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albardeiro

Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!

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Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!

GAVETAS

albardeiro, 04.12.25

Em entrevista ao Público no final de outubro, e quando questionado se era de esquerda, o candidato presidencial António José Seguro, apoiado pelo PS, demarcou-se de tal identificação, afirmando, “Eu percebo aonde é que me querem levar. Em Portugal, tentam meter as pessoas em gavetas, em departamentos. Eu dirijo-me a todos os portugueses, sejam eles de esquerda, de direita, de centro.”, ao que acrescentou, “Sou um defensor do Estado social, da qualidade dos serviços públicos e dos serviços públicos. Mas para isso, é necessário que haja criação de riqueza. E uma das minhas prioridades é contribuir para que o país crie mais riqueza. Ora, isso faz de mim o quê? Por que me tentam arrumar em gavetas?” (Público, 28/10/2025). Pretendendo “unir os portugueses em torno de valores”, afirmou-se defensor da liberdade, da igualdade, da fraternidade e da justiça social, e definiu-se como democrata, republicano, progressista e humanista. Mas recusou assumir-se como sendo de esquerda. Ao longo da entrevista, o seu grande mote foi que os valores unem e as etiquetas dividem, contrapondo as eleições presidenciais – assentes na personalidade dos candidatos – às eleições legislativas – onde se sufragam “propostas ideológicas e políticas”. Como se as personagens políticas fossem programaticamente inócuas (como podem então ser personalidades e, ainda para mais, políticas!) e, por outro lado, as etiquetas não decorressem dos valores e os valores não enformassem as etiquetas.

Fosse por hipocrisia, fosse por taticismo, rapidamente o spin da sua campanha o levou a arrepiar caminho e, alguns dias mais tarde, a assumir-se como um candidato de esquerda. Mas esta hesitação – chamemos-lhe assim! – é sintomática de um preconceito antigo, que pretende legitimar opções políticas, tentando obnubilar as diferenças ideológicas que as sustentam. É como parar o vento com as mãos. O objetivo é claro: se a ideologia é sempre dos outros, a nossa posição passa por ser a alternativa mais equilibrada, mais válida e impoluta. Só que a ideologia é uma constituinte indispensável da realidade social e, por isso, as alegações de desideologização são afirmações profundamente ideológicas… e, quase sempre, de direita!

Esta díade concetual está ancorada na realidade e a dicotomia que daí resulta não é meramente descritiva ou instrumental (embora a contingência histórica possa levar ao seu aprofundamento ou à sua mitigação), mas valorativa; esquerda e direita é uma distinção axiológica central do nosso universo político e social, e assim se manterá. O que é mais surpreendente não é que se tenha de confirmar periodicamente a identidade de cada uma das posições, procedimento que faz parte da normal afirmação ideológica, mas que se ponha em causa a legitimidade ou utilidade de tal distinção. É, aliás, paradoxal que se insista nesta litania, já que, ao fazê-lo, valida-se a sua existência e confirma-se a sua validade. Se já não faz sentido falar de esquerda e de direita, por que se teima em invocar esta dicotomia?

Com efeito, é difícil deixar de considerar as diferenças entre uma aspiração igualitária da sociedade, e uma naturalização das desigualdades sociais, entre uma preocupação primordial com o interesse público, ou a valorização do interesse particular, entre uma progressividade dos encargos e uma redistribuição equitativa da riqueza, e uma concentração dos recursos e apropriação privada dos benefícios, entre a cooperação e a concorrência, entre uma economia social e uma economia de mercado, entre a propensão para a inclusão ou para a exclusão. Tais distinções existem e são fundamentais para o nosso entendimento do mundo em que vivemos.

A pretendida superação desta oposição ficou bem patente na célebre afirmação de Margaret Thatcher, para quem a sua maior vitória política teria sido a criação do “New Labour” de Tony Blair. É sabido como a chamada Terceira Via (“Para além da Esquerda e da Direita”, foi precisamente o título do famoso livro de 1994 do principal ideólogo desta corrente, Anthony Giddens) teve enormes responsabilidades no agudizar das desigualdades e injustiças sociais na Grã-Bretanha – exatamente porque governou à direita, limitando-se a gerir, com outras roupagens, as políticas neoliberais – e na generalização, nos anos subsequentes, do ressentimento social e do crescimento da pulsão populista.

Na formulação exemplar de um texto ainda do século passado, publicado no El País/Visão, o escritor espanhol Antonio Muñoz Molina diz-nos, “Não é difícil ser de esquerda: o difícil é não sê-lo, se se olhar com atenção para o estado do mundo. A tristeza vem quando nos cansamos do desgosto pelas coisas, da rebeldia de ter posições políticas, de simpatizar com alguém, e desistimos do gesto mínimo, colossal, de introduzir um papel numa urna de eleições.” (Visão, 4/11/1999). A vergonha de ser de esquerda é, assim, intolerável. Uma coisa é certa: Seguro não merece o voto da esquerda.

 

 

 

Hugo Fernandez



A Gramática das Pedras

albardeiro, 23.11.25

A aldeia ensinou-lhe a gramática silenciosa das pedras e o vocabulário secreto dos caminhos que serpenteavam entre oliveiras e azinheiras centenárias. Cada rua desse lugar guardava um nome murmurado pelos avós, cada ângulo escondia histórias que os adultos contavam a medo. Aprendeu a ler o mundo antes de decifrar alfabetos: o cheiro da chuva prenunciava a trovoada, o ladrar dos cães desenhava mapas invisíveis de territórios e hierarquias, o fumo das chaminés revelava quem cozinhava o quê em cada casa. As vizinhas falavam por códigos — um silêncio prolongado valia por três parágrafos de censura, um olhar de soslaio denunciava segredos que nenhuma boca ousaria pronunciar.

Na escola primária, entre paredes caiadas de fresco e o retrato severo de um presidente que não queriam esquecido, os sonhos nasciam feitos de giz e tinta azul. Brincava no recreio com pedras que se transformavam em tesouros, com paus que eram espadas de cavaleiros andantes, com imaginação suficiente para converter o pátio poeirento num reino sem fronteiras. Os livros de leitura traziam mundos improváveis: meninos de outras terras que tinham bicicletas e sapatos novos, enquanto ele calcorreava os mesmos caminhos que o pai e o avô haviam trilhado. Mas havia uma democracia peculiar naquelas páginas gastas — todos podiam sonhar gratuitamente, sem pagar por essa ousadia.

A adolescência chegou com a mudança para a vila maior, onde o liceu se erguia como catedral do conhecimento. Ali descobriu que o mundo cabia em mapas, que a história se escondia em datas e batalhas, que a geometria desenhava verdades absolutas num universo de certezas relativas. Os professores, uns cansados da vida, outros ainda iluminados por vocações intactas, apresentaram-lhe Camões, Garrett, Eça, Aquilino, Torga. Pela primeira vez, reconheceu-se nas páginas: aquele Portugal de contrastes violentos, de beleza agreste e melancolia estrutural, era o seu país interior.

A juventude explodiu em paixões desordenadas. Amou com a fúria de quem acabava de descobrir que o coração podia doer fisicamente, que os poemas não eram ornamentos, mas necessidades vitais. Escreveu manifestos em cadernos baratos, debateu Marx e Sartre em cafés “enfumaçados” onde o fumo misturava sonhos revolucionários com desilusões antigas. Projetou futuros utópicos em noites intermináveis: sociedades perfeitas onde a justiça não seria privilégio, mas direito inato, onde o pão se repartiria equitativamente e ninguém dormiria ao relento enquanto outros tivessem palácios.

Os livros tornaram-se território de exploração sistemática. Cervantes ensinou-lhe que a loucura pode ser a única sanidade possível num mundo invertido. Shakespeare revelou-lhe que reis e plebeus sangram o mesmo sangue vermelho quando a tragédia os visita. Dostoiévski mostrou-lhe os abismos da alma humana, aqueles lugares escuros onde convivem a santidade e o crime, a compaixão e a crueldade. Pessoa multiplicou-o em heterónimos, convencendo-o de que cada homem é uma multidão mal disfarçada de singularidade. A filosofia e a história ensinaram-lhe a questionar tudo, inclusive as questões.

Moldaram-no os amigos, aqueles companheiros de madrugada que partilhavam uns “copos” e as interrogações existenciais. Juntos, construíram utopias em conversas que se prolongavam até o amanhecer tingir o céu de rosa e cinzento. Discordavam violentamente sobre política, filosofia, estética, mas concordavam no essencial: o mundo precisava de ser reinventado. Alguns desses amigos desapareceriam com o tempo, tragados por carreiras convencionais ou por desilusões que os transformaram em cínicos prematuros. Outros permaneceram, constantes, envelhecendo ao seu lado, testemunhas fiéis de quem fora e de quem se tornara.

Construiu o seu próprio mundo com as mãos imperfeitas de todos os construtores. Não procurou a perfeição — sabia que ela era inimiga do realizado. Deixou fissuras propositadas nas paredes, janelas abertas para o imprevisto, portas sem fechaduras para que pudessem entrar os ventos da mudança. Deu ao mundo outra vida, perpetuando o ciclo antigo: tornou-se pai e compreendeu, com terror e maravilhado, que havia criado um refém da fortuna, alguém que não queria ferido pelas mesmas injustiças contra as quais ele próprio lutava (o mesmo para o filho de quem ele é pai).

A batalha por uma sociedade mais justa levou-o a reuniões intermináveis onde a retórica substituía frequentemente a ação. Conheceu a solidariedade genuína — aquela que não espera fotógrafos nem agradecimentos — mas também testemunhou como a vaidade se infiltra nos movimentos mais nobres, como os revolucionários de ontem se tornam os burocratas de hoje. A hipocrisia vestia roupas diversas: ora surgia como falsa modéstia de quem acumulava poder enquanto pregava renúncia, ora se manifestava no discurso progressista de quem mantinha privilégios intocáveis.

A dissimulação revelou-se arte complexa. Nos palácios do poder, fossem edifícios governamentais ou sedes empresariais, aprendeu a decifrar códigos subtis: o cumprimento efusivo que escondia punhais afiados, o elogio que precedia a traição, o silêncio que gritava desaprovação. Conheceu gentes desvairadas em todos os estratos sociais: não eram os pobres ou os ricos que enlouqueciam, mas aqueles que haviam perdido a bússola interior, substituindo-a por âncoras externas — dinheiro, estatuto, aprovação alheia.

Viajou por continentes onde o sol nascia e morria com cores diferentes. Pisou terras sagradas onde profetas haviam caminhado, contemplou ruínas de civilizações que se julgaram eternas, atravessou desertos que ensinavam humildade a qualquer soberba humana. Sobrevoou oceanos refletindo nas suas próprias contradições, reconhecendo-se em cada onda que nascia e morria sem deixar memória. Cada viagem subtraía-lhe certezas e adicionava-lhe perguntas.

Exerceu poder e curvou-se perante ele, compreendendo a dialética cruel desses verbos que se conjugam na mesma voz. Quando mandava, descobria que toda a autoridade é precária, que ninguém obedece por completo, que há sempre resistências subterrâneas minando as ordens mais imperativas. Quando era mandado, aprendia a arte da obediência seletiva, aquela que preserva a dignidade enquanto cumpre o essencial. O poder não o corrompeu completamente — havia uma parte dele que permanecia incorruptível, talvez aquele menino da aldeia que nunca crescera inteiramente.

O idealismo e o realismo habitavam-no simultaneamente, como irmãos gémeos em disputa constante. O idealista projetava futuros luminosos, acreditava na perfetibilidade humana, via em cada erro uma oportunidade de aprendizagem. O realista conhecia a natureza humana nas suas mesquinharias e grandezas, sabia que o progresso é sempre parcial e reversível, reconhecia que algumas batalhas são perdidas antes de começarem. Mas entre estes dois nunca houve síntese definitiva, apenas negociações diárias, armistícios temporários, compromissos que permitiam continuar.

A coragem não lhe faltou, embora não fosse a coragem teatral dos heróis impossíveis. Era a coragem mais modesta de levantar-se após cada queda, de recomeçar quando tudo aconselhava desistir, de dizer não quando o sim era mais confortável. A imaginação fértil salvou-o repetidamente: quando a realidade se tornava insuportável, inventava saídas improváveis que funcionavam contra todas as probabilidades.

Distinguia moinhos de gigantes porque lera Dom Quixote não como fábula infantil, mas como tratado filosófico sobre a condição humana. Compreendera que Cervantes não ridicularizava o cavaleiro andante — lamentava um mundo que o tornara impossível. Reconhecia estalagens mesmo quando outros juravam ver castelos, mas essa lucidez nunca degenerou em cinismo paralisante. Via o mundo tal como era sem renunciar ao que poderia ser.

Proteger os fracos tornou-se não apenas obrigação moral, mas necessidade psicológica. Cada injustiça testemunhada doía-lhe como ferida própria. Intervinha quando outros desviavam o olhar, arriscava-se quando o prudente era silenciar. Nem sempre vencia, frequentemente não vencia, mas a derrota nunca o convenceu a parar de tentar. Sabia que a justiça não é estado permanente, mas prática quotidiana, exercício diário de recusar a naturalização da opressão.

A verdade permaneceu a sua bússola inconstante. Não a Verdade absoluta das doutrinas totalitárias, mas as verdades modestas que se podem verificar, debater, corrigir. Mentiu raramente e quando o fez, ficou-lhe o sabor amargo de quem traiu princípios essenciais. Preferiu sempre a verdade inconveniente à mentira confortável, mesmo quando isso lhe custou amizades, oportunidades, tranquilidade.

No final, embora finais sejam sempre provisórios para quem continua vivo, restavam pegadas na areia de muitas praias. Algumas haviam sido apagadas pela maré do esquecimento, outras permaneciam gravadas em rochas que resistiriam ao tempo. Não construíra monumentos, mas plantara árvores cujas sombras abrigariam gente que nunca conheceria. Não deixava fortuna, mas legava exemplo — imperfeito, contraditório, humano.

Olhando para trás, reconhecia que fora simultaneamente ator e espetador da própria vida. Tomara decisões que mudaram trajetórias, mas também fora moldado por forças que não controlava: o acaso de ter nascido naquela aldeia e não noutra, naquele século e não noutro, naquela família e não noutra. A liberdade e o destino teceram juntos o tecido irregular da sua existência.

E se lhe perguntassem (perguntarem) qual fora o sentido de tudo, talvez respondesse que o sentido estava precisamente em não haver sentido único, em ter recusado narrativas simples para viver a complexidade real. Ou talvez dissesse, mais simplesmente, que tentara, com todos os erros e acertos, com todas as quedas e ressurreições, ser decente num mundo que nem sempre recompensava a decência. E isso, no fim de contas, era o suficiente.

Continuação de BOM domingo.

Albardeiro

A Sintaxe Condicional da Utopia Portuguesa: O Peso do "Se"

albardeiro, 18.11.25

A língua portuguesa, na sua infinita sabedoria gramatical, reservou uma partícula notável para aquilo que jamais acontecerá: o "se". Duas letras que carregam o peso de um país inteiro suspenso entre o desejo e a resignação, entre o plano quinquenal e a eternidade.
Se tivéssemos salários condignos — e aqui convém sublinhar a palavra "condignos", essa relíquia vocabular que só emerge em discursos sindicais e programas eleitorais — talvez pudéssemos discutir se o problema é mesmo salarial ou existencial. Mas não temos. Temos ordenados que nos permitem escolher entre pagar a renda ou ir ao dentista, nunca ambos, porque a dor de dentes, como se sabe, é opcional quando comparada com o desabrigo. A classe média descobriu que pertence à classe baixa, mas continua a usar a mesma gramática condicional, como quem recusa aceitar o diagnóstico.
Tomemos o caso do Serviço Nacional de Saúde. Se o SNS fosse mais eficaz — frase que todos proferem com a mesma convicção com que se discute a existência de unicórnios — poderíamos ter consultas em tempo útil. Mas "tempo útil" é um conceito relativo: útil para quem está a morrer, certamente; para quem marca uma consulta de rotina em 2025 para 2027, menos. O SNS funciona segundo princípios darwinianos modernos: sobrevive quem consegue esperar. Os hospitais tornaram-se ginásios de paciência, onde se exercita a capacidade de permanecer sentado numa cadeira de plástico durante sete horas, rodeado de gripes, fraturas e crises existenciais alheias. A triagem não avalia apenas a gravidade clínica, mas a perseverança filosófica do utente.
Se houvesse justiça social — e eis onde a retórica colide frontalmente com a aritmética — os filhos dos deputados frequentariam as mesmas escolas que os filhos dos cantoneiros. Mas existe uma justiça social muito portuguesa: aquela que garante que todos têm igual direito a sonhar com uma vida melhor, desde que não a alcancem simultaneamente. A mobilidade social foi substituída pela mobilidade geográfica: os jovens licenciados não sobem na hierarquia, emigram. O elevador social avariou nos anos oitenta e ninguém chamou o técnico porque, bem, se houvesse manutenção preventiva... mas não há, nunca houve, e quando finalmente a pedirem será tarde de mais.
O planeamento — essa palavra mágica que os políticos pronunciam como um feitiço destinado a adormecer audiências — existe apenas no particípio passado ou no futuro imperfeito. Se tivéssemos planeamento a longo prazo, Portugal não seria o país onde as obras públicas começam seis meses antes das eleições e ficam inacabadas por duas décadas. Temos viadutos para lado nenhum, rotundas que desembocam em olivais e metropolitanos cujas extensões existem mais nos mapas promocionais que na realidade topográfica. O ordenamento do território português segue a lógica do Tetris jogado por alguém com tremuras: as peças caem ao acaso, algumas encaixam por sorte, a maioria fica a flutuar no ar desafiando as leis da física e do bom senso.
A habitação merece capítulo próprio nesta hagiografia do absurdo condicional. Se o mercado imobiliário fosse regulado — frase que provoca urticária ideológica em economistas liberais e gargalhadas em investidores estrangeiros — os portugueses poderiam viver em Portugal. Conceito revolucionário, certamente. Em Lisboa, um T1 custa o equivalente a uma vida de salário mínimo. Solução óbvia: jejuar durante esses anos, ou melhor ainda, trabalhar esses anos sem dormir porque, afinal, se a legislação laboral fosse cumprida... . Há horas extraordinárias que de extraordinário só têm a designação; o resto é ordinário, obrigatório e não pago (exceto para os "dermatologistas" e afins).
O sistema educativo ilustra na perfeição esta gramática do impossível. Se os professores fossem valorizados — tanto financeira quanto simbolicamente — não teríamos escolas a encerrar turmas por falta de docentes que preferiram servir cafés ou emigrar para sítios onde "professor" não é sinónimo de "mártir mal remunerado". Os alunos aprendem desde cedo a conjugar o verbo "desistir" em todos os tempos e modos. As instalações escolares, essas, oscilam entre o degradado e o ruinoso, com pavilhões pré-fabricados que resistem há trinta anos, desafiando todas as previsões de longevidade e senso comum arquitetónico.
Se os transportes públicos funcionassem — condicional tão improvável quanto um Inverno sem greves da CP — poderíamos prescindir do automóvel individual. Mas funcionam segundo calendários quânticos: o comboio está simultaneamente atrasado e cancelado até ao momento em que observamos a aplicação, colapsando então numa das duas realidades. Os autocarros respeitam horários escritos em tinta invisível, visível apenas para iniciados em artes divinatórias.
A cultura política nacional é pródiga em condicionais impossíveis. Se os políticos cumprissem promessas — hipótese tão plausível quanto nevar no Algarve em Agosto — a abstenção eleitoral não seria desporto nacional. Mas vivemos numa democracia representativa onde os representantes representam maioritariamente os seus próprios interesses, numa mise en abyme corporativa que faria corar Escher. Os programas eleitorais são ficção científica sem a ciência: pura especulação sobre universos paralelos onde o erário é infinito e a corrupção uma palavra sem tradução.
Se tivéssemos políticas ambientais coerentes — e não apenas fotocalls com árvores plantadas às vésperas das chuvas de Setembro — talvez as florestas não ardessem com a regularidade de um relógio suíço incendiário. Mas optámos pela estratégia do eucalipto: cresce rápido, arde melhor, repete-se anualmente. O país transformou-se num pira piro-dependente, onde os Canadair são presença estival mais certa que os turistas.
A ironia suprema desta sintaxe condicional reside num facto: todos conhecemos as soluções. Não é ignorância, é preferência pela inércia. Portugal não é o país do "não sabemos", é o país do "sabemos perfeitamente, mas se mudássemos realmente alguma coisa implicaria incomodar quem não quer ser incomodado, e isso, meus amigos, isso é que seria verdadeiramente revolucionário.
Por isso continuamos a conjugar condicionais, esse tempo verbal do desalento disfarçado de esperança, onde mora toda a nossa incapacidade coletiva de converter gramática em ação. O "se" tornou-se o epitáfio nacional: aqui jaz um país que sabia exatamente o que fazer, se tivesse coragem, vontade ou, quem sabe, apenas um pouco menos de apego cómodo à própria mediocridade.

Albardeiro

A Normalização do Ridículo: Como o Benfica Elegeu a Própria Irrelevância

albardeiro, 09.11.25

Existe um momento preciso em que um clube deixa de ser uma instituição desportiva e se transforma em anedota. O Benfica atravessou essa fronteira sem resistência, sob a presidência de Rui Costa, e depois elegeu-o novamente para garantir que permaneceria do lado errado da história. Não por ignorância do estado das coisas — toda a gente vê, toda a gente sabe, toda a gente sofre. Por algo mais insidioso: a aceitação gradual do inaceitável, até que o ridículo se torna rotina e a mediocridade passa por normalidade.

Cinquenta anos de Estádio da Luz — 1954 a 2004 — produziram quatro derrotas na Liga dos Campeões em casa. Meio século de domínio transformou aquele recinto num santuário intimidante onde as grandes equipas europeias vinham perder. Nos últimos doze jogos dessa mesma competição, no mesmo estádio rebatizado mas esvaziado de mística, acumularam-se oito derrotas. A inversão é tão brutal que desafia a probabilidade estatística. Não se destrói um legado desta magnitude por azar ou conjuntura — destrói-se por incompetência sistemática, perpetuada eleição após eleição.

A contabilidade mórbida de quatro anos de Rui Costa como presidente titular revela uma proeza singular: transformar o Benfica no clube que mais gasta e menos ganha entre os ditos grandes. Um único título em quatro temporadas possíveis. Fortunas despejadas em contratações falhadas enquanto rivais com orçamentos fracionários acumulam troféus. Esta combinação — desperdício financeiro máximo, retorno desportivo mínimo — constituiria, em qualquer organização minimamente funcional, motivo para destituição imediata. No Benfica, constituiu credencial para reeleição.

Porque o eleitorado não escolheu Rui Costa apesar dos resultados. Escolheu-o precisamente por causa deles. Escolheu a garantia de que nada mudaria, de que as derrotas continuariam a acumular-se com regularidade burocrática, de que cada temporada traria novas humilhações cuidadosamente embaladas em discursos sobre "competitividade" e "processos". A derrota, antes exceção traumática, banalizou-se até se tornar expectativa.

"Perdemos mas fomos competitivos" — eis o epitáfio que Rui Costa esculpe para o Benfica. Esta frase, repetida após cada eliminação vergonhosa, cada título falhado, cada humilhação europeia, cristaliza a ambição presidencial: não ganhar, mas perder com dignidade suficiente para evitar demissão. É uma revolução semântica que subverte o próprio conceito de clube grande. Nos grandes clubes, competitividade é ponto de partida, não ponto de chegada. Vitórias são obrigação, não aspiração. Derrotas exigem consequências, não eufemismos.

Mas esta normalização linguística produz efeitos concretos. Quando perder se transforma em "ser competitivo", quando falhar sistematicamente passa por "estar no caminho certo", quando a mediocridade institucionalizada é vendida como "estabilidade", o clube perde a própria noção do que deveria ser. Transforma-se em versão caricatural de si próprio — ainda usa os mesmos símbolos, ainda ocupa o mesmo estádio, mas já não reconhece na vitória um imperativo existencial.

O Benfica tornou-se no meme do campeonato português. Não pela dimensão do plantel ou pelo orçamento — ambos continuam superiores. Pelo contraste grotesco entre recursos e resultados, entre pompa e desempenho, entre o que promete e o que entrega. Os rivais agradecem, comovidos, aos sócios que garantiram a continuidade de Rui Costa. Porque sabem que cada ano de Costa é mais um ano em que não precisam de se preocupar verdadeiramente com o Benfica.

Esta degradação não aconteceu por acidente. Resultou de escolhas deliberadas, repetidas, ratificadas democraticamente. Equipas desmanteladas anualmente, impossibilitando qualquer construção de projeto. Treinadores queimados por falta de condições estruturais, culpabilizados pelos fracassos da gestão. Modalidades abandonadas à míngua enquanto o futebol masculino devora recursos sem produzir resultados. Futebol feminino deliberadamente destruído quando começava a ter visibilidade internacional. Formação esvaziada de identidade e propósito.

Cada uma destas falências foi pública, documentada, irreversível. E os sócios, confrontados com o inventário completo do desastre, escolheram mantê-lo. Não por falta de alternativa — qualquer mudança constituiria melhoria face ao instalado. Por medo de que uma mudança real obrigasse a reconhecer cumplicidade em dezassete anos de declínio.

Vivemos tempos estranhos, em que a incompetência demonstrada se transforma em experiência relevante. Rui Costa gastou dezassete anos a provar que não tem qualificações para dirigir o Benfica — treze como vice-presidente omisso, quatro como presidente desastroso. Cada fracasso deveria ter-lhe custado credibilidade. Em vez disso, acumulou-os até converter a sequência de falhanços em curriculum vitae. Como se perder consecutivamente ensinasse a ganhar, como se gerir mal durante anos preparasse para gerir bem no futuro.

Esta lógica perversa só funciona porque existe uma cumplicidade tácita entre dirigente incompetente e eleitorado acomodado. Rui Costa oferece a ilusão de continuidade, a promessa de que as derrotas futuras não serão piores que as passadas. O eleitorado aceita essa mediocridade garantida porque exigir mais obrigaria a reconhecer que desperdiçou décadas a apoiar quem não o merecia. É um pacto de mediocridade mútua: ele não entrega resultados, eles não exigem consequências.

Ninguém respeita este Benfica. Ninguém o teme. Ninguém o protege. Tornámo-nos no clube onde toda a gente vem pontuar, no adversário que qualquer equipa europeia recebe com alívio, na "equipa grande" que os rivais nacionais enfrentam sem receio porque sabem que, perante dificuldade, este Benfica não reage — desmorona.

A palavra que melhor define a gestão Rui Costa é "amorfo". Sem forma definida, sem identidade reconhecível, sem espinha dorsal institucional. Um Benfica que não sabe o que quer ser, que muda de pele a cada temporada sem nunca encontrar a própria, que importa modelos estrangeiros sem os adaptar, que contrata nomes sem construir equipas, que acumula craques individuais incapazes de funcionar coletivamente.

Esta amorfidade contamina tudo. Não existe projeto desportivo coerente, apenas sucessões de reações às últimas derrotas. Não existe estratégia financeira sustentável, apenas remendos orçamentais que vão empurrando o passivo para os próximos mandatos. Não existe comunicação institucional credível, apenas silêncios estratégicos interrompidos por declarações vazias. Não existe liderança que inspire confiança, apenas gestão que inspira resignação.

E o mais surreal: foi precisamente isto que os sócios escolheram perpetuar. Não por satisfação com o estado das coisas, mas por incapacidade de imaginar alternativa. Acomodaram-se à mediocridade até ao ponto em que mudar parecia mais assustador que continuar a afundar. Preferiram o Benfica amorfo e aborrecido ao risco de um Benfica que tentasse recuperar o que foi.

Sporting e Porto não podem dar-se ao luxo de normalizar derrotas porque não têm a almofada financeira que o Benfica ainda conserva. Cada falhanço ameaça-lhes a sustentabilidade imediata, obriga-os a reagir, força-os a mudar. O Benfica, pelo contrário, pode perder indefinidamente porque as receitas comerciais, os sócios, o património acumulado permitem-lhe sobreviver à incompetência. Esta capacidade de absorver fracassos sem colapsar imediato transformou-se em maldição: eliminou a pressão que forçaria mudança.

Rui Costa pode perder campeonatos, esvaziar estádios, acumular eliminações humilhantes — e continuar, porque o clube aguenta. É uma espécie de imortalidade burocrática: demasiado grande para morrer, demasiado acomodado para viver verdadeiramente. Os rivais agradecem este conforto mórbido que anestesia a exigência. Sabem que enquanto o Benfica se contentar com "ser competitivo", enquanto celebrar incompetência como experiência, enquanto normalizar o inaceitável, não representa ameaça real.

A questão já não é se Rui Costa tem capacidade para reverter o que destruiu — dezassete anos provaram que não tem. A questão é se os benfiquistas conseguirão, algum dia, recuperar a capacidade de se indignar com derrotas, de exigir consequências para fracassos, de recusar a mediocridade mesmo quando ela vem embalada em discursos sobre estabilidade. Porque enquanto continuarem a escolher conscientemente quem os transformou em piada, o problema já não é apenas do presidente. É de quem o mantém.


Albardeiro

ELEIÇÕES NO BENFICA. A Coragem que Faltou: Anatomia de uma Escolha Incompreensível

albardeiro, 27.10.25

A multidão que encheu a Luz no dia 25 de outubro carregava, em aparência, a urgência da mudança. Filas intermináveis, participação recorde, um fervor que parecia anunciar rutura. Dois dias depois, a certeza: os benfiquistas votaram para que tudo permanecesse exatamente como está. Não por satisfação, ninguém celebra derrotas consecutivas ou passivos que ultrapassam meio milhar de milhões. Votaram pela manutenção daquilo que repudiam por uma razão mais perturbadora: porque mudar de verdade exigiria assumir que os últimos dezassete anos foram um erro colossal. E assumir erros dessa magnitude requer uma coragem que faltou.

Portugal forjou-se como nação de revolucionários conservadores, capazes de derrubar regimes mantendo intactas as estruturas de poder. O Benfica, clube mais representativo desta contradição cultural, confirmou-o brutalmente. Querem mudança, sim — mas uma mudança indolor, uma transição mágica da mediocridade para a excelência sem o trauma de reconhecer cumplicidade. Como se fosse possível alcançar vitórias sem demitir quem se especializou em derrotas.

Dezassete anos de Rui Costa no poder — treze como vice-presidente que alegava ignorância sobre o que assinava, quatro como presidente que reproduz os vícios que serviu, produziram um cadastro devastador. O passivo explodiu mais de cem milhões sob a sua presidência direta. Um único campeonato em quatro possíveis, zero Taças de Portugal, eliminações europeias humilhantes contra adversários de orçamentos irrisórios. Equipas desmanteladas anualmente, com metade dos titulares substituídos a cada temporada, numa voragem que impede qualquer projeto desportivo coerente.

As contratações ruinosas — Arthur, Belloti — transformaram-se em hemorragias financeiras. As vendas incompreensíveis — Neres, Aktürkoglu — privaram o plantel de diferenciadores. Treinadores consecutivamente queimados pela incapacidade de construir estabilidade. Mas o desastre estende-se além do relvado principal: a equipa feminina, que disputava quartos de Champions, foi deliberadamente destruída; as modalidades definham sob negligência sistemática; o futebol de formação perdeu identidade.

Durante treze anos como vice, Rui Costa nunca se demitiu perante escândalos, serviu de escudo ao Vieirismo enquanto era tratado publicamente como "incompetente preguiçoso" pelo próprio patrão. Agora, como presidente, oferece aumentos salariais de 50% aos funcionários votantes na véspera das eleições, apoia Pedro Proença enquanto faz negócios pessoais com a sua federação, esconde-se nos momentos críticos.

Qualquer um destes factos, isoladamente, constituiria motivo suficiente para rejeição. Todos juntos deveriam ter tornado a sua continuidade impensável. Mas não tornaram.

Existe uma perversão cognitiva que transforma experiência em fracasso numa suposta qualificação. Rui Costa domina "a particularidade do negócio futebol", defendem os seus apoiantes, como se gerir emoções de adeptos furiosos fosse uma competência em vez de consequência direta da sua incompetência em gerir resultados. As emoções oscilam entre fúria e resignação precisamente porque cada temporada se tornou uma coleção de humilhações desportivas e financeiras.

Esta inversão kafkiana da lógica estabelece que apenas quem já falhou está qualificado para continuar. Por esta ordem de ideias, manteríamos cirurgiões que matam pacientes porque "têm experiência em lidar com famílias enlutadas". A "particularidade do negócio futebol" não é mistério esotérico acessível apenas a iniciados, exige competência na gestão financeira, visão estratégica na construção de equipas, capacidade de identificar e contratar talento, coragem para decisões difíceis. Rui Costa falhou em todos estes aspetos. Mas essa sequência de fracassos transformou-se, perante milhares de sócios, em credencial.

O medo do desconhecido superou o pavor do conhecido desastroso. Confrontados com a escolha entre um passado de derrotas garantidas e um futuro incerto, os benfiquistas preferiram a certeza da derrota. Porque a derrota conhecida, afinal, não obriga a questionar as escolhas que a produziram.

A ilusão de que Rui Costa representa rutura com o Vieirismo desmorona-se perante os factos. Mantém as mesmas práticas de gestão opaca, a mesma relutância em prestar contas, a mesma tendência para rodear-se de mediocridades leais em vez de competências desafiadoras. A única diferença substantiva: Vieira, com todos os seus defeitos e alegadas ilegalidades, pelo menos ganhava alguns campeonatos. Rui Costa nem isso consegue. É Vieirismo sem a única coisa que lhe conferia legitimidade — os troféus.

Quando os sócios votaram pela sua continuidade, não rejeitaram o Vieirismo. Aceitaram-no na sua forma mais degradada: todas as patologias, nenhuma das compensações. Títulos nacionais perdidos para clubes em processo de insolvência, eliminações contra adversários de orçamentos ridículos, contratações que somam dezenas de milhões em prejuízos, manutenção de estruturas técnicas comprovadamente incapazes, erosão sistemática da identidade desportiva, crescimento galopante do passivo, afastamento progressivo dos adeptos.

E perante este historial, exige-se que Rui Costa "mostre que quer mudar para melhor". Como pedir a um incendiário que prove que, desta vez, vai usar os fósforos com responsabilidade.

O síndrome do impostor que aflige Rui Costa é sintoma de lucidez rara: ele sabe que não tem competência para o cargo. Mas a vaidade impede-o de reconhecer publicamente o óbvio. Prefere arrastar o Benfica para mais anos de irrelevância a assumir o próprio fracasso. Os sócios, ao mantê-lo, tornaram-se cúmplices desta escolha consciente pela decadência.

Porque esta não foi uma escolha passiva ou desinformada. Toda a gente sabia. Todos os números estavam disponíveis, todos os fracassos eram públicos, todas as incompetências tinham sido expostas. A escolha de Rui Costa foi uma escolha por tudo aquilo que Rui Costa representa: a gestão desastrosa, os projetos rebentados, o dinheiro desperdiçado, os títulos perdidos, as humilhações europeias. Foi uma escolha pela continuação de tudo isso.

O Benfica não carece de sócios mais respeitosos, carece de dirigentes que mereçam respeito. Não necessita de estabilidade que perpetue a mediocridade, necessita de exigência que force a excelência. Não precisa de perfeição ou garantias de sucesso — precisa apenas de se livrar do fracasso garantido. Não necessita de candidatos sem mácula — necessita de se livrar de um presidente cuja gestão constitui, ela própria, a mácula que mancha a história recente do clube.

Os benfiquistas tiveram a oportunidade de escolher o desconhecido arriscado em vez do conhecido desastroso. Preferiram a segurança da derrota familiar. Não por falta de vontade de mudar, por falta de coragem para assumir que escolheram mal durante dezassete anos. Essa recusa em enfrentar o passado condenou o futuro. E quando, daqui a quatro anos, o passivo ultrapassar os seiscentos milhões e os títulos continuarem a escapar, não poderão dizer que não sabiam. Porque sabiam. Sempre souberam. Escolheram na mesma.

Albardeiro

UMBIGUISMO

albardeiro, 26.10.25

Os resultados das últimas eleições locais revelaram muito das fragilidades do PCP, seguindo a tendência do seu declínio eleitoral que, nas últimas legislativas, não foi além de 3% dos votos (cerca de 180 mil votantes). Com uma erosão autárquica imparável desde 2013, a CDU perdeu 7 presidências de câmara (de 19 em 2021, para 12), 55 vereadores e 163 deputados municipais, perdendo as suas duas únicas capitais de distrito, Évora e Setúbal. Deixou de ser alternativa no bastião histórico comunista de Beja (que há dois mandatos, tinha perdido para o PS), agora nas mãos de uma coligação liderada pelo PSD. Algo nunca visto; a direita a ganhar em Beja! As perdas em percentagem de votos são brutais um pouco por todo o lado, com quedas de 30% para 11% em Loures, ou de 22% para 13% em Vila Franca de Xira.

A recusa de qualquer convergência a nível nacional (se excetuarmos a coligação com o PEV, uma criação sua), é demonstrativa de uma preocupante ausência de estratégia política, pelo menos se, por isso, entendermos a aspiração a ser uma força partidária com real implantação social e a ter voz nos destinos do país. A perda de capacidade de análise e de avaliação aprofundada – e realista – das condições existentes, só pode conduzir ao desastre. O que estas eleições amplamente demonstraram é que a falta do mais elementar pragmatismo na ação política reforça, com dolorosa eficácia, o dogmatismo de seita. É a expressão acabada do umbiguismo político.

Parece, pois, confirmar-se o diagnóstico de Daniel Oliveira, segundo o qual “O PCP já não luta pelo poder, luta pela sobrevivência, pela preservação da identidade, pelo património”, para concluir, “Um partido não serve para isso. Para isso erguem-se museus.” (Expresso, 15/10/25). Esta “afirmação de princípios vazia de objetivos, confundindo cegueira com coragem”, como certeiramente afirma o jornalista, teve uma comprovação cabal na luta autárquica por Lisboa. A recusa de fazer parte da coligação de esquerda, encabeçada pela candidata da ala mais progressista do PS e que, inclusive, ofereceu a vice-presidência ao candidato comunista, João Ferreira, e a participação efetiva na elaboração do respetivo programa eleitoral, é verdadeiramente incompreensível. A alegação de que “o João Ferreira era melhor” é, como refere Daniel Oliveira, “dos raciocínios mais ausentes de reflexão política que se pode ouvir de um marxista.” O resultado, previsível, foi tristemente demonstrativo: dos 20 mil votos que faltaram para derrotar Moedas, bastavam e sobravam os 26 mil conquistados pela CDU. Em Lisboa, o PCP podia, de facto, ter feito a diferença. Em vez disso, garantiu a vitória da direita na capital do país e a continuação da gestão desastrosa de Carlos Moedas no mais importante município português.

O desvario dos responsáveis comunistas é tão grande que Manuel Loff, vai ao ponto de dizer que, “À esquerda, a CDU obteve um resultado bem acima das expectativas.”, fazendo uma aritmética falaciosa com o aumento do número de votos em comparação com as eleições legislativas. Mas mesmo um historiador tão “alinhado” como ele, reconhece que “à esquerda do PS, se tenha de, antes que seja tarde, retirar consequências da forma como o sistema eleitoral impacta na sua representação política.”, e “encontrar formas de convergir que permitam assegurar uma representação própria.” (Público, 18/10/25).

O comunicado da Direção da Organização Regional de Beja do PCP é revelador desta incapacidade em lidar com a realidade. Começando, em jeito de justificação dos maus resultados, por dizer que as eleições autárquicas de 12 de outubro de 2025 se realizaram “após um período de sucessivas eleições de âmbito nacional que se traduziram na configuração de um novo quadro partidário e num maior peso de questões e matérias nacionais em detrimento de questões locais.”, o PCP avança com esta explicação paradoxal: “O resultado eleitoral obtido muito aquém das expetativas e do reconhecimento que é devido aos eleitos e candidatos da CDU” – elencando seguidamente, as escassas conquistas, mas esquecendo convenientemente as perdas, nomeadamente a do município de Serpa, onde o PCP dominava desde sempre – “[…] demonstra a importância da CDU no poder local, que prosseguirá em cada município e em cada freguesia o combate em defesa das populações e o trabalho político indispensável para reforçar e recuperar posições da CDU.” (Diário do Alentejo, 17/10/25). Mas como é que um “resultado eleitoral obtido muito aquém das expetativas […] demonstra a importância da CDU no poder local”? Não demonstrará antes uma evidente perda de influência? E como é que se compagina o desejo de prosseguir “em cada município e em cada freguesia o combate em defesa das populações” quando os resultados demonstram uma “falta de reconhecimento que é devido aos eleitos e candidatos da CDU”? Não será este um sinal claro do divórcio crescente entre os eleitores e o PCP? E “devido” porquê? Por direito divino, ou por direito consuetudinário? Em democracia, os eleitos são responsabilizados pelo que fazem e pelo que não fazem, e daí devem retirar as devidas ilações. Só dessa forma pode haver o tal “trabalho político indispensável para reforçar e recuperar posições”, responsabilização que, até ao momento, não se vislumbra.

Este umbiguismo adquire, assim, o significado preciso do étimo grego autárkeia – “o que se basta a si próprio”. Bastam-se, mas não bastam a mais ninguém. E isso é trágico para a esquerda.

 

Hugo Fernandez

 

 

 

 

 

 

A Amnésia Coletiva e o Regresso do Pesadelo

albardeiro, 17.09.25

 

A democracia, dizem os teóricos da política, pressupõe um eleitorado informado e responsável. Mas quando a massa associativa de uma instituição centenária contempla o regresso de quem a saqueou, estamos perante um fenómeno que transcende a mera irresponsabilidade: entramos no reino da patologia coletiva.

O Sport Lisboa e Benfica, catedral do futebol português, prepara-se para cometer um suicídio assistido. A arma? A candidatura (e possível eleição) de Luís Filipe Vieira. O carrasco? Os próprios sócios, armados de uma amnésia seletiva que faria corar os pacientes de Alzheimer.

Outubro de 2024 marca uma data que deveria estar gravada a ferro e fogo na memória benfiquista: a acusação formal por corrupção ativa. Não se trata de especulação jornalística ou teoria da conspiração. O Ministério Público português, com o peso da sua autoridade, acusa Vieira e o seu cúmplice Paulo Gonçalves de desviarem milhões do Benfica para salvar o moribundo Vitória de Setúbal.

Esta operação, tendo em conta a acusação, de lavagem financeira institucional revela a mentalidade feudal do antigo presidente: o Benfica como propriedade privada, os recursos do clube como extensão da sua conta bancária pessoal. Enquanto os sócios pagavam quotas e compravam equipamentos, Vieira transformava o dinheiro sagrado da instituição num instrumento de poder pessoal.

Maio de 2025 trouxe o segundo ato desta sinfonia criminal: o famoso "Saco Azul". Pagamentos fictícios a empresas informáticas externas, lesando o Estado em meio milhão de euros e o clube provavelmente em muito mais. A genialidade infame de Vieira reside na sua capacidade de transformar cada transação numa oportunidade de enriquecimento ilícito.

Que patologia mental explica a tolerância dos sócios perante este curriculum vitae criminal? A resposta encontra-se numa perversa síndrome de Estocolmo coletiva, onde as vítimas desenvolvem uma bizarra admiração pelo seu carrasco.

Vieira não é apenas um ratoneiro comum – é um ratoneiro carismático, um predador institucional que soube criar uma narrativa de sucesso desportivo para mascarar a sua voracidade financeira. Os títulos conquistados transformaram-se numa espécie de indulgência medieval, absolvendo qualquer pecado presente ou futuro.

Esta amnésia estratégica permite aos sócios ignorarem convenientemente a Operação Lex, o Mala Ciao, os Vouchers, os Emails e o surreal E-Toupeira. Cada processo judicial é arquivado mentalmente como "perseguição política", cada acusação transformada em "inveja dos rivais".

A relação entre Vieira e o "Rei dos Frangos" ilustra na perfeição a natureza oligárquica do sistema vieirista. Durante meio século de amizade, os dois homens construíram uma rede de interesses que transformou o Benfica numa extensão dos seus negócios pessoais.

A operação de 2019, onde ações foram compradas a um euro para serem vendidas a cinco, representa o epítome da arte vieirista: converter a paixão benfiquista em lucro pessoal. A CMVM, órgão regulador do mercado de capitais, não teve dúvidas: tratava-se de um "esquema ardiloso" para quintuplicar um investimento através de informação privilegiada.

Mas os sócios, cegos pela nostalgia dos sucessos passados, preferem ignorar que cada título conquistado teve como contrapartida uma fatia da alma institucional vendida ao melhor licitante.

Setembro de 2019 ficará para a história como o momento em que a máscara civilizacional de Vieira caiu definitivamente. Apertar o pescoço de um associado numa Assembleia Geral não é um "momento de tensão" – é a manifestação física de uma mentalidade autocrática que considera qualquer oposição como traição.

Este episódio, registado em ata oficial, deveria ter sido o ponto de não retorno. Em qualquer sociedade minimamente civilizada, um dirigente que agride fisicamente um associado seria imediatamente banido. No universo vieirista, transformou-se numa anedota, um "momento menos feliz" de um líder "apaixonado".

A eventual reeleição de Vieira representaria algo muito mais grave do que a simples escolha de um mau presidente. Significaria a normalização definitiva da corrupção institucional, a aceitação de que o roubo é tolerável desde que acompanhado de sucesso desportivo.

Esta distopia não é ficção científica – é a realidade tangível de uma sociedade que perdeu a capacidade de distinguir entre o certo e o errado, entre o líder e o parasita, entre o construtor e o destruidor.

Quando uma instituição de 120 anos aceita ser governada por um homem com mais processos judiciais do que anos de honestidade, estamos perante a morte simbólica dos valores que a fundaram. Os "pais fundadores" não sonharam com um clube que servisse de lavandaria para fortunas ilícitas.

O Benfica de Vieira não é o Benfica dos sonhos infantis, das tardes de domingo no estádio, das lágrimas de alegria após cada vitória. É uma empresa familiar disfarçada de clube de futebol, onde o património coletivo serve os interesses de uma elite parasitária.

Se os sócios escolherem novamente este caminho, estarão a escrever o epitáfio da própria paixão. Porque não há títulos suficientes para lavar a mancha da desonestidade, não há troféus capazes de restituir a dignidade perdida, não há vitórias que justifiquem a traição aos valores fundadores.

A escolha é simples: ou o Benfica enterra definitivamente o vieirismo, ou o vieirismo enterrará definitivamente o Benfica. Sete palmos abaixo da terra, como na série televisiva que inspirou esta reflexão, onde cada episódio começa com uma morte e termina com um funeral.

A diferença é que, desta vez, quem escolhe o defunto são os próprios enlutados.

 

Albardeiro

PÓS-VERDADE

albardeiro, 05.08.25

Ou a “apologia da mentira descarada”, apetecia-me acrescentar como subtítulo deste texto. Desde sempre, a distorção da realidade, a propaganda enganadora e a manipulação ideológica, fizeram parte da ação política, em especial em contextos de afirmação de poder ou de guerra. Ficou célebre o slogan “2+2=5” do romance distópico Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, de George Orwell, em que o delegado do Partido, O’Brian, faz Winston Smith – ele próprio funcionário do “Ministério da Verdade” (cujo objetivo era, precisamente, vigiar a informação, reescrever a história e apagar certos assuntos) – acreditar que dois mais dois é igual a cinco, não porque essa equação fosse verdadeira, mas porque esta era a expressão exemplar da anulação de qualquer sentido crítico ou da possibilidade de liberdade de pensamento, assim padronizando crenças e comportamentos e sujeitando os indivíduos aos ditames do ditador omnipresente, o Big Brother. Bem mais real foi a tristemente famosa mentira dos EUA e seus aliados sobre a existência de armas de destruição maciça no Iraque de Saddam Hussein, para justificar a invasão deste país em 2003 (e não a necessidade americana de manutenção da produção de petróleo iraquiano a baixo preço), criando uma enorme convulsão no Médio Oriente, com consequências que ainda hoje se fazem sentir. São inúmeras as situações em que tal sucedeu.

Mas quando a mentira é sistemática e se erige a política de Estado, entramos no mundo da “pós-verdade”. E aqui, os consulados Trump têm sido das mais impressionantes manifestações deste fenómeno. Todos nos lembramos das declarações do assessor de imprensa da Casa Branca, Sean Spicer, alegando que a multidão na tomada de posse do primeiro governo de Trump, em 2017, “era a maior já vista”, apesar de todas as evidências documentais e testemunhais em contrário. E do que disse Kellyanne Conway, assessora sénior do presidente, no programa Meet the Press da NBC, quando o seu apresentador, Chuck Todd a confrontou com a falsidade dessas declarações: “O nosso assessor de imprensa, Sean Spicer, apresentou factos alternativos para essa questão.” Não fez mais, aliás, do que seguir a mesma linha de efabulação do seu chefe. A propósito dos atentados do 11 de setembro de 2001, Donald Trump, então apenas candidato presidencial republicano, afirmou num comício no Alabama, em 2015: “Eu assisti ao desmoronamento do World Trade Center. E assisti em Jersey City, na Nova Jérsia, a milhares e milhares de pessoas a aplaudir quando o edifício estava a cair. Milhares de pessoas estavam a aplaudir”, insistiu. Apesar de prontamente desmentido pelas autoridades locais e policiais, repetiu o dislate, dias depois, numa entrevista no programa This Week da ABC: “Aconteceu de facto. Eu vi-o […]. Estava a dar na televisão. Eu vi-o. Havia pessoas que estavam a aplaudir do outro lado de Nova Jérsia, onde há grandes populações árabes. Estavam a aplaudir quando o World Trade Center caiu” (cf. Stuart Jeffries, Tudo, a Toda a Hora, em Todo o Lado – como nos tornámos pós-modernos, Lisboa, Zigurate, 2024, pp. 325-326). E os exemplos podiam-se multiplicar exponencialmente.

Um dos últimos casos, teve a ver com o despedimento de Erika McEntarfer, a diretora do gabinete americano de estatísticas, o Bureau of Labour Statistics, em consequência da queda dos números do emprego. Donald Trump acusou este organismo de manipulação, mas, como é habitual, sem apresentar qualquer prova disso. Na sua rede social Truth Social, Trump alega, pelo contrário, que a economia está a “florescer”. Como disse, a este propósito, o cartoonista Luís Afonso, no seu conhecido Bartoon, “Que decisão mais idiota/Publicar dados do emprego sem que eles estejam a subir…” (Público, 3/8/2025). Pois…!

Do domínio do anedotário, passamos para algo bem mais sério e dramático. No final de julho, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, chocou o mundo quando afirmou que “Não há fome em Gaza.” No que alegou ser a “batalha pela verdade”, declarou, numa conferência em Jerusalém, que “Israel é apresentado como se estivesse aplicando uma campanha de fome em Gaza. Que mentira ousada! Não há política de fome em Gaza. E não há fome em Gaza.” As reações foram imediatas: "Os fatos estão aí, e são inegáveis", afirmou o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres. E acrescentou: "Os palestinos em Gaza estão enfrentando uma catástrofe humanitária de proporções épicas. Isso não é um aviso. É uma realidade que se desenrola diante dos nossos olhos." Gaza enfrenta “pior cenário possível de fome”, diz órgão de segurança alimentar ligado à ONU, calculando que uma em cada cinco crianças está em situação de desnutrição na Cidade de Gaza. Para além dos cerca de 60 mil mortos resultantes dos ataques israelitas, a Organização Mundial de Saúde calcula que, desde maio, não só centenas de pessoas – sobretudo crianças – já morreram de fome, como foram abatidos mais de mil palestinianos a tentarem ter acesso a alimentos. Até Donald Trump, desmente o seu comparsa: "Isso é fome de verdade. Eu vejo isso e não dá para fingir.” Como é possível dizer-se que algo que é real e amplamente comprovado, não existe. Pode-se disfarçar, mas não há como desmentir. E se, nos primeiros exemplos, estamos apenas perante o espetáculo do grotesco, neste último, estamos a falar de atos criminosos. No primeiro caso, apenas o ego de Trump sai magoado; são os desabafos de um imbecil egocêntrico e mentiroso patológico. Nesta última situação, promove-se o genocídio do povo palestiniano: é um carrasco que fala.

Como refere a economista Susana Peralta, “A sinistra Gaza Humanitarian Foundation, montada e gerida pelo exército israelita, não distribui alimentos nas zonas de maior concentração de civis e o que distribui não está pronto para ser consumido – um requinte de malvadez, numa terra sem água nem combustível para cozinhar.” E cita Rhoda Howard-Hassmann, uma académica judia canadiana, especialista em Direitos Humanos que, numa carta enviada ao embaixador de Israel no Canadá, declara sem contemplações: “O primeiro-ministro Netanyahu negou que exista fome em Gaza. Isto é uma mentira descarada. Israel está a praticar o que a falecida académica (judaica) Helen Fein chamou de genocídio por exaustão. Um exemplo de genocídio por exaustão é o Holocausto. Os judeus que não foram assassinados de imediato, foram mortos à fome, tanto nos campos como nos guetos.” (Público, 1/8/2025).

De igual forma, duas organizações não governamentais israelitas acusaram o governo de Israel de genocídio: B’Tselem e os Médicos Pelos Direitos Humanos de Israel. Segundo as declarações de Daphna Shochat, diretora executiva da B’Tselem, “Nada te prepara para te dares conta de que fazes parte de uma sociedade que comete genocídio. Este é um momento profundamente doloroso para nós”, mas “É crucial dar nomes às coisas neste momento.” (Público, 1/8/2025). Também um dos mais conhecidos escritores israelitas, David Grossman, acusou as autoridades israelitas de estarem a provocar um genocídio em Gaza. Numa entrevista ao jornal italiano La Repubblica, afirma, “Durante muitos anos, recusei-me a usar o termo genocídio, […] mas agora não consigo evitar, não depois do que li nos jornais, não depois das imagens que vi, não depois de falar com pessoas que lá estiveram, não posso evitar usá-lo”, ainda que o faça, confessa, “com uma dor imensa e de coração partido”. Mas este pai, que perdeu um filho morto em combate no Líbano, em 2006, vai mais longe: “Pergunto-me: como chegámos aqui? Como é que chegámos a ser acusados de genocídio? Basta pronunciar essa palavra – genocídio – em referência a Israel, ao povo judeu: só isso, o facto de que essa associação possa nem sequer ser feita, já deveria ser suficiente para nos dizer que está a acontecer connosco algo de muito errado.” (Público, 2/8/2025).

O governo de Netanyahu, envergonha os seus antepassados e escarnece do Holocausto. Que pena merece?


Hugo Fernandez

 

A RESSALVA

albardeiro, 16.07.25

Aquele que é considerado um dos pais do liberalismo, John Locke, consagrou impressivamente o direito de posse privada, entendido como a legítíma apropriação do produto do trabalho de cada um. Para o filósofo inglês setecentista, tratava-se de uma “lei da razão” que, ao tirar-se os bens do estado de natureza no seio da qual eram comuns, isso os tornava, pela incorporação do trabalho na sua apropriação, em bens particulares. Mas no mesmo passo em que produz esta asserção, faz a seguinte advertência: “at least where there is enough and as good left in common for others.” (John Locke, The Second Treatise of Government, New York, Dover Publications, 2002 [1689], Capítulo V “Of Property”, §27, pp. 12-13). Foi o que ficou conhecido como a “ressalva de Locke”. Este pressuposto de deixar aos outros “o suficiente e tão bom” quanto aquilo que foi apropriado, baseava-se num preceito de sensatez no usufruto dos bens que Deus tinha atribuído para sustentação da humanidade. Tal preceito pressupunha um limite razoável à acumulação privada, prevenindo o desperdício. Como afirma Locke, “As much as any one can make use of any advantage of life before it spoils, so much he may by his labour fix a property in; whatever is beyond this is more than his share, and belongs to others.”, para concluir, “Nothing was made by God for man to spoil or destroy.” (ibid., §31, pp. 14-15).

Claro que a acumulação de dinheiro – bem obviamente não perecível – estava fora desta equação. Tal como a possibilidade de compra e venda dos bens apropriados. E, além do mais, falamos numa época de abundância de recursos e de vastas zonas do planeta por explorar, como era o caso de grande parte do continente americano. Mas se este preceito de razoabilidade fazia então sentido, muito mais fará nos nossos dias, em que nos vemos a braços com uma crescente escassez de recursos devido à sobre-exploração do planeta e da esmagadora maioria dos seus habitantes. Num momento em que 44% da população mundial sobrevive com pouco mais de 6 dólares por dia (no melhor dos rácios da penúria), o 1% dos mais ricos do mundo aumentaram em quase 29 biliões de euros a sua riqueza desde 2015, valor mais do que suficiente para erradicar a pobreza do planeta. A riqueza dos 3 mil mais ricos equivale a perto de 15% do PIB mundial. No top 5 da revista Forbes (atualizado em tempo real), Elon Musk continua a ocupar, destacado, o 1º lugar, com uma fortuna de 336,1 mil milhões de euros, seguido de Larry Ellison (224,6), Mark Zuckerberg (215,7), Jeff Bezos (198,6) e Warren Buffett (129,4) (cf. Visão, 3/7/2025).

Exemplo paradigmático deste desvario foi o casamento do bilionário norte-americano Jeff Bezos com a ex-jornalista Lauren Sánchez, celebrado no último fim de semana de junho, em Veneza. Os 20 a 25 milhões de euros que custaram os três dias de extravaganza, incluíram o alojamento dos 250 convidados do casal nos hotéis mais luxuosos da cidade, bem como a festa de espuma que Bezos deu no seu mega-iate Koru, (avaliado em 500 milhões de euros). Perante tais excessos, não admira a forte reação que provocou, como o protesto do movimento ambientalista Greenpeace e do movimento Everyone Hates Elon, em plena Piazza San Marco, com a exibição de uma enorme faixa onde se podia ler, “Se pode alugar Veneza para o seu casamento, pode pagar mais impostos”. Mera demagogia? Não. Este movimento tocou no ponto fundamental: “Jeff Bezos paga salários de miséria aos seus funcionários e foge aos impostos. Não admira que possa dar-se ao luxo de fechar metade de Veneza para o seu casamento esta semana. Tributem os bilionários AGORA.” É nessa medida, como justamente refere a jornalista Rosa Ruela, que “Mais do que uma excentricidade, o casamento do fundador da Amazon deve fazer-nos pensar.” (Visão, 3/7/2025).

Até porque, num inquérito levado a cabo pela Greenpeace e pela Oxfam International em 13 países, 86% dos inquiridos querem que os respetivos governos ponham cobro às engenharias fiscais que beneficiam os super-ricos e as empresas multinacionais e que utilizem o aumento das receitas assim obtidas na melhoria dos serviços públicos. Como refere Amrita Ranjit, na 4ª Conferência Internacional sobre Financiamento para o Desenvolvimento, promovida pelas Nações Unidas, que decorreu no início de julho em Sevilha, “Tributar a riqueza extrema poderia ajudar a enfrentar a crise climática, para não falar de tirar nações da pobreza e financiar escolas e hospitais. Poderia deslocar o poder dos bilionários para as pessoas comuns. Trata-se de mudar o sistema injusto existente para que ninguém possa acumular tanta riqueza” (Visão, 3/7/2025). Os próprios multimilionários – pelo menos, alguns deles – parecem começar a estar conscientes desta enorme iniquidade. A Patriotic Milionaires UK revelou, num inquérito que realizado no início de junho junto dos mais ricos do Reino Unido, que 80% deles estavam dispostos a pagar um imposto de 2% nas fortunas superiores a 10 milhões de libras. Este inquérito também revelou que 71% dos milionários pensam que o governo deveria aumentar os impostos sobre os super-ricos para reduzir a carga fiscal sobre todas as outras pessoas; 76% apoiam impostos mais elevados sobre a sua própria riqueza se isso significar uma sociedade mais estável e igualitária para as gerações futuras e 81% pensam que é patriótico pagar a sua quota-parte. No caso português, segundo a Tax Justice Network, a taxação de cerca de 2% sobre os montantes calculados da evasão fiscal e das contas em paraísos fiscais significaria um encaixe anual de 3,6 mil milhões de euros (cf. Visão, 3/7/2025).

A “ressalva de Locke”, antes referida, põe sobretudo em foco o carácter relacional de qualquer apropriação de riqueza. No sistema capitalista traduz-se quer na produção, enquanto exploração, quer na distribuição, enquanto disparidade. E se a abundância de recursos tende a escamotear essa relação, a sua escassez traz para primeiro plano aquilo que na teoria dos jogos – e de forma simplificada – se costuma designar por “jogo de soma zero”, ou seja, a situação em que o ganho de um jogador significa necessariamente a perda do outro.

Advogando a supressão [Aufhebung] da propriedade privada, Karl Marx e Friedrich Engels enfatizavam precisamente esta relação, no seu Manifesto do Partido Comunista, de 1848: “Horrorizais-vos por querermos suprimir a propriedade privada. Mas na vossa sociedade existente, a propriedade privada está suprimida para nove décimos dos seus membros; ela existe precisamente pelo facto de não existir para nove décimos. Censurais-nos, portanto, por querermos suprimir uma propriedade que pressupõe como condição necessária que a imensa maioria da sociedade não possua propriedade.” (https://www.marxists.org/portugues/marx/1848/ManifestoDoPartidoComunista/). 

Uma tributação efetiva e resolutamente progressiva destas super fortunas seria, pelo menos, um primeiro passo na construção de uma sociedade mais justa.

 

Hugo Fernandez

Desfazer os dogmas!

albardeiro, 07.07.25

A Esquerda encontra‑se hoje num dilema de fundo: ergue bandeiras históricas, mas perdeu o sentido prático da política como arte de transformar vidas. Ao refugiar‑se numa retórica moralista, debates identitários, ambições ambientalistas, lutas setoriais, desligou‑se da inquietação central de quem luta por um ordenamento social que funcione de facto: o trabalhador precário que não consegue pagar a renda, o idoso que vê o seu poder de compra evaporar‑se, a família que recua diante de cuidados de saúde inacessíveis.

O Estado Social que, de arquiteto da cidadania, está no seu esvaziamento pragmático, já não é o pilar universal de emancipação; transformou‑se num sistema de apoios seletivos, gerido ao sabor da “tesoura” orçamental. Aquilo que devia ser garantido a todos, educação, saúde, pensões, foi metamorfoseado em socorros de emergência. A solidariedade deixou de ser promessa coletiva e converteu‑se num favor beliscado ao acaso. Para recuperar a confiança, urge resgatar o carácter universal do Estado Social: reforçar direitos em vez de gerir carências, devolver à proteção social a dimensão de instrumento de liberdade efetiva e não mero subsídio residual.

As palavras de esperança convertidas em slogans grandiloquentes já não mobilizam. O desalento instala‑se quando as promessas permanecem no papel. Por isso, a esquerda necessita de uma “teoria do desejo político”: propostas que façam as pessoas verem e sentirem o novo amanhã, transportes públicos sem falhas, rendas ajustadas aos rendimentos, acesso real e imediato a serviços básicos. Apenas assim o cidadão reencontrará motivo para acreditar.

Sem receios e sem rodeios, o mercado exerce um apelo inexorável: é imediato, simples, satisfaz desejos tangíveis. Assim sendo, a opção entre “mercado bom” e “Estado mau” é um falso dilema. Se a esquerda quer afastar fantasmas, a verdadeira ousadia política consiste em “domar” o mercado, estabelecer regras que façam da iniciativa privada aliada do bem‑estar comum. Por que não combinar flexibilidade laboral com garantias salariais e formação contínua? Ou transformar o consumo em ato de cidadania, através de cooperativas (desde a agricultura e produção de alimentos até serviços financeiros e energéticos) e moedas locais… sim, moedas locais (sistemas de troca que complementam a moeda nacional – podem físicas ou digitais) que fortaleçam a economia de proximidade. Esse caminho converte o cidadão‑consumidor em sujeito político, capaz de escolher não só o que compra, mas de moldar o meio em que vive.

Necessitamos de reencontrar a liberdade e a justiça social. Enquanto a direita monopoliza o termo “liberdade” num exercício retórico de reducionismo, menos impostos, menos Estado, a esquerda recua para trincheiras de correção discursiva. É urgente uma libertação alargada: a liberdade de viver sem medo da exclusão económica; de ter acesso a habitação digna; de dispor de tempo para criar e cuidar; de participar, de facto, nas decisões que afetam a comunidade. A bandeira da liberdade não pode ser mera abstração: deve traduzir‑se em mecanismos concretos que garantam autonomia e segurança simultaneamente.

Necessitamos de uma ecologia da atenção: reconectar com quem importa. O maior erro estratégico foi deslocar o interesse para círculos académicos, think‑tanks e redes fechadas, ignorando a periferia urbana e rural onde ardem as micro‑tragédias do dia a dia. Enquanto o populismo ensaia o espetáculo do escândalo permanente, a verdadeira mobilização exige escuta ativa: reuniões de rua, consultas participativas, diagnósticos partilhados. Só assim se constrói uma narrativa de pertença e de afeto político, capaz de vencer o medo com generosidade e projetar um futuro coletivo. Não basta reclamar justiça; é preciso demonstrar como alcançá‑la. A esquerda deve abandonar a simplificação de linhas de rutura — “nós contra eles” — e articular múltiplas frentes: justiça fiscal progressiva, transição ecológica com equidade social, investimento em investigação e cultura popular, reforço dos serviços públicos de proximidade. Tal programa exige coragem para negociar sem trair princípios, para sustentar ruturas necessárias sem se petrificar no dogma.

A encruzilhada em que a esquerda se encontra não é inevitável. Trata‑se de uma oportunidade de refundação: colocar no centro a vida quotidiana, retomar o Estado Social como matriz de liberdade real, compreender o mercado como aliado e transformar o desejo em política tangível. Se regressar ao terreno, ouvir com empatia e transformar a esperança em conquistas visíveis, reencontrará o seu lugar como motor de progresso e justiça. Caso contrário, verá o seu legado dissolver‑se no cinzento do conformismo e da inoperância.

 

Albardeiro