-feira, 4 de Outubro de 2021
O TEMPO

Em meados de agosto, o mundo ficou atónito com a tomada de poder pelos taliban no Afeganistão. Não que não fosse, desde há algum tempo, expectável a queda de Cabul às mãos destes “estudantes islâmicos” oriundos do sul e leste do Afeganistão e formados nas madrassas paquistanesas. O que surpreendeu foi sobretudo o icónico simbolismo de que se revestiu. Perante as imagens dos novos dirigentes no palácio presidencial da capital afegã, dir-se-ia termos recuado vários séculos. É certo que este simbolismo tem, por desgraça, a sua tradução num tipo de pensamento e de ação de caráter marcadamente medieval. Mas os veículos blindados, as armas automáticas, os óculos escuros, relógios e telemóveis de última geração, alimentados pelo tráfico de droga (em especial o cultivo de papoila para a produção de heroína) e pelas grandes redes de contrabando internacional, desmentem de imediato – se tal fosse necessário – esse devaneio. O devir histórico é inexorável e, apesar de fluxos e refluxos (os corsi e ricorsi de que falava Giambattista Vico) por vezes surpreendentes, e da possibilidade da existência, em cada momento, de universos paralelos, há limites para o anacronismo. Quando emergem marcas do passado, não é aquele que renasce, mas sim o choque da sua inserção no presente. E os vários irracionalismos e negacionismos com que nos confrontamos aí estão para comprovar o “fundo arcaico que sobrevive como uma energia sempre pronta a reativar-se.” de que fala o filósofo António Guerreiro (Ípsilon, Público, 20/8/21).

A base da inteligibilidade de todas as realizações humanas reside na sua dimensão histórica. As sociedades existem num espaço e tempo determinados, historicidade estrutural da existência humana a que se referia o filósofo espanhol José Ortega y Gasset na conhecida expressão “Eu sou eu e minha circunstância”. Por isso, o desfasamento temporal promovido pelos taliban só pode conduzir a verdadeiras aberrações. É possível viver na modernidade rejeitando as marcas dessa mesma modernidade? Da mesma forma que seria impensável recuperar para os dias de hoje os tempos do profeta Maomé – os taliban certamente não o fazem (a vida em tendas, deambulando no deserto, e as batalhas com espadas e cavalos são coisas que já não voltam) – é igualmente incompreensível a pretensão de restaurar preceitos e regras medievais na contemporaneidade. Como diz o filósofo italiano Giorgio Agamben, “Un uomo inteligente può odiare il suo tempo, ma sa in ogni caso di appartenergli irrevocabilmente, sa di non poter sfuggire al suo tempo.” (Giorgio Agamben, Che cos’è il contemporaneo?, Milano, Nottetempo, 2019, p. 9). Faz algum sentido, nos dias de hoje, invocar princípios tão arcaicos – e, por isso, necessariamente desfasados da realidade e inaplicáveis – como, “O chefe da mulher é o homem (…). Se a mulher não usar o véu, que lhe seja rapado o cabelo (…). O homem, ele, não deve esconder a cara: ele é a imagem da glória de Deus; mas, a mulher é a glória do homem. (…) E o homem não foi criado para a mulher, a mulher é que foi criada para o homem. Eis a razão por que a mulher deve usar sobre a cara a marca da sua dependência”? Esta injunção à submissão feminina não consta do Corão (embora aí pudesse estar!); foi enunciada pelo apóstolo Paulo na sua primeira epístola aos Coríntios. Ou, como declarou o mesmo Paulo de Tarso na epístola aos Efésios, escrita por volta do ano 65, “Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da Igreja (…). De sorte que, assim como a Igreja está sujeita a Cristo, também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos.”? É suficientemente absurdo para ser pensado, quanto mais aplicado!

Agora que se anunciam no Afeganistão o regresso das execuções, amputações, açoitamentos e apedrejamentos públicos como penas judiciais legítimas, bem como a criação do Ministério da Promoção da Virtude e Prevenção do Vício, a situação das mulheres é particularmente chocante. Tal como aconteceu entre 1996 e 2001, no anterior período de domínio taliban, as mulheres são proibidas de trabalhar, de sair de casa sem serem acompanhados por um familiar masculino adulto, obrigadas a usar burqa que cobre por completo o seu corpo (arriscam-se a ser chicoteadas se mostrarem os tornozelos) e proibidas de usar calçado com salto para não se ouvirem os seus passos; não têm acesso à assistência médica hospitalar (que, em todo o caso, só poderá ser prestada em privado por outras mulheres) e o seu testemunho em tribunal vale metade do dos homens; são proibidas de frequentar a escola depois dos 10 anos e obrigadas a casar a partir dos 15 anos (muitas vezes com os homens que as violaram) – há números que indicam que, em 2017, metade das mulheres afegãs dos 15 aos 49 anos foi vítima de violência por parceiro íntimo. A metade feminina da população afegã é proibida, sequer, de manifestar vontade ou de rir! São difíceis de imaginar violações mais grosseiras dos direitos humanos. Relembrando a célebre formulação de Hannah Arendt, as mulheres afegãs perderam, pura e simplesmente, o “direito a ter direitos”. Mas os taliban interditam também praticamente todas as manifestações culturais existentes: televisão, rádio, música (com exceção da religiosa), cinema, desporto. Proíbem, inclusive, o lançamento de papagaios de papel! Que gente é esta?!

Tamanha insanidade só é possível pela conjugação de interesses geoestratégicos que vão muito além da realidade afegã, das “verdades” corânicas ou das virtudes persuasivas da “lei da bala”. Todas estas tendências extremistas tiveram a complacência ou mesmo o apoio ativo das grandes potências ocidentais – com os EUA e Grã-Bretanha à cabeça – e dos seus protegidos Arábia Saudita e Paquistão (verdadeiras incubadoras das trevas do passado), ao serviço de uma lógica de Guerra Fria e de confronto com o bloco de Leste. Lembremo-nos que, nos anos oitenta do século XX, os mujahidin afegãos foram largamente financiados e armados pelo Ocidente e apelidados de freedom fighters, lutando contra a ocupação soviética do país. Os taliban são os seus descendentes diretos, numa dinastia de terror que engloba a Al-Qaeda, o Daesh, ou o Hamas, apesar de rivalidades intestinas que têm mais a ver com questões de poder do que com divergências doutrinárias.

As potências ocidentais sempre rejeitaram os movimentos mais progressistas e secularizantes destes países, quer fosse o movimento Baath na Síria e no Iraque, a FLN de Houari Boumediene na Argélia, o Egito de Gamal Abdel Nasser, o Irão de Mohammed Mossadegh, as experiências inovadoras da Líbia, do Iemen do Sul ou da Tunísia, e do próprio Afeganistão de Mohammad Najibullah entre 1989 e 1991, alinhando sistematicamente com aqueles que difundiam o wahabismo sunita (tendência islâmica ultraortodoxa oriunda do atual território saudita) e promovendo a sua implantação no mundo muçulmano. Até os curdos (muçulmanos moderados) foram abandonados pelos EUA de Trump no combate ao ISIS na guerra civil da Síria. Foi com o alto patrocínio do Ocidente que inúmeros regimes iníquos alastraram pela região, alimentados por uma espiral de corrupção, de subdesenvolvimento e de pobreza endémica. À falta de alternativas políticas credíveis e de soluções para os enormes problemas económicos enfrentados, o Islão emergiu como o elemento identificador exclusivo – e excludente – para muitas destas populações. Como refere o académico irlandês em Relações Internacionais, Fred Halliday, “As one Algerian oficial commented during the 1991 crisis, the way in which Europe could best help overcome the Front Islamique du Salut (FIS) would be to provide guidelines on how to employ millions of young people.” (Fred Halliday, Islam and the myth of confrontation, London, I. B. Tauris, 1996, p. 129). E este especialista no Médio Oriente conclui: “Economic exclusion and political rejection will fuel fundamentalistic antagonism.” (ibid., p. 130). Aqui com em qualquer outra parte do mundo.

A nation-building americana no Afeganistão – “apoiar o país na construção de uma nação livre e democrática” – só trouxe corrupção e compadrio em benefício de uns poucos e a absoluta miséria para a maior parte da população; em 2017, 54% dos habitantes, em especial nas zonas rurais, vivia abaixo do limiar da pobreza, segundo dados oficiais do Governo afegão. Paralelamente, em 2020, o Afeganistão foi responsável por 85% da produção mundial de ópio, cultura que ocupava mais de 330 mil hectares, com um valor estimado de 5 mil milhões de euros, correspondente a cerca de 30% do PIB do país (Público, 20/8/2021). A fraqueza do Estado central perante os poderes locais de cariz essencialmente étnico e tribal, e o falhanço na implementação de políticas de desenvolvimento e de promoção de direitos que minorassem as enormes carências das populações, só podiam resultar no drama a que assistimos. O espezinhar da metade feminina da sociedade afegã aí está para o demonstrar em toda a sua crueza. Mesmo o atual presidente norte-americano, Joe Biden, num momento de franqueza desconcertante, afirmou, em tempos, “Não vou mandar o meu filho para lá arriscar a vida em nome dos direitos das mulheres!”, segundo consta do livro Our Man, biografia de Richard Holbrooke, enviado especial do presidente Barack Obama para o Afeganistão e Paquistão. Como comenta o jornalista António Rodrigues, “Pelos direitos das mulheres não se mata nem se morre.” (Público, 20/8/2021).

Estaremos a ponto de refutar a asserção de José Ortega y Gasset, segundo o qual existe sempre uma “compacta solidariedad consigo misma que cada época histórica mantiene en todas sus manifestaciones” (José Ortega y Gasset, La deshumanización del Arte y otros ensayos de Estética, Madrid, Espasa-Calpe, 1992, p. 48)? Não me parece. Desenganem-se, por isso, aqueles que creem que o regresso ao passado constitui a via do futuro. Inexorável, o próprio devir histórico tratará de desfazer tais ilusões.



Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 19:36
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Domingo, 8 de Agosto de 2021
DE CIMA

Desta vez foi Jeff Bezos, sucedendo a Richard Branson, a lançar-se no espaço pelo simples luxo de o poder fazer, num absoluto desperdício de centenas de milhões de dólares para estar uns escassos 10 minutos a observar a Terra de cima. A futilidade dos propósitos e a insignificância do resultado alcançado escondem a importância simbólica do ato. Não representando qualquer avanço científico, nem demonstrando qualquer utilidade social, mas servindo apenas para a satisfação de uma megalómana frivolidade privada, a recente viagem espacial de Bezos, tal com a anterior de Branson, demonstram, de forma cabal, o estatuto de que gozam os super-ricos no nosso mundo. É neste aspeto que estes acontecimentos adquirem um significado bem mais importante do que aparentam.

Por um lado, trata-se de afirmar a excecionalidade destas personagens face ao comum dos mortais, naquilo que o filósofo António Guerreiro qualifica como um “gesto de soberania sobre todos os poderes e contingências terrenas” (Ípsilon, Público, 23/7/21). Como refere, por sua vez, o jornalista Vítor Belanciano, estas viagens exibem “a fantasia capitalista levada ao extremo.”, isto é, “a transformação do espaço numa nova fronteira para uma classe de pessoas cujas fortunas cresceram tanto, que este tipo de expedições narcisistas parece agora representar um novo símbolo da sua opulência. Ter muitos carros, iates, casas, propriedades ou mulheres já era.”, concluindo, “O espaço e Marte são agora os novos símbolos distintivos desta elite.” (Público, 25/7/2021). Com efeito, é de distinção – do que é estruturalmente diferente – que se trata, se tivermos em conta o fenómeno da constituição das “classes de castas” de que fala o economista francês, Thomas Piketty, no seio do que designa por “capitalismo patrimonial”. Ter o que mais ninguém pode ter, fazer o que mais ninguém pode fazer, ser o que mais ninguém pode ser (com a exceção de mais uns poucos igualmente privilegiados).

Claro que, como justamente sublinha Vítor Belanciano acerca deste esbanjamento multimilionário, a questão “Não é como o gastam, mas como o ganham”. E aqui, é toda o funcionamento das sociedades atuais que temos que tomar em consideração. O brutal aumento das desigualdades a nível mundial e o deslaçar dos vínculos sociais engendrados pelo neoliberalismo globalizado, deram origem a uma “sociedade sociopata”, como a designa o sociólogo norte-americano Charles Derber. Sobressai, nestas circunstâncias, a necessidade acrescida de legitimação do statu quo e de justificação das clivagens existentes. Tal é feito através de dois expedientes doutrinários que convergem no mesmo propósito ideológico: a justeza da acumulação desmesurada de riqueza e a relevância da função dos seus detentores.

Ressurge a litania dos self-made man e do mito da responsabilidade própria e mérito individual pelo percurso de vida seguido, visão decorrente de um processo mental mistificador de abstratização do social e de supressão de qualquer referência relacional, ou seja, daquilo que constitui a própria natureza da sociedade. Há muito que Max Weber revelou o que verdadeiramente está em causa neste tipo de postura: “The fortunate [person] is seldom satisfied with the fact of being fortunate”, refere o sociólogo alemão, acrescentando, “Beyond this, he needs to know that he has a right to his good fortune. He wants to be convinced that he ‘deserves’ it, and above all, that he deserves it in comparison with others.”, para concluir, “He wishes to be allowed the belief that the less fortunate also merely experience [their] due.” [itálicos no original] (cit. in Michael Sandel, The Tyranny of Merit, New York, Farrar, Straus and Giroux, 2020, p. 42).

Acresce a necessidade de enaltecimento do papel social de tais magnatas. Nas palavras de Vítor Belanciano, “Os muito ricos precisam de uma razão pública para existir, daí que nos queiram fazer acreditar que o futuro está a ser desenhado pela sua ação, enquanto à nossa volta milhões permanecem sem vacinação, as questões ambientais se agravam e as desigualdades crescem imparavelmente.” Às possibilidades infinitas alardeadas por Richard Branson a propósito da sua corrida espacial, correspondem os constrangimentos efetivos das limitações terrenas decorrentes de uma sociedade sumamente desigualitária. Aqui, pelo contrário, qualquer pretensão de justiça social encontrará a oposição firme destes próceres, sendo liminarmente apodada de impossível e remetida para o domínio do irrealismo (própria, afinal, de gente com a “cabeça nas nuvens”!).

A conclusão disto tudo, como afirma António Guerreiro, é que Jeff Bezos, “Olhará a Terra sem se sentir culpado de a degradar.” E assim ficamos.



Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 11:35
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