Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Quarta-feira, 16 de Maio de 2018
TEXTOS

Há textos assim. Textos que, pela sua acuidade, nos permitem entender melhor o mundo em que vivemos. Permitem-nos ver mais fundo, ver mais longe. Textos que, na profusão dos acontecimentos e na voragem de um tempo cada vez mais acelerado, descortinam o essencial, sublinhando aquilo que sempre lá esteve, mas a que nunca se deu a devida importância. E, no fundo, dando-nos a possibilidade de analisar o passado, pensar o presente e perspetivar o futuro de uma outra forma. Esses textos tornam-se tanto mais saborosos – e relevantes – quanto os seus autores estão nos antípodas do nosso posicionamento político e do quadro dos nossos valores filosóficos (ou talvez nem tanto!...).

Deparei com um texto desses na coletânea de crónicas que a revista Visão editou no passado mês de fevereiro, por ocasião do seu 25º aniversário. O que mais surpreende nesse escrito é, precisamente, o seu caráter premonitório, ao assinalar traços estruturais que só a longa duração permite percecionar em toda a sua plenitude. O texto a que nos referimos escalpeliza a realidade norte-americana contemporânea, revelando a verdadeira natureza do seu regime político. Intitulado “A extrema-direita no governo dos EUA” e abrindo com a afirmação de que “os EUA são a única democracia do mundo em que a extrema-direita governa”, o seu autor começa por chamar a atenção para o facto de quase toda a Europa romano-germânica (excetuando-se, portanto, a Inglaterra, a Irlanda e os países nórdicos) ter tido “em maior ou menor grau, uma experiência ditatorial de extrema-direita, no século XX”. Os casos referidos, sobejamente conhecidos, deram aos europeus importantes lições sobre formas de exercício não democrático do poder e de sistemática violação dos mais elementares direitos de cidadania. Ao invés, os EUA não passaram por essa experiência traumática.

Diz-nos, então, o nosso autor: “Poupados a esses grandes sofrimentos, também não aprenderam a distinguir, na prática quotidiana dos governos, entre leis democráticas e não democráticas, medidas autoritárias e não autoritárias, atuações conformes e desconformes ao Estado de Direito. Para eles, mais ou menos autoridade do Estado, mais ou menos liberdade dos indivíduos, maior ou menor respeito pela separação de poderes, mais ou menos independência dos tribunais e garantias dos arguidos, bem como mais ou menos nacionalismo, maior ou menor cooperação internacional, mais ou menos respeito pela ONU, tudo são atitudes legítimas dentro do jogo democrático, exprimindo umas o ponto de vista dos conservadores (representados sobretudo pelo Partido Republicano) e outras a linha de atuação preferida pelos liberais ou progressistas (sobretudo identificados com o Partido Democrático). Na América, por conseguinte, os limites da Democracia são mais elásticos e movediços do que na Europa, porque não há memória histórica que permita a alguém apontar o dedo e clamar: isso é igual ao que se fazia no tempo da ditadura!”

Os exemplos proclamados de nacionalismo político, de protecionismo económico e de autismo ecológico face o resto do mundo, aí estão para o demonstrar. E, como é referido no texto em questão, “os americanos não podem sentir de imediato que esse é o caminho do caos.” Quando se verificam situações como Guantanamo ou se erigem tribunais de exceção, em flagrante violação da Convenção de Genebra e das garantias mínimas de defesa jurídica em processo penal, ninguém reconhece a marca indelével do fascismo. Prossegue o nosso autor: “Quando a atual administração norte-americana proclama que, com ou sem os aliados e com ou sem a ONU, tem o direito de fazer a guerra que convém aos interesses da Nação, não há uma memória coletiva que lhe grite que Salazar é que se vangloriou de estar no mundo orgulhosamente só!” Há, assim, no seio do poder estadunidense “uma progressiva tendência para recorrer a medidas antidemocráticas de extrema-direita, ao serviço de um nacionalismo arrogante, que exige ser respeitado pelos outros mas não se sente obrigado a respeitar os outros.”

A conclusão retirada desta deriva totalitária é de uma assustadora lucidez: “A hiperpotência que quer ser exemplo e promotor da democracia no mundo (e já o foi) está hoje a ser governada por um Presidente e por um Executivo que, na sua esmagadora maioria, são controlados ou inspirados pela extrema-direita e que agem, em pleno século XXI, em conformidade com o modelo das ditaduras nacionalistas europeias do século XX. Há então o perigo de virem a instaurar um regime ditatorial nos EUA? Creio bem que não. Mas há, sim, o perigo de, como fizeram as principais ditaduras europeias do século passado, precipitar o mundo numa 3ª Guerra Mundial. Desta vez não na Europa, mas no Médio Oriente. As consequências seriam dramáticas e incalculáveis.”

Esta conclusão, à luz da governação Trump e da escalada de tensão entre os EUA – e o seu colonato judeu de Israel – e o Irão, é de uma flagrante atualidade, apesar de ter sido escrita um ano após os atentados de 11 de setembro de 2001, durante o consulado de George W. Bush (e publicada no número 497 da Visão). E pasme-se! O seu autor é o insuspeitíssimo e moderadíssimo Professor Catedrático de Direito Administrativo, Doutor Diogo Freitas do Amaral. Como justamente alertou um outro consagrado pensador português, Eduardo Lourenço, em crónica editada dois dias após esses atentados, “Os Estados Unidos, como todos os povos poderosos no auge do seu poder, só têm um inimigo: eles mesmos. (…) O seu inimigo, como o de todas as nações e culturas responsáveis, é um só: uma violência orgânica, histórica, assumida e quase convertida em modo de existência, se não em visão do mundo.” (Visão, 13/9/2001). Nesse designado “Novo Mundo”, gostaríamos de ver pensamentos tão sábios.


Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 20:59
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Domingo, 8 de Abril de 2018
NO MELHOR PANO…

Morreu, no passado dia 26 de fevereiro, o coronel João Varela Gomes. Pouco se falou sobre o assunto. Poucas homenagens se prestaram ao decidido lutador antifascista, militante na campanha eleitoral de Humberto Delgado em 1958, envolvido na conspiração da Sé em 1959, protagonista no assalto ao quartel do Regimento de Infantaria 3 de Beja em 1962 e preso político nos calabouços da PIDE durante 6 anos, 3 dos quais em isolamento. Esse mesmo resistente que, depois do 25 de abril, liderou a 5ª Divisão do Estado-Maior das Forças Armadas, criada para organizar a informação e propaganda sobre a Revolução dos Cravos e o Movimento das Forças Armadas (a ele se devendo, por exemplo, a troca do nome da ponte sobre o Tejo de “Salazar” para “25 de Abril”) e que, com o 25 de novembro de 1975 – triste destino – foi obrigado a fugir do país, para só regressar em 1979.

No meio da irrelevância noticiosa houve, no entanto, uma notável exceção. O artigo intitulado “Marcelo não conheceu o fascismo?”, publicado no Diário de Notícias do dia 6 de março, onde, a propósito da nota de condolências endereçada à família pela Presidência da República, o jornalista Pedro Tadeu reflete, por interposta pessoa, sobre alguns pontos essenciais de como o passado recente da história portuguesa é percecionado. E se, à partida, se louva a iniciativa do mais alto magistrado da nação, invocando a “militância cívica” de Varela Gomes, logo se percebe que a homenagem encerra uma distorção fundamental sobre a natureza do regime deposto em 1974, quando se refere “a sua consistente luta contra a ditadura constitucionalizada [itálicos meus]”. Mais do que uma questão de interpretação – porque de ignorância, certamente, não se trata – a expressão “ditadura constitucionalizada” é um branqueamento descarado do fascismo português.

Não é nova esta tentativa de mascarar a natureza do denominado “Estado Novo”, a começar pelos seus promotores e apologistas e, mais tarde, pela própria academia, quer na versão revisionista de uma Maria Filomena Mónica, até às interpretações doutrinariamente orientadas de um Rui Ramos. Na esteira da distinção inicialmente proposta nos idos de setenta do século passado pelo historiador Manuel de Lucena, que defendia que o salazarismo tinha pouco a ver com o “fascismo movimento”, mas sobretudo com o “fascismo regime” – usando-se a dissidência integralista de Rolão Preto para atestar essa distinção – cedo se construiu um discurso historiográfico que antepunha ao modelo puro da Itália mussoliniana e ao radicalismo duro da Alemanha nazi, uns proclamados “brandos costumes” de inspiração católica que teriam caracterizado Portugal durante perto de meio século. Sob a capa do rigor historiográfico e de uma suposta pureza taxonómica, esquecem-se as identidades ideológicas nacionalistas e corporativistas, o caráter totalitário destes regimes, os aparelhos policiais-repressivos prevalecentes, o culto do chefe, a apologia do militarismo, do colonialismo e do racismo, os mecanismos funcionais de enquadramento da população e as cumplicidades de vária ordem estabelecidas entre essas ditaduras, nomeadamente no contexto da II Guerra Mundial. Distinções espúrias que fazem lembrar as tão artificiais, quanto irrelevantes querelas acerca da generalização do conceito de feudalismo ao regime senhorial prevalecente na Idade Média europeia ou ao anunciado modelo industrial inglês como via única e acabada de transição para o capitalismo.

Diversos nas suas idiossincrasias históricas, mas semelhantes na sua matriz sistémica, as ditaduras fascistas estabelecidas entre as guerras mundiais – e, no caso peninsular, persistentes até ao último quartel do século XX – marcaram uma realidade indelével de total falta de liberdade e ataque reiterado aos direitos mais básicos da cidadania, perseguições policiais, medo, tortura e morte para milhões de europeus, irmanados na sua desventura. Por isso, para Pedro Tadeu, que desde logo assume não ser historiador, nem académico, “Dizer, para definir o fascismo português, que se tratou, apenas, de uma «ditadura constitucionalizada» é conseguir inatacável rigor histórico, talvez mesmo para daqui a mil anos, mas é também escamotear a história real, vivida, pessoal de cada lutador político desse tempo. (…) O problema não é, insisto, de rigor histórico ou científico. O problema é outro. O problema é que quando ouvimos a palavra «fascismo» pensamos em opressão, em repressão, em escuridão. Quando ouvimos «ditadura constitucionalizada» pensamos em legislação, ordem e autoridade.”, o que leva o jornalista a concluir que “Há aqui um planeta de distância, estamos a falar de dois países diferentes.” Tem toda a razão. Varela Gomes e os milhares de antifascistas vítimas das atrocidades cometidas durante esse período negro da nossa vida coletiva certamente se teriam indignado com tamanha mistificação.

Acresce um outro ponto de extrema importância. O de que, como refere Pedro Tadeu, “Esta versão agora adotada por Marcelo Rebelo de Sousa é a demonstração de como Portugal ainda tem muitos problemas para falar do seu passado, encerrado há 43 anos: o esforço para encontrar uma formulação bacteriologicamente pura da infeção ideológica para dizer aos portugueses o que era o regime que Varela Gomes combateu é, por si só, um exercício de ideologia, pois parte da presunção de que falar sobre fascismo em Portugal é uma incorreção, uma inconveniência ou uma infelicidade.” Que o passado fascista no nosso país seja um embaraço para o atual Presidente da República é algo que é facilmente compreensível, dados os seus antecedentes familiares. Mas a sua tentativa de “dourar a pílula” acerca da ditadura salazarista-caetanista, revela um aspeto do magistério de Marcelo Rebelo de Sousa que está longe de ser despiciendo: a tentativa de gerar, a todo o custo, consensos nacionais, fazendo apelo a uma espécie de pacificação da memória, mesmo que isso implique a reescrita da nossa história. Ora, apaziguar consciências à custa de vidas desfeitas, de pessoas perseguidas, aterrorizadas, torturadas e assassinadas, de crimes que nunca foram julgados, não tem desculpa e, certamente, não merece perdão.

Como disse José Pacheco Pereira a propósito da visão distorcida que o economês nos deu durante o consulado passista e os “anos de lixo” de uma troika omnipresente, “É difícil imaginar melhor forma de autoritarismo do que chamar para o seu lado a «realidade».” (Público, 17/3/2018). Pois é.



Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 22:07
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Sexta-feira, 16 de Fevereiro de 2018
UM OUTRO MUNDO

A nova fase de acumulação generalizada de capital que vivemos, pela transferência maciça dos rendimentos do trabalho para o capital e crescente agravamento das condições laborais, traduzidas na precarização dos vínculos profissionais, redução dos salários e aumento do horário de trabalho – aquilo que Boaventura de Sousa Santos designa como “fascismo contratual” – bem como a prossecução de políticas austeritárias, com a consequente degradação dos mecanismos de proteção social e das condições de vida das comunidades (acesso aos bens alimentares, à habitação, à saúde e à educação), cimentam uma estrutura social profundamente desigualitária e consolidam um horizonte de pobreza junto de camadas cada vez mais alargadas da população.

Exemplos desses constrangimentos são as extraordinárias indicações constantes num relatório elaborado em Bruxelas pelos técnicos da Direção-Geral para os Assuntos Económicos e Financeiros, segundo os quais “Há espaço para ir mais longe em reformas que reduzam a proteção laboral excessiva nos contratos permanentes em países como Portugal e Espanha”(DN, 6/2/2018), bem como a posição do comissário europeu da Economia e Finanças, Pierre Moscovici, a insistir junto das autoridades portuguesas no sentido de “desblindar” mais os contratos permanentes e reduzir o alegado “excesso de proteção” aos trabalhadores dos quadros das empresas, facilitando assim os despedimentos. O grande problema para estes eurocratas é que “os custos do despedimento individual de trabalhadores permanentes sem justa causa são incertos para os empregadores” [sublinhado meu], reiterando-se a necessidade de flexibilizar os procedimentos para o afastamento abusivo daqueles que ficam sujeitos à determinação das eufemísticas “razões económicas”.

Por isso, há que contestar fortemente a narrativa do “vivermos acima das nossas possibilidades” quando, de acordo com o relatório da organização internacional de luta contra a pobreza Oxfam de janeiro deste ano, 82% da riqueza mundial produzida em 2017 está alocada a apenas 1% da população mundial, ou quando as oitenta maiores fortunas equivalem à riqueza da metade mais pobre da população mundial. Se pensarmos que, de 1980 a 2016, os 50% mais pobres do mundo terão beneficiado de 12% do crescimento, enquanto que os 1% mais ricos, usufruíram de um aumento de rendimento de 27%, calculando-se que, em 2050, os 1% mais ricos quadruplicarão a posse da metade mais desprovida da população mundial, então é imperativo questionarmos a justeza da destruição dos direitos de todos para a defesa da riqueza de alguns.

Outro exemplo concludente da barbárie que significa a atual ordem globalizada neoliberal, foi-nos dado, há poucos dias, pela apreciação da agência de notação financeira norte-americana Moody’s a propósito dos impactos das despesas de saúde na atribuição dos ratings dos países. Fazendo apanágio de um cinismo e desfaçatez absolutas, diz-nos a vice-presidente da agência, Kathrin Muehlbronner, no seu mais recente relatório que “A saúde irá tornar-se um aspeto cada vez mais importante na nossa avaliação de crédito. Todos os Estados membros da União Europeia serão confrontados com pressões para aumentar a despesa relacionada com a saúde, o que será refletido na nossa avaliação sobre a solidez orçamental” (DN, 6/2/2018), especificando que “no longo prazo espera-se que Portugal, Malta, Croácia e Eslováquia sejam particularmente afetados, com uma subida da despesa com saúde de quatro ou mais pontos percentuais do produto interno bruto até 2060”. Ficamos estupefactos com a enorme desumanidade da relação estabelecida entre o envelhecimento da população e a notação a ser atribuída aos países em causa. Será que para assegurar a solidez financeira dos países, a Moody’s advoga o extermínio dos idosos?

A profunda mercantilização da existência humana a que se assiste – e de que já falava, nos idos de oitocentos, Karl Marx – nutre-se do darwinismo social prevalecente no pensamento hegemónico. Tendo como única e determinante prova capacitária a acumulação de riqueza e propriedade, tal teoria – totalmente alheia às conclusões científicas do próprio Charles Darwin para o mundo natural – advoga uma luta sem quartel entre todos, através de uma concorrência desenfreada entre indivíduos, empresas, instituições e países na conquista de um incensado sucesso social. Este autêntico jogo de soma nula, em que a vitória de uns (poucos) se faz à custa do fracasso dos outros (muitos) – cultivando, simultaneamente, sentimentos de culpabilidade junto destes para conseguir a aceitação resignada da sua pretensa mediocridade – tem, de resto, raízes profundas no pensamento liberal. Como nos lembra o economista Manuel Couret Branco, “A teoria liberal justifica a propriedade enquanto direito humano, sustentando-se na sua putativa virtude emancipadora, na sua capacidade de conferir ao indivíduo liberdade e independência. A mesma teoria liberal menospreza, contudo, a sujeição do indivíduo que a propriedade também implicaria para quem não a possui.” (Manuel Couret Branco, Economia Política dos Direitos Humanos, Lisboa, Sílabo, 2012, p. 22).

Há século e meio, e denunciando o que apelidava de “velha doença democrática”, o sempre lúcido Alexis de Tocqueville, no programa parlamentar que redigiu em 1847, alertava precisamente para o facto de que “La Révolution française, qui a aboli tous les privilèges et détruit tous les droits exclusifs, en a pourtant laissé subsister un, celui de la propriété.” Para o autor oitocentista, dotado de um notável sentido premonitório, seria este o “grande campo de batalha” político e social futuro. Pela sua relevância, vale a pena atentar num trecho mais desenvolvido das suas palavras: “Bientôt, ce sera entre ceux qui possèdent et ceux qui ne possèdent pas que s’établira la lutte politique; le grand champ de bataille sera la propriété, et les principales questions de la politique rouleront sur des modifications plus ou moins profondes à apporter au droit des propriétaires. Nous reverrons alors les grandes agitations publiques et les grands partis.” (Patrick Savidan, Pósfacio a Crawford B. Macpherson, La Théorie Politique de l’Individualisme Possessif, Paris, Gallimard, 2004, pp. 540-541).

A posse de propriedade significará, em todos os casos, a justa retribuição do mérito, da determinação ou dos sacrifícios realizados? Será o sucesso social uma decorrência necessária e suficiente da virtude individual? Na obra clássica da sociologia política The Power Elite, de 1956, o sociólogo americano C. Wright Mills contesta precisamente esta visão das coisas, pondo em causa as explicações sociais dadas a partir de traços pessoais ou de personalidade. Diz-nos este autor que “A prova da «capacidade», por exemplo, numa sociedade em que o dinheiro é um valor soberano é tida geralmente como a habilidade de ganhá-lo: «Se você é tão inteligente, por que não é rico?» E se o critério da capacidade é o dinheiro que se ganha, certamente a capacidade é reconhecida segundo a riqueza e os muito ricos são os de maior capacidade.” Ao invés, Mills defende que a explicação deve ser “proporcionada por circunstâncias mais objetivas” das oportunidades postas à disposição dos indivíduos, não sendo possível usar para o efeito “menções anedóticas da astúcia ou da sagacidade, do dogmatismo ou da determinação, da inteligência natural ou da sorte mágica, do fanatismo ou da energia sobre-humana dos muito ricos, como indivíduos.” (C. Wright Mills, A Elite do Poder, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1981, pp. 116-117).

Esta obsessão plutocrática está, no entanto, bem patente na referência que Mills faz da década de 20 do século passado, quando o presidente da General Electric era considerado demasiado importante para ser presidente dos Estados Unidos (Mills, op. cit., p. 104). O próprio Owen D. Young declarou à revista Fortune de março de 1931, que “Uma certa dose de gracejo rude é necessária como efeito teatral para o funcionamento do governo democrático. O mundo aprendeu que pode tolerar um certo volume de brincadeira na política. Isso leva a compreender que não se pode brincar em Economia (…) Nada mais claro, na experiência dos últimos dez anos, do que a necessidade de manter nossa máquina económica, e especialmente nossas finanças, livres do domínio e controle pela política” (Mills, op. cit., pp. 104-105). Tendo em conta os tempos trumpistas mais recentes, esta afirmação é particularmente elucidativa.

Face ao avolumar das desigualdades e aos crescentes fatores de injustiça social, preferimos fazer nossa a mensagem central emanada do Fórum Social Mundial, reunido pela primeira vez na cidade brasileira de Porto Alegre, no Brasil, em 2001: “um outro mundo é possível”. Tem que ser possível!


Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 00:22
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Terça-feira, 2 de Janeiro de 2018
COMEMORAÇÕES

Em 2018 comemora-se o II centenário do nascimento de Karl Marx e os 170 anos da edição dessa obra seminal que foi o Manifesto Comunista. Com tanto tempo passado e depois de tudo o que já se disse sobre Marx, que sentido faz comemorar estas datas?

Para além da constatação óbvia da influência perene das suas ideias, tão eloquentemente expressa pelo filósofo e crítico literário britânico Terry Eagleton, quando refere que “There are no Cartesian governments, Platonist guerrilla fighters or Hegelian trade unions.” (Terry Eagleton, Why Marx was right, New Haven, Yale University Press, 2011, p. X), o que mais surpreende em Marx é a extraordinária modernidade do seu pensamento. Atente-se nas palavras premonitórias pronunciadas num discurso por ocasião do aniversário do People’s Paper, em 1856, em que Marx dirá sobre o seu presente – afinal tão próximo do nosso – “Nos nossos dias tudo parece prenhe do seu contrário. A maquinaria, dotada com o poder maravilhoso de diminuir e frutificar o trabalho humano, mata-o à fome e fá-lo trabalhar em excesso. As novas fontes de riqueza, por algum estranho sortilégio, transformam-se em fontes de escassez. (…) Todas as nossas invenções e progressos parecem dotar as forças materiais de vida intelectual e embrutecer a vida humana ao torná-la uma força material.” (cit. Jonathan Wolff, Porquê ler Marx hoje?, Lisboa, Cotovia, 2003, pp. 12-13).

Foi esta invulgar capacidade de questionamento da realidade que transformou definitivamente o nosso entendimento da história e das relações sociais. A principal lição de Marx foi brilhantemente sintetizada, uma vez mais, por Terry Eagleton: “A slave knows he is a slave, but knowing why he is a slave is the first step towards not being one.” [itálico meu] (Eagleton 2011: 143). Foi este conhecimento profundo das raízes da exploração humana, foi a sua notável perceção da evolução das sociedades e do funcionamento do capitalismo, que o seu pensamento genial nos transmitiu. Mas simultaneamente foi este precioso legado crítico e esta atitude inconformada que Marx nos deixou. Como nenhum outro. Sobretudo a sua denúncia permanente da “ideologia branca” de que nos fala o filósofo português Sousa Dias. Da ideologia que se quer impercetível, inócua, desideologizada, essa mesma ideologia que conduziu à naturalização do capitalismo, à aceitação passiva de um destino tido por inevitável e incensado pelas narrativas do “fim da história”, à fatalidade daquilo que passa por constituir o derradeiro patamar da marcha da humanidade, doravante condenada per omnia saecula saeculorum a um futuro de injustiça e exploração. Sem escolha.

Pelo contrário, o que os ensinamentos de Marx nos deixaram foram principalmente os seus efeitos mobilizadores na denúncia das iniquidades sociais e na problematização e desmistificação da realidade, entendimento que não pode deixar de se traduzir numa postura contestatária e desafiadora face à ordem existente e à visão do mundo hegemónica. E, dada a natureza eminentemente revolucionária do pensamento marxista, desde essa altura desvalorizado e desprezado, discriminado e ostracizado, perseguido e, quantas vezes, eliminado, numa escala crescente de ódio por parte das forças dominantes, na exata medida do grau de resistência e eficácia na luta por um outro caminho. É isso que significa ser – hoje, como ontem – marxista: não se conformar, procurar sempre uma alternativa.

As primeiras palavras do Manifesto Comunista, publicado em 1848, lembravam aos poderes instituídos, “Anda um espectro pela Europa – o espectro do Comunismo.” Esse grande ideal civilizacional de Marx, alvo de tantas apropriações espúrias e interpretações abusivas ou truncadas, norteou – norteia – as esperanças de muitos milhões de pessoas em todo o mundo. E, como refere Sousa Dias, “O fracasso, os fracassos, das experiências comunistas, longe de significarem o fracasso da Ideia comunista, fazem parte da Ideia, do seu estatuto «hipotético» ou «problemático», constituem o seu campo necessário de experimentação, de tentativas, de renovação, de erro e de autocorreção.” (Sousa Dias, Grandeza de Marx, Lisboa, Assírio & Alvim, 2011, p. 19). E por isso, no seguimento do que sublinha o filósofo esloveno Slavoj Zizek, “permanecer hoje fiel a essa Ideia, permanecer fiel a Marx, não faz sentido senão na forma de uma espécie de infidelidade, de um certo e assumido antimarxismo, de um abandono absoluto da Ideia de comunismo legada pelos séculos XIX e XX”, infidelidade essa que “é tão-só a condição negativa necessária e a própria forma de atualidade de uma fidelidade fundamental” (Dias, op. cit., p. 21), tanto mais indispensável, quanto maiores são as disfuncionalidades do capitalismo globalizado, tanto em termos do agravamento brutal das desigualdades sociais, como de uma espécie de irracionalidade suicida indutora de uma catástrofe ambiental iminente.

Para Sousa Dias, “A questão-Marx, a questão da atualidade de Marx, por conseguinte não será tanto, ou não será de todo, e para retomar ainda a fórmula zizekiana, a de saber o que devemos pensar de Marx mas a de saber o que Marx pensaria, poderia pensar, de nós. Não será tanto a da crítica da Ideia comunista pela realidade contemporânea como a da crítica desta realidade na perspetiva da Ideia de Marx.” (Dias, op. cit., p. 22). Trata-se, com efeito, “Não de um regresso a Marx (…), mas de um regresso de Marx. (…) Sua vinda, não do passado mas do futuro, convocado pela realidade presente.” (Dias, op. cit., p. 71). Imperativo que significa assumir em toda a sua plenitude a posição certeira do filósofo francês Daniel Bensaïd: “penser avec Marx, contre Marx, pas sans lui”.

De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades” (Crítica do Programa de Gotha); que maravilhosa utopia! É da possibilidade, sempre presente, dessa revolução social emancipadora, de uma outra história – a do “reino da liberdade” submetendo finalmente o “reino da necessidade”, isto é, a construção de uma sociedade baseada no desenvolvimento pleno e livre de cada um (de que nos fala Karl Marx em O Capital) – que nos estamos a referir. Dessa mesma possibilidade que, de forma notável, Oscar Niemeyer expressou acerca da arquitetura moderna: a de que é preciso “criar hoje o passado de amanhã”. Que assim seja!


Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 19:31
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Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
PODE ALGUÉM SER QUEM NÃO É?

Este título, tomado de empréstimo da canção homónima do álbum Pré-Histórias de Sérgio Godinho, é bem o retrato de uma forma muito particular de fazer política, própria daqueles que pretendem escamotear o que é indisfarçável.

Não é nova esta maneira de fazer política. Radica naquilo que, no final dos anos setenta do século passado, o jurista e politólogo francês Roger-Gérard Schwartzenberg denominou “o Estado espetáculo”, parafraseando o conceito de “sociedade espetáculo” que um seu conterrâneo, o filósofo Guy Debord, tinha teorizado na década anterior. Trata-se de constatar, nas palavras introdutórias de Schwartzenberg, a singular circunstância de que “A política, outrora, era ideias. Hoje, é pessoas. Ou melhor, personagens. Pois cada dirigente parece escolher um emprego e desempenhar um papel. Como num espetáculo.” (Roger-Gérard Schwartzenberg, O Estado espetáculo, São Paulo, Difel, 1978, p. 1). Nesta passagem de um poder político abstratizado e essencialmente adstrito às grandes construções jurídico-constitucionais (e, afinal, não era precisamente a apologia do anonimato que imperava nos alvores da democracia?) para uma “política figurativa” em que prevalece uma “encenação” de que o próprio Estado se encarrega de ser “produtor”, assiste-se a um processo de personalização do poder que, mais do que efetivo domínio institucional – como no caso das ditaduras – representa, em termos da psicologia coletiva, a encarnação da nação – como, mais uma vez, no caso das ditaduras, mas também no de algumas democracias.

Esta personalização do poder engendra dois tipos de consequências: por um lado, conduz a uma exaltação, o mais das vezes exagerada e descabida, do dirigente político em questão, transformando-o em algo maior do que realmente é (e merece!), fazendo-o portador de virtudes e qualidades que, de facto, não possui, ou que possui, mas não num grau tão superlativo. Por outro lado, pode ser particularmente enganadora, quando corresponde a um processo de ocultação de poderes fácticos que, agindo na sombra, se servem destes protagonistas para satisfazer os seus interesses. Em qualquer das situações, é pelo fascínio causado nas populações – o poder carismático de que falava Max Weber – que estes indivíduos fazem o seu percurso político e exercem o seu consulado governativo. Reinventando-se, estes indivíduos compõem uma personagem (no sentido latino de persona, enquanto máscara teatral), adotando posturas, comportamentos, valores e crenças que melhor satisfaçam os seus desígnios, tendo por finalidade, tão eloquentemente proclamada por Benito Mussolini, de “fazer da própria vida uma obra-prima”.

Desde há umas décadas, são os mass media que constituem o veículo privilegiado ao serviço desta autêntica “egopolítica”. Mostrar-se e ser visto pelo maior número possível de pessoas passou a ser a conditio sine qua non da atuação política e da influência pessoal. A comunicação ultrapersonalizada, eminentemente emocional e afetiva, relega para segundo plano precisões concetuais mais elaboradas e uma verdadeira análise das situações. O sound-bite e o imediatismo da mensagem televisionada ou radiodifundida substituem a reflexão, necessariamente ponderada e diferida no tempo. Procura-se o efeito fácil, o gesto espetacular, a afirmação singular, o vedetismo do momento – que se transforma num constante “espetáculo do poder” – em detrimento do trabalho reflexivo, da discussão de ideias, da resolução responsável dos problemas. Como referia o conhecido sociólogo canadiano Marshall MacLuhan nos estudos – já clássicos – elaborados sobre este tema nos finais dos anos sessenta do século passado, “a mensagem é o meio”.

Ora, a mediatização da política ultrapersonalizada induz o efeito profundamente artificial da proximidade, da empatia, da comunhão de interesses e expetativas, da partilha de um destino comum. Nada mais demagógico. O “telepolítico”, longe de desejar a participação popular – e muito menos o confronto de posições que essa participação poderia suscitar – marca a sua distância real face aos governados precisamente através da ilusão do unanimismo, da harmonia nacional, do bem-estar comunitário. A distância entre a imagem difundida e a realidade das circunstâncias é a garantia da eficácia deste tipo de ação política, ao produzir uma espécie de humanização do exercício do poder, segundo o princípio, cristalinamente enunciado por Nicolau Maquiavel na sua famosa obra O Príncipe, “O vulgo só julga aquilo que vê”.

Como diz Schwartzenberg, “Para o telepolítico, não se trata de argumentar, sustentar, tentar convencer o espetador. Seguindo um caminho racional. Trata-se antes de suscitar emoções, de fazer brotar um impulso, um sentimento de confiança a seu favor. Dirigindo-se ao instinto – tão facilmente iludido – mais que à razão; aos sentidos, mais que à consciência.” (Schwartzenberg, 1978: 205). Aduz dois exemplos, oriundos dos EUA, que são suficientemente elucidativos. Em 1968, aquando da campanha eleitoral que vai eleger Richard Nixon, o seu campaign manager, Ray Price, entrega a Nixon a seguinte mensagem: “O eleitor reage à imagem do candidato e não ao homem, com o qual 99% da população jamais teve e jamais terá qualquer contato direto. O que vale não é o que existe, e sim o que é projetadoNão precisamos portanto mudar o homem, mas sim a imagem recebida” [itálicos no original]. Por seu lado, o speechwriter de Nixon, William Gavin, será ainda mais explícito: “O eleitor é fundamentalmente preguiçoso e em hipótese alguma se poderá esperar que ele faça o menor esforço para compreender o que lhe dizem. Raciocinar exige um grau elevado de disciplina e concentração; é mais fácil impressionar. O raciocínio repugna ao telespetador, ou então o agride, exige que ele concorde ou recuse; uma impressão, pelo contrário, pode envolvê-lo, solicitá-lo sem o colocar diante de uma exigência intelectual”.

A vedetização e a dramatização constituem, assim, instrumentos essenciais do processo de encenação política. A exploração televisiva da atuação governativa transforma tudo numa espécie de reality show. O “telepolítico” vale-se da ilusão da familiaridade e adota uma afetividade largamente fictícia (excedendo, em todo o caso, eventuais traços genuínos de caráter), reforçando a imagem de uma figura paternal que procura parecer próximo das pessoas, compreender mais do que afirmar, seduzir mais do que convencer. Toda esta intimidade desarma, anestesia, endeusa. E, lançando-se numa autêntica “tournée de abraços” – na sugestiva expressão da jornalista Fernanda Câncio (Público, 23/10/2017) – o “egopolítico” promove a adesão unanime e inconsiderada. Como diz Schwartzenberg, “Desta maneira, o cidadão vive e se valoriza, recupera sua dignidade. Por herói interposto.” (Schwartzenberg, 1978: 252).

Tudo, porém, faz parte do espetáculo de um poder personalizado e de uma gestão política rigorosamente pensada; tudo concorre para o reforço da ambição pessoal e da prossecução inconfessada de determinados propósitos. O problema é que acaba sempre por aparecer uma vichyssoise no caminho a denunciar o logro.

Hugo Fernandez



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Quarta-feira, 1 de Novembro de 2017
RESCALDO

Quando Nuno Magalhães, líder parlamentar do CDS, para justificar a moção de censura ao Governo por causa dos incêndios florestais, afirmou “Cabe ao PCP, PS e BE avaliarem se houve ou não falhas e se a morte de cem pessoas é grave.”, está tudo dito sobre o oportunismo político da iniciativa e a suprema hipocrisia daqueles que, mesmo tendo tido responsabilidades diretas no setor, nunca quiseram saber dos males que afetavam a floresta e de que resultaram – a par de uma inenarrável incompetência e falta de meios no seu combate (pese embora uma situação de extrema atipicidade climática) – as tragédias invocadas. Recorde-se, a título de exemplo, a extinção, pela então Ministra da Agricultura e atual dirigente do CDS, Assunção Cristas, precisamente da Secretaria de Estado das Florestas e da Autoridade Florestal Nacional, organismos que tutelavam a gestão e defesa da floresta e que procuravam garantir condições tão essenciais como a limpeza dos matos, o ordenamento florestal, a vigilância contra incêndios, etc. Bem como a redução, pela mão de Cristas, de dois terços dos funcionários do ministério da Agricultura, precisamente daqueles que estavam no terreno, junto das populações (como aconteceu, de resto, com a extinção dos guardas florestais). Ou, para o efeito, da liberalização da plantação de eucaliptos, apadrinhada pelo seu ministério.

A impostura é tanto maior quanto os partidos que agora censuram o Governo, CDS e PSD, têm sido defensores e promotores estrénuos precisamente das políticas de “litoralização inexorável” de que falava Miguel Portas (E o resto é paisagem, Lisboa, Dom Quixote, 2002, p. 21), oscilando entre a voragem urbanizadora, o deslumbramento terciário ou a simples rapina de um território transformado em autêntica coutada de caça. Referimo-nos ao desaparecimento, induzido em larga escala, de todo o tipo de atividades económicas e oportunidades de emprego, nomeadamente pelo encerramento sistemático dos serviços públicos (escolas, centros de saúde, estações de correio, bancos, transportes, até serviços de finanças) que, não permitindo a fixação das populações nas suas localidades, fomentaram uma alarmante desertificação humana das regiões do interior e o subsequente abandono das terras, doravante pasto fácil da fúria incendiária. Não sejamos ingénuos; foi este deslaçar das comunidades rurais, subsumidas aos propósitos predadores da indústria extrativa – por exemplo, com a expansão incontrolada de monoculturas tão lesivas para o ordenamento do território e para o ambiente quanto sumamente rentáveis para os interesses privados de uns poucos – e da especulação imobiliária desenfreada – pela venda de enormes parcelas do território a interesses exógenos, quantas vezes estrangeiros – que fez a fortuna de muita da clientela desses mesmos partidos que agora choram “lágrimas de crocodilo”.

O diagnóstico certeiro de José Pacheco Pereira, não deixa dúvidas: “um dos aspetos que mais aceleraram a devastação do interior foi o processo de privatizações conduzido pelo Governo Passos-Portas que implicava um conjunto de obrigações de caráter nacional, em que umas ficaram no papel e outras não, apenas entregues à boa vontade das novas empresas privadas.” (Público, 28/10/2017). Trata-se, para além da deterioração generalizada dos serviços contratados, das pequenas – afinal, grandes! – necessidades de manutenção dos espaços, da limpeza dos locais de passagem das linhas de energia, do contacto diário com as populações, da possibilidade de ajuda próxima, do conhecimento do terreno que grandes empresas como os CTT, a EDP ou a REN, pura e simplesmente, deixaram de prestar, ajuramentadas que estão ao sacrossanto lema do “lucro máximo com o custo mínimo”.

Inverter estas políticas é uma necessidade. Entre a miserável e folclórica ruralidade salazarista e a obsessão urbanocrata da modernidade neoliberal, há de haver, com certeza, outros caminhos. Como disse o economista José Reis, “Estes fogos apenas descarnaram o país esquelético que fomos criando. Mataram os mais indefesos.” (Público, 20/10/2017). Para o professor catedrático coimbrão, temos que “Esquadrinhar o território onde crescem árvores e arbustos com a mesma força com que se esquadrinhou o campo para os loteamentos urbanos. (…) Mas é preciso querer. Querer mudar o país todo, do qual temos andado distraídos.” Criar condições para que as populações (nomeadamente as mais jovens) possam permanecer nos seus locais de origem, rejeitar as monoculturas (por exemplo de eucalipto e pinheiro), incentivar uma agricultura sustentável (ambiental e economicamente), promover um verdadeiro ordenamento do território, transferir recursos (humanos e materiais), conhecimentos, tecnologia para esse “outro lado” do país, são urgências nacionais.

Porque, como bem explicou Eduardo Lourenço, “Portugal é um tecido histórico-social de malha cerrada, uma aldeia de todos, uma parentela com oito ou mais séculos de coabitação, uma árvore genealógica comum” (Eduardo Lourenço, Nós e a Europa, ou as duas razões, Lisboa, INCM, 1988, p. 13). Este país escreve-se no singular; é pequeno demais para ser assimétrico. Não faz sentido falar de um litoral e de um interior. Se os responsáveis políticos compreenderem esta urgência, serão muito mais estadistas do que tem revelado o deplorável espetáculo da beijoquice pública.

 

Hugo Fernandez



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Segunda-feira, 16 de Outubro de 2017
ESTADO DA QUESTÃO

Podemos continuar a resignar-nos com votações que pouco excedem a metade dos eleitores? Podemos ser complacentes com um sistema político que aceita a demissão cívica reiterada de uma parte substancial da população, expressa em elevados índices de abstenção? Seja qual for a perspetiva pela qual se encare o problema, esta circunstância diz-nos mais sobre a qualidade da democracia em que vivemos do que sobre quaisquer aspetos conjunturais e perfeitamente aleatórios da maior ou menor empatia entre eleitos e eleitores. Trata-se, com efeito, de uma marca indelével da nossa ordenação política, acerca da qual permanece um silêncio cúmplice e uma anuência dificilmente compreensíveis.

Talvez a razão de semelhante desacerto se prenda com a tese defendida pelo politólogo norte-americano Jason Brennan que, na desassombrada entrevista dada à revista Visão no passado mês de setembro, nos revela aquele que considera ser o principal defeito do sistema democrático. Para este professor de Ciência Política da Universidade de Georgetown, em Washington, “Quando obrigamos todos os cidadãos a ir votar, estamos a inundar as urnas com os eleitores menos informados e ignorantes. E isso não é bom. Do mesmo modo que não queremos pôr os bêbados a conduzir, também não queremos pôr os ignorantes a votar.” (Visão, 28/9/2017). Dividindo o universo de potenciais eleitores em “pessoas preconceituosas [no sentido de sectárias] altamente motivadas e pessoas ignorantes e desmotivadas.”, Brennan advoga uma democracia restrita, “Porque, ao contrário do que é habitual dizer-se, o voto obrigatório não traz grandes benefícios. Não precisamos que toda a gente vá votar, há maneiras mais baratas de o fazer, basta selecionar 20 mil pessoas, não é preciso forçar 10 milhões ou 210 milhões, como acontece nos Estados Unidos da América, a ir votar.”. Defendendo um “sufrágio universal com veto epistocrático.” [uma espécie de conselho dos sábios ou “aristocracia do conhecimento”, também apelidada de “sofocracia” ou “noocracia” (cf. Giovanni Sartori, Teoria de la democracia, Madrid, Alianza Universidad, 1997, p. 335], o académico americano faz uma surpreendente e provocante analogia acerca do funcionamento da democracia: “é como se, de quatro em quatro anos, os cidadãos fossem fazer um exame e, no final, tivessem que dividir a nota com todos os outros cidadãos desse país.”

Para além das ressonâncias platónicas de semelhante sistema, com o claro absurdo do referido conselho de sábios dever ser constituído por “cidadãos com fortes conhecimentos de sociologia e de filosofia política”, como refere Brennan, a sua proposta tende a esquecer toda a história da implementação dos sistemas democráticos modernos e da dura luta dos povos por um progressivo alargamento da capacidade eleitoral, como parte integrante de um processo civilizacional de universalização do direito à cidadania e de promoção da justiça social. Mas, por mais anacrónica que nos possa parecer a visão do politólogo norte-americano, o estado a que chegaram as democracias no mundo contemporâneo parece estar, paradoxalmente, a confirmar as suas asserções. Não pela necessidade da indução de quaisquer limitações cívicas – o que contrariaria os princípios legais e doutrinários amplamente aceites a nível planetário – mas por propósitos de caráter eminentemente político. Até que ponto não é do interesse do próprio sistema democrático uma redução da participação eleitoral para níveis que assegurem não só uma melhor gestão das expetativas, como uma maior eficácia governativa na satisfação de determinados interesses?

Quando, na Proclamação de Gettysburg de 1861, Abraham Lincoln enunciou a célebre definição da democracia como o “governo do povo, pelo povo e para o povo”, não estava a contar a história toda. É certo que as eleições representam a expressão cimeira da glorificada “soberania popular”, a partir do princípio doutrinário da isonomia – igualdade de condição perante a lei (mas, em todo o caso, nunca da isocracia, entendida enquanto “poder igual”). E que a possibilidade de mudar periodicamente os detentores do poder político, dá à população uma capacidade ímpar de influenciar a governação da res publica. Mas a relação que assim se estabelece entre governantes e governados tem outras condicionantes. É que verdadeiramente não é o povo que decide; escolhe quem tem a atribuição de decidir. Claro que os políticos no poder terão sempre que antecipar as reações do eleitorado à sua atuação governativa, para garantirem posteriores reeleições. Mas, no sistema democrático vigente, é neste procedimento eleitoral formalmente livre e exercido em condições perfeitamente padronizadas que se resume a participação cívica da esmagadora maioria da população, pouco empenhada em qualquer tipo de envolvimento político, partidário, associativo ou comunitário.

O propósito das eleições passa, desta forma, cada vez menos por uma preocupação com o aprofundamento da democracia, entendida enquanto mobilização efetiva das pessoas no sentido de uma intervenção cidadã progressivamente mais regular. O principal desiderato a cumprir com a consulta periódica dos cidadãos prende-se, pelo contrário e cada vez mais, com a efetivação de um mecanismo expedito de escolha e legitimação dos governantes, baseando-se em premissas meramente procedimentais e de caráter quantitativo (a constituição de maiorias circunstanciais). A participação ativa dos cidadãos na vida democrática é claramente negligenciada, quando não abertamente desencorajada. A permanente despolitização e alienação cívica das populações – processo no qual os órgãos de comunicação social, em especial a televisão, desempenham um papel essencial – são realidades bem mais frequentes do que se quer fazer crer, acabando por reduzir a política à satisfação dos interesses de grupos restritos, bem organizados e influentes. É que, como referia já há uns anos o sociólogo britânico Paul Hirst, “A participação limitada é uma característica institucional da democracia de massa e não uma mera falha decorrente de circunstâncias específicas.” (Paul Hirst, A democracia representativa e seus limites, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1993, p. 10).


Hugo Fernandez




publicado por albardeiro às 00:26
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Sábado, 9 de Setembro de 2017
EUROPA

No livro recentemente publicado Adults in the room: my battle with Europe’s deep establishment (Random House, 2017), Yanis Varoufakis, o ex-ministro das Finanças grego durante o primeiro semestre de 2015, usa expressões como “colónia da dívida”, “tortura orçamental” ou “golpe de Estado financeiro” por parte do Eurogrupo, Banco Central Europeu e FMI, para caraterizar a situação a que o seu país se viu sujeito. É aí relatado um episódio particularmente ilustrativo da deriva “pós-democrática” da União Europeia. Foi quando Wolfgang Schäuble, o superpoderoso ministro das Finanças alemão que obrigou à imposição das condições mais duras para o resgate da Grécia, confidenciou a Yanis Varoufakis que, se estivesse no seu lugar, não assinaria o memorando da troika: “Como patriota, não [assinaria]. É mau para o seu povo.” (Público, 12/6/2017). A conversa, que decorreu em Berlim no gabinete de Schäuble, demonstra bem o grau de desrespeito entre países e a permanente chantagem negocial presentes na Europa comunitária.

Não são de agora estas condições. As primeiras brechas na União Europeia aconteceram, nos inícios dos anos 90 do século XX, com o processo de ratificação do Tratado de Maastricht, com a vitória do “não” no referendo da Dinamarca que as ameaças dos eurocratas converteram em “sim” num segundo referendo, e a rejeição do Tratado Constitucional Europeu em 2005, nos plebiscitos da França e da Holanda, projeto de Constituição europeia que viria a ser reciclado pelo Tratado de Lisboa de 2007 (ainda em vigor), apesar do “não” da Irlanda, pressionada a reconverte-lo em “sim” num referendo posterior, por virtude e engenho do pensamento neoliberal dominante e das perversidades de uma construção europeia absolutista que insiste em prescindir de auscultar os cidadãos dos países que a compõem. É bem o “inverno da democracia”, sugestiva expressão que dá título à obra do politólogo francês Guy Hermet (L’hiver de la démocratie ou le nouveau regime, Paris, Armand Collin, 2007) e que reflete o estado acelerado de despolitização e alienação cívicas induzidas pela lógica eurocrata, com base no princípio cristalinamente enunciado pela politóloga espanhola Sonia Alonso no título de um working paper de 2014, “You can vote but you cannot choose” (cf. Democracy and the sovereign debt crisis in the Eurozone, Madrid, Instituto Carlos III – Juan March de Ciencias Sociales, Universidad Carlos III).

O que caracterizava a Europa e constituía a sua mais perene riqueza – a diversidade dos seus povos, culturas e nações e a democracia prevalecente – estão a ser postos em causa. Um povo europeu é algo de inexistente e a construção europeia, nas palavras do investigador do IPRI-UNL, José Pedro Teixeira Fernandes, tem seguido “basicamente a fórmula da integration by stealth («integração furtiva», ou seja feita nos bastidores) + despolitização.”, baseado num “consenso/apatia permissiva” que pressupunha um “contrato social” que entretanto se rompeu: “a perspetiva de um contínuo aumento de bem-estar económico e social para a generalidade da população europeia.” (José Pedro Teixeira Fernandes, “O futuro da construção europeia na era da globalização”, pp. 157-175, in André Freire (org.), O futuro da representação política democrática, Lisboa, Nova Vega, 2015, p. 172).

Na União Europeia assiste-se à proliferação de organismos e entidades não eleitas (Comissão Europeia, Banco Central Europeu, Eurogrupo), equipa de tecnocratas que governa por diktats, prescindindo de quaisquer procedimentos democráticos de legitimação e ponderação negocial. Com mais Estados-membros, desde o alargamento de 2004, mas um orçamento comunitário inferior, a União Europeia tornou-se um espaço de assimetrias e falta de solidariedade cada vez mais acentuada entre países grandes e pequenos, ricos e pobres, assim como de competição exacerbada e atropelo aos mais elementares direitos dos povos. Com as políticas públicas vergadas às imposições dos mercados e à “sacrossanta” liberdade de circulação dos capitais, assiste-se a uma permanente degradação dos salários, proteção social e qualidade de vida dos cidadãos – garantindo, desta maneira, baixos custos de produção – para, em contrapartida, possibilitar lucros faraónicos, a mais rematada especulação financeira e o florescimento dos “paraísos fiscais”, naquilo que já foi designado por “corrida para o fundo”, que as regras europeias insistem em promover.

No seu mais recente livro, Comment nous sommes devenus américains (Paris, Gallimard, 2017), Régis Debray deixa-nos, sobre este tema, reflexões importantes. Diz-nos o filósofo francês que “O culto europeísta constitui a primeira religião secular que não pôde dar aos seus fiéis um cartão de identidade, a menos que por tal tomemos uma nota do Monopoly.”, uma vez que “O mito da Europa murchou mais do que convinha por ter pressuposto que um texto de Constituição podia servir de ancoradouro, sem língua, memória nem lenda partilhadas.” e adverte-nos para as consequências desta situação: “Destruir um sentimento de pertença sem pôr um outro no seu lugar é sempre perigoso.” (Le Monde Diplomatique, ed. portuguesa, agosto de 2017). Até porque, como sublinha o economista João Rodrigues, “Já vai sendo tempo de atentar na resiliência do vínculo nacional, tanto mais forte quanto mais pulverizadas são outras identidades, e nos custos em termos de desenvolvimento que se pagam quando o controlo estrangeiro dos recursos passa um certo limiar, em Portugal franqueado desde a passagem do milénio.” (Público, 1/9/2017). Com efeito, este investigador do CES explica que “nunca houve e nunca haverá desenvolvimento sem o controlo nacional de instrumentos de política pública que garantam alguma margem de manobra aos Estados para modificarem as instituições nacionais, tornando-as mais inclusivas.”, uma vez que “Sem algum grau de fronteira económica, sem algum controlo político democrático sobre os capitais e sobre os fluxos comerciais ao nível dos Estados, não há responsabilidade política democrática que nos valha; nem segurança da que vale a pena, a social, a que é garantida pela provisão pública de recursos essenciais.” (ibid.)

Há duas décadas atrás, um outro filósofo político francês, Gérard Mairet, na introdução à obra clássica de Jean-Jacques Rousseau, Du contrat social (Paris, Le Livre de Poche, 1996), não hesitou em afirmar que, à luz do princípio da democracia enquanto soberania do povo, “L’Europe n’existe pas, entendons l’Europe comme union politique. Elle n’existe pas dans les choses et, même, les choses resistente fortemente sinon violemment à l’Europe.” (Mairet, 1996: 17), já que, “le réflexe identitaire si caractéristique, chez un peuple, de l’affirmation de sa souveraineté, est absolument disqualifié dans le cadre à la fois un et multiple de l’Europe.” Acrescenta Mairet, “Si l’Europe est aujourd’hui ce qu’elle est, c’est parce que ce qui a fait sa liberté et sa force – le particularisme historique des États et des nations – est justement ce qui cause aujourd’hui sa lâcheté et sa faiblesse.”, para concluir, “seule la démocratie repensée sur d’autres fondements peut sauver l’Europe du desastre.” (ibid.: 18). Mas é este “particularismo histórico” que constitui verdadeiramente a identidade europeia. Pressuposta no princípio da “nacionalidade europeia” garantida no artigo 8º do Tratado de Maastricht para todos os cidadãos dos respetivos estados membros, é hoje pouco mais que uma ficção, cada vez mais desprovida de conteúdo real. Até porque, como afirma Mairet – enunciando, enfim, a aporia da construção comunitária – “en partant du monde historique tel qu’il est, aucune démocratie européenne ne peut se construire si la condition de cette construction est le sacrifice des nations. Aucune nation n’est prête à un tel sacrifice, et je suppose que, au fond de lui-même, aucun individu n’est prêt à consentir ce sacrifice.” (ibid.: 20-21).

Impõe-se a dúvida: depois da crise das dívidas “soberanas” e dos resgates austeritários – com a consequente humilhação de países como a Grécia ou Portugal – como é possível falar de uma União Europeia? Ou será que, afinal, o tão proclamado “projeto europeu” se resume aos ditames do pensamento único neoliberal e aos negócios multimilionários de uma globalização sem regras? A Europa não passará, afinal, de um simples locus geográfico, limitada à mera condição de cabo mais ocidental da Ásia?

Apetece-nos invocar ainda um filósofo, desta vez o alemão Peter Sloterdijk, a que António Guerreiro, na sua habitual crónica semanal no caderno ípsilon do jornal Público faz referência, o qual, ao introduzir a ideia de “espaço interior do mundo” para caracterizar o atual processo de universalização do capitalismo globalizado, acaba por mostrar que o exterior “não é o que está para além: é o que está aqui mas é pobre e miserável.” (Público, 25/8/2017).

Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 21:13
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Sexta-feira, 7 de Julho de 2017
ECONOMIA POLÍTICA

Quando, nos inícios de maio passado, Marcelo Rebelo de Sousa elogiou a prestação económica do Governo de António Costa, confirmando a sustentabilidade das contas públicas, a ex-ministra das Finanças do PSD, Maria Luís Albuquerque fez questão de declarar que “o Presidente da República não é uma entidade independente e técnica, porque não é suposto ser, e eu não citaria o Presidente da República neste contexto”, preferindo ouvir outras entidades mais “independentes”, como “a UTAO, o Conselho de Finanças Públicas, as próprias agências de rating, a Comissão Europeia ou o Fundo Monetário Internacional” (Dinheiro Vivo, 6/5/2017). Certamente foi esta anunciada independência e tecnicidade que a fez, enquanto representante política de Portugal, ter alinhado com o ultraortodoxo ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble (apenas a Espanha esteve também ao lado de Schäuble), contra o acordo feito entre a própria chanceler Angela Merkel e o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras, em fevereiro de 2015, para uma reformulação dos termos do programa de financiamento à Grécia, país que se encontrava praticamente em situação de insolvência e a braços com uma gravíssima crise social, episódio que é relatado no mais recente livro do ex-ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, Adults in the Room: my Battle with Europe’s Deep Establishment (cf. Público 12/6/2017). Esta posição da ministra portuguesa e do homólogo espanhol é tanto mais incompreensível – a não ser por motivos claramente ideológicos – quanto o que estava em cima da mesa era a possibilidade dos países sujeitos a resgate financeiro poderem usufruir de algum alívio na carga imposta pelos memorandos da troika aos seus povos. Lamentável. Todos nos recordamos, aliás, da desfaçatez com que Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, reagiu à vitória do Syriza na Grécia: “Não pode haver escolha democrática contra os tratados europeus já ratificados” (Le Figaro, 29/1/2015).

No mesmo sentido, uma publicação do FMI a ser brevemente editada, Fiscal Politics, de que um outro ex-ministro das Finanças do PSD, Vítor Gaspar, é um dos coordenadores, lança, logo na introdução, o seguinte repto: “O que pode ser feito para reduzir a influência da política nas decisões orçamentais?” (Público, 18/4/2017). Descrita por Christine Lagarde, no prefácio, como “um primeiro passo para integrar decisivamente as matérias de economia política nas análises do FMI.”, este livro aponta como solução para os “constrangimentos” dos “ciclos eleitorais”, da “ideologia” e da “fragmentação” (entendida como pluralidade de atores políticos) – tudo fatores próprios da vivência democrática, sublinhe-se – a imposição de “regras”, “claramente definidas, simples, transparentes, consistentes e flexíveis” de que são exemplo os limites do défice, do endividamento e da inflação. Sabemos como estas regras, aplicadas seletivamente a favor de uns países e em detrimento de outros, têm presidido às políticas europeias e contribuído para o descalabro económico e social da Europa comunitária. Trata-se, por isso, de reiterar, pela enésima vez, a cartilha neoliberal.

Os óbvios sinais de decadência da União Europeia e, em especial, dos países integrantes do Eurogrupo, já começam, ainda assim, a fazer soar as campainhas de alarme. Não é por acaso que Mario Draghi, presidente do BCE, numa intervenção e debate que teve com membros do Parlamento holandês em Haia nos inícios de maio, defendeu a política monetária empreendida, em especial no seu efeito no crescimento económico e no emprego, muito para além, portanto, do que tem sido normalmente considerado prioritário na ação do Banco: a estabilidade financeira e o controlo de preços (taxa de inflação). Como sublinha o economista Ricardo Cabral, “julgo ser a primeira vez, na história do BCE, que o seu máximo responsável explicita, de forma tão direta, como é importante para a política monetária do BCE promover o crescimento económico e o crescimento do emprego.” (Público, 15/5/2017). Em linha, diga-se de passagem, com as recentes declarações de Wolfgang Schaüble numa entrevista à revista Der Spiegel, em que apoia a perspetiva avançada pelo presidente francês, Emmanuel Macron, da necessidade de mais verbas para os países europeus mais fragilizados (ainda que apenas para auxiliar processos de “reformas estruturais”), a merecer o seguinte comentário de Ricardo Cabral: “é de saudar o pragmatismo. É bom que o Tratado Orçamental morra «de uma morte desonrosa» (…) e é positivo para a zona euro a existência de maiores transferências orçamentais entre países ricos e pobres.” (ibid.)

 Recorde-se que a política austeritária que tem sido seguida a nível da zona euro aponta no sentido inverso, assentando em três pilares cristalinamente enunciados por Rui Tavares: “que o estímulo dado pelos Estados às economias após a crise de 2008 deveria ser retirado o mais depressa possível; que a zona euro não precisava de mecanismos de correção para os chamados «choques assimétricos» entre centro e periferia; e que, para  países como Portugal, a cura para a crise estaria no corte dos «custos unitários do trabalho» (para ganhar competitividade) e na diminuição das despesas do Estado (para ganhar «credibilidade» junto dos mercados).” (Público, 26/5/2017). Conhecem-se os efeitos altamente recessivos destas políticas, especialmente quando houve governos – como, em Portugal, o Governo Passos/Portas – que quiseram ir “mais longe do que a troika”. Com a atual convergência de esquerda no nosso país e a inversão destas políticas, tornou-se evidente que há alternativas à lógica neoliberal seguida até agora. Como refere Rui Tavares, “Com Portugal e outros países periféricos a crescer acima da média da União Europeia, há outro mito que pode estar ferido de morte: o de que não podemos crescer nem convergir dentro da zona euro. (…) Com as políticas certas, dentro e fora do país, Portugal pode desenvolver-se e a zona euro tornar-se menos desigual.” (ibid.). É uma questão de opções políticas, isto é, de economia política.

Tal como foi uma escolha política o rumo económico seguido na construção da Europa comunitária, como nos revela o episódio do “maldito” Relatório Maldague, agora relembrado por um dos seus autores, o académico inglês Stuart Holland (cf. Público, 8/5/2017). Corria o já longínquo ano de 1975, quando um “grupo de sábios” se reuniu em Bruxelas, a pedido da Comissão das Comunidades Europeias. O grupo, presidido pelo belga Robert de Maldague, comissário do Plano, tinha como mandato, atribuído pela Direção-Geral de Economia e Finanças da Comissão, elaborar um relatório sobre os Fatores Estruturais da Inflação. Nas palavras de Holland, “A lógica implícita consistia em fazer uma declaração sobre a necessidade de reformas estruturais dos mercados de trabalho, reduzindo os custos e os benefícios da mão-de-obra, para que as empresas europeias pudessem manter a sua competitividade apesar da quadruplicação dos preços do petróleo depois do aumento decretado pela OPEP [Organização dos Países Exportadores de Petróleo] em setembro de 1973”.

Mas não foi nada disso que foi feito. Pelo contrário, a equipa dirigida pelo chevalier de Maldague entregou um relatório que, logo na introdução, revelava a seguinte preocupação: “Se o pleno emprego, e uma melhor distribuição de recursos e de lucros para investimento não podem ser salvaguardados, medidas que apenas restrinjam a procura vão chocar cada vez mais com as expetativas sociais de uma melhoria na qualidade de vida.”, avisando que, “A não ser que sejam levadas a cabo reformas de longo alcance, há um grande risco de que métodos autoritários – de forma aberta ou dissimulada – possam gradualmente controlar as nossas sociedades democráticas.” Com efeito, pretendia-se alcançar o objetivo de “Assegurar o funcionamento de uma economia de mercado, sem colocar em risco o real progresso social registado no pós-guerra.” Para isso propunha-se “a introdução de um sistema de redistribuição dos lucros excessivos, através da taxação ou da integração dos assalariados na partilha dos lucros, (…) maior responsabilização das grandes empresas, (…) a competitividade deveria ser baseada nos direitos sociais, na concertação social e na inovação, em vez de reduzir os custos da agenda de integração.” Identificavam-se, por outro lado, os grandes obstáculos para atingir esse desiderato: “Isto implica uma ação urgente, aos níveis nacionais e comunitário, para lidar com o comportamento das grandes empresas na formação de preços, no emprego e nos mercados de capitais, onde agora ocupam uma posição dominante.”, esclarecendo que “Estes fenómenos são manifestações claras de uma transformação profunda na forma como a democracia funciona nos nossos países”. A conclusão do relatório não podia ser mais transparente (e premonitória): “A escolha é clara: ou a comunidade e os Estados-membros têm a necessária lucidez e coragem para estar à altura da tarefa; ou vão continuamente aplicar políticas tradicionais que resultarão numa série crescente de crises, profundas e brutais, económicas, sociais e, em última instância, políticas.”  Perante estas conclusões, a Comissão apressou-se a recolher o máximo de exemplares do documento a que teve acesso, “trancou-os na cave do Berlaymont [edifício sede da Comissão, em Bruxelas] e destruiu-os.” Claro que a proibição do relatório (de que sobraram alguns exemplares), teve o efeito contrário, tendo sido divulgado em vários jornais europeus da época. Mas o que ficou evidente, no seio do que viria a ser a União Europeia, foi a profunda divisão entre uma corrente ideológica neoliberal, emergente em meados da década de 70 do século passado, e… (imagine-se!) a doutrina democrata cristã, de que o próprio Robert de Maldague era um representante “da velha cepa”.

Tornou-se famosa a formulação de Antonio Gramsci, no contexto do pós-I Guerra Mundial, “O velho mundo está a morrer, o novo mundo tarda em aparecer, e nesta meia-luz surgem monstros”. É que, como um dia disse eloquentemente o nosso Nobel da Literatura, José Saramago, “O grande problema do nosso sistema democrático é que permite fazer coisas nada democráticas democraticamente”.

Hugo Fernandez



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Quinta-feira, 8 de Junho de 2017
A MENTIRA

Em finais de abril, passaram os primeiros 100 dias da governação Trump. E se a ação da atual Administração americana é um tema recorrente de análise e preocupação globais, esta espécie de obsessão indicia uma compreensão precisa do que o trumpismo representa em termos americanos e das suas consequências a nível mundial. Longe de ser um epifenómeno, “Tudo é interessante no «momento» Trump. Quase tudo é perigoso em Trump. Nada vai ficar igual com ele e nada vai ficar igual depois dele. Quase tudo muda com ele.”, como refere o historiador José Pacheco Pereira (Público, 25/3/2017). Ora, um dos traços característicos do poder instalado na Casa Branca é o da manipulação e uso constante da mentira ao serviço da prepotência e do nepotismo.

Caracterizando-o como “o Presidente da «nova ignorância» […], um misto de troll, de figurante de um reality show especialmente bully, um artista de variedades e um con man, um vigarista.”, Pacheco Pereira refere que a mentira a que constantemente recorre é nele sistémica e não uma qualquer disfunção patológica. Trump e os “seus” põem a verdade ao serviço da convicção e de um poder que se quer incontestável e absoluto, “uma revolução autocrática, feita à volta de um homem sem qualidades”, concluindo, “Todos os dias há uma ameaça, todos os dias há uma decisão associada a uma ameaça. E é essa exibição de motivos e de explicações que é autocrática, porque sem grandes subtilezas revelam um homem disposto a tudo para impor a sua vontade, a começar pelas regras escritas e não escritas da democracia.” (Público, 13/5/2017).

Ao 99º dia da sua presidência, Trump confessou numa entrevista à Reuters, “Pensava que isto ia ser mais fácil. Aqui tenho muito mais trabalho do que tinha antes”, queixando-se que nunca antes um Presidente dos EUA tinha sido tão maltratado quanto ele. Mas o seu estilo de governo por decreto executivo (em 100 dias, assinou mais de 30), sem a busca de qualquer negociação ou consenso legislativo junto do Congresso ou do Senado, são bem elucidativos do despotismo desta governação. Tal como a comunicação direta que estabelece com o seu país e o mundo através do Twitter, prescindindo dos meios de comunicação tradicionais, que acusa de serem mentirosos e incorretos – “o inimigo”, como os classificou o seu conselheiro Steve Bannon. A corte de adoradores e de oportunistas que aproveitam o desvario desta personalidade medíocre e doentia, aplaude.

Como justamente refere o jornalista Alexandre Martins, “Trump não tem apoiantes: tem adeptos. E dos ferrenhos – que não viam a sua equipa ganhar desde que nasceram (e já nasceram há muitos anos). Para muitos, a eleição de Trump não foi uma vitória – foi uma vingança.” (Público, 29/4/2017). Uma vingança de cariz populista, nacionalista, segregacionista, xenófoba e racista. A promessa de Trump é que a sua administração terá “sucessos tremendos”. É aqui que entra a manipulação comunicacional. A começar pela gigantesca falácia com que se apresentou ao eleitorado, como o paladino dos mais fracos e desprotegidos contra os ditames da finança e da globalização, contestando o sistema instalado e os interesses obscuros do poder de Washington. Ora se há alguém que sempre simbolizou os proveitos multimilionários da mais extremada exploração capitalista, que sempre pautou a sua ação pela total falta de escrúpulos e de consideração para com os outros (e, em primeiro lugar, para com os mais desfavorecidos), que na sua arrogância egocêntrica quebrou todas as regras e engendrou os esquemas mais extraordinários para uma afirmação pessoal exacerbada, essa personagem é, sem dúvida, Donald Trump. Assessorado pelos familiares, são os seus negócios particulares que continuam a ser administrados a partir da Casa Branca, com óbvias e acrescidas vantagens. Em termos de interesses obscuros do poder, estamos conversados. E, em jeito hamletiano, podemos seguramente dizer que “há mais coisas entre o céu e a terra do que sabemos”.

O Nobel da Economia em 2008, Paul Krugman, atribui o sugestivo título “Os factos são inimigos do povo” ao seu artigo de opinião publicado na Visão (16/3/2017), dando um exemplo suficientemente esclarecedor desta paranoia no uso da mentira enquanto instrumento privilegiado de inculcação doutrinária e de poder discricionário do trumpismo. Durante o segundo mandato de Obama, a taxa oficial de desemprego situou-se abaixo dos 5%, com a economia americana a conseguir criar 10,3 milhões de empregos, ou seja, 214 mil por mês. Apesar desta evolução positiva, comprovada por todos os indicadores, Trump considerava que estas notícias eram “treta”, insistindo na tese do desemprego em massa e num cenário de catástrofe social – argumentos, de resto, amplamente divulgados e com os quais conseguiu convencer largas camadas da população e acabar por vencer a corrida à Casa Branca. Quando recentemente foi conhecido o primeiro relatório da Administração Trump referente ao emprego, a mesma tendência mantinha-se. Perante tais resultados, não só Trump chamou a si os louros dos números existentes, como o seu diligente secretário de imprensa, Sean Spicer, se apressou a declarar “podem ter sido treta no passado, mas são muito reais hoje”. Esta é a mesma desfaçatez e desonestidade intelectual das inúmeras declarações falsas de Trump, como a da sua tomada de posse ter tido a maior assistência de sempre ou que houve milhões de votos contabilizados ilegalmente a favor de Hillary Clinton. Krugman conclui: “Os repórteres riram-se – e deviam ter vergonha de se terem rido. Porque não foi uma piada. Os EUA são hoje governados por um Presidente e um partido que no fundamental não aceitam a ideia de que há factos objetivos. Em vez disso, querem que toda a gente aceite que a realidade é o que eles disserem que é.” Ou seja, o princípio do poder ditatorial em todo o seu esplendor!

Outro exemplo particularmente elucidativo são as imputações de espionagem que faz ao seu antecessor. No início de março, Donald Trump twittou mensagens a acusar Barack Obama de lhe ter instalado escutas nos últimos dias da campanha eleitoral: “Terrível! Acabo de descobrir que Obama me pôs sob escuta na Trump Tower mesmo antes da vitória.” Estas alegações extremamente graves foram prontamente desmentidas por Jason Chaffetz, o congressista republicano que lidera a Comissão de Supervisão da Câmara de Representantes, o mais importante órgão de investigação do Congresso norte-americano, que revelou não ter quaisquer provas de que tal tenha acontecido. No mesmo sentido, o então diretor do FBI, James Comey, solicitou ao Departamento de Justiça para rejeitar, de forma oficial, as acusações feitas por Donald Trump, pois eram comprovadamente falsas e deveriam ser retiradas. Pelo contrário, o que os serviços secretos norte-americanos têm reiteradamente vindo a constatar são informações que apontam para ligações entre membros da equipa de Trump e o regime de Vladimir Putin, suspeito, desde o início, de ter interferido nas eleições que levaram o magnata americano ao poder. Foi certamente pelo avolumar destes indícios que Trump despediu James Comey da direção do FBI, tal como já tinha afastado liminarmente a procuradora geral interina Sally Yates quando esta avisou a Casa Branca das ligações de Michael Flynn – o indigitado conselheiro nacional de segurança de Trump, recorde-se – aos interesses russos (que acabou por ser afastado sob pretexto pueril de ter omitido essas ligações a Mike Pence, o vice-presidente americano).

Alimentando-se dos “factos alternativos”, expressão que a solicita conselheira para a imprensa da Administração Trump, Kellyanne Conway, inventou para encobrir a mais descarada mentira acerca do delirante massacre de Bowling Green – supostamente perpetrado por dois iraquianos e que, de facto, nunca aconteceu –, exacerba-se a retórica maniqueia do amigo-inimigo, aquela mesma que o jurista germânico de simpatias nazis, Carl Schmitt, teorizou nos finais dos anos 20 do século passado. Rejeitada qualquer informação vinda dos que são considerados “inimigos”, isto é, de todos aqueles que não estão de acordo com as suas ideias – incluindo a maior parte dos órgãos de comunicação social norte-americanos –, Trump e os seus apoiantes alimentam-se em exclusividade das informações em que acreditam e que apenas servem para confirmar crenças adquiridas, independentemente da sua veracidade, numa permanente – e militante – manipulação da realidade que configura um universo ideológico autocentrado, próprio das lógicas totalitárias.

O comportamento do Presidente e da sua Administração perante os meios informativos, é, de resto, esclarecedor. Desde as conferências de imprensa em que Trump decide quem pode e quem não pode falar (proibição que inclui a incontornável CNN), até aos briefings de imprensa na Casa Branca, em que os principais órgãos noticiosos, como a prestigiada agência Associated Press, costumavam ter a primazia nas intervenções e que agora são propositadamente relegados para segundo plano (e para uma altura em que já não há tempo para as respostas solicitadas), preteridos em favor de obscuros tabloides pró-Trump como o New York Post, Washington Examiner, National Review ou LifeZette, , sítios web como o Breitbart News, Townhall, Gateway Pundit, Infowars ou The Daily Caller, ou canais televisivos como a Fox News ou a One America News (cf. Le Courrier International, ed. port., maio de 2017).

Com Trump, passamos, com efeito, a outro patamar de manipulação; é que, segundo Paul Krugman, “Nenhum erro é admitido. E não há nunca nada de que pedir desculpas.” (Visão, 6/4/2017). O economista norte-americano explica que “Esta Administração opera com base na doutrina da infalibilidade de Trump: nada que o Presidente diga está errado, quer seja a sua falsa alegação de que ganhou o voto popular ou a sua asserção de que a taxa de homicídios, historicamente baixa, é uma taxa recorde.” Sublinhando “a incapacidade patológica de Trump para aceitar responsabilidades”, Krugman refere, em relação ao Presidente e ao seu círculo próximo, que “Admitir um erro marcá-los-ia como vencidos e fá-los-ia parecer pequeninos. Na realidade, a incapacidade para refletir e fazer autocrítica é a marca de uma alma pequena – mas eles não são suficientemente grandes para ter noção disso.”

A este propósito, não podemos deixar de nos lembrar das palavras do ministro da propaganda nazi Joseph Goebbels sobre a sistemática utilização da mentira pelo regime nacional-socialista, num discurso proferido a 10 de setembro de 1936: “a mentira desconcerta os homens honestos e amigos da verdade, de forma a incapacitá-los para a resistência interior… O mentiroso especula com o facto de o homem amante da verdade não poder sequer imaginar que se possa mentir assim, com a ousada e insolente naturalidade com que ele o faz” (cit. em Vicente Romano, A Intoxicação Linguística, Porto, Deriva, 2008, p. 58). Sabe-se também que a técnica de distorção da verdade mais utilizada pelo regime nazi enquadrava-se no que se pode designar por “mentira afirmativa”, de que são exemplos declarações como “Nós dizemos a verdade”, “Nós temos o verdadeiro socialismo”, “Salvámos a Alemanha do bolchevismo”, “Nós queremos a paz autêntica” ou “Libertámos os operários alemães” (op. cit., p. 58), justificando a invasão da Polónia em 1939 – que deu início à II Guerra Mundial – com a alegada defesa contra uma agressão externa inexistente. A analogia assusta, não é?

Na sua perplexidade, o humorista Ricardo Araújo Pereira confessa, “Acredito que os americanos tenham ido à Lua. Ainda tenho dúvidas que tenham eleito Donald Trump.” (Visão, 4/5/2017). Nós também!

Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 23:48
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