Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Domingo, 2 de Janeiro de 2022
72 QUILÓMETROS

No Afeganistão, 45 milhas (cerca de 72 quilómetros) marca, a partir de agora, uma nova fronteira da indignidade. Desde o passado dia 26 de dezembro, os taliban anunciaram que as mulheres têm de ser acompanhadas por um parente do sexo masculino para realizarem viagens de longa distância, recomendando aos motoristas dos transportes coletivos que apenas aceitem passageiras portadoras de véu islâmico. Tal absurdo, emanado de um autointitulado “Ministério para a Promoção da Virtude e da Prevenção do Vício” – designação sinistra para a atuação de um poder totalitário – vem demonstrar, mais uma vez, aquilo que era já uma certeza: a barbárie que se abateu sobre o Afeganistão com a chegada dos taliban ao poder, em agosto deste ano, “vai tornar as mulheres afegãs prisioneiras”, conforme denunciou Heather Barr, da organização não-governamental Human Rights Watch (Público, 27/12/2021).

Porque é de direitos humanos que se trata; nada mais. E tal como é inconcebível, nos nossos dias, que um ser humano seja propriedade de outro, como acontecia com a escravatura no mundo antigo, é igualmente intolerável que a metade feminina da população afegã seja considerada inferior, desprovida de direitos, de razão e de vontade, a ponto de ter que se sujeitar a uma tutela masculina, tão aviltante para as mulheres como vergonhosa para os próprios homens. Infelizmente não é caso único. Mas não pode deixar de ser considerada uma aberração e de merecer a mais firme condenação da Humanidade.

Uma das principais conquistas da modernidade é a perceção da evolução das sociedades e a noção clara de que não se pode parar o tempo histórico. Não é possível reviver o século VII em pleno século XXI. Claro que, filosoficamente, os direitos humanos são contingentes à própria historicidade, mas a força da sua facticidade decorre da aprovação universal dos seus postulados e do reconhecimento formal da Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU (1948), por países de todas as proveniências e tradições culturais, incluindo o Afeganistão. Nas palavras do filósofo germânico Jürgen Habermas, “los derechos humanos provienen menos del transfondo cultural particular de la civilización occidental que del intento de responder a desafios específicos planteados por una modernidade social que ha acabado por abarcar todo el globo” (cit. in Perry Anderson, Spectrum, Madrid, Akal, 2008, p. 168).

Aliás, como bem lembra Rui Tavares a propósito da génese deste documento (Público, 27/8/21), foram as delegadas indiana, Hansa Mehta, e brasileira, Bertha Lutz, que propuseram, logo nas primeiras sessões da Comissão da ONU encarregue da sua elaboração, a denominação mais inclusiva de “Direitos Humanos”, em vez de “Direitos do Homem” (como anteriores documentos históricos europeus consignavam). Foram também os representantes filipino, Carlos Romulo, o chinês PC Chang e o libanês Charles Malik, que mais defenderam o caráter universal dos seus postulados. Nenhum deles era ocidental.

Há um velho provérbio afegão que diz: “Vocês têm relógios, mas nós temos tempo”. Mas, como justamente lembrou o nosso compatriota Padre António Vieira já nos idos de seiscentos, “Não há poder maior no mundo que o do tempo: tudo sujeita, tudo muda, tudo acaba”. Que realidade é esta que irrompeu no Afeganistão? Certamente não falamos de espiritualidade devota, mas da ditadura de uma súcia de tiranos que a coberto da legitimação religiosa asseguram uma autoridade discricionária e absoluta. A isso costuma chamar-se fascismo!

Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 21:47
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Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2021
TEATRO DO ABSURDO

Há dias em que nos deparamos com uma sequência de afirmações públicas que são expressão do mais puro disparate. É o caso de Maria Helena Costa, porta-voz do movimento “Deixem as crianças em paz” (o que quer que este movimento seja!). Conforme revelou Joana Marques no seu programa radiofónico Extremamente desagradável, da Rádio Renascença (do qual o artigo de Bárbara Reis, no Público de 13/11/2021 faz eco), tal personagem publicou um vídeo nas redes sociais em que declarava, “Um pai entrou em contacto comigo e disse-me que, em Viana do Castelo, há escolas a passarem filmes pornográficos, pelo menos uma vez por semana, para alunos de 11 e 12 anos!”, ou “O meu filho adorava-me, muito mesmo. Até o socialismo dominar a mente dele”. Mas há mais pérolas desta fervorosa crítica da disciplina curricular de Cidadania e Desenvolvimento: “[As ideias da identidade de género são] puramente ideológicas e servem os interesses de associações radicalizadas, altamente financiadas por grupos que querem baixar rapidamente a população mundial.” Para esta ex-chefe de distribuição no Grupo Jerónimo Martins, que se define como “cristã, esposa e mãe – a ordem é mesmo essa” (como faz questão de sublinhar), “O problema é quando nós vivemos numa sociedade em que os meios de comunicação social são claramente marxistas, claramente reféns do Estado”, rematando com o seguinte delírio: “Vem meia dúzia de iluminados para a televisão dizer que aquilo que estamos a dizer é mentira e as pessoas, simplesmente – como eles aparecem na televisão, como alguns são ministros – acreditam mais depressa neles do que em quem estuda, quem pesquisa e quem está a lutar contra este flagelo [itálicos meus]. Faz lembrar a Alemanha: quando os alemães deram conta, já milhões de judeus tinham morrido nas câmaras de gás.” Hã?!

Também temos exemplos de sinal contrário, isto é, do domínio do “politicamente correto”. Na recente produção de “Romeu e Julieta”, levada à cena pela Shakespeare’s Globe Theatre, em Londres, procurou-se não ferir a sensibilidade dos espetadores, ao distribuir um folheto com avisos do seguinte teor: “No final, quando Romeu bebe veneno, e o ator vomita e entra em convulsões, isso não é real – e não, o ator não está doente.”, ou “Há uma luta no palco. A violência, no entanto, não é real e não deve ser imitada. Há sangue no palco – mas não é real.” (Ler, verão/outono de 2021). Os responsáveis do teatro, com a preocupação de protegerem os espetadores mais impressionáveis – e como “ativistas da saúde mental”, conforme declaram – disponibilizam mesmo uma consulta num hospital para quem, ainda assim, ficar chocado com a morte de Julieta! Não sei o que é pior; se a infantilização dos espetadores, se o despropósito da inquietação, se a insensatez da proposta.

Há, de facto, dias em que parece estarmos a viver uma qualquer peça do chamado “teatro do absurdo”, designação dada em 1961 pelo crítico húngaro Martin Esslin à dramaturgia dos aspetos inusitados da nossa existência, do “sentido do sem sentido da condição humana”, aqui versado no abandono do mais ténue resquício de bom senso e na dissolução dos mais elementares princípios da racionalidade, pela indução da ignorância extrema e do fanatismo mais descabelado. Neste contexto, do simples absurdo, facilmente podemos resvalar para o domínio da iniquidade e para a afirmação verdadeiramente indecorosa. Entrevistado a propósito do seu mais recente livro, O Jardim dos Animais com Alma, e depois de uma série de patetices sobre a capacidade pensante dos animais, o jornalista José Rodrigues dos Santos sai-se com esta declaração espantosa: “Se descobrimos que as galinhas têm inteligência e emoções, matamo-las? Então nós, que nos indignamos com o que se passou em Auschwitz e nos Gulags, temos isso à porta de casa?!” (TVGuia, 11/11/2021). Sem comentários! (apesar de apetecer lembrar a José Rodrigo dos Santos que – helás – Adolf Hitler era vegetariano).

Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 16:05
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Segunda-feira, 1 de Novembro de 2021
ATITUDES

Poucas coisas são mais irritantes no nosso quotidiano do que alguém que dá o golpe numa fila ou que ostensivamente nos passa à frente sem razão para tal. “Quem é que pensas que és?” é, normalmente (e numa versão civilizada!) a interpelação ouvida. De igual modo, constitui um dado empírico incontestado que é de muito mau gosto alguém perguntar sobranceiramente a outro “e tu, quem és?”, sobretudo se esse alguém ocupa uma posição social mais vantajosa do que aquele a quem se dirige. Marcar as diferenças é considerado, de uma maneira geral, uma atitude socialmente ofensiva e, por isso, amplamente, reprovada. Há razões históricas que explicam tal atitude. Quando, há cerca de duzentos anos, as revoluções liberais puseram fim ao Antigo Regime e se basearam na igual consideração social dos cidadãos e na igualdade de direitos e deveres cívicos, plasmada no reconhecimento normativo de que “a lei é igual para todos” (conforme consta, por exemplo, no art.º 9º da Constituição Política da Monarquia Portuguesa de 1822, a nossa primeira constituição e texto fundador da ordem liberal em terras lusas), instaurava-se uma matriz de poder e de organização da sociedade radicalmente distinta da de antanho.

Ora, esta atitude, que de tão enraizada já entrou, nos dias que correm, no domínio do senso comum, ainda se confronta com resistência atávicas que persistem em nos surpreender. Ficou famosa, no início de setembro, a cena de pesporrência e insuportável abuso de autoridade por parte do ex-juiz Rui Fonseca e Castro (justamente expulso da magistratura uns dias mais tarde), perante uma força policial destacada para controlar a multidão truculenta dos seus apoiantes, desafiadores da ordem pública, à entrada para a audiência no Conselho Superior da Magistratura para ajuizar da sua conduta no exercício das funções forenses. O diálogo então entabulado tem tanto de escandaloso como de simbólico. Dirigindo-se ao comandante da referida força, invetivava o juiz, “Ponha-se no seu lugar; eu sou a autoridade judiciária aqui”, ao que o oficial da polícia respondeu, com o poder que a lei lhe conferia e com uma calma verdadeiramente seráfica, “E o senhor ponha-se no seu lugar”, ao que o juiz retorquiu, irado, “O meu lugar é este: acima de si, acima de si! [sic] a perceber? O senhor abaixo de mim, portanto o senhor não vai tocar em ninguém.”

Para além do delicioso – e elucidativo! – pormenor do com que se dirigiu ao comandante policial, Fonseca e Castro parece ainda não ter percebido que as hierarquias funcionais não podem justificar desconsiderações de tratamento, nem diferenciação de estatutos cívicos – o invocar estar acima ou abaixo de alguém, ainda para mais no desempenho legítimo de uma ação pública, é coisa que, felizmente, não é admissível. Neste caso, nem hierarquia funcional havia, já que a força policial presente estava destacada no exercício de funções oficiais e ao abrigo das determinações do Estado de direito no respeito pela lei e manutenção da ordem pública (decorrentes, precisamente, da defesa da liberdade de manifestação, por exemplo, na necessária solicitação da licença para o efeito, que não existiu), circunstâncias que qualquer juiz a sério imediatamente sancionaria.

Não resisto a contar duas outras situações relacionadas com a assimilação dos princípios básicos de cidadania. Uma pertence ao anedotário da Revolução Francesa. A outra é verdadeira e passou-se nos anos 80 do século passado, nos EUA. Ainda hoje, em França, se contam as desventuras do Marquês de Saint-Cyr durante a Revolução Francesa. Sendo interpelado na rua por uma patrulha de revolucionários que lhe pedem a identificação, este responde “Marquês de Saint-Cyr”, ao que os guardas contestam “Já não há marqueses!”. O primeiro emenda, então, o seu nome para “Saint-Cyr”, ao que os revolucionários respondem “Já não há santos!” Por fim, o interpelado diz “Cyr”, ao que o grupo de interpelantes, confundindo o nome com a designação inglesa da aristocracia, afirmam “Já não há sire’s”. Desconcertado, o marquês responde então. “Deixem-me V. Senhorias seguir, já que ninguém sou.” (cf. Paulo Ferreira da Cunha, Constituição, Direito e Utopia, Coimbra, Coimbra Editores, 1996, p. 401).

Conta-nos Miguel Esteves Cardoso, a partir do relato do próprio Al Gore, que, em 1987, os senadores Al Gore e Bill Bradley estavam num banquete onde este último ia fazer o discurso de honra. “Vendo que um empregado estava a distribuir doses de manteiga, Bradley pediu-lhe mais uma. O empregado respondeu: «Desculpe, mas é uma dose de manteiga por pessoa.» «Mas eu preferia ter duas, se não se importa», disse Bradley. O empregado, taxativo, insistiu: «Lamento, mas é só uma dose por pessoa.» Aí, Bradley mudou de estratégia: «Se calhar, não está a ver quem eu sou: sou Bill Bradley, fui jogador profissional de basquete, fui campeão mundial e agora sou senador do estado de New Jersey.» O empregado: «Se calhar, o senhor também não sabe quem eu sou.» Bradley mostrou-se interessado: «Pois não, não estou a ver – quem é o senhor?» E o empregado respondeu, «Sou o gajo que manda na manteiga».” (Público, 9/10/2021).

Apetece dizer como o humorista brasileiro Millôr Fernandes: “Se todos os homens recebessem exatamente o que merecem, ia sobrar muito dinheiro no mundo”!


Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 22:40
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Segunda-feira, 4 de Outubro de 2021
O TEMPO

Em meados de agosto, o mundo ficou atónito com a tomada de poder pelos taliban no Afeganistão. Não que não fosse, desde há algum tempo, expectável a queda de Cabul às mãos destes “estudantes islâmicos” oriundos do sul e leste do Afeganistão e formados nas madrassas paquistanesas. O que surpreendeu foi sobretudo o icónico simbolismo de que se revestiu. Perante as imagens dos novos dirigentes no palácio presidencial da capital afegã, dir-se-ia termos recuado vários séculos. É certo que este simbolismo tem, por desgraça, a sua tradução num tipo de pensamento e de ação de caráter marcadamente medieval. Mas os veículos blindados, as armas automáticas, os óculos escuros, relógios e telemóveis de última geração, alimentados pelo tráfico de droga (em especial o cultivo de papoila para a produção de heroína) e pelas grandes redes de contrabando internacional, desmentem de imediato – se tal fosse necessário – esse devaneio. O devir histórico é inexorável e, apesar de fluxos e refluxos (os corsi e ricorsi de que falava Giambattista Vico) por vezes surpreendentes, e da possibilidade da existência, em cada momento, de universos paralelos, há limites para o anacronismo. Quando emergem marcas do passado, não é aquele que renasce, mas sim o choque da sua inserção no presente. E os vários irracionalismos e negacionismos com que nos confrontamos aí estão para comprovar o “fundo arcaico que sobrevive como uma energia sempre pronta a reativar-se.” de que fala o filósofo António Guerreiro (Ípsilon, Público, 20/8/21).

A base da inteligibilidade de todas as realizações humanas reside na sua dimensão histórica. As sociedades existem num espaço e tempo determinados, historicidade estrutural da existência humana a que se referia o filósofo espanhol José Ortega y Gasset na conhecida expressão “Eu sou eu e minha circunstância”. Por isso, o desfasamento temporal promovido pelos taliban só pode conduzir a verdadeiras aberrações. É possível viver na modernidade rejeitando as marcas dessa mesma modernidade? Da mesma forma que seria impensável recuperar para os dias de hoje os tempos do profeta Maomé – os taliban certamente não o fazem (a vida em tendas, deambulando no deserto, e as batalhas com espadas e cavalos são coisas que já não voltam) – é igualmente incompreensível a pretensão de restaurar preceitos e regras medievais na contemporaneidade. Como diz o filósofo italiano Giorgio Agamben, “Un uomo inteligente può odiare il suo tempo, ma sa in ogni caso di appartenergli irrevocabilmente, sa di non poter sfuggire al suo tempo.” (Giorgio Agamben, Che cos’è il contemporaneo?, Milano, Nottetempo, 2019, p. 9). Faz algum sentido, nos dias de hoje, invocar princípios tão arcaicos – e, por isso, necessariamente desfasados da realidade e inaplicáveis – como, “O chefe da mulher é o homem (…). Se a mulher não usar o véu, que lhe seja rapado o cabelo (…). O homem, ele, não deve esconder a cara: ele é a imagem da glória de Deus; mas, a mulher é a glória do homem. (…) E o homem não foi criado para a mulher, a mulher é que foi criada para o homem. Eis a razão por que a mulher deve usar sobre a cara a marca da sua dependência”? Esta injunção à submissão feminina não consta do Corão (embora aí pudesse estar!); foi enunciada pelo apóstolo Paulo na sua primeira epístola aos Coríntios. Ou, como declarou o mesmo Paulo de Tarso na epístola aos Efésios, escrita por volta do ano 65, “Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da Igreja (…). De sorte que, assim como a Igreja está sujeita a Cristo, também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos.”? É suficientemente absurdo para ser pensado, quanto mais aplicado!

Agora que se anunciam no Afeganistão o regresso das execuções, amputações, açoitamentos e apedrejamentos públicos como penas judiciais legítimas, bem como a criação do Ministério da Promoção da Virtude e Prevenção do Vício, a situação das mulheres é particularmente chocante. Tal como aconteceu entre 1996 e 2001, no anterior período de domínio taliban, as mulheres são proibidas de trabalhar, de sair de casa sem serem acompanhados por um familiar masculino adulto, obrigadas a usar burqa que cobre por completo o seu corpo (arriscam-se a ser chicoteadas se mostrarem os tornozelos) e proibidas de usar calçado com salto para não se ouvirem os seus passos; não têm acesso à assistência médica hospitalar (que, em todo o caso, só poderá ser prestada em privado por outras mulheres) e o seu testemunho em tribunal vale metade do dos homens; são proibidas de frequentar a escola depois dos 10 anos e obrigadas a casar a partir dos 15 anos (muitas vezes com os homens que as violaram) – há números que indicam que, em 2017, metade das mulheres afegãs dos 15 aos 49 anos foi vítima de violência por parceiro íntimo. A metade feminina da população afegã é proibida, sequer, de manifestar vontade ou de rir! São difíceis de imaginar violações mais grosseiras dos direitos humanos. Relembrando a célebre formulação de Hannah Arendt, as mulheres afegãs perderam, pura e simplesmente, o “direito a ter direitos”. Mas os taliban interditam também praticamente todas as manifestações culturais existentes: televisão, rádio, música (com exceção da religiosa), cinema, desporto. Proíbem, inclusive, o lançamento de papagaios de papel! Que gente é esta?!

Tamanha insanidade só é possível pela conjugação de interesses geoestratégicos que vão muito além da realidade afegã, das “verdades” corânicas ou das virtudes persuasivas da “lei da bala”. Todas estas tendências extremistas tiveram a complacência ou mesmo o apoio ativo das grandes potências ocidentais – com os EUA e Grã-Bretanha à cabeça – e dos seus protegidos Arábia Saudita e Paquistão (verdadeiras incubadoras das trevas do passado), ao serviço de uma lógica de Guerra Fria e de confronto com o bloco de Leste. Lembremo-nos que, nos anos oitenta do século XX, os mujahidin afegãos foram largamente financiados e armados pelo Ocidente e apelidados de freedom fighters, lutando contra a ocupação soviética do país. Os taliban são os seus descendentes diretos, numa dinastia de terror que engloba a Al-Qaeda, o Daesh, ou o Hamas, apesar de rivalidades intestinas que têm mais a ver com questões de poder do que com divergências doutrinárias.

As potências ocidentais sempre rejeitaram os movimentos mais progressistas e secularizantes destes países, quer fosse o movimento Baath na Síria e no Iraque, a FLN de Houari Boumediene na Argélia, o Egito de Gamal Abdel Nasser, o Irão de Mohammed Mossadegh, as experiências inovadoras da Líbia, do Iemen do Sul ou da Tunísia, e do próprio Afeganistão de Mohammad Najibullah entre 1989 e 1991, alinhando sistematicamente com aqueles que difundiam o wahabismo sunita (tendência islâmica ultraortodoxa oriunda do atual território saudita) e promovendo a sua implantação no mundo muçulmano. Até os curdos (muçulmanos moderados) foram abandonados pelos EUA de Trump no combate ao ISIS na guerra civil da Síria. Foi com o alto patrocínio do Ocidente que inúmeros regimes iníquos alastraram pela região, alimentados por uma espiral de corrupção, de subdesenvolvimento e de pobreza endémica. À falta de alternativas políticas credíveis e de soluções para os enormes problemas económicos enfrentados, o Islão emergiu como o elemento identificador exclusivo – e excludente – para muitas destas populações. Como refere o académico irlandês em Relações Internacionais, Fred Halliday, “As one Algerian oficial commented during the 1991 crisis, the way in which Europe could best help overcome the Front Islamique du Salut (FIS) would be to provide guidelines on how to employ millions of young people.” (Fred Halliday, Islam and the myth of confrontation, London, I. B. Tauris, 1996, p. 129). E este especialista no Médio Oriente conclui: “Economic exclusion and political rejection will fuel fundamentalistic antagonism.” (ibid., p. 130). Aqui com em qualquer outra parte do mundo.

A nation-building americana no Afeganistão – “apoiar o país na construção de uma nação livre e democrática” – só trouxe corrupção e compadrio em benefício de uns poucos e a absoluta miséria para a maior parte da população; em 2017, 54% dos habitantes, em especial nas zonas rurais, vivia abaixo do limiar da pobreza, segundo dados oficiais do Governo afegão. Paralelamente, em 2020, o Afeganistão foi responsável por 85% da produção mundial de ópio, cultura que ocupava mais de 330 mil hectares, com um valor estimado de 5 mil milhões de euros, correspondente a cerca de 30% do PIB do país (Público, 20/8/2021). A fraqueza do Estado central perante os poderes locais de cariz essencialmente étnico e tribal, e o falhanço na implementação de políticas de desenvolvimento e de promoção de direitos que minorassem as enormes carências das populações, só podiam resultar no drama a que assistimos. O espezinhar da metade feminina da sociedade afegã aí está para o demonstrar em toda a sua crueza. Mesmo o atual presidente norte-americano, Joe Biden, num momento de franqueza desconcertante, afirmou, em tempos, “Não vou mandar o meu filho para lá arriscar a vida em nome dos direitos das mulheres!”, segundo consta do livro Our Man, biografia de Richard Holbrooke, enviado especial do presidente Barack Obama para o Afeganistão e Paquistão. Como comenta o jornalista António Rodrigues, “Pelos direitos das mulheres não se mata nem se morre.” (Público, 20/8/2021).

Estaremos a ponto de refutar a asserção de José Ortega y Gasset, segundo o qual existe sempre uma “compacta solidariedad consigo misma que cada época histórica mantiene en todas sus manifestaciones” (José Ortega y Gasset, La deshumanización del Arte y otros ensayos de Estética, Madrid, Espasa-Calpe, 1992, p. 48)? Não me parece. Desenganem-se, por isso, aqueles que creem que o regresso ao passado constitui a via do futuro. Inexorável, o próprio devir histórico tratará de desfazer tais ilusões.



Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 19:36
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Domingo, 8 de Agosto de 2021
DE CIMA

Desta vez foi Jeff Bezos, sucedendo a Richard Branson, a lançar-se no espaço pelo simples luxo de o poder fazer, num absoluto desperdício de centenas de milhões de dólares para estar uns escassos 10 minutos a observar a Terra de cima. A futilidade dos propósitos e a insignificância do resultado alcançado escondem a importância simbólica do ato. Não representando qualquer avanço científico, nem demonstrando qualquer utilidade social, mas servindo apenas para a satisfação de uma megalómana frivolidade privada, a recente viagem espacial de Bezos, tal com a anterior de Branson, demonstram, de forma cabal, o estatuto de que gozam os super-ricos no nosso mundo. É neste aspeto que estes acontecimentos adquirem um significado bem mais importante do que aparentam.

Por um lado, trata-se de afirmar a excecionalidade destas personagens face ao comum dos mortais, naquilo que o filósofo António Guerreiro qualifica como um “gesto de soberania sobre todos os poderes e contingências terrenas” (Ípsilon, Público, 23/7/21). Como refere, por sua vez, o jornalista Vítor Belanciano, estas viagens exibem “a fantasia capitalista levada ao extremo.”, isto é, “a transformação do espaço numa nova fronteira para uma classe de pessoas cujas fortunas cresceram tanto, que este tipo de expedições narcisistas parece agora representar um novo símbolo da sua opulência. Ter muitos carros, iates, casas, propriedades ou mulheres já era.”, concluindo, “O espaço e Marte são agora os novos símbolos distintivos desta elite.” (Público, 25/7/2021). Com efeito, é de distinção – do que é estruturalmente diferente – que se trata, se tivermos em conta o fenómeno da constituição das “classes de castas” de que fala o economista francês, Thomas Piketty, no seio do que designa por “capitalismo patrimonial”. Ter o que mais ninguém pode ter, fazer o que mais ninguém pode fazer, ser o que mais ninguém pode ser (com a exceção de mais uns poucos igualmente privilegiados).

Claro que, como justamente sublinha Vítor Belanciano acerca deste esbanjamento multimilionário, a questão “Não é como o gastam, mas como o ganham”. E aqui, é toda o funcionamento das sociedades atuais que temos que tomar em consideração. O brutal aumento das desigualdades a nível mundial e o deslaçar dos vínculos sociais engendrados pelo neoliberalismo globalizado, deram origem a uma “sociedade sociopata”, como a designa o sociólogo norte-americano Charles Derber. Sobressai, nestas circunstâncias, a necessidade acrescida de legitimação do statu quo e de justificação das clivagens existentes. Tal é feito através de dois expedientes doutrinários que convergem no mesmo propósito ideológico: a justeza da acumulação desmesurada de riqueza e a relevância da função dos seus detentores.

Ressurge a litania dos self-made man e do mito da responsabilidade própria e mérito individual pelo percurso de vida seguido, visão decorrente de um processo mental mistificador de abstratização do social e de supressão de qualquer referência relacional, ou seja, daquilo que constitui a própria natureza da sociedade. Há muito que Max Weber revelou o que verdadeiramente está em causa neste tipo de postura: “The fortunate [person] is seldom satisfied with the fact of being fortunate”, refere o sociólogo alemão, acrescentando, “Beyond this, he needs to know that he has a right to his good fortune. He wants to be convinced that he ‘deserves’ it, and above all, that he deserves it in comparison with others.”, para concluir, “He wishes to be allowed the belief that the less fortunate also merely experience [their] due.” [itálicos no original] (cit. in Michael Sandel, The Tyranny of Merit, New York, Farrar, Straus and Giroux, 2020, p. 42).

Acresce a necessidade de enaltecimento do papel social de tais magnatas. Nas palavras de Vítor Belanciano, “Os muito ricos precisam de uma razão pública para existir, daí que nos queiram fazer acreditar que o futuro está a ser desenhado pela sua ação, enquanto à nossa volta milhões permanecem sem vacinação, as questões ambientais se agravam e as desigualdades crescem imparavelmente.” Às possibilidades infinitas alardeadas por Richard Branson a propósito da sua corrida espacial, correspondem os constrangimentos efetivos das limitações terrenas decorrentes de uma sociedade sumamente desigualitária. Aqui, pelo contrário, qualquer pretensão de justiça social encontrará a oposição firme destes próceres, sendo liminarmente apodada de impossível e remetida para o domínio do irrealismo (própria, afinal, de gente com a “cabeça nas nuvens”!).

A conclusão disto tudo, como afirma António Guerreiro, é que Jeff Bezos, “Olhará a Terra sem se sentir culpado de a degradar.” E assim ficamos.



Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 11:35
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Sábado, 3 de Julho de 2021
COISAS ASSIM

Em novembro de 2011, Dennis Gartman, investidor em divisas e obrigações, ofereceu-nos, na sua nota diária sobre investimentos, todo um programa ideológico na defesa arrebatada do chamado 1% (os muito ricos deste mundo): “Festejamos a disparidade de rendimentos e aplaudimos as margens crescentes entre os 20 por cento da sociedade americana que se situa mais em baixo e os 20 por cento mais em cima pois evidencia como a América se tornou um grande país. (…) Sentimo-nos mal pelo fosso crescente entre os ricos e os pobres nos EUA? Claro que não; festejamos isso, pois já fomos pobres outrora e somos razoavelmente ricos agora. Fizemo-lo sozinhos, pela simples força de vontade, tenacidade, visão estratégica e coisas assim [sublinhado meu].” (Chrystia Freeland, Plutocratas, Lisboa, Círculo de Leitores/Temas e Debates, 2014, p. 327, apud Neil Hume, “God Bless Income Disparity”, blogue Alphaville, Finantial Times, 17 de novembro de 2011). Dennis Gartman insurgia-se contra aqueles que contestam a colossal disparidade de riqueza existente, invocando a litania do self made man e as supostas benesses da concorrência capitalista e da busca desenfreada do lucro. “Desigualdade económica? Não gozem comigo. Deus abençoe a disparidade de rendimentos e aqueles que tiveram sucesso, e que a multidão do Occupy Wall Street tenha vergonha por nos querer taxar pelo nosso sucesso e nos querer arrastar para o seu próprio falhanço.” (ibid., pp. 327-328), acrescentou este financeiro norte-americano.

Para além de uma visão falsamente meritocrática, distorcida pela evidente desigualdade de oportunidades – quer de pontos de partida, quer de acesso – e de uma elucidativa ofuscação de circunstâncias pessoais e contextos vivenciais específicos, exemplarmente expresso na fórmula coisas assim a finalizar o rol de virtudes e disposições de caráter que se pretende enaltecer, o que mais surpreende nesta narrativa é a ausência de qualquer referência à dimensão relacional da ordenação da sociedade, isto é, a iniludível conexão – dada a limitação dos recursos existentes – entre a riqueza e a pobreza, o nexo necessário entre a acumulação de uns poucos e a penúria da maioria dos outros. Falácia que, em 1846, no terceiro capítulo da sua conhecida obra Viagens na Minha Terra, Almeida Garrett denunciou com uma lucidez desarmante, quando questionava quantos pobres eram necessários para fazer um rico: “E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico.” (Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra, Mem-Martins, Publicações Europa-América, 1976 [1846], p. 19).

Houve quem tivesse feito esses cálculos. A organização internacional de luta contra a pobreza Oxfam, no relatório que publicou em 2014, denominado “Working for the Few”, estimou que, à data, um super-rico custava a miséria de 41.176.000 pessoas. Três anos antes, o economista principal da divisão de investigação do Banco Mundial, Branko Milanovic, numa obra que fez furor, The Haves and the Have-Nots: a Brief and Idiosyncratic History of Global Inequality, estabeleceu aquilo que denominou “pirâmide global”, em que calculava a percentagem de pessoas necessárias para gerar os sucessivos 20 por cento do rendimento planetário, ordenando em 5 estratos a população mundial, dos mais pobres (o primeiro estrato) aos mais ricos (o último estrato), cálculo feito com uma margem de erro de 0,05%. Concluiu que a base da pirâmide era constituída por 77% dos indivíduos, seguidos de 12%, 5,6%, 3,6% (à medida que a folga financeira ia aumentando), para culminar nos 1,75% que eram constituídos pelas pessoas mais abastadas (Branko Milanovic, Ter ou Não Ter: uma Breve História da Desigualdade, Lisboa, Bertrand, 2012, p. 150).

De então para cá, não há razões para pensar que as realidades a que estes exemplos se reportam apresentaram qualquer decréscimo. Pelo contrário! Como refere o Jornal de Notícias (22/6/21), citando o comunicado divulgado à imprensa sobre o mais recente "Global Wealth Report" (relatório do banco Credit Suisse sobre o crescimento contínuo da riqueza global) referente a 2020, a pandemia acentuou as desigualdades. "Estimamos que os 50% mais pobres na distribuição global da riqueza representem, em conjunto, menos de 1% da riqueza global no final de 2020. Em contraste, o decil dos mais ricos (os 10% mais ricos) tem 82% da riqueza global e o percentil mais alto (1% mais rico) sozinho tem quase metade (45%) de todos os ativos", informou o banco suíço. No nosso país, o número de milionários ascendeu aos 136.430, mais 19.430 do que no relatório do ano anterior, quando a instituição financeira identificava 117 mil milionários no país. Os dados mostram que Portugal tinha, em 2020, 128.772 pessoas com uma fortuna avaliada entre um milhão e cinco milhões de dólares, 5505 entre cinco e dez milhões e 2056 entre 10 e 50 milhões. Com riqueza entre os 100 e os 500 milhões de dólares, estão 72 pessoas. E uma tem riqueza superior a 500 milhões de dólares. De acordo com o estudo citado, a parcela dos 1% mais ricos detinha 20,1% da riqueza em Portugal, mais uma décima do que em 2019, enquanto os 10% mais ricos concentravam mais de metade da riqueza (56,2%). Por outro lado, metade da população apenas detinha 6,5% da riqueza (antes da pandemia, o valor era de 7,2%).

Estes dados confirmam o estudo do economista Eugénio Rosa, divulgado pela revista Sábado (28/3/21), onde se afirma que "A grave crise económica e social causada pela pandemia, que obrigou ao confinamento e ao fecho, nomeadamente dos setores mais débeis da economia, com perdas de emprego, de rendimentos e fecho de empresas, está a agravar ainda mais as desigualdades que já eram enormes no nosso país antes da covid". Tendo por base os dados das contas nacionais divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) e analisando o aumento da desigualdade na repartição da riqueza criada no país (PIB – Produto Interno Bruto) entre os trabalhadores e os “donos do capital”, no período entre 2008 e 2020, Eugénio Rosa conclui que “a parte do ‘trabalho’ no PIB diminuiu de 36,5% para 35% e a do ‘capital’ aumentou de 40,6% para 41%”. A desproporção ainda fica mais evidente quando se compara o número de pessoas envolvidas: “Segundo o INE, no fim do ano de 2020, os ‘donos do capital’ – designados de ‘Trabalhadores por conta própria como empregadores’ – eram apenas 222,6 mil (4,6% do emprego total), que se apropriavam de 41% da riqueza criada no país (PIB), enquanto o número de trabalhadores por conta de outrem eram 4.044.800 (83,2% do emprego total), que recebiam apenas 35% da riqueza criada no país (PIB)", refere o economista.

O absurdo da situação está bem patente na listagem da revista Forbes sobre as fortunas (declaradas) dos multimilionários a nível mundial. A evolução desse ranking desde março de 2020, quando foi declarada a pandemia global de Covid-19, até aos nossos dias, mostra que as grandes fortunas aumentaram de forma obscena. O homem mais rico do mundo continua a ser o norte-americano Jeff Bezos, com 152,8 mil milhões de euros, mas, durante este período, Elon Musk viu a sua fortuna crescer 565,4% – para 137,7 mil milhões de euros – enquanto que, em terceiro lugar, o francês Bernard Arnault, enriquecia 106,3%, para atingir uma fortuna de 131,8 mil milhões de euros; na 4ª posição aparece o fundador da Microsoft, Bill Gates, com 104,1 mil milhões de euros (os restantes nomes da lista situam-se abaixo da centena de milhares de milhões de euros). Na 600ª posição aparece o primeiro português, Américo Amorim, com uma fortuna avaliada em 3,94 mil milhões de euros (Visão, 18/3/21). Isto numa altura em que, segundo dados do Banco Mundial relativos a 2020, o PIB global sofreu uma contração de 5,2%, com o desaparecimento de milhões de postos de trabalho e uma recessão económica generalizada. Um relatório do Institute for Policy Studies mostrou, logo nos primeiros seis meses da pandemia, que o conjunto da fortuna dos 12 homens mais ricos dos EUA aumentou 238 mil milhões de dólares (correspondendo ao PNB de cerca de 140 países), enquanto que em igual período, a nível mundial, a fortuna dos 20 mais ricos cresceu 300 mil milhões de dólares, segundo a agência Bloomberg (Visão, 27/8/2020).

No primeiro dia do ano de 2021, uma notícia do Washington Post dá conta que o dinheiro acumulado em 2020 só por Bezos e por Musk, foi oito vezes superior ao montante necessário para acabar com a fome nos EUA e é superior a todo o dinheiro alocado ao combate ao coronavírus naquele país. Sobre esta notícia, o sociólogo e deputado do Bloco de Esquerda, José Manuel Pureza, no artigo de opinião para a revista Visão (7/1/21) sugestivamente intitulado “A brutalidade”, comenta: “O capitalismo é o capitalismo e a concentração da riqueza está no âmago do seu processo «natural» de funcionamento. A brutalidade da falência de milhões de empresas ou o empobrecimento de milhões de pessoas e a brutalidade do enriquecimento de um pequeníssimo nicho de mega ricos são uma só brutalidade. E que se considere natural essa brutalidade, nas suas duas expressões antagónicas, é algo que faz parte desse mesmo modo de ser da economia que mata.”

Com efeito, a teoria do mercado que a ideologia dominante propaga acerca do trickle down effect (a riqueza de uns poucos acabará por reverter em benefício comum) e de que a maré do desenvolvimento capitalista “faz subir todos os barcos” – a célebre “mão invisível” de Adam Smith – tem sido categoricamente desmentida pela realidade de uma acumulação de capital a que não se assistia desde o tempo dos Rockefellers e dos Carnegies e da “Era Dourada” (Gilded Age) anterior à I Guerra Mundial, e amplamente refutada pelas exaustivas análises dos últimos três séculos da história económica por parte do famoso economista “político” francês Thomas Piketty, nomeadamente na sua monumental obra Le Capital au XXI Siècle, de 2013 (Paris, Seuil). Segundo este autor, depois dos efeitos das duas guerras mundiais e da Grande Depressão dos anos 30, que estancaram, em grande medida, a acumulação desmesurada de riqueza verificada nas décadas anteriores, e após os “Trinta Gloriosos” (1945-1975), época em que políticas públicas de caráter social e o crescimento da economia global na ordem dos 5% tiveram como efeito a diminuição das desigualdades existentes, entramos, a partir do final dos anos 70 do século passado até aos nossos dias, num ciclo totalmente oposto, ultrapassando mesmo os índices desigualitários da Belle Époque. E, ao contrário do que sugeria a conhecida teoria do U invertido do crescimento económico capitalista e do desenvolvimento harmonioso das sociedades industriais modernas, com a correlata diminuição das desigualdades de rendimento e a prosperidade geral, defendida pelo economista russo-americano e prémio Nobel da Economia de 1971, Simon Kuznets, a acumulação de riqueza e o exacerbamento das desigualdades constituem o produto da própria natureza da exploração capitalista, fazem parte do seu ADN (designadamente nas suas expressões mais extremas).

Este processo é tanto mais paradoxal quanto não corresponde a qualquer dinâmica produtiva, nem a uma efetiva racionalidade económica, nem ao mínimo sentido comunitário, mas à mera busca de ganhos especulativos, traduzidos, desde finais dos anos 90, na multiplicação dos rendimentos dos altos quadros financeiros em 8,7 vezes, em contraponto dos quadros empresariais não financeiros que se quedaram pelas 3,6 vezes (e com uma disparidade de rendimentos que ascende, com frequência, a mais de centena e meia de vezes relativamente às remunerações dos trabalhadores assalariados) (Thierry Pech, Le Temps des Riches, Paris, Seuil, 2011, pp. 28, 83). “Economia de casino”, portanto! Ainda segundo Thierry Pech, em 2008, quando rebentou a crise financeira global, estimava-se que a soma das fortunas dos mais ricos do planeta, calculada em 50.000 biliões de dólares, representava 3 vezes o produto interno bruto (PIB) dos EUA e cerca de 8 vezes o PIB da China, respetivamente a primeira e a segunda potências económicas mundiais (op. cit., p. 10). E sobre aquilo que designa por “processo de secessão dos ricos”, o editor e ensaísta francês interroga-se: “Faut-il s’en enquiéter? Oui, car ce qui se brise en même temps que la continuité de la chaine des revenus, c’est l’idée d’appartenir au même monde, de pouvoir se comparer sous l’angle du mérite, du talent ou de l’utilité commune.”, concluindo, “Faire société, c’est aussi faire commune mesure.” (ibid., pág. 11). Uma lição a reter.



Hugo Fernandez



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Sexta-feira, 4 de Junho de 2021
LIBERDADES

Do conclave do MEL (Movimento Europa e Liberdade), reunido recentemente em Lisboa, ressalta um único tema: a liberdade. Mas de que liberdade se trata? A liberdade estritamente privada, aquela que opõe o indivíduo ao Estado ou a qualquer constrangimento coletivo, a liberdade que nasce da “atomização social pelo ideal da concorrência de egoísmos, sobretudo entre os que estão ou aspiram a estar no topo da pirâmide social.”, nas palavras do economista João Rodrigues (“A liberdade a sério está para além do liberalismo”, Le Monde Diplomatique, ed. portuguesa, abril 2021). No fundo, a lógica de uma liberdade antissocial. A preocupação com a defesa à outrance deste individualismo – baseado na ideia matricial da posse (e daí o conhecido epíteto que lhe deu o sociólogo canadiano, Crawford Macpherson, de “individualismo possessivo”) – enviesa qualquer visão minimamente realista da sociedade e dos seus problemas, assentando na rejeição de uma alegada ditadura do politicamente correto (que supostamente seria apanágio da esquerda) e a efabulação, tão lapidarmente enunciada pela inefável neocon Maria de Fátima Bonifácio, de que “a liberdade e, portanto, a cidadania, está ameaçada pela omnipotência de um socialismo que arrebatou o poder e a partir do poder, quais gangsters em luta entre si, monopoliza a opinião publicada e esmaga a liberdade pública e privada.” (Público, 4/5/2021). De que é que esta senhora está a falar?

A 3ª Convenção do MEL (depois de anteriores edições em 2019 e 2020), que reuniu representantes da direita e da extrema-direita lusa e que tinha como objetivos a “construção de um horizonte de futuro para Portugal e a dignificação da imagem política na sociedade portuguesa”, quedou-se por um chorrilho de disparates e de teorias da conspiração, um arrazoado de delírios negacionistas e de mistificações populistas sob o pano de fundo, nunca abertamente declarado, da litania neoliberal da privatização total da economia, da máxima exploração laboral e da precarização da mão-de-obra, do desmantelamento do Estado social e da simplificação do sistema fiscal – leia-se o fim da progressividade fiscal e a redução de impostos para os mais ricos – e a reativação da famigerada e arcaica (tão antiga quanto o espírito fatalista e providencialista próprio do Ancien Régime, isto é, de tempos pré-liberais!) TINA, “there is no alternative”. Receita velha e conhecida, portanto.

Na reunião do MEL, as dificuldades e problemas reais do país, desde a desigualdade crescente, a pobreza e exclusão social, a degradação ambiental, a corrupção e a evasão fiscal, o subfinanciamento e consequente deterioração dos serviços públicos e da Segurança Social ou as sequelas pandémicas, estiveram olimpicamente ausentes. É significativo que assim seja. O alvo sempre foi – e sempre será – a esquerda e os valores que ela representa. Susana Garcia, candidata de extrema-direita pelo PSD ao município da Amadora nas próximas eleições autárquicas verbalizou, de forma absolutamente liminar, os propósitos desta ala política: “exterminar a esquerda”. O seu correligionário de extrema-direita, mas, desta vez, pelo Chega, declarou, no recente congresso deste partido, que, se fosse governo, iria “prender os dirigentes de esquerda”. Mas, junto com a esquerda, não será a própria democracia que acabará por ficar aprisionada? É sabido que a extrema-direita, ao longo da história, se serviu sempre da democracia para a destruir. E, como justamente denuncia o deputado pelo BE, José Manuel Pureza, “Neste tempo em que a democracia e o Estado de direito se tornaram empecilhos descartáveis para os navegadores à bolina da finança, em que o desdém das regras básicas da responsabilidade para com a representação popular assumiu expressões pornográficas – os «depoimentos» de Berardo, Vieira, Vasconcellos ou Moniz da Maia na comissão de inquérito ao Novo Banco são isso mesmo –, a extrema-direita passou a ser o seu rosto político.” (Visão, 27/5/21).

Em Espanha, também o PP e a sua candidata e recém-eleita presidente da Comunidade de Madrid, Isabel Díaz Ayuso, proclamou a “liberdade” contra o “socialismo e o comunismo”. O seu lema de campanha para as eleições de 4 de maio foi “Comunismo ou Liberdade”, utilizando as medidas restritivas de combate à pandemia de Covid-19 como arma política, ao desafiar o confinamento estabelecido a nível nacional pelo Governo do PSOE/Podemos e, por exemplo, manter bares e restaurantes abertos na capital espanhola, ao mesmo tempo que desvalorizava o facto de Madrid ser um dos três grandes focos de pandemia em Espanha e escamoteava a quase nulidade das suas políticas sociais. Como declarou Isabel Ayuso, “Quando te chamam fascista, estás do lado certo”, na sequência do envio de cartas com ameaças de morte (balas e uma navalha ensanguentada) a vários dirigentes políticos e governativos de esquerda. É este o exemplo que a direita portuguesa parece querer seguir.

A aparente popularidade destas posições políticas radica na subtil distinção, sublinhada por Boaventura de Sousa Santos, entre “participação” e “pertença”. Para este sociólogo coimbrão, a extrema-direita promove uma “lógica de pertença, seja ela nacionalista ou racista, contra a lógica de participação que é própria da democracia.” (Público, 22/5/21) E passa a explicar: “A diferença é radical e, por isso, invisível. Participamos numa realidade contribuindo para a construir, enquanto pertencemos a uma realidade já plenamente construída (nação, raça, etnia, casta), seja a construção real ou inventada. A pertença confere uma segurança a quem pertence na mesma proporção em que exclui quem a ela não pertence. Em períodos de crise, esta segurança é preciosa.” Boaventura conclui: “As escolhas em que assentam a participação e a pertença são muito diferentes. Na participação escolhe-se entre; na pertença escolhe-se contra.” Ora é precisamente o aprofundamento das desigualdades e a falência do Estado social – e não qualquer imaginada crise do “individualismo possessivo” – que alimenta o rancor extremista. Como sentencia de forma exemplar José Manuel Pureza, “A extrema-direita anima o povo zangado para evitar mostrar que é aliada de quem castiga o povo sofrido.”


Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 21:53
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Sábado, 24 de Abril de 2021
OS FUNDAMENTOS

Numa crónica anterior falei do conceito de agnatologia, termo usado pela primeira vez em 2008 pelo historiador norte-americano Robert Proctor, professor da Universidade de Stanford, para designar a “ciência da ignorância”, isto é, a ignorância não como mera ausência de conhecimento, mas como o resultado de um processo de “produção cultural de ignorância” induzido por um determinado projeto de poder e de organização da sociedade. Como explica a professora e investigadora do Instituto de Comunicações da Universidade Nova, Carla Baptista, que cita o académico estadunidense, “A produção cultural de ignorância utiliza duas estratégias discursivas: exponenciar a dúvida (os dados são manipulados para criar desconfiança sistémica) e promover a controvérsia (fabricar inimigos).” (Carla Baptista, “Os 3D das presidenciais: desigualdade, desinformação e demagogia”, Le Monde Diplomatique, ed. port., fevereiro de 2021).

A presente problemática da vacinação contra o Covid-19 é sintomática deste fenómeno. O conhecido bioquímico e escritor de ficção científica norte-americano Isaac Asimov disse, um dia, que “o aspeto mais triste da vida atual é que a ciência ganha conhecimento mais rapidamente que a sociedade em sabedoria”. Com efeito, a generalização do sapere aude kantiano está, ainda hoje, por cumprir. Ainda para mais quando os movimentos negacionistas que por aí pululam se reclamam, de forma tão lapidar quanto irrazoável (para não dizer, tão mistificadora quanto nociva), detentores da “verdade”. Teremos assim os arautos de uma sapiência revelada – os negacionistas – contra o rigor e precisão da investigação e conhecimento científicos, a oposição entre aqueles que denunciam a suposta instauração de uma “ditadura cientista” e que vislumbram todo o tipo de cabalas ao serviço de intenções obscuras de poder (desde a conspiração judaico-maçónica, ao grupo de Bilderberg ou aos agentes demoníacos George Soros ou Bill Gates), contra o trabalho exaustivo, certamente incerto, mas persistente e exigente por parte da comunidade científica internacional.

O objetivo dos primeiros é negar a realidade: não existe pandemia – é só uma “gripezinha”, como vaticinou essa luminária que dá pelo nome de Jair Bolsonaro (a versão grunha escolarizada, Donald Trump, foi perentório na certeza da dissipação da pandemia quando viesse o calor!) –, os milhões de vítimas não morreram de Covid mas de outras enfermidades, a proclamação da inutilidade das máscaras e do distanciamento social, a rejeição de qualquer tipo de confinamento e a alegação de que “o maior vírus é o medo” (como se leu em t-shirts envergadas numa manifestação negacionista, em Lisboa). Trata-se de um relativismo destrutivo e dissolvente, segundo a lógica do “salve-se quem puder” e ao serviço da “lei do mais forte” – o ideal da sociedade neoliberal em todo o seu esplendor. Este “mau relativismo” – aquele que equipara acriticamente qualquer perspetiva, e não aquele que resulta da pluralidade de opiniões e da diversidade de contextos, induzindo um esforço de compreensão e diálogo – como se lhe refere o filósofo e sociólogo francês Raymond Boudon, “acarreta uma profunda confusão intelectual, moral e política, sobretudo porque legitima a ideia de que o cidadão é mais sensível à sedução que à persuasão, ao charme da comunicação que à atração da racionalidade.” (Raymond Boudon, O Relativismo, Lisboa, Gradiva, 2009, p. 114), concluindo mesmo que este tipo de relativismo “esmaga o discernimento.” (ibid., p. 54).

Tal é, precisamente, o caldo mental que alimenta os populismos e os desvarios mais extremistas. Esta narrativa fantasiosa, assente num discurso falsamente libertarista, no sentido da proclamação de uma liberdade individual absoluta contra as regras elementares da vida em sociedade e, por consequência, contra a liberdade dos outros (e, neste caso, pondo mesmo em risco a vida de terceiros), tão bem expressa no slogan “Parem de proibir tanta coisa… Não consigo desobedecer a tudo!!!”, encontram eco nos temas-bandeira de partidos como o Chega, segundo se pode ler no recente Relatório de Segurança Interna (RASI 2020), onde o Serviço de Informações de Segurança (SIS) constata a aproximação dos movimentos de extrema-direita e dos negacionistas da pandemia (DN, 31/3/2021). Também José Pacheco Pereira chamou a atenção para esta ligação: “As origens destes movimentos são muito diferentes, têm várias fontes e algumas tradições, mas hoje fazem parte de uma nova extrema-direita que está a emergir em vários países europeus e nos E.U.A” (Público, 27/3/2021). O enorme sobressalto civilizacional a que assistimos obriga, isso sim, a reconhecer, como justamente faz Pacheco Pereira, que “O custo social e económico da pandemia e do combate à pandemia são os fatores a que se deve prestar mais atenção, para se diminuir o processo de radicalização em curso.”

As conceções obscurantistas e retrogradas emergentes, com eco em jornais como o Observador e o Sol – e difusão viral nas redes sociais – têm também presença assegurada nas televisões. E é este destaque mediático que, em grande medida, alimenta o fenómeno. A difusão das ideias negacionistas tem como fundamento uma visão simplista e maniqueia da sociedade e dos seus problemas. É esta simplificação da realidade – deduzida a partir não de opiniões diferentes, mas de factos diferentes (os famosos “factos alternativos” a que fazia referência a conselheira de Trump, Kellyanne Conway), que nos remete para a convergência entre uma “mentalidade simples” e uma “mentalidade fechada” – a simple-mindedness e a closed-mindedness – conceitos invocadas pela jornalista norte-americana Anne Applebaum (de resto, ela própria assumidamente republicana e conservadora) no seu livro O Crepúsculo da Democracia – o fracasso da política e a apelo sedutor do autoritarismo (Lisboa, Bertrand, 2020). Ora, quando se promovem debates sobre assuntos de ciência e se convidam cientistas e arrivistas ou diletantes, incorre-se no erro capital da igual valoração de uns e de outros, o que é profundamente demagógico e altamente perturbador. Como, a este propósito, sublinha Carl Zimmer, jornalista de ciência do The New York Times, “Se estiver a escrever um artigo sobre Geologia, não vou telefonar a alguém que acredita que a Terra é plana. Atribuir legitimidade a pontos de vista que não têm base científica é ridículo.” (Visão, 8/4/2021).

A ciência pode não ser perfeita ou infalível; mas é o melhor que o engenho humano alcança. O conhecimento científico é o que há de mais sistemático, rigoroso e informado em cada momento histórico (é que, de facto, “a Terra move-se”!). Claro que o que é promovido e o que se faz com esse conhecimento levanta todo um outro conjunto de questões.… que a ciência explica.


Hugo Fernandez



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Domingo, 28 de Março de 2021
COMO DISSE?

A propósito da sua última produção, Elogio da dúvida (Lisboa, Edições 70, 2021) diz-nos a filósofa catalã Victoria Camps, “São as certezas que nos atraem, não as dúvidas. Estas, pelo contrário, obrigam-nos a pensar, exigem-nos muito esforço. E é por isso que, habitualmente, os seres humanos se ficam por aquilo que tomam por certo.” (Visão, 11/2/2021). Simplicidade, unidade, homogeneidade, segurança, são os conceitos essenciais deste processo de descomplicação da realidade que, pelo contrário, se apresenta sempre como complexa, ambígua, plural, contraditória e conflituante, diversidade esta geradora de desconfiança, medo e necessidade de proteção e de apaziguamento da consciência.

É neste contexto que o fenómeno político Trump e a generalidade das derivas populistas se podem entender. A investigadora da linguagem, Anna Szilágyi, em entrevista ao Público (18/10/2020), referiu-se à novidade trazida pelo discurso político de Donald Trump, com a utilização de palavras simples, constantemente repetidas, frases que não terminam, até impropérios, naquilo que esta estudiosa caracteriza por “informalidade radical”. Como disse um dia o então candidato às eleições presidenciais norte-americanas de 2016, “I’ve got the best words”. A sensação transmitida a quem o escuta, em virtude da extrema coloquialidade do discurso de Trump, é a de que “ele fala como eu”, levando à imediata identificação. E mais: “Quem ouve pode achar que se esta pessoa fala assim em público, é muito sincera. Ao não ajustar o estilo, pode gerar uma sensação de confiança em quem ouve. Até pode ser vista como heroica, alguém que não se autocensura.” A juntar a isto há a bazófia típica do vendedor – por exemplo, com o recurso constante a superlativos – e a desfaçatez no insulto e estigmatização dos adversários – “crooked Hillary”, “sleepy Joe”, etc. Tudo isto concorre para uma imagem de confiança e energia. E, como afirmou o ideólogo da campanha presidencial de Trump em 2016, Steve Bannon, aquele tinha sido eleito com base em três slogans: “Drenem o pântano”, “Prendam a Clinton”, “Construam o muro na fronteira”. Para Bannon, “Isso era pura raiva”, acrescentando “Raiva e medo são o que faz as pessoas irem às urnas.” (cit. em Maria Vlachou, “A curadoria do desconforto”, Público, 6/2/2021). Nas palavras de Szilágyi, “Este tipo de retórica ativa emoções fortes, provoca sentimentos.” Sobretudo dá-nos uma visão simplista – e necessariamente distorcida – do mundo. No seu esquematismo fundamentalista chega a ser criminosa, porque é enganadora e enfraquece a capacidade de entendimento da realidade e a possibilidade da verdadeira resolução dos problemas.

Ora, é no contexto desta simplificação da realidade – que, dada a sua complexidade intrínseca, nos transmite uma imagem que não pode deixar de ser caricatural – que vem a propósito o conceito de agnatologia, termo usado pela primeira vez em 2008 pelo historiador norte-americano Robert Proctor, professor da Universidade de Stanford, para designar a “ciência da ignorância” e que lhe serviu para analisar o efeito do primeiro ano da presidência de Donald Trump, caracterizado como “a idade de ouro da ignorância”. Desde 2008 que Proctor vem chamando a atenção para a ignorância não como mera ausência de conhecimento, mas como o resultado de um processo de “produção cultural de ignorância”. Como explica a professora e investigadora do Instituto de Comunicações da Universidade Nova, Carla Baptista, que cita o académico estadunidense, “A ignorância é manufaturada, culturalmente induzida e suporta projetos de poder”, acrescentando que “A produção cultural de ignorância utiliza duas estratégias discursivas: exponenciar a dúvida (os dados são manipulados para criar desconfiança sistémica) e promover a controvérsia (fabricar inimigos).” (Carla Baptista, “Os 3D das presidenciais: desigualdade, desinformação e demagogia”, Le Monde Diplomatique, ed. port., fevereiro de 2021).

Num inesperado laivo de lucidez, Carlos Rodrigues, diretor-executivo do Correio da Manhã e da CMTV, invocando Larry King, pôs o dedo na ferida relativamente àquilo que designou como “entrevista argumentativa”. Num artigo intitulado “Ouvir ou falar?” (o falecido jornalista norte-americano Larry King dizia que nunca tinha aprendido nada enquanto falava, mas apenas enquanto ouvia), e a propósito da cobertura televisiva da pandemia de Covid-19, Carlos Rodrigues afirma: “A entrevista argumentativa organiza-se sempre da mesma forma: o jornalista diz que não é um especialista. A seguir a exaltar o óbvio, cita uma série de números e uma quantidade suficientemente avassaladora de estatísticas, com a chancela de uma instituição científica qualquer, idealmente misturando universidades portuguesas e estrangeiras. Segue-se a emissão de uma qualquer síntese, em geral condizente com as mensagens prevalecentes nesse dia nas redes sociais, meio no qual as estrelas do telejornalismo são cada vez mais useiras e vezeiras. Com sorte, e ainda a digerir a quantidade avassaladora de informação que também acabou de ouvir pela primeira vez, o entrevistado consegue balbuciar alguma reflexão que faça sentido, para logo ser interrompido pela reafirmação de alguma contradição/esquecimento ou responsabilidade atribuível ao próprio. Por vezes tudo isto termina após um conjunto de frases desconexas de quem aceitara ser entrevistado, mas que afinal se apanha a ser confrontado com as opiniões do jornalista.” (TVGuia, 18/2/21). A missão de esclarecimento e de informação própria da comunicação social perde-se assim na assunção espúria de um poder que não deve ser o seu. Ao invés, insiste-se na reprodução da ignorância ao serviço de interesses obscuros e, sobretudo, não escrutinados. Esquecem-se as regras mais elementares da relevância informativa e do interesse público, substituídas pela inculcação ideológica mais descarada.

Os debates eleitorais da última campanha presidencial em Portugal são um bom exemplo disso. Como sublinha Carla Batista, “Esta é a realidade comunicacional do Chega: foco máximo na amplificação mediática das mensagens, preocupação mínima com a sua coerência ou seriedade.”, acrescentando, “Ventura em 2020, tal como Trump em 2016, prefigurou-se como o ator principal.” (Carla Batista, op. cit.). Carla Batista conclui de forma lapidar: “Mas a cultura cívica que amplifica as mensagens populistas é fabricada pelos media. A manta de retalhos em que assentou a comunicação eleitoral do Chega espelha as aporias do sistema mediático contemporâneo, alimentado por detritos que gravitam os mundos offline e online. Notícias velhas, (des)informação omissa, imagens fabricadas, excertos de intervenções descontextualizadas, tudo pode e foi utilizado para aumentar descrença e hostilidade. […] Não é expectável que a televisão-espetáculo seja uma instituição credível para regular a política-populista. Ambas se fertilizam, e o futuro provoca o mesmo calafrio do poema de Álvaro de Campos: «Sei que me espera qualquer coisa/Mas não sei que coisa me espera.»



Hugo Fernandez





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Sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2021
AMANHÃ ACONTECEU

Para esta crónica tomei de empréstimo o título homónimo de um filme do cineasta francês René Clair, de 1944, em que, graças à misteriosa personagem Pop Benson, o repórter Larry Stevens consegue antecipar 24 horas os acontecimentos, o que lhe vai granjear grande fama e proveito, quer em furos jornalísticos, quer em apostas desportivas; até ao dia em que prevê a própria morte. A perspetiva aqui adotada prende-se sobretudo com a capacidade de antecipação das situações e com a necessidade de prevenir males futuros a partir das lições do passado.

O pensador social inglês Richard Tawney, no prefácio à edição de 1951 da sua célebre obra Equality, cita o jornal The Times de 1 de julho de 1940, nas vésperas do que ficará conhecida como a “Batalha de Inglaterra”, em plena II Guerra Mundial, para ilustrar as perplexidades a que chegaram as democracias liberais num tempo de crise como era aquele que então se vivia: “If (…) we speak of democracy, we do not mean a democracy which maintains the right to vote, but forgets the right to live and work. If we speak of freedom, we do not mean a rugged individualism which excludes social organisation and economic planning. If we speak of equality, we do not mean a political equality nullified by social and economic privilege. If we speak of economic reconstruction, we think less of maximum production (though that too will be required) than of equitable distribution.” (Tawney, 1952: 10). Para Tawney, o dilema que estava colocado à sociedade da época aparecia de forma muito clara: “It may well be the case that democracy and capitalism, which at moments in their youth were allies, cannot live together, once both have come of age. When that contingency arises, it is necessary to choose between them.” (Richard Tawney, Equality, London, George Allen & Unwin, 1952, p. 15).

Penso que vivemos num contexto em que o dilema enunciado por Richard Tawney em meados do século passado adquire uma atualidade e premência indiscutíveis. Com efeito, num rápido relance pela nossa história recente, verificamos que a ordem demoliberal que governou as sociedades ocidentais no pós II Guerra Mundial e que permitiu edificar o Estado social na segunda metade do século XX, o que, apesar das suas insuficiências, resultou em benefício da generalidade da população, foi abruptamente interrompida pela onda neoliberal que, a partir da década de 80 do século passado, tratou de nos levar a um regresso tormentoso à selvajaria manchestariana da centúria de oitocentos, certamente com outros mecanismos tecnológicos assim como ideológicos, mas com idênticos propósitos de acumulação desregulada – e despudorada – de riqueza nas mãos de uns poucos e de aprofundamento brutal das desigualdades sociais. Nestas circunstâncias, assistimos a uma inexorável subjugação da democracia aos ditames do capitalismo. Emerge, uma vez mais, a questão da escolha.

Não é novo este dilema. Desde a sua implantação, o liberalismo tem sido confrontado com a pressão das aspirações democráticas que, mesmo num contexto de exploração capitalista, permitiram, ainda que à custa da determinação e sacrifício de muitos, conquistas cívicas deveras significativas e upgrades civilizacionais que se constituíram como verdadeiro património da humanidade. Mas, como nada é eterno e muito menos garantido, encontramo-nos hoje perante um daqueles momentos decisivos da história, em que as escolhas que forem feitas determinarão de forma inelutável o nosso futuro imediato. Já nem falo das consequências ambientais desastrosas resultantes da perpetuação de um extrativismo galopante ou da perpetuação de conflitos destrutivos para gáudio de alguns. Mas refiro-me, por exemplo, à subserviência inacreditável da UE aos interesses privados das grandes companhias farmacêuticas que, num estado de emergência pandémica em que milhares de pessoas estão a morrer todos os dias, e apesar da investigação feita para o fabrico das vacinas contra o covid-19 ter sido, em grande medida, financiada por dinheiros públicos comunitários, se vê sujeita a ter que negociar lotes e prazos de entrega, inclusive à revelia das condições contratuais previamente assinadas, que garantiam uma cobertura atempada e generalizada da população europeia. Como é possível que não haja, ainda que de forma pontual e com caráter de exceção – e mesmo com algum tipo de ressarcimento – uma intervenção dos Estados soberanos na requisição das patentes e no fabrico alargado das vacinas, em defesa do interesse comum dos seus cidadãos?

A ordem neoliberal hegemónica convoca-nos, mais do que nunca, a tomar posição em defesa da democracia. Mas a escolha está cheia de alçapões e dificuldades. Talvez aquele que se apresenta como o desafio maior para as forças políticas democráticas, tem a ver com a vaga populista que tem assolado o mundo nesta última década. A sua especificidade radica numa autêntica armadilha ideológica: conseguir dar voz ao ressentimento das populações relativamente ao “sistema”, fazendo a apologia de posições ultra retrógradas e apologistas do statu quo. Na explicação de Boaventura de Sousa Santos, a extrema-direita ganha terreno precisamente “por meio da exploração do mal-estar social que a subordinação crescente da democracia ao capitalismo provoca. Ou seja, exploram as mesmas condições sociais que mobilizam os movimentos anti sistémicos de esquerda.” A grande diferença é que, “enquanto para estes o mal-estar social decorre precisamente da sujeição da democracia às exigências do capitalismo, exigências cada vez mais incompatíveis com o jogo democrático, para os movimentos de extrema-direita o mal-estar decorre da democracia e não do capitalismo.” (Boaventura de Sousa Santos, “O antissistema e a defesa da democracia”, Jornal de Letras, 10/2/2021, pp. 23-25).

Creio também que é esta a razão principal pela qual camadas de população desfavorecidas e marginalizadas pela ordem hegemónica aderem com tanta facilidade às mensagens populistas. É que, na simplificação maniqueísta a que o pensamento dominante nos conduziu – com a litania tóxica das “fake news”, da “pós-verdade” e dos “factos alternativos” [ou, na linguagem académica dos especialistas britânicos em comunicação política, Andrew Chadwick e Christian Vaccari, “desconsideração intencional pela verdade” (cit. em Carla Baptista, “Os 3D das presidenciais: desigualdade, desinformação e demagogia”, Le Monde Diplomatique, ed. port., fevereiro de 2021, pp. 12-13)] – a contestação ao “sistema” significa, sobretudo, a contestação à democracia, deixando incólume o capitalismo e as dinâmicas mais exploradoras e alienantes da globalização neoliberal. Ao erigirem como bandeira política falsos problemas com forte carga simbólica, escondem realidades estruturais bem mais decisivas, mas, simultaneamente, menos percetíveis. É assim que se concentram as atenções, por exemplo, em determinados grupos populacionais, esquecendo-se as relações sociais que determinam a vivência de todos.

Servindo-se dos mecanismos de representação política da democracia, estes aprendizes de ditadores, uma vez no poder (e, normalmente com o conluio dos partidos tradicionais de direita), exercem uma autoridade totalmente arbitrária e violadora dos direitos, liberdades e garantias constitucionais dos cidadãos: privatização dos serviços públicos essenciais, defesa da prisão perpétua – quando não pena de morte –, castração física e esterilização de pedófilos e mulheres que pratiquem a interrupção voluntária da gravidez, mutilação de infratores – “a alguns ladrões não faria mal cortarem as mãos”, declarou, pressuroso, André Ventura num debate televisivo – segregação das minorias, deportação de imigrantes, intolerância, racismo, negacionismos e fundamentalismos vários. A conclusão que Boaventura de Sousa Santos tira é perentória: “Acossada pela ideologia global da extrema-direita, a democracia morrerá facilmente no espaço público se não se traduzir no bem-estar material das famílias e das comunidades. Só assim a democracia impedirá que o respeito dê lugar ao ódio e à violência, e a dignidade dê lugar à indignidade e à indiferença.” (Santos, op. cit.).

Certamente isso explicará fenómenos eleitorais nacionais tão extraordinários como o facto da votação no candidato presidencial André Ventura ter atingido, no concelho de Moura, o triplo da média nacional, e que nas freguesias da Póvoa de São Miguel (PS) e Sobral da Adiça (CDU) tenha vencido. Neste último caso, o presidente da Junta, Bruno Monteiro, eleito com maioria absoluta (59% dos votos) explica o sucedido com “a campanha de desinformação do próprio candidato, que faz passar uma mensagem que não é verdadeira e ilude as pessoas. É uma mensagem racista, xenófoba e que faz com que as pessoas acreditem que anda meio povo a trabalhar para outro meio”. (Diário do Alentejo, 5/2/2021). No mesmo sentido, para Francisco Parra, presidente da Junta de Freguesia de Safara e Santo Aleixo da Restauração (PS), onde Marcelo Rebelo de Sousa ganhou as eleições presidenciais com apenas 28 votos de diferença relativamente ao candidato do Chega, muitos eleitores aproveitaram as eleições para “um voto de protesto”, explicando que “Estamos um bocadinho esquecidos, ninguém olha por nós. Possivelmente as pessoas pensaram que assim seria uma forma de termos visibilidade”. (ibid.). Não nos esqueçamos que, dos 30 concelhos em que Ventura teve maior votação, 28 são no interior, tendo ficado em 2º lugar em todos os distritos desta zona do país.

Estes resultados eleitorais beneficiam das distorções e impasses a que chegou o próprio regime democrático, potenciadores da atuação dos movimentos políticos extremistas. Comumente, o populismo é caracterizado a partir de três ideias fundamentais: a oposição entre “o povo” e uma “elite” sempre considerada corrupta, o discurso em nome do povo e da sua suposta “vontade” e o facto de apresentar aquilo que António Costa Pinto define como uma “ideologia fina”, isto é, “sem coerência, eclética, e por vezes contraditória e mutante.” (António Costa Pinto, O regresso das ditaduras?, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2020, pp. 89-90). Estas dicotomias simplistas, decorrentes de um processo de descomplexificação – amiúde grotesco – da realidade, induzem uma sensação de identidade e empatia em amplas camadas da população, revelando-se sumamente eficazes. Não haja, no entanto, dúvidas, quanto ao caráter do populismo de extrema-direita: servindo-se da democracia e dos mecanismos da representação política, seguem princípios autoritários e promovem a pessoalização do poder. E, uma vez instalados na governação, a sua primeira vítima é, precisamente, a democracia.

O próprio jogo político-partidário tem contribuído, sobremaneira, para semelhante desenlace. Na sua obra Capital et Idéologie, o afamado economista francês Thomas Piketty chama-nos a atenção para a alteração do sentido de voto nos últimos 30 anos no mundo ocidental e à lenta decomposição da dicotomia direita-esquerda classista do pós-II Guerra (cf. Thomas Piketty, Capital et Idéologie, Paris, Seuil, 2019, pp. 1000-1009). Correspondendo à redução das desigualdades de rendimento e património, bem como ao incremento de políticas públicas de proteção aos mais desfavorecidos e à progressividade dos impostos, próprias do Estado-providência, na sequência das destruições provocadas pelas duas guerras mundiais (1914-1945) – e contrastando fortemente com a enorme concentração de capital e aprofundamento da desigualdade social ocorrida ao longo do século XIX até 1914 – as décadas de 1950-1980 vão assistir à competição de tipo classista entre a esquerda e a direita, em que os partidos do primeiro espectro político se apoiavam nas camadas socialmente mais desfavorecidas, enquanto que os segundos obtinham a maioria dos seus sufrágios naqueles que se situavam numa situação social mais estável e favorecida.

Mas, no período que vai de 1990 a 2020, este estado de coisas vai sofrer uma profunda alteração na generalidade das democracias ocidentais. Para Piketty, assiste-se, doravante, a uma inversão dos papéis: a esquerda eleitoral representa cada vez menos os interesses dos trabalhadores, para representar cada vez mais os setores sociais mais escolarizados e urbanizados, os quadros diplomados – o que ele chama “esquerda-brahmane” – que viram a sua ascensão social assente no processo de globalização, Em contrapartida, as classes populares, crescentemente arredadas do bem-estar social, ou se afastam da competição eleitoral, engrossando as percentagens da abstenção, ou potenciam o crescimento dos movimentos populistas e de extrema-direita – pretensamente antissistema – que se aproveitam deste desnorte. À direita – o que ele apelida de “direita comerciante” – juntam-se crescentemente camadas populares que não se reveem nas elites “bem-pensantes”. Não é por acaso que nas últimas eleições presidenciais que ditaram o afastamento de Donald Trump, “Nos cem condados que dispõem das melhores escolas do país, Joe Biden recolheu 84% dos votos. Nos cem condados que beneficiam do rendimento médio mais alto, obteve 57%. Há trinta anos, os republicanos ganhavam confortavelmente nestas duas categorias.” (Thomas Frank, “Paranoias americanas”, Le Monde Diplomatique, ed. port., fevereiro de 2021, p. 26).

A desfocagem ideológica assim produzida faz com que as políticas públicas de governos de direita ou de esquerda, que se alternam no poder, sejam cada vez mais indiferenciadas, alinhando ambos pela mesma bitola da desregulação neoliberal, abstendo-se de resolver os problemas das populações e agravando as desigualdades sociais existentes. O mundo globalizado funciona em benefício dos dois grupos dominantes, aqueles que dispõem do capital educativo ou financeiro mais elevado (elites intelectuais e financeiras). Juntando-se a isto o peso dos fluxos migratórios, impõem-se crescentemente as clivagens de tipo identitário, os conflitos etno-religiosos e as derivas nativistas. Como justamente refere Piketty, “le sentiment d’abandon des classes populaires face aux partis sociaux-démocrates (au sens large) a constitué un terreau fertile pour les discours anti-immigrés et les idéologies nativistes. Tant que la manque d’ambition redistributive qui est à l’origine de ce sentiment d’abandon n’aura pas été corrige, on voit mal ce qui empêcherait ce terreau d’être exploité toujours davantage.” (op. cit., pp. 1002-1003).

O resultado está à vista. O consulado trumpista nos EUA e a ascensão política da extrema-direita ou dos seus sucedâneos iliberais europeus, constituem provas cabais desta evolução. Denunciando o que designa por “le nouveau récit hyperinégalitaire” (Piketty, op. cit., p. 1112), Piketty conclui: “La révolution conservatrice des années 1980, l’effondrement du communisme soviétique et le développement d’une nouvelle idéologie de type néopropriétariste ont conduit le monde vers des niveaux impressionnants et incontrôlés de concentration des revenus et des patrimoines en ce début de XXI siècle.” (ibid., p. 1111). E isso tem consequências. Ecoam, lapidares, as palavras do The Times desse longínquo ano de 1940, evocadas por Richard Tawney: “se falamos de democracia, não falamos só do direito de voto, esquecendo o direito a viver e trabalhar. Se falamos de liberdade, isso não significa o estrito individualismo que exclui a organização social e o planeamento económico. Se falamos de igualdade, não nos referimos a uma igualdade política anulada pelo privilégio social e económico. Se falamos de reconstrução económica, pensamos menos na maximização da produção (embora isso também venha a ser necessário) do que numa distribuição equitativa.” [tradução minha].

É imperioso a esquerda fazer a sua escolha e resgatar a democracia do capitalismo. Até insuspeitos e prestigiados liberais como Thomas Marshall ou Ralf Dahrendorf, não hesitaram em defender que a cidadania “está, por definição, ao abrigo dos caprichos do mercado.”, proclamando, “A cidadania não é um conceito económico.” (Ralf Dahrendorf, Ensaios sobre o liberalismo, Lisboa, Fragmentos, 1993, p. 178). Não nos esqueçamos que o grande objetivo de André Ventura é a instauração de uma nova república, a IV, a dele, aquela que tão elucidativamente designou por “ditadura da gente de bem”. Ora, pegando nas palavras de Daniel Oliveira, “Quem não percebe o momento histórico que vive tende a não construir o futuro histórico que deseja.” (Daniel Oliveira, Manifesto, nº5, Outono e Inverno 2020/21, p. 47). Se persistirmos numa espécie de cegueira ideológica e de conversa fechada, a democracia não será mais que uma farsa. E, como sabemos, são demasiadas as ocasiões em que a farsa e a tragédia se confundem na história.

 

Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 13:12
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