Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Sábado, 3 de Julho de 2021
COISAS ASSIM

Em novembro de 2011, Dennis Gartman, investidor em divisas e obrigações, ofereceu-nos, na sua nota diária sobre investimentos, todo um programa ideológico na defesa arrebatada do chamado 1% (os muito ricos deste mundo): “Festejamos a disparidade de rendimentos e aplaudimos as margens crescentes entre os 20 por cento da sociedade americana que se situa mais em baixo e os 20 por cento mais em cima pois evidencia como a América se tornou um grande país. (…) Sentimo-nos mal pelo fosso crescente entre os ricos e os pobres nos EUA? Claro que não; festejamos isso, pois já fomos pobres outrora e somos razoavelmente ricos agora. Fizemo-lo sozinhos, pela simples força de vontade, tenacidade, visão estratégica e coisas assim [sublinhado meu].” (Chrystia Freeland, Plutocratas, Lisboa, Círculo de Leitores/Temas e Debates, 2014, p. 327, apud Neil Hume, “God Bless Income Disparity”, blogue Alphaville, Finantial Times, 17 de novembro de 2011). Dennis Gartman insurgia-se contra aqueles que contestam a colossal disparidade de riqueza existente, invocando a litania do self made man e as supostas benesses da concorrência capitalista e da busca desenfreada do lucro. “Desigualdade económica? Não gozem comigo. Deus abençoe a disparidade de rendimentos e aqueles que tiveram sucesso, e que a multidão do Occupy Wall Street tenha vergonha por nos querer taxar pelo nosso sucesso e nos querer arrastar para o seu próprio falhanço.” (ibid., pp. 327-328), acrescentou este financeiro norte-americano.

Para além de uma visão falsamente meritocrática, distorcida pela evidente desigualdade de oportunidades – quer de pontos de partida, quer de acesso – e de uma elucidativa ofuscação de circunstâncias pessoais e contextos vivenciais específicos, exemplarmente expresso na fórmula coisas assim a finalizar o rol de virtudes e disposições de caráter que se pretende enaltecer, o que mais surpreende nesta narrativa é a ausência de qualquer referência à dimensão relacional da ordenação da sociedade, isto é, a iniludível conexão – dada a limitação dos recursos existentes – entre a riqueza e a pobreza, o nexo necessário entre a acumulação de uns poucos e a penúria da maioria dos outros. Falácia que, em 1846, no terceiro capítulo da sua conhecida obra Viagens na Minha Terra, Almeida Garrett denunciou com uma lucidez desarmante, quando questionava quantos pobres eram necessários para fazer um rico: “E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico.” (Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra, Mem-Martins, Publicações Europa-América, 1976 [1846], p. 19).

Houve quem tivesse feito esses cálculos. A organização internacional de luta contra a pobreza Oxfam, no relatório que publicou em 2014, denominado “Working for the Few”, estimou que, à data, um super-rico custava a miséria de 41.176.000 pessoas. Três anos antes, o economista principal da divisão de investigação do Banco Mundial, Branko Milanovic, numa obra que fez furor, The Haves and the Have-Nots: a Brief and Idiosyncratic History of Global Inequality, estabeleceu aquilo que denominou “pirâmide global”, em que calculava a percentagem de pessoas necessárias para gerar os sucessivos 20 por cento do rendimento planetário, ordenando em 5 estratos a população mundial, dos mais pobres (o primeiro estrato) aos mais ricos (o último estrato), cálculo feito com uma margem de erro de 0,05%. Concluiu que a base da pirâmide era constituída por 77% dos indivíduos, seguidos de 12%, 5,6%, 3,6% (à medida que a folga financeira ia aumentando), para culminar nos 1,75% que eram constituídos pelas pessoas mais abastadas (Branko Milanovic, Ter ou Não Ter: uma Breve História da Desigualdade, Lisboa, Bertrand, 2012, p. 150).

De então para cá, não há razões para pensar que as realidades a que estes exemplos se reportam apresentaram qualquer decréscimo. Pelo contrário! Como refere o Jornal de Notícias (22/6/21), citando o comunicado divulgado à imprensa sobre o mais recente "Global Wealth Report" (relatório do banco Credit Suisse sobre o crescimento contínuo da riqueza global) referente a 2020, a pandemia acentuou as desigualdades. "Estimamos que os 50% mais pobres na distribuição global da riqueza representem, em conjunto, menos de 1% da riqueza global no final de 2020. Em contraste, o decil dos mais ricos (os 10% mais ricos) tem 82% da riqueza global e o percentil mais alto (1% mais rico) sozinho tem quase metade (45%) de todos os ativos", informou o banco suíço. No nosso país, o número de milionários ascendeu aos 136.430, mais 19.430 do que no relatório do ano anterior, quando a instituição financeira identificava 117 mil milionários no país. Os dados mostram que Portugal tinha, em 2020, 128.772 pessoas com uma fortuna avaliada entre um milhão e cinco milhões de dólares, 5505 entre cinco e dez milhões e 2056 entre 10 e 50 milhões. Com riqueza entre os 100 e os 500 milhões de dólares, estão 72 pessoas. E uma tem riqueza superior a 500 milhões de dólares. De acordo com o estudo citado, a parcela dos 1% mais ricos detinha 20,1% da riqueza em Portugal, mais uma décima do que em 2019, enquanto os 10% mais ricos concentravam mais de metade da riqueza (56,2%). Por outro lado, metade da população apenas detinha 6,5% da riqueza (antes da pandemia, o valor era de 7,2%).

Estes dados confirmam o estudo do economista Eugénio Rosa, divulgado pela revista Sábado (28/3/21), onde se afirma que "A grave crise económica e social causada pela pandemia, que obrigou ao confinamento e ao fecho, nomeadamente dos setores mais débeis da economia, com perdas de emprego, de rendimentos e fecho de empresas, está a agravar ainda mais as desigualdades que já eram enormes no nosso país antes da covid". Tendo por base os dados das contas nacionais divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) e analisando o aumento da desigualdade na repartição da riqueza criada no país (PIB – Produto Interno Bruto) entre os trabalhadores e os “donos do capital”, no período entre 2008 e 2020, Eugénio Rosa conclui que “a parte do ‘trabalho’ no PIB diminuiu de 36,5% para 35% e a do ‘capital’ aumentou de 40,6% para 41%”. A desproporção ainda fica mais evidente quando se compara o número de pessoas envolvidas: “Segundo o INE, no fim do ano de 2020, os ‘donos do capital’ – designados de ‘Trabalhadores por conta própria como empregadores’ – eram apenas 222,6 mil (4,6% do emprego total), que se apropriavam de 41% da riqueza criada no país (PIB), enquanto o número de trabalhadores por conta de outrem eram 4.044.800 (83,2% do emprego total), que recebiam apenas 35% da riqueza criada no país (PIB)", refere o economista.

O absurdo da situação está bem patente na listagem da revista Forbes sobre as fortunas (declaradas) dos multimilionários a nível mundial. A evolução desse ranking desde março de 2020, quando foi declarada a pandemia global de Covid-19, até aos nossos dias, mostra que as grandes fortunas aumentaram de forma obscena. O homem mais rico do mundo continua a ser o norte-americano Jeff Bezos, com 152,8 mil milhões de euros, mas, durante este período, Elon Musk viu a sua fortuna crescer 565,4% – para 137,7 mil milhões de euros – enquanto que, em terceiro lugar, o francês Bernard Arnault, enriquecia 106,3%, para atingir uma fortuna de 131,8 mil milhões de euros; na 4ª posição aparece o fundador da Microsoft, Bill Gates, com 104,1 mil milhões de euros (os restantes nomes da lista situam-se abaixo da centena de milhares de milhões de euros). Na 600ª posição aparece o primeiro português, Américo Amorim, com uma fortuna avaliada em 3,94 mil milhões de euros (Visão, 18/3/21). Isto numa altura em que, segundo dados do Banco Mundial relativos a 2020, o PIB global sofreu uma contração de 5,2%, com o desaparecimento de milhões de postos de trabalho e uma recessão económica generalizada. Um relatório do Institute for Policy Studies mostrou, logo nos primeiros seis meses da pandemia, que o conjunto da fortuna dos 12 homens mais ricos dos EUA aumentou 238 mil milhões de dólares (correspondendo ao PNB de cerca de 140 países), enquanto que em igual período, a nível mundial, a fortuna dos 20 mais ricos cresceu 300 mil milhões de dólares, segundo a agência Bloomberg (Visão, 27/8/2020).

No primeiro dia do ano de 2021, uma notícia do Washington Post dá conta que o dinheiro acumulado em 2020 só por Bezos e por Musk, foi oito vezes superior ao montante necessário para acabar com a fome nos EUA e é superior a todo o dinheiro alocado ao combate ao coronavírus naquele país. Sobre esta notícia, o sociólogo e deputado do Bloco de Esquerda, José Manuel Pureza, no artigo de opinião para a revista Visão (7/1/21) sugestivamente intitulado “A brutalidade”, comenta: “O capitalismo é o capitalismo e a concentração da riqueza está no âmago do seu processo «natural» de funcionamento. A brutalidade da falência de milhões de empresas ou o empobrecimento de milhões de pessoas e a brutalidade do enriquecimento de um pequeníssimo nicho de mega ricos são uma só brutalidade. E que se considere natural essa brutalidade, nas suas duas expressões antagónicas, é algo que faz parte desse mesmo modo de ser da economia que mata.”

Com efeito, a teoria do mercado que a ideologia dominante propaga acerca do trickle down effect (a riqueza de uns poucos acabará por reverter em benefício comum) e de que a maré do desenvolvimento capitalista “faz subir todos os barcos” – a célebre “mão invisível” de Adam Smith – tem sido categoricamente desmentida pela realidade de uma acumulação de capital a que não se assistia desde o tempo dos Rockefellers e dos Carnegies e da “Era Dourada” (Gilded Age) anterior à I Guerra Mundial, e amplamente refutada pelas exaustivas análises dos últimos três séculos da história económica por parte do famoso economista “político” francês Thomas Piketty, nomeadamente na sua monumental obra Le Capital au XXI Siècle, de 2013 (Paris, Seuil). Segundo este autor, depois dos efeitos das duas guerras mundiais e da Grande Depressão dos anos 30, que estancaram, em grande medida, a acumulação desmesurada de riqueza verificada nas décadas anteriores, e após os “Trinta Gloriosos” (1945-1975), época em que políticas públicas de caráter social e o crescimento da economia global na ordem dos 5% tiveram como efeito a diminuição das desigualdades existentes, entramos, a partir do final dos anos 70 do século passado até aos nossos dias, num ciclo totalmente oposto, ultrapassando mesmo os índices desigualitários da Belle Époque. E, ao contrário do que sugeria a conhecida teoria do U invertido do crescimento económico capitalista e do desenvolvimento harmonioso das sociedades industriais modernas, com a correlata diminuição das desigualdades de rendimento e a prosperidade geral, defendida pelo economista russo-americano e prémio Nobel da Economia de 1971, Simon Kuznets, a acumulação de riqueza e o exacerbamento das desigualdades constituem o produto da própria natureza da exploração capitalista, fazem parte do seu ADN (designadamente nas suas expressões mais extremas).

Este processo é tanto mais paradoxal quanto não corresponde a qualquer dinâmica produtiva, nem a uma efetiva racionalidade económica, nem ao mínimo sentido comunitário, mas à mera busca de ganhos especulativos, traduzidos, desde finais dos anos 90, na multiplicação dos rendimentos dos altos quadros financeiros em 8,7 vezes, em contraponto dos quadros empresariais não financeiros que se quedaram pelas 3,6 vezes (e com uma disparidade de rendimentos que ascende, com frequência, a mais de centena e meia de vezes relativamente às remunerações dos trabalhadores assalariados) (Thierry Pech, Le Temps des Riches, Paris, Seuil, 2011, pp. 28, 83). “Economia de casino”, portanto! Ainda segundo Thierry Pech, em 2008, quando rebentou a crise financeira global, estimava-se que a soma das fortunas dos mais ricos do planeta, calculada em 50.000 biliões de dólares, representava 3 vezes o produto interno bruto (PIB) dos EUA e cerca de 8 vezes o PIB da China, respetivamente a primeira e a segunda potências económicas mundiais (op. cit., p. 10). E sobre aquilo que designa por “processo de secessão dos ricos”, o editor e ensaísta francês interroga-se: “Faut-il s’en enquiéter? Oui, car ce qui se brise en même temps que la continuité de la chaine des revenus, c’est l’idée d’appartenir au même monde, de pouvoir se comparer sous l’angle du mérite, du talent ou de l’utilité commune.”, concluindo, “Faire société, c’est aussi faire commune mesure.” (ibid., pág. 11). Uma lição a reter.



Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 12:06
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Sexta-feira, 4 de Junho de 2021
LIBERDADES

Do conclave do MEL (Movimento Europa e Liberdade), reunido recentemente em Lisboa, ressalta um único tema: a liberdade. Mas de que liberdade se trata? A liberdade estritamente privada, aquela que opõe o indivíduo ao Estado ou a qualquer constrangimento coletivo, a liberdade que nasce da “atomização social pelo ideal da concorrência de egoísmos, sobretudo entre os que estão ou aspiram a estar no topo da pirâmide social.”, nas palavras do economista João Rodrigues (“A liberdade a sério está para além do liberalismo”, Le Monde Diplomatique, ed. portuguesa, abril 2021). No fundo, a lógica de uma liberdade antissocial. A preocupação com a defesa à outrance deste individualismo – baseado na ideia matricial da posse (e daí o conhecido epíteto que lhe deu o sociólogo canadiano, Crawford Macpherson, de “individualismo possessivo”) – enviesa qualquer visão minimamente realista da sociedade e dos seus problemas, assentando na rejeição de uma alegada ditadura do politicamente correto (que supostamente seria apanágio da esquerda) e a efabulação, tão lapidarmente enunciada pela inefável neocon Maria de Fátima Bonifácio, de que “a liberdade e, portanto, a cidadania, está ameaçada pela omnipotência de um socialismo que arrebatou o poder e a partir do poder, quais gangsters em luta entre si, monopoliza a opinião publicada e esmaga a liberdade pública e privada.” (Público, 4/5/2021). De que é que esta senhora está a falar?

A 3ª Convenção do MEL (depois de anteriores edições em 2019 e 2020), que reuniu representantes da direita e da extrema-direita lusa e que tinha como objetivos a “construção de um horizonte de futuro para Portugal e a dignificação da imagem política na sociedade portuguesa”, quedou-se por um chorrilho de disparates e de teorias da conspiração, um arrazoado de delírios negacionistas e de mistificações populistas sob o pano de fundo, nunca abertamente declarado, da litania neoliberal da privatização total da economia, da máxima exploração laboral e da precarização da mão-de-obra, do desmantelamento do Estado social e da simplificação do sistema fiscal – leia-se o fim da progressividade fiscal e a redução de impostos para os mais ricos – e a reativação da famigerada e arcaica (tão antiga quanto o espírito fatalista e providencialista próprio do Ancien Régime, isto é, de tempos pré-liberais!) TINA, “there is no alternative”. Receita velha e conhecida, portanto.

Na reunião do MEL, as dificuldades e problemas reais do país, desde a desigualdade crescente, a pobreza e exclusão social, a degradação ambiental, a corrupção e a evasão fiscal, o subfinanciamento e consequente deterioração dos serviços públicos e da Segurança Social ou as sequelas pandémicas, estiveram olimpicamente ausentes. É significativo que assim seja. O alvo sempre foi – e sempre será – a esquerda e os valores que ela representa. Susana Garcia, candidata de extrema-direita pelo PSD ao município da Amadora nas próximas eleições autárquicas verbalizou, de forma absolutamente liminar, os propósitos desta ala política: “exterminar a esquerda”. O seu correligionário de extrema-direita, mas, desta vez, pelo Chega, declarou, no recente congresso deste partido, que, se fosse governo, iria “prender os dirigentes de esquerda”. Mas, junto com a esquerda, não será a própria democracia que acabará por ficar aprisionada? É sabido que a extrema-direita, ao longo da história, se serviu sempre da democracia para a destruir. E, como justamente denuncia o deputado pelo BE, José Manuel Pureza, “Neste tempo em que a democracia e o Estado de direito se tornaram empecilhos descartáveis para os navegadores à bolina da finança, em que o desdém das regras básicas da responsabilidade para com a representação popular assumiu expressões pornográficas – os «depoimentos» de Berardo, Vieira, Vasconcellos ou Moniz da Maia na comissão de inquérito ao Novo Banco são isso mesmo –, a extrema-direita passou a ser o seu rosto político.” (Visão, 27/5/21).

Em Espanha, também o PP e a sua candidata e recém-eleita presidente da Comunidade de Madrid, Isabel Díaz Ayuso, proclamou a “liberdade” contra o “socialismo e o comunismo”. O seu lema de campanha para as eleições de 4 de maio foi “Comunismo ou Liberdade”, utilizando as medidas restritivas de combate à pandemia de Covid-19 como arma política, ao desafiar o confinamento estabelecido a nível nacional pelo Governo do PSOE/Podemos e, por exemplo, manter bares e restaurantes abertos na capital espanhola, ao mesmo tempo que desvalorizava o facto de Madrid ser um dos três grandes focos de pandemia em Espanha e escamoteava a quase nulidade das suas políticas sociais. Como declarou Isabel Ayuso, “Quando te chamam fascista, estás do lado certo”, na sequência do envio de cartas com ameaças de morte (balas e uma navalha ensanguentada) a vários dirigentes políticos e governativos de esquerda. É este o exemplo que a direita portuguesa parece querer seguir.

A aparente popularidade destas posições políticas radica na subtil distinção, sublinhada por Boaventura de Sousa Santos, entre “participação” e “pertença”. Para este sociólogo coimbrão, a extrema-direita promove uma “lógica de pertença, seja ela nacionalista ou racista, contra a lógica de participação que é própria da democracia.” (Público, 22/5/21) E passa a explicar: “A diferença é radical e, por isso, invisível. Participamos numa realidade contribuindo para a construir, enquanto pertencemos a uma realidade já plenamente construída (nação, raça, etnia, casta), seja a construção real ou inventada. A pertença confere uma segurança a quem pertence na mesma proporção em que exclui quem a ela não pertence. Em períodos de crise, esta segurança é preciosa.” Boaventura conclui: “As escolhas em que assentam a participação e a pertença são muito diferentes. Na participação escolhe-se entre; na pertença escolhe-se contra.” Ora é precisamente o aprofundamento das desigualdades e a falência do Estado social – e não qualquer imaginada crise do “individualismo possessivo” – que alimenta o rancor extremista. Como sentencia de forma exemplar José Manuel Pureza, “A extrema-direita anima o povo zangado para evitar mostrar que é aliada de quem castiga o povo sofrido.”


Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 21:53
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Sábado, 24 de Abril de 2021
OS FUNDAMENTOS

Numa crónica anterior falei do conceito de agnatologia, termo usado pela primeira vez em 2008 pelo historiador norte-americano Robert Proctor, professor da Universidade de Stanford, para designar a “ciência da ignorância”, isto é, a ignorância não como mera ausência de conhecimento, mas como o resultado de um processo de “produção cultural de ignorância” induzido por um determinado projeto de poder e de organização da sociedade. Como explica a professora e investigadora do Instituto de Comunicações da Universidade Nova, Carla Baptista, que cita o académico estadunidense, “A produção cultural de ignorância utiliza duas estratégias discursivas: exponenciar a dúvida (os dados são manipulados para criar desconfiança sistémica) e promover a controvérsia (fabricar inimigos).” (Carla Baptista, “Os 3D das presidenciais: desigualdade, desinformação e demagogia”, Le Monde Diplomatique, ed. port., fevereiro de 2021).

A presente problemática da vacinação contra o Covid-19 é sintomática deste fenómeno. O conhecido bioquímico e escritor de ficção científica norte-americano Isaac Asimov disse, um dia, que “o aspeto mais triste da vida atual é que a ciência ganha conhecimento mais rapidamente que a sociedade em sabedoria”. Com efeito, a generalização do sapere aude kantiano está, ainda hoje, por cumprir. Ainda para mais quando os movimentos negacionistas que por aí pululam se reclamam, de forma tão lapidar quanto irrazoável (para não dizer, tão mistificadora quanto nociva), detentores da “verdade”. Teremos assim os arautos de uma sapiência revelada – os negacionistas – contra o rigor e precisão da investigação e conhecimento científicos, a oposição entre aqueles que denunciam a suposta instauração de uma “ditadura cientista” e que vislumbram todo o tipo de cabalas ao serviço de intenções obscuras de poder (desde a conspiração judaico-maçónica, ao grupo de Bilderberg ou aos agentes demoníacos George Soros ou Bill Gates), contra o trabalho exaustivo, certamente incerto, mas persistente e exigente por parte da comunidade científica internacional.

O objetivo dos primeiros é negar a realidade: não existe pandemia – é só uma “gripezinha”, como vaticinou essa luminária que dá pelo nome de Jair Bolsonaro (a versão grunha escolarizada, Donald Trump, foi perentório na certeza da dissipação da pandemia quando viesse o calor!) –, os milhões de vítimas não morreram de Covid mas de outras enfermidades, a proclamação da inutilidade das máscaras e do distanciamento social, a rejeição de qualquer tipo de confinamento e a alegação de que “o maior vírus é o medo” (como se leu em t-shirts envergadas numa manifestação negacionista, em Lisboa). Trata-se de um relativismo destrutivo e dissolvente, segundo a lógica do “salve-se quem puder” e ao serviço da “lei do mais forte” – o ideal da sociedade neoliberal em todo o seu esplendor. Este “mau relativismo” – aquele que equipara acriticamente qualquer perspetiva, e não aquele que resulta da pluralidade de opiniões e da diversidade de contextos, induzindo um esforço de compreensão e diálogo – como se lhe refere o filósofo e sociólogo francês Raymond Boudon, “acarreta uma profunda confusão intelectual, moral e política, sobretudo porque legitima a ideia de que o cidadão é mais sensível à sedução que à persuasão, ao charme da comunicação que à atração da racionalidade.” (Raymond Boudon, O Relativismo, Lisboa, Gradiva, 2009, p. 114), concluindo mesmo que este tipo de relativismo “esmaga o discernimento.” (ibid., p. 54).

Tal é, precisamente, o caldo mental que alimenta os populismos e os desvarios mais extremistas. Esta narrativa fantasiosa, assente num discurso falsamente libertarista, no sentido da proclamação de uma liberdade individual absoluta contra as regras elementares da vida em sociedade e, por consequência, contra a liberdade dos outros (e, neste caso, pondo mesmo em risco a vida de terceiros), tão bem expressa no slogan “Parem de proibir tanta coisa… Não consigo desobedecer a tudo!!!”, encontram eco nos temas-bandeira de partidos como o Chega, segundo se pode ler no recente Relatório de Segurança Interna (RASI 2020), onde o Serviço de Informações de Segurança (SIS) constata a aproximação dos movimentos de extrema-direita e dos negacionistas da pandemia (DN, 31/3/2021). Também José Pacheco Pereira chamou a atenção para esta ligação: “As origens destes movimentos são muito diferentes, têm várias fontes e algumas tradições, mas hoje fazem parte de uma nova extrema-direita que está a emergir em vários países europeus e nos E.U.A” (Público, 27/3/2021). O enorme sobressalto civilizacional a que assistimos obriga, isso sim, a reconhecer, como justamente faz Pacheco Pereira, que “O custo social e económico da pandemia e do combate à pandemia são os fatores a que se deve prestar mais atenção, para se diminuir o processo de radicalização em curso.”

As conceções obscurantistas e retrogradas emergentes, com eco em jornais como o Observador e o Sol – e difusão viral nas redes sociais – têm também presença assegurada nas televisões. E é este destaque mediático que, em grande medida, alimenta o fenómeno. A difusão das ideias negacionistas tem como fundamento uma visão simplista e maniqueia da sociedade e dos seus problemas. É esta simplificação da realidade – deduzida a partir não de opiniões diferentes, mas de factos diferentes (os famosos “factos alternativos” a que fazia referência a conselheira de Trump, Kellyanne Conway), que nos remete para a convergência entre uma “mentalidade simples” e uma “mentalidade fechada” – a simple-mindedness e a closed-mindedness – conceitos invocadas pela jornalista norte-americana Anne Applebaum (de resto, ela própria assumidamente republicana e conservadora) no seu livro O Crepúsculo da Democracia – o fracasso da política e a apelo sedutor do autoritarismo (Lisboa, Bertrand, 2020). Ora, quando se promovem debates sobre assuntos de ciência e se convidam cientistas e arrivistas ou diletantes, incorre-se no erro capital da igual valoração de uns e de outros, o que é profundamente demagógico e altamente perturbador. Como, a este propósito, sublinha Carl Zimmer, jornalista de ciência do The New York Times, “Se estiver a escrever um artigo sobre Geologia, não vou telefonar a alguém que acredita que a Terra é plana. Atribuir legitimidade a pontos de vista que não têm base científica é ridículo.” (Visão, 8/4/2021).

A ciência pode não ser perfeita ou infalível; mas é o melhor que o engenho humano alcança. O conhecimento científico é o que há de mais sistemático, rigoroso e informado em cada momento histórico (é que, de facto, “a Terra move-se”!). Claro que o que é promovido e o que se faz com esse conhecimento levanta todo um outro conjunto de questões.… que a ciência explica.


Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 14:56
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Domingo, 28 de Março de 2021
COMO DISSE?

A propósito da sua última produção, Elogio da dúvida (Lisboa, Edições 70, 2021) diz-nos a filósofa catalã Victoria Camps, “São as certezas que nos atraem, não as dúvidas. Estas, pelo contrário, obrigam-nos a pensar, exigem-nos muito esforço. E é por isso que, habitualmente, os seres humanos se ficam por aquilo que tomam por certo.” (Visão, 11/2/2021). Simplicidade, unidade, homogeneidade, segurança, são os conceitos essenciais deste processo de descomplicação da realidade que, pelo contrário, se apresenta sempre como complexa, ambígua, plural, contraditória e conflituante, diversidade esta geradora de desconfiança, medo e necessidade de proteção e de apaziguamento da consciência.

É neste contexto que o fenómeno político Trump e a generalidade das derivas populistas se podem entender. A investigadora da linguagem, Anna Szilágyi, em entrevista ao Público (18/10/2020), referiu-se à novidade trazida pelo discurso político de Donald Trump, com a utilização de palavras simples, constantemente repetidas, frases que não terminam, até impropérios, naquilo que esta estudiosa caracteriza por “informalidade radical”. Como disse um dia o então candidato às eleições presidenciais norte-americanas de 2016, “I’ve got the best words”. A sensação transmitida a quem o escuta, em virtude da extrema coloquialidade do discurso de Trump, é a de que “ele fala como eu”, levando à imediata identificação. E mais: “Quem ouve pode achar que se esta pessoa fala assim em público, é muito sincera. Ao não ajustar o estilo, pode gerar uma sensação de confiança em quem ouve. Até pode ser vista como heroica, alguém que não se autocensura.” A juntar a isto há a bazófia típica do vendedor – por exemplo, com o recurso constante a superlativos – e a desfaçatez no insulto e estigmatização dos adversários – “crooked Hillary”, “sleepy Joe”, etc. Tudo isto concorre para uma imagem de confiança e energia. E, como afirmou o ideólogo da campanha presidencial de Trump em 2016, Steve Bannon, aquele tinha sido eleito com base em três slogans: “Drenem o pântano”, “Prendam a Clinton”, “Construam o muro na fronteira”. Para Bannon, “Isso era pura raiva”, acrescentando “Raiva e medo são o que faz as pessoas irem às urnas.” (cit. em Maria Vlachou, “A curadoria do desconforto”, Público, 6/2/2021). Nas palavras de Szilágyi, “Este tipo de retórica ativa emoções fortes, provoca sentimentos.” Sobretudo dá-nos uma visão simplista – e necessariamente distorcida – do mundo. No seu esquematismo fundamentalista chega a ser criminosa, porque é enganadora e enfraquece a capacidade de entendimento da realidade e a possibilidade da verdadeira resolução dos problemas.

Ora, é no contexto desta simplificação da realidade – que, dada a sua complexidade intrínseca, nos transmite uma imagem que não pode deixar de ser caricatural – que vem a propósito o conceito de agnatologia, termo usado pela primeira vez em 2008 pelo historiador norte-americano Robert Proctor, professor da Universidade de Stanford, para designar a “ciência da ignorância” e que lhe serviu para analisar o efeito do primeiro ano da presidência de Donald Trump, caracterizado como “a idade de ouro da ignorância”. Desde 2008 que Proctor vem chamando a atenção para a ignorância não como mera ausência de conhecimento, mas como o resultado de um processo de “produção cultural de ignorância”. Como explica a professora e investigadora do Instituto de Comunicações da Universidade Nova, Carla Baptista, que cita o académico estadunidense, “A ignorância é manufaturada, culturalmente induzida e suporta projetos de poder”, acrescentando que “A produção cultural de ignorância utiliza duas estratégias discursivas: exponenciar a dúvida (os dados são manipulados para criar desconfiança sistémica) e promover a controvérsia (fabricar inimigos).” (Carla Baptista, “Os 3D das presidenciais: desigualdade, desinformação e demagogia”, Le Monde Diplomatique, ed. port., fevereiro de 2021).

Num inesperado laivo de lucidez, Carlos Rodrigues, diretor-executivo do Correio da Manhã e da CMTV, invocando Larry King, pôs o dedo na ferida relativamente àquilo que designou como “entrevista argumentativa”. Num artigo intitulado “Ouvir ou falar?” (o falecido jornalista norte-americano Larry King dizia que nunca tinha aprendido nada enquanto falava, mas apenas enquanto ouvia), e a propósito da cobertura televisiva da pandemia de Covid-19, Carlos Rodrigues afirma: “A entrevista argumentativa organiza-se sempre da mesma forma: o jornalista diz que não é um especialista. A seguir a exaltar o óbvio, cita uma série de números e uma quantidade suficientemente avassaladora de estatísticas, com a chancela de uma instituição científica qualquer, idealmente misturando universidades portuguesas e estrangeiras. Segue-se a emissão de uma qualquer síntese, em geral condizente com as mensagens prevalecentes nesse dia nas redes sociais, meio no qual as estrelas do telejornalismo são cada vez mais useiras e vezeiras. Com sorte, e ainda a digerir a quantidade avassaladora de informação que também acabou de ouvir pela primeira vez, o entrevistado consegue balbuciar alguma reflexão que faça sentido, para logo ser interrompido pela reafirmação de alguma contradição/esquecimento ou responsabilidade atribuível ao próprio. Por vezes tudo isto termina após um conjunto de frases desconexas de quem aceitara ser entrevistado, mas que afinal se apanha a ser confrontado com as opiniões do jornalista.” (TVGuia, 18/2/21). A missão de esclarecimento e de informação própria da comunicação social perde-se assim na assunção espúria de um poder que não deve ser o seu. Ao invés, insiste-se na reprodução da ignorância ao serviço de interesses obscuros e, sobretudo, não escrutinados. Esquecem-se as regras mais elementares da relevância informativa e do interesse público, substituídas pela inculcação ideológica mais descarada.

Os debates eleitorais da última campanha presidencial em Portugal são um bom exemplo disso. Como sublinha Carla Batista, “Esta é a realidade comunicacional do Chega: foco máximo na amplificação mediática das mensagens, preocupação mínima com a sua coerência ou seriedade.”, acrescentando, “Ventura em 2020, tal como Trump em 2016, prefigurou-se como o ator principal.” (Carla Batista, op. cit.). Carla Batista conclui de forma lapidar: “Mas a cultura cívica que amplifica as mensagens populistas é fabricada pelos media. A manta de retalhos em que assentou a comunicação eleitoral do Chega espelha as aporias do sistema mediático contemporâneo, alimentado por detritos que gravitam os mundos offline e online. Notícias velhas, (des)informação omissa, imagens fabricadas, excertos de intervenções descontextualizadas, tudo pode e foi utilizado para aumentar descrença e hostilidade. […] Não é expectável que a televisão-espetáculo seja uma instituição credível para regular a política-populista. Ambas se fertilizam, e o futuro provoca o mesmo calafrio do poema de Álvaro de Campos: «Sei que me espera qualquer coisa/Mas não sei que coisa me espera.»



Hugo Fernandez





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Sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2021
AMANHÃ ACONTECEU

Para esta crónica tomei de empréstimo o título homónimo de um filme do cineasta francês René Clair, de 1944, em que, graças à misteriosa personagem Pop Benson, o repórter Larry Stevens consegue antecipar 24 horas os acontecimentos, o que lhe vai granjear grande fama e proveito, quer em furos jornalísticos, quer em apostas desportivas; até ao dia em que prevê a própria morte. A perspetiva aqui adotada prende-se sobretudo com a capacidade de antecipação das situações e com a necessidade de prevenir males futuros a partir das lições do passado.

O pensador social inglês Richard Tawney, no prefácio à edição de 1951 da sua célebre obra Equality, cita o jornal The Times de 1 de julho de 1940, nas vésperas do que ficará conhecida como a “Batalha de Inglaterra”, em plena II Guerra Mundial, para ilustrar as perplexidades a que chegaram as democracias liberais num tempo de crise como era aquele que então se vivia: “If (…) we speak of democracy, we do not mean a democracy which maintains the right to vote, but forgets the right to live and work. If we speak of freedom, we do not mean a rugged individualism which excludes social organisation and economic planning. If we speak of equality, we do not mean a political equality nullified by social and economic privilege. If we speak of economic reconstruction, we think less of maximum production (though that too will be required) than of equitable distribution.” (Tawney, 1952: 10). Para Tawney, o dilema que estava colocado à sociedade da época aparecia de forma muito clara: “It may well be the case that democracy and capitalism, which at moments in their youth were allies, cannot live together, once both have come of age. When that contingency arises, it is necessary to choose between them.” (Richard Tawney, Equality, London, George Allen & Unwin, 1952, p. 15).

Penso que vivemos num contexto em que o dilema enunciado por Richard Tawney em meados do século passado adquire uma atualidade e premência indiscutíveis. Com efeito, num rápido relance pela nossa história recente, verificamos que a ordem demoliberal que governou as sociedades ocidentais no pós II Guerra Mundial e que permitiu edificar o Estado social na segunda metade do século XX, o que, apesar das suas insuficiências, resultou em benefício da generalidade da população, foi abruptamente interrompida pela onda neoliberal que, a partir da década de 80 do século passado, tratou de nos levar a um regresso tormentoso à selvajaria manchestariana da centúria de oitocentos, certamente com outros mecanismos tecnológicos assim como ideológicos, mas com idênticos propósitos de acumulação desregulada – e despudorada – de riqueza nas mãos de uns poucos e de aprofundamento brutal das desigualdades sociais. Nestas circunstâncias, assistimos a uma inexorável subjugação da democracia aos ditames do capitalismo. Emerge, uma vez mais, a questão da escolha.

Não é novo este dilema. Desde a sua implantação, o liberalismo tem sido confrontado com a pressão das aspirações democráticas que, mesmo num contexto de exploração capitalista, permitiram, ainda que à custa da determinação e sacrifício de muitos, conquistas cívicas deveras significativas e upgrades civilizacionais que se constituíram como verdadeiro património da humanidade. Mas, como nada é eterno e muito menos garantido, encontramo-nos hoje perante um daqueles momentos decisivos da história, em que as escolhas que forem feitas determinarão de forma inelutável o nosso futuro imediato. Já nem falo das consequências ambientais desastrosas resultantes da perpetuação de um extrativismo galopante ou da perpetuação de conflitos destrutivos para gáudio de alguns. Mas refiro-me, por exemplo, à subserviência inacreditável da UE aos interesses privados das grandes companhias farmacêuticas que, num estado de emergência pandémica em que milhares de pessoas estão a morrer todos os dias, e apesar da investigação feita para o fabrico das vacinas contra o covid-19 ter sido, em grande medida, financiada por dinheiros públicos comunitários, se vê sujeita a ter que negociar lotes e prazos de entrega, inclusive à revelia das condições contratuais previamente assinadas, que garantiam uma cobertura atempada e generalizada da população europeia. Como é possível que não haja, ainda que de forma pontual e com caráter de exceção – e mesmo com algum tipo de ressarcimento – uma intervenção dos Estados soberanos na requisição das patentes e no fabrico alargado das vacinas, em defesa do interesse comum dos seus cidadãos?

A ordem neoliberal hegemónica convoca-nos, mais do que nunca, a tomar posição em defesa da democracia. Mas a escolha está cheia de alçapões e dificuldades. Talvez aquele que se apresenta como o desafio maior para as forças políticas democráticas, tem a ver com a vaga populista que tem assolado o mundo nesta última década. A sua especificidade radica numa autêntica armadilha ideológica: conseguir dar voz ao ressentimento das populações relativamente ao “sistema”, fazendo a apologia de posições ultra retrógradas e apologistas do statu quo. Na explicação de Boaventura de Sousa Santos, a extrema-direita ganha terreno precisamente “por meio da exploração do mal-estar social que a subordinação crescente da democracia ao capitalismo provoca. Ou seja, exploram as mesmas condições sociais que mobilizam os movimentos anti sistémicos de esquerda.” A grande diferença é que, “enquanto para estes o mal-estar social decorre precisamente da sujeição da democracia às exigências do capitalismo, exigências cada vez mais incompatíveis com o jogo democrático, para os movimentos de extrema-direita o mal-estar decorre da democracia e não do capitalismo.” (Boaventura de Sousa Santos, “O antissistema e a defesa da democracia”, Jornal de Letras, 10/2/2021, pp. 23-25).

Creio também que é esta a razão principal pela qual camadas de população desfavorecidas e marginalizadas pela ordem hegemónica aderem com tanta facilidade às mensagens populistas. É que, na simplificação maniqueísta a que o pensamento dominante nos conduziu – com a litania tóxica das “fake news”, da “pós-verdade” e dos “factos alternativos” [ou, na linguagem académica dos especialistas britânicos em comunicação política, Andrew Chadwick e Christian Vaccari, “desconsideração intencional pela verdade” (cit. em Carla Baptista, “Os 3D das presidenciais: desigualdade, desinformação e demagogia”, Le Monde Diplomatique, ed. port., fevereiro de 2021, pp. 12-13)] – a contestação ao “sistema” significa, sobretudo, a contestação à democracia, deixando incólume o capitalismo e as dinâmicas mais exploradoras e alienantes da globalização neoliberal. Ao erigirem como bandeira política falsos problemas com forte carga simbólica, escondem realidades estruturais bem mais decisivas, mas, simultaneamente, menos percetíveis. É assim que se concentram as atenções, por exemplo, em determinados grupos populacionais, esquecendo-se as relações sociais que determinam a vivência de todos.

Servindo-se dos mecanismos de representação política da democracia, estes aprendizes de ditadores, uma vez no poder (e, normalmente com o conluio dos partidos tradicionais de direita), exercem uma autoridade totalmente arbitrária e violadora dos direitos, liberdades e garantias constitucionais dos cidadãos: privatização dos serviços públicos essenciais, defesa da prisão perpétua – quando não pena de morte –, castração física e esterilização de pedófilos e mulheres que pratiquem a interrupção voluntária da gravidez, mutilação de infratores – “a alguns ladrões não faria mal cortarem as mãos”, declarou, pressuroso, André Ventura num debate televisivo – segregação das minorias, deportação de imigrantes, intolerância, racismo, negacionismos e fundamentalismos vários. A conclusão que Boaventura de Sousa Santos tira é perentória: “Acossada pela ideologia global da extrema-direita, a democracia morrerá facilmente no espaço público se não se traduzir no bem-estar material das famílias e das comunidades. Só assim a democracia impedirá que o respeito dê lugar ao ódio e à violência, e a dignidade dê lugar à indignidade e à indiferença.” (Santos, op. cit.).

Certamente isso explicará fenómenos eleitorais nacionais tão extraordinários como o facto da votação no candidato presidencial André Ventura ter atingido, no concelho de Moura, o triplo da média nacional, e que nas freguesias da Póvoa de São Miguel (PS) e Sobral da Adiça (CDU) tenha vencido. Neste último caso, o presidente da Junta, Bruno Monteiro, eleito com maioria absoluta (59% dos votos) explica o sucedido com “a campanha de desinformação do próprio candidato, que faz passar uma mensagem que não é verdadeira e ilude as pessoas. É uma mensagem racista, xenófoba e que faz com que as pessoas acreditem que anda meio povo a trabalhar para outro meio”. (Diário do Alentejo, 5/2/2021). No mesmo sentido, para Francisco Parra, presidente da Junta de Freguesia de Safara e Santo Aleixo da Restauração (PS), onde Marcelo Rebelo de Sousa ganhou as eleições presidenciais com apenas 28 votos de diferença relativamente ao candidato do Chega, muitos eleitores aproveitaram as eleições para “um voto de protesto”, explicando que “Estamos um bocadinho esquecidos, ninguém olha por nós. Possivelmente as pessoas pensaram que assim seria uma forma de termos visibilidade”. (ibid.). Não nos esqueçamos que, dos 30 concelhos em que Ventura teve maior votação, 28 são no interior, tendo ficado em 2º lugar em todos os distritos desta zona do país.

Estes resultados eleitorais beneficiam das distorções e impasses a que chegou o próprio regime democrático, potenciadores da atuação dos movimentos políticos extremistas. Comumente, o populismo é caracterizado a partir de três ideias fundamentais: a oposição entre “o povo” e uma “elite” sempre considerada corrupta, o discurso em nome do povo e da sua suposta “vontade” e o facto de apresentar aquilo que António Costa Pinto define como uma “ideologia fina”, isto é, “sem coerência, eclética, e por vezes contraditória e mutante.” (António Costa Pinto, O regresso das ditaduras?, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2020, pp. 89-90). Estas dicotomias simplistas, decorrentes de um processo de descomplexificação – amiúde grotesco – da realidade, induzem uma sensação de identidade e empatia em amplas camadas da população, revelando-se sumamente eficazes. Não haja, no entanto, dúvidas, quanto ao caráter do populismo de extrema-direita: servindo-se da democracia e dos mecanismos da representação política, seguem princípios autoritários e promovem a pessoalização do poder. E, uma vez instalados na governação, a sua primeira vítima é, precisamente, a democracia.

O próprio jogo político-partidário tem contribuído, sobremaneira, para semelhante desenlace. Na sua obra Capital et Idéologie, o afamado economista francês Thomas Piketty chama-nos a atenção para a alteração do sentido de voto nos últimos 30 anos no mundo ocidental e à lenta decomposição da dicotomia direita-esquerda classista do pós-II Guerra (cf. Thomas Piketty, Capital et Idéologie, Paris, Seuil, 2019, pp. 1000-1009). Correspondendo à redução das desigualdades de rendimento e património, bem como ao incremento de políticas públicas de proteção aos mais desfavorecidos e à progressividade dos impostos, próprias do Estado-providência, na sequência das destruições provocadas pelas duas guerras mundiais (1914-1945) – e contrastando fortemente com a enorme concentração de capital e aprofundamento da desigualdade social ocorrida ao longo do século XIX até 1914 – as décadas de 1950-1980 vão assistir à competição de tipo classista entre a esquerda e a direita, em que os partidos do primeiro espectro político se apoiavam nas camadas socialmente mais desfavorecidas, enquanto que os segundos obtinham a maioria dos seus sufrágios naqueles que se situavam numa situação social mais estável e favorecida.

Mas, no período que vai de 1990 a 2020, este estado de coisas vai sofrer uma profunda alteração na generalidade das democracias ocidentais. Para Piketty, assiste-se, doravante, a uma inversão dos papéis: a esquerda eleitoral representa cada vez menos os interesses dos trabalhadores, para representar cada vez mais os setores sociais mais escolarizados e urbanizados, os quadros diplomados – o que ele chama “esquerda-brahmane” – que viram a sua ascensão social assente no processo de globalização, Em contrapartida, as classes populares, crescentemente arredadas do bem-estar social, ou se afastam da competição eleitoral, engrossando as percentagens da abstenção, ou potenciam o crescimento dos movimentos populistas e de extrema-direita – pretensamente antissistema – que se aproveitam deste desnorte. À direita – o que ele apelida de “direita comerciante” – juntam-se crescentemente camadas populares que não se reveem nas elites “bem-pensantes”. Não é por acaso que nas últimas eleições presidenciais que ditaram o afastamento de Donald Trump, “Nos cem condados que dispõem das melhores escolas do país, Joe Biden recolheu 84% dos votos. Nos cem condados que beneficiam do rendimento médio mais alto, obteve 57%. Há trinta anos, os republicanos ganhavam confortavelmente nestas duas categorias.” (Thomas Frank, “Paranoias americanas”, Le Monde Diplomatique, ed. port., fevereiro de 2021, p. 26).

A desfocagem ideológica assim produzida faz com que as políticas públicas de governos de direita ou de esquerda, que se alternam no poder, sejam cada vez mais indiferenciadas, alinhando ambos pela mesma bitola da desregulação neoliberal, abstendo-se de resolver os problemas das populações e agravando as desigualdades sociais existentes. O mundo globalizado funciona em benefício dos dois grupos dominantes, aqueles que dispõem do capital educativo ou financeiro mais elevado (elites intelectuais e financeiras). Juntando-se a isto o peso dos fluxos migratórios, impõem-se crescentemente as clivagens de tipo identitário, os conflitos etno-religiosos e as derivas nativistas. Como justamente refere Piketty, “le sentiment d’abandon des classes populaires face aux partis sociaux-démocrates (au sens large) a constitué un terreau fertile pour les discours anti-immigrés et les idéologies nativistes. Tant que la manque d’ambition redistributive qui est à l’origine de ce sentiment d’abandon n’aura pas été corrige, on voit mal ce qui empêcherait ce terreau d’être exploité toujours davantage.” (op. cit., pp. 1002-1003).

O resultado está à vista. O consulado trumpista nos EUA e a ascensão política da extrema-direita ou dos seus sucedâneos iliberais europeus, constituem provas cabais desta evolução. Denunciando o que designa por “le nouveau récit hyperinégalitaire” (Piketty, op. cit., p. 1112), Piketty conclui: “La révolution conservatrice des années 1980, l’effondrement du communisme soviétique et le développement d’une nouvelle idéologie de type néopropriétariste ont conduit le monde vers des niveaux impressionnants et incontrôlés de concentration des revenus et des patrimoines en ce début de XXI siècle.” (ibid., p. 1111). E isso tem consequências. Ecoam, lapidares, as palavras do The Times desse longínquo ano de 1940, evocadas por Richard Tawney: “se falamos de democracia, não falamos só do direito de voto, esquecendo o direito a viver e trabalhar. Se falamos de liberdade, isso não significa o estrito individualismo que exclui a organização social e o planeamento económico. Se falamos de igualdade, não nos referimos a uma igualdade política anulada pelo privilégio social e económico. Se falamos de reconstrução económica, pensamos menos na maximização da produção (embora isso também venha a ser necessário) do que numa distribuição equitativa.” [tradução minha].

É imperioso a esquerda fazer a sua escolha e resgatar a democracia do capitalismo. Até insuspeitos e prestigiados liberais como Thomas Marshall ou Ralf Dahrendorf, não hesitaram em defender que a cidadania “está, por definição, ao abrigo dos caprichos do mercado.”, proclamando, “A cidadania não é um conceito económico.” (Ralf Dahrendorf, Ensaios sobre o liberalismo, Lisboa, Fragmentos, 1993, p. 178). Não nos esqueçamos que o grande objetivo de André Ventura é a instauração de uma nova república, a IV, a dele, aquela que tão elucidativamente designou por “ditadura da gente de bem”. Ora, pegando nas palavras de Daniel Oliveira, “Quem não percebe o momento histórico que vive tende a não construir o futuro histórico que deseja.” (Daniel Oliveira, Manifesto, nº5, Outono e Inverno 2020/21, p. 47). Se persistirmos numa espécie de cegueira ideológica e de conversa fechada, a democracia não será mais que uma farsa. E, como sabemos, são demasiadas as ocasiões em que a farsa e a tragédia se confundem na história.

 

Hugo Fernandez



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Terça-feira, 26 de Janeiro de 2021
ANATOMIA DO PENSAMENTO FASCISTA

No passado dia 6 de janeiro, aconteceu o impensável: o assalto ao Capitólio, em Washington, sede do poder legislativo americano e um dos símbolos mundiais da democracia, por parte de uma horda de bárbaros fanatizados por um dirigente político demencial e assassino, Donald Trump. Apesar de derrotado em eleições perfeitamente livres e justas, deixou a sua marca indelével de ódio, intolerância, ignorância e destruição, num país que governou durante 4 anos de autêntico pesadelo. Perante tal acontecimento, impõe-se a questão: à entrada da terceira década do século XXI é pertinente falar do fenómeno fascista?

A resposta a esta interrogação foi-nos dada num artigo de opinião do jurista e sociólogo Boaventura de Sousa Santos no Jornal de Letras (novembro de 2020) intitulado “Fascismo 2.0: curso intensivo”. Neste texto notável (porque sumamente clarividente), que utilizarei como guia de reflexão, o académico coimbrão traça-nos um roteiro do pensamento reacionário contemporâneo, que tem como lema geral “como usar a democracia para a destruir”. Percorrendo o pensamento de ditadores como Trump, Bolsonaro ou Duterte, Sousa Santos discorre sobre alguns dos seus princípios políticos essenciais. Não reconhecer resultados eleitorais desfavoráveis é um deles, partindo do axioma de que “a democracia só serve para chegar ao poder. Uma vez no poder, nem a governação, nem a rotação democrática é aceitável.”

Seguindo a mesma lógica, assistimos à absoluta autarcia do pensamento fascista. Nada do que é desfavorável à causa pode ser avaliado segundo os mesmos critérios do que lhe é favorável; se serve a causa é ótimo, se não, precisa de ser eliminado. Deve, por isso, falar-se apenas para os convertidos, naquilo que é uma autêntica atitude de seita. Se se alargar o campo social de intervenção, isso apenas decorre da justeza da mensagem e não de uma preocupação prévia com o alcance da sua difusão. Como sublinha Boaventura, “Nunca falar ou governar para o país. E governar sempre e apenas para a base social.” Neste pressuposto, o jogo democrático, com a necessidade do convencimento político, do estabelecimento de compromissos, do suavizar da mensagem e incorporação da diferença, da busca de consensos e da tentativa de agradar a gregos e troianos, é liminarmente rejeitado pelo pensamento fascista, para o qual “A autoestima da base social é o único serviço político sério.”

Para os fascistas, o ressentimento é o “recurso político mais precioso”, recorrendo sistematicamente a dicotomias simplistas e infundadas – nacional/estrangeiro (imigrante ou refugiado), justiça/excesso de direitos (preconceito garantístico), empreendedorismo/subsidiodependência (preguiça dos pobres e trabalhadores), brancos/negros, cristãos/muçulmanos, maiorias/minorias, etc. Tudo se reduz a um jogo de soma nula, em que um ganha o que o outro perde. Como refere Sousa Santos, “A política do ressentimento exige, além de bodes expiatórios, teorias da conspiração, demonização dos opositores, ataque sistemático aos media, à ciência e a todo o conhecimento que invoque especial perícia, incitamento à violência e ao ódio para eliminar argumentos, autoglorificação do líder como único defensor fiável das vítimas.”

E quanto ao líder fascista? “A realidade não existe”, diz Boaventura, “O líder mostra o controle dos factos sobretudo (1) quando faz parar a realidade supostamente adversa, ou (2) quando, não podendo pará-la, lhe retira toda a sua dramaticidade. Trump mostrou o caminho: pára-se a pandemia se se deixar de falar dela e, para deixar de ser grave, basta parar a testagem intensiva.” (até porque, como dizia Bolsonaro, com a desconcertante franqueza dos néscios, “Um dia todos vamos morrer”!). Sousa Santos chama a atenção para um aspeto matricial da ideologia fascista: “Como para o fascismo a mentira é tão verdadeira quanto a verdade, quanto mais dramático for o contraste da invenção com a realidade, tanto melhor.”

Perante a versão radical do capitalismo – o neoliberalismo –, indutor de uma crescente degradação das condições de vida e a simultânea concentração extremada das riquezas, há cada vez mais camadas da população que se sentem ameaçadas e abandonadas à sua sorte, independentemente de quem está no poder. Com o enfraquecimento ou desaparecimento de alternativas políticas credíveis e o neoliberalismo triunfante, passou a viver-se num círculo vicioso de conformismo/ressentimento/extremismo galopantes. Neste contexto, e como explica Boaventura, “A polarização já não é entre esquerda e direita. É entre o sistema (deep state) e as maiorias deserdadas, entre o 1% e os 99%.”, por mais mistificadora que esta visão se apresente. Mas, como acrescenta o académico coimbrão, o fascismo 2.0 está “longe de estar contra o 1%, é financiado por ele. A polarização contra o 1% é meramente retórica e visa disfarçar a verdadeira polarização entre a democracia e o fascismo 2.0, para que o fascismo prevaleça democraticamente.”

Boaventura de Sousa Santos termina a sua reflexão com uma referência ao caso nacional, o que, tendo em conta o que aconteceu nas eleições presidenciais do passado domingo, acaba por ter um caráter verdadeiramente premonitório: “A velha direita pensa que domestica a extrema-direita, mas, na verdade, é o contrário que vai ocorrer. Um exemplo português: o partido de centro-direita, PSD, dispôs-se a coligar-se com o partido Chega, de extrema-direita, «se este se moderar»; resposta imediata do líder do Chega: não é o Chega que se vai moderar, é o PSD que se vai radicalizar. Neste caso, o aprendiz do fascismo 2.0 é o melhor profeta dos tempos.”



Hugo Fernandez





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Domingo, 6 de Dezembro de 2020
CRÓNICA AMERICANA

O afastamento de Donald Trump da presidência dos EUA foi o fator mais decisivo das últimas eleições americanas. Isso significa que a maioria dos votantes rejeitou o seu mandato. Tudo ficou, então, resolvido? Não, tudo está por resolver. Não nos podemos esquecer que, na sua tentativa de reeleição, Trump conseguiu somar mais 7 milhões de votos àqueles obtidos em 2016 (tornando-se, assim, o segundo candidato presidencial mais votado da história dos EUA; o primeiro é, justamente, Joe Biden). Quase metade dos eleitores americanos identificaram-se com o personagem e a sua governação. Destes contam-se milhões de trabalhadores, mulheres, negros, hispânicos e, certamente, muitas pessoas provenientes de extratos sociais que estão longe de poderem ser considerados privilegiados. O que pode explicar isto?

Partimos do seguinte postulado: os EUA – o “mais importante laboratório social do mundo”, segundo o historiador José Pacheco Pereira (Público, 10/10/2020) – são o expoente máximo do capitalismo, com graus elevadíssimos de exploração e injustiça social. Quaisquer que sejam as explicações para a situação que aí se vive, estamos em crer que a desigualdade e discriminação intrínsecas à sociedade norte-americana assentam em três C’s matriciais que concorrem para a existência de largas dimensões de disfuncionalidade no seu seio: Cor, Classe e Cultura. Estes três fatores genéticos da realidade estadunidense ajudam a explicar muitos dos feitos, dos mitos, das frustrações e da revolta que, a cada passo da história, entrevemos num país que, para todos os efeitos, constitui um ícone da civilização ocidental.

Comecemos pela questão racial. A América assistiu, na sua origem, ao extermínio dos índios (cerca de 15 milhões) e à escravatura [4 milhões de indivíduos trabalhavam nas plantações do sul dos EUA em 1860, constituindo a maior concentração de escravos observada na história (cf. Thomas Piketty, Capital et Idéologie, Paris, Seuil, 2019, p. 251)]. São essas realidades que justificam a teoria do “racismo sistémico” desenvolvida pelo sociólogo norte-americano Joe Feagin. Com efeito, os EUA foram criados a partir da opressão extrema em termos raciais, sendo “o único país industrializado que tem a escravatura como base. E esses escravos criaram uma quantidade impressionante de riqueza para os colonos brancos e seus descendentes.”, acrescentando que, “Se traçarmos uma linha temporal, percebemos que 340 ou 350 anos da História dos EUA foram de opressão extrema em termos raciais.” (I, 30/11/2020). Daí o caráter verdadeiramente fundacional do racismo na sociedade americana, o que, aliás, explica a permanência de discriminações raciais legais até épocas tão tardias quanto a década de 60 do século XX, tendo em Donald Trump e seus apoiantes, dignos sucessores.

É sabido como a questão esclavagista provocou uma sangrenta guerra civil de 4 anos (1861-1865) entre os Estados do Norte (abolicionistas) e do Sul (esclavagistas), provocando perto de 700 mil mortos (mais do que a totalidade dos mortos militares de todas as guerras travadas pelos EUA). O equilíbrio entre as duas partes tinha sido mantido, desde 1820, pelo chamado Compromisso do Missouri, que estabelecia, nas zonas recém-conquistados do Oeste (o mítico Far West), uma linha de demarcação entre os territórios “livres” (onde a escravatura era proibida) a Norte, e os territórios esclavagistas, a Sul. Mas, perante a pressão do movimento pró-abolicionista, o Congresso norte-americano aprovou, em 1854, uma resolução que atribuía a cada novo Estado da União a decisão sobre o estatuto que pretendia adotar, provocando inúmeras controvérsias. Foi neste contexto que o Partido Republicano fez eleger para a presidência o abolicionista Abraham Lincoln.

Inicialmente, não era intenção dos Estados do Norte exigirem aos do Sul a abolição imediata da escravatura e, muito menos, qualquer reivindicação de igualdade racial. Do que se tratava, no início do mandato de Lincoln, em 1860, era do estatuto a atribuir aos novos territórios do Oeste, que estavam a ser colonizados em larga escala e que tinham um potencial económico gigantesco. A bem da unidade nacional, Lincoln, oriundo do Illinois industrial (cuja cidade de Chicago permanece um dos principais centros fabris e financeiros do país), recusava estender o regime esclavagista aos novos Estados, seguindo um modelo económico e ideológico fundado no mercado de trabalho livre e concorrencial, no ajustamento espontâneo da exploração, do consumo e da maximização dos lucros, e na consequente integração no espaço económico continental e mundial de todos os territórios da União, propondo aos Estados do Sul, em contrapartida, um processo de emancipação dos escravos extremamente gradual, que se podia prolongar até ao final do século, sempre acompanhado das devidas compensações financeiras aos respetivos proprietários. Os sulistas, por seu lado, temiam o isolamento no todo nacional e a marginalização do seu modelo económico esclavagista-protecionista, bem como a fuga dos escravos para os novos Estados livres. A radicalização das posições e a recusa de qualquer concessão por parte da Confederação sulista, acabou por desencadear a Guerra da Secessão americana (sobre todo este processo, cf. Piketty, op. cit., parte II, em especial pp. 275-294).

As palavras de Abraham Lincoln em resposta ao seu rival nas eleições presidenciais de 1860, o congressista e senador Democrata do Illinois, Stephen A. Douglas, quando este alegou que a famosa prescrição inicial da Declaração da Independência – “that all Men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty, and the Pursuit of Hapiness” – apenas se aplicava aos brancos e europeus, não se destinando nem aos negros, nem aos índios ou aos emigrantes provenientes da Ásia, são verdadeiramente esclarecedoras. Reconhecendo que os “pais fundadores” não tinham intenção de afirmar que todos os homens eram iguais em todos os aspetos, nem que o gozo de iguais condições seria imediato ou sequer previsível, Lincoln respondeu-lhe: “Certainly the negro is not our equal in color – perhaps not in many other respects; still, in the right to put into his mouth the bread that his own hands have earned, he is the equal of every other man, white or black. […] All I ask for the negro is that if you do not like him, let him alone. If God gave him but little, that little let him enjoy.” (cit. em Sanford A. Lakoff, Equality in Political Philosophy, Cambridge, Massachusetts, Harvard University Press, 1964, p. 2). Ficava, desta forma, enunciada uma das principais contradições da sociedade americana.

A questão de classe é igualmente central na construção deste país, adquirindo particular acuidade nos tempos que correm. É sabido como Donald Trump conseguiu federar todo o tipo de descontentamentos, que vão das vítimas da globalização, da desregulação neoliberal e dos efeitos concorrenciais dos acordos internacionais de comércio livre, ao colapso financeiro de 2008 e da gigantesca recessão que se lhe seguiu, à perda sucessiva de rendimentos e ao crescimento exponencial das desigualdades, às complexas consequências sociais (marginalização de largas camadas da população) da automatização, robotização e informatização generalizadas da economia e vida social. Todos estes fatores contribuíram para a crescente dicotomia entre ricos e pobres, entre urbanos e rurais, entre integrados e desadaptados, ao verdadeiro nascimento de duas Américas de características crescentemente antagónicas, uma dinâmica, cosmopolita, próspera e progressista, e uma outra, tradicionalista, conservadora, profundamente religiosa e nacionalista.

Alguns indicadores bastam para ilustrar a situação a que se chegou. Nos EUA, o 1% dos mais ricos detêm 40% da riqueza produzida no país, sendo que os menos afortunados têm o seu rendimento limitado a cerca de 10%. Há perto de 1 milhão de indigentes sem-abrigo e um em cada seis americanos vive abaixo do limiar da pobreza. Os EUA contam ainda com quase 20 milhões de pessoas que abusam de drogas e a maior população prisional do mundo, com 2,2 milhões de detidos. Para muitos pequenos agricultores e trabalhadores fabris brancos que consideram que é o seu trabalho que verdadeiramente sustenta a nação estadunidense, mas que, apesar disso, não conseguem obter o reconhecimento social que pensam que lhes é devido e, sobretudo, a quem faltam os estudos e um diploma académico que lhes permita ascender na sociedade, sobrevém a aversão e o ódio para com a suposta “elite” social e política. Como explica José Pacheco Pereira, para aqueles a quem Hillary Clinton classificou como “deploráveis”, “há aqui duas perdas: ser branco e já não ter os privilégios de o ser, face aos negros, aos latinos e a todos os «não americanos»; e ser trabalhador manual, não ter um diploma e por isso ser marginal na sociedade, estar fora da elite.” (Público, 10/10/2020).

Para Pacheco Pereira, nos EUA (e, de facto, um pouco por todo o lado), “O lubrificante deste ressentimento são as redes sociais, porque dão um meio de expressão e contacto para todos aqueles que se sentem excluídos do discurso respeitável e encartado.”, com absoluto “desprezo pelo saber profissional e pelas hierarquias assentes no conhecimento, cujos efeitos vão desde a disseminação das teorias conspirativas até aos comportamentos anticientíficos”. Este pretenso “igualitarismo”, sumamente desclassificado, parte do princípio de que qualquer um pode dizer o que quiser, com idêntica valia, quer se tratem de informações verdadeiras ou falsas, quer se possua ou não conhecimento sobre o que se diz. Assistimos áquilo que Pacheco Pereira caracteriza como “a tribalização da verdade, a perda do valor dos factos, a indiferença pela realidade objetiva”. Num país onde estudar e concluir um curso universitário é o grande diferenciador social, esta América branca, pobre, ultraconservadora, hiper-religiosa e rural ainda considera o conhecimento científico – e a cultura, de uma forma geral – como algo de pecaminoso e corruptor das almas.

Chegamos, assim, ao terceiro fator constituinte da realidade americana: a cultura. Para lá de todo o discurso meritocrático, da imagem dos self-made men e da apologia da América como “terra das oportunidades”, a concentração do investimento educativo num reduzido número de escolas de elite, a enorme disparidade social no acesso à educação, sempre em benefício dos mais ricos, e uma grande opacidade nos critérios de admissão académica, são particularmente evidentes nos EUA. Os mecanismos usados para manter o statu quo ultrapassam mesmo quaisquer pruridos ideológicos. Num artigo significativamente intitulado “Medo branco nos Estados Unidos – a fuga das escolas” (Le Monde Diplomatique, ed. port., setembro de 2020), o professor de estudos americanos e ciência política no Carleton College (Northfield, Minnesota), Richard Keiser, dá-nos conta da ameaça sentida pela população branca com o crescente fenómeno do sucesso escolar dos ásio-americanos e da necessidade sentida pelos primeiros na redefinição dos critérios do mérito, para que possam manter intacta a sua primazia social. Dá-nos como exemplo a Mission High School de Silicon Valley, classificada como a melhor escola secundária da Califórnia; se, em 1984, os alunos brancos representavam 84% dos seu corpo discente, em 2010 já só eram 10%, enquanto os alunos ásio-americanos, impulsionados por aquilo que é visto como a sua “obsessão pelos resultados escolares”, ascendiam a 83%. De forma paradoxal, os filhos das classes média e alta de raça branca estão a deixar as melhores escolas californianas, destronados pelos critérios avaliativos e as taxas de admissão das universidades de elite, em que sobressaem as crianças e jovens de origem chinesa e indiana. Como refere Keiser, “Os que pensavam ser a elite da nação consideram-se agora descriminados, devido ao facto de os seus filhos jogarem futebol ou irem à praia enquanto os seus colegas ásio-americanos sacrificam o tempo livre em troca de programas de preparação extra-escolar”.

Segundo Keiser, em 2013, dois professores das escolas do norte da Califórnia chegaram à seguinte constatação: «A “identidade asiática” está intimamente ligada aos valores do perfecionismo, do esforço no trabalho e do sucesso escolar e universitário. Por oposição, a “identidade branca” está mais ligada às noções de imperfeição, de preguiça e de mediocridade académica». Donde a tendência acrescida entre os pais brancos para inscreverem os seus filhos em escolas públicas menos competitivas.” e em apresentar as suas fraquezas como virtudes: “A sua definição de excelência já não se limita apenas aos resultados, valoriza também a diversidade dos centros de interesse, a abertura de espírito e a procura de uma certa «normalidade», por oposição aos excessos da ambição e do carreirismo.” Curiosa inversão de valores! Do culto do trabalho, sentido de disciplina e fidelidade aos modelos familiares, princípios previamente tão exaltados (e que serviam para confrontar as minorias negras e latinas com o exemplo de sucesso dos ásio-americanos como prova cabal da tão proclamada “igualdade de oportunidades”), passou-se a encarar o aluno brilhante como um ser associal e de quem convém manter as distâncias. O politólogo Richard Keiser conclui: “Esta reorientação estratégica das classes médias e superiores brancas responde ao medo de que os privilégios de nascimento associados desde há séculos à sua cor de pele estejam em perigo.” Ainda assim, e apesar de, em 2019, a Google ter recrutado mais mulheres e homens ásio-americanos do que brancos, é “incontestável que os brancos, e mais particularmente os homens, continuam a dominar as cúpulas do capitalismo norte-americano.”

Se pensarmos na cultura não apenas no sentido académico, mas num âmbito mais geral, o panorama é ainda mais sombrio. Dir-nos-íamos na eminência de entrar no Reino das Trevas. Como é possível que, em pleno século XXI, Kamala Harris, a vice-presidente eleita dos Estados Unidos, no primeiro discurso de vitória após a jornada eleitoral de 3 de novembro, tenha sentido a necessidade de defender o papel da Ciência como uma das prioridades do seu mandato? O que é facto é que, na América contemporânea (e com um inestimável contributo da Administração Trump e das forças mais fanáticas e obscurantistas da atualidade), campeiam todo o tipo de teorias da conspiração. Uma das mais espantosas é a do movimento QAnon, que acredita que as elites norte-americanas – em que se incluem desde artistas, a cientistas, a responsáveis empresariais, como Georges Soros ou Bill Gates, ex-presidentes, como os próprios Bush e os Democratas em geral – representam um “deep state” que controla o mundo e os destinos da América e se baseia numa rede satânica de tráfico e abuso sexual de crianças, às quais é tirado o sangue para ser bebido como forma de rejuvenescimento dos poderosos! Não nos podemos esquecer que a empresária Marjorie Taylor Greene, candidata Republicana e adepta fervorosa do QAnon, acabou de ser eleita para o Congresso norte-americano pelo Estado da Georgia com 222 mil votos, 75% do total. Pululam simultaneamente as mais absurdas teses negacionistas, como por exemplo os “terraplanistas”, que contestam a morfologia do nosso planeta, ou aqueles que recusam reconhecer as alterações climáticas, considerando que o conhecimento científico é uma falsidade (ou, no mínimo, uma questão de opinião) e que só o mais estrito fundamentalismo cristão pode aspirar ao estatuto de Verdade.

Fruto, em grande medida, do desnorte e revolta por parte daqueles que foram excluídos do sistema, quer por incapacidade de compreensão – e consequente rejeição – dos seus mecanismos e regras de funcionamento, quer em consequência das próprias disfuncionalidades de uma sociedade fragmentada e entrópica, todas estas circunstâncias acabaram por ser terreno fértil para a apologia mais descarada de princípios racistas, xenófobos, supremacistas, negacionistas, homofóbicos e fundamentalistas, que tiveram em Donald Trump a expressão política cimeira, figura tão grotesca quanto representativa de uma desqualificação coletiva – e, nessa medida, sumamente infame – mas que, por essas mesmas circunstâncias ontológicas, perde o estatuto de aberração (explicável por razões fortuitas) para se tornar fenómeno sistémico (apenas compreensível em termos estruturais). Atentemos, por isso, nas lúcidas palavras do filósofo António Guerreiro, num artigo justamente intitulado “Os palhaços políticos” (Ípsilon/Público, 6/11/2020): “as coisas são muito mais complicadas do que parecem à primeira vista e devemo-nos abster de pensar que cerca de metade da população dos Estados Unidos não tem a lucidez para ver e perceber o que para o resto do mundo é uma evidência.”

Em qualquer caso, como lembrou recentemente Benjamin Ferencz, o último procurador vivo dos Julgamentos de Nuremberga, “Para que o mal vença, só é preciso que os bons não façam nada.” (Visão, 26/11/2020).





Hugo Fernandez



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Domingo, 25 de Outubro de 2020
TEMPO DE VÉSPERAS

Para bem dos EUA e do mundo, a derrota de Donald Trump nas eleições que se avizinham é decisiva. Não porque a alternativa seja boa, mas porque é, tão-só, decente. Foi a este nível – o da ausência da simples decência – que o atual inquilino da Casa Branca degradou o ambiente político e social do seu país. Trump é uma pessoa indecente; indecente no seu comportamento narcísico e obsceno, indecente na sua indiferença humana e na sua atitude intolerante e discriminatória, indecente na sua mesquinhez e extrema ignorância, indecente na apologia despudorada da própria indecência. Se não fosse gente, dir-se-ia uma caricatura. Mas é gente, e é mesmo a pessoa mais poderosa à face da Terra.

Mas Trump é apenas um subproduto de uma sociedade profundamente doente, uma gangrena que se alimenta dos milhões que o apoiam. Na verdade, não é ele que verdadeiramente interessa, mas perceber como foi possível a sua chegada à presidência dos EUA. Perceber as disfuncionalidades estruturais que corroem a sociedade norte-americana. Perceber, por um lado, como só o dinheiro e a posse de fortuna são dignos de respeito e consideração social e a lei do mais forte se tornou na obsessão paranoica do imaginário nacional. Perceber, por outro, a situação de marginalidade e exclusão a que muitos americanos foram votados pelo processo de desregulação e rapina generalizada do neoliberalismo mais desenfreado. Perceber como a desclassificação social e a perda do reconhecimento comunitário provoca uma sensação de medo e ameaça e, simultaneamente, de ressentimento e de total falta de empatia para com os outros. Perceber como este sentimento engendra a necessidade de culpabilização alheia, com a explosão dos mais baixos instintos e a caça aos habituais bodes expiatórios, em especial as minorias raciais, os emigrantes e estrangeiros e as mulheres, sujeitos à discriminação económica, social e cultural, a múltiplas formas de opressão e a todo o tipo de preconceitos e estereótipos.

Perceber a emergência de um egoísmo sem limites, da atomização dos indivíduos e de uma autossuficiência intelectual indutora de ignorância e fanatismo extremos, alimentados pela torrente boçal de falsidades que a novilíngua trumpista apelida de “pós-verdade” ou “factos alternativos”, isto é, a perda de validade das categorias axiológicas elementares de verdade e mentira em prol dos mecanismos de propaganda político-ideológica de massas e da sua eficiência performativa – as semelhanças com os fascismos europeus do século XX não são meras coincidências. Para que conste, e de acordo com o jornal The Washington Post, até ao passado dia 9 de julho, Donald Trump mentiu mais de 20 mil vezes em declarações públicas desde que chegou à Casa Branca; só nos últimos 14 meses atingiu uma média de 23 mentiras por dia (Visão, 8/10/2020). Como ele orgulhosa e descaradamente proclamou na campanha eleitoral de 2016, “I’ve got the best words”! Urge perceber os mecanismos da consolidação de um nacionalismo populista eivado de fundamentalismo religioso e de militância obscurantista e anticientífica veiculada pelos ultraconservadores evangélicos. Perceber, enfim, como os Estados Unidos “se tornaram uma nação de videotas sem senso crítico”, na certeira definição do filósofo e jurista norte-americano Ronald Dworkin (A virtude soberana. Teoria e prática da igualdade., São Paulo, Martins Fontes, 2005, p. 395).

Disfuncionalidades estas que, em grande medida, estão na base da construção da atual ordem neoliberal globalizada. Atingimos um novo patamar da barbárie capitalista. Às hordas da escravatura industrial manchestariana de antanho, sobrevém uma nova Idade das Trevas: a da financeirização absoluta das existências e do extremar das desigualdades sociais, a do escalar do desemprego e da miséria endémica a par da acumulação de fortunas desmedidas, a da ditadura das dívidas (das pessoas e dos países) e do estado de permanente precariedade, a da exploração extrema na produção e da completa subserviência no consumo, do individualismo doentio e da anomia social, do “salve-se quem puder”, da alienação mediática e da demência informática, do culto do obscurantismo e do negacionismo, da apologia do tribalismo e do acender das fogueiras de novas inquisições.

Estamos, afinal, perante a aceleração incontrolada do processo que o economista e pensador social húngaro, Karl Polanyi, descrevia premonitoriamente como “a grande transformação” – título da sua mais famosa obra, publicada no já longínquo ano de 1944 – ao caracterizar a introdução da lógica mercantil em todas as esferas da vida humana, passando a lei da oferta e da procura a regular a afetação dos recursos naturais e, por intermédio da atividade laboral, da própria vida individual e coletiva. Tal processo tem como consequência a desagregação da existência comunitária e das instituições sociais; no fundo, a transformação do controlo social da economia pelo controlo dos mercados sobre a sociedade. Nas palavras do historiador Diogo Ramada Curto et al. no prefácio à edição portuguesa desta obra (Karl Polanyi, A grande transformação – as origens políticas e económicas do nosso tempo, Lisboa, Edições 70, 2012, p. 12), “A grande transformação teria consistido na libertação dos mercados do controlo das instituições sociais e, ao invés, na determinação da economia, das próprias instituições sociais e, tendencialmente, de todos os outros aspetos da vida social e humana pelos padrões da troca mercantil.”

Não só a coesão social está posta em causa, como o sistema político democrático está ferido de morte. Como afirmou recentemente o senador republicano do Utah, Mike Lee, “A democracia não é nenhum objetivo, precisamos é de nos desenvolver e a democracia pode impedir isso.” (Público, 11/10/20). Foi esta atração pelo abismo que a onda neoliberal originária dos anos 80 do século passado provocou e que encontrou nos EUA um campo privilegiado de implementação. Para esta corrente de pensamento, a natureza é reduzida à valoração extrativista e o ser humano resume-se à dimensão produtiva, destinado à mera exploração. Cumpre-se assim o objetivo final do capitalismo, o de “transformar a sociedade numa vasta fábrica submetida a um comando e a uma lógica únicas” (Cornelius Castoriadis, A ascensão da insignificância, Lisboa, Bizâncio, 1998, p. 48).

Mas a culpa deste estado de coisas não é só de Trump e dos seus apoiantes. Os democratas, que periódica e rotativamente governam os EUA, têm a sua quota parte nesta insanidade. Porque persistem em não introduzir mecanismos de regulação dos mercados e da especulação financeira, porque resistem a implementar um sistema de progressividade fiscal, porque não tomam medidas efetivas – e não meramente cosméticas – de proteção dos mais carenciados, de diminuição das desigualdades e das injustiças sociais, de inclusão comunitária e combate à discriminação racial ou de género, ou até de simples questões de bom senso (mas, em todo o caso, marcas civilizacionais decisivas), como a abolição da pena de morte ou a adoção de legislação limitadora do uso e porte de armas. Enfim, porque persistem em não constituir uma alternativa.

Republicanos e democratas alimentam a mesma ordem social e económica planetária que faz com que as grandes fortunas mundiais (pouco mais de 2 mil indivíduos) tenham disparado durante a pandemia e concentrem uma riqueza de 10,2 biliões de dólares – um aumento de 27,5% – em apenas 3 meses (até junho), ganhando “como nunca antes”. Para se ter uma ideia, é o equivalente a 50 vezes o que Portugal produz num ano, ultrapassando o anterior recorde de 8,9 biliões de dólares do final de 2017. Os dados constam do relatório do banco suíço UBS, citados no jornal britânico The Guardian (7/10/2020) e mostram que o próprio número de bilionários – grande parte deles americanos – aumentou, no mesmo período, para 2.189, mais 31 pessoas do que em 2017. Isto quando, simultaneamente, há mais 200 milhões de desempregados, a pobreza extrema atinge novos patamares, e o mundo se encaminha para a pior crise económica desde a Grande Depressão.

As eleições americanas de 3 de novembro próximo marcarão, em qualquer circunstância, uma nova etapa do nosso devir coletivo. Porque verdadeiramente elas não são apenas eleições americanas, já que os EUA constituem o “mais importante laboratório social do mundo”, como sublinha José Pacheco Pereira (Público, 10/10/2020). Do que se trata, pelo seu efeito mimético inevitável, é da promoção ou obstrução da ascensão dos populismos mais reacionários que pululam um pouco por todo o mundo. Do que se trata é do perigo real de um retrocesso civilizacional.



Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 12:04
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Domingo, 4 de Outubro de 2020
TESTE DO PATO

Retratar o Chega como um partido antissistema e o seu líder, André Ventura, como um outsider do regime, só por brincadeira. Ele que foi um quadro dirigente do PSD e candidato autárquico ao município de Loures por este partido pela mão de Passos Coelho (que nunca lhe retirou o apoio até ele abandonar os social-democratas em 2018, respaldando as suas posições extremistas), ele que, para além de comentador desportivo e do crime na BTV e na CMTV – circunstâncias que lhe granjearam uma enorme exposição e popularidade mediáticas (fazendo lembrar outras ascensões, tão fulgurantes, como irrazoáveis e, por fim, deploráveis ou mesmo criminosas, como a de José Sócrates) – , doutorado em Direito na Irlanda e professor em várias universidades, está ligado aos maiores escritórios e sociedades de advogados portugueses, como o Uria Menendez ou Caiado e Guerreiro, bem como à consultora financeira FinPartner, dificilmente pode ser considerado marginal relativamente aos tradicionais circuitos de poder no nosso país. Como foi amplamente demonstrado por Mariana Mortágua numa sessão parlamentar em finais de setembro, são muitas e nebulosas as ligações de responsáveis e financiadores do Chega aos negócios do BES, ao BES Angola e à cleptocracia angolana, aos escândalos do Banif, Vale do Lobo ou aos Panamá papers. Tudo boa gente! Como então disse a deputada bloquista, o Chega não é mais do que “um partido comprometido até ao pescoço com os negócios mais obscuros da elite financeira e económica”. Para quem se diz “fora do sistema”, não está nada mal.

Não constitui, por isso, surpresa que André Ventura e o seu partido queiram reintroduzir as medidas mais gravosas do tempo da troika, como a generalização das privatizações, o aumento do horário de trabalho das 35 para as 40 horas semanais, ou o fim do regime de progressividade do IRS, beneficiando, como sempre, os mais ricos. Contra o sistema? Em quê? O Chega pode não ser politicamente conveniente, mas que faz parte do sistema instalado, parece uma evidência. Quando Ventura se questiona, no Twitter, “Será que só a minha candidatura defende os portugueses comuns, normais? Haverá mais alguém a defender quem trabalha e paga impostos?”, está apenas a ser um vulgar demagogo (alinhando, desta forma, com o figurino habitual da politiquice sistémica; os interesses dominantes permanecem, pois, salvaguardados).

As propostas bárbaras e soezes apresentadas na recente convenção do Chega, em Évora, são suficientemente ilustrativas da matriz extremista e retrograda deste partido. Nesta reunião, que o jornalista Ferreira Fernandes caracterizou como “um grupo de homens e mulheres indecentes” e “sessão, toda ela pornográfica” (Público, 27/9/20), foi apresentada – e votada favoravelmente por 15% dos elementos presentes, sublinhe-se! – uma proposta que defendia a retirada dos ovários às mulheres que abortassem nos hospitais públicos (sintomático este pormenor, que iliba da mutilação as bemzocas que o fazem nas clínicas privadas); foi também o caso da defesa da castração física, da prisão perpétua, da pena de morte e de um sem número de “pérolas” da incivilidade.

Pela mão do seu principal ideólogo, Diogo Pacheco de Amorim (antigo elemento da rede terrorista de extrema-direita no pós-25 de abril), o programa do Chega defende, entre outros princípios, o fim do Sistema Nacional de Saúde e da escola pública, a privatização dos serviços públicos e o desmantelamento do Estado social, a Europa nacionalista e soberanista, bem como a discriminação racial e étnica, o combate à denominada “ideologia de género” (vulgo, todas as conquistas de cidadania e igualdade das mulheres nos últimos cem anos), a defesa de uma visão arcaica e salazarista da família (e posições tão ridículas, como estúpidas, de oposição à roupa unissexo para crianças), etc. A mensagem do Chega é racista, xenófoba, misógina, homofóbica, autoritária e ultraconservadora. O cardápio ideológico da extrema direita em todo o seu esplendor! Onde está o antissistema nisto tudo? Trata-se, isso sim, da versão mais radical – ou, se quisermos, selvagem – do sistema; este que nos governa a nível planetário, o capitalismo neoliberal. E é nesse sentido que a politóloga Marina Costa Lobo nos propõe, no artigo “A «verdade» do Chega”, publicado no jornal Público (11/8/20), o que chama de “teste do pato”, para que não haja dúvidas sobre a natureza de semelhante agremiação política: “se parece um pato, nada como um pato e grasna como um pato, provavelmente é um pato.”

Como diz, com fina ironia, Boaventura de Sousa Santos, “Se a igualdade sexual fosse ideologia de género, a igualdade entre raças seria ideologia racial e a luta contra a pobreza seria ideologia classista. E, em última instância, a luta contra o fascismo seria ideologia… democrática.” (JL, 23/9/20). Pois!



Hugo Fernandez

 


publicado por albardeiro às 20:35
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Segunda-feira, 13 de Julho de 2020
O HOMEM MAIS PERIGOSO DO MUNDO

Que a hipocrisia impera no universo político (e não só!) é uma realidade indesmentível. E bastam os três exemplos aludidos por Serge Halimi, jornalista e diretor editorial do Le Monde Diplomatique, a propósito do movimento Black Lives Matter nos EUA, para o comprovar: Estée Lauder, perfumista e uma das principais financiadoras da campanha eleitoral que levou Donald Trump ao poder, em 2016, promete doar 10 milhões de dólares para “favorecer a justiça social e racial, bem como um maior acesso à educação” (verba, de resto, bastante modesta para tamanho desígnio); a participação numa manifestação antirracista de Willard (“Mitt”) Romney, candidato republicano às eleições presidenciais de 2012, que declarou publicamente que 47% da população americana era constituída por parasitas (referia-se, claro, aos mais pobres, a maior parte deles negros); ou o gesto de se ajoelhar em frente a uma caixa-forte gigante da sua instituição por parte de Jamie Dimon, presidente executivo do banco JPMorgan, que obteve lucros milionários ao aliciar inúmeras famílias negras com créditos imobiliários muito além das suas possibilidades, o que acabou por as levar ao sobre-endividamento e à ruína (Le Monde Diplomatique, ed. portuguesa, julho 2020). Mas é evidente que esta constatação não substitui uma análise aturada das circunstâncias que lhe subjazem.

Da mesma forma, dificilmente nos podemos cingir ao estudo da personalidade dos líderes políticos para explicar as opções seguidas na governação dos respetivos países. Mas há casos em que disfunções sociais se juntam a patologias individuais – em especial, em situações de concentração do poder – potenciando os efeitos nefastos de umas e de outras. Nestas conjunturas, o caráter individual dos responsáveis políticos pode revelar-se decisivo, por efeito de uma simbiose com os seus apoiantes, indutora de um mimetismo levado ao extremo. São vários os exemplos históricos que o comprovam, dos quais o mais paradigmático é, sem dúvida, o de Adolf Hitler na Alemanha devastada entre guerras. Nos dias que correm, não há exemplo mais flagrante que o de Donald Trump no seio da fragmentada sociedade americana em contexto de globalização; ambas personalidades psicóticas ou com acentuados distúrbios mentais, exercendo o poder em sociedades com um elevado nível de disfuncionalidade.

O atual presidente norte-americano é, com efeito, um autêntico case study. Numa situação particularmente agravada com a pandemia do Covid-19, e quando, neste mês de julho, os EUA batem recordes mundiais de infeções diárias com cerca de 60 mil casos e já ultrapassam os 3 milhões de infetados (mas cujo número real poderá ser bem superior, chegando próximo dos 25 milhões, segundo o responsável dos serviços imunológicos americanos, Robert Redfield), a que acresce o inimaginável número de 135 mil mortos, Trump, em entrevista à Fox Business, insiste que a doença vai “desaparecer” e, por isso, se recusa a delinear uma estratégia para fazer face ao enorme incremento do surto por todo país: “Acredito que estamos a ir muito bem com o coronavírus. Acho que, em algum momento, isto vai simplesmente desaparecer” (I, 3/7/20). Que razões podem explicar semelhante cegueira?

Como refere, em entrevista ao Público, o professor catedrático de Filosofia da Universidade de Brown nos EUA, o açoriano Onésimo Teotónio Almeida, “Trump tem sido muito pior do que a covid-19. Num artigo, falei mesmo da covid-2016, referência ao ano em que foi eleito. Para ele, não tenho mais palavras, pois já disse tudo. Há três anos usei numa entrevista o adjetivo «asqueroso». Mantenho-o.” (Público, 27/6/2020). E, fazendo alusão ao testemunho do ex-homem de confiança do presidente norte-americano, John Bolton, no livro recém-publicado The Room Where It Happened, ele “Não respeita ninguém nem sequer os que escolhe para colaboradores imediatos; não quer saber de ninguém, a não ser de si mesmo”. É fácil constatar que Trump age só a pensar nos seus interesses e, antes de mais, na manutenção do seu protagonismo através da reeleição. A sua ânsia de poder, ao serviço de uma megalomania e egocentrismo doentios, faz com que nada mais importe senão a sua pessoa, nem quando tem o destino de milhões dos seus conterrâneos nas mãos.

Esta perturbação da personalidade ficou, mais uma vez, amplamente demonstrada com a recente iniciativa da sua governação. Num momento em que se assiste à perda generalizada de postos de trabalho e dos respetivos pacotes de seguros privados e em que milhões de norte-americanos estão a ser afetados pela pandemia de covid-19, a administração Trump, por intermédio do seu Departamento de Justiça, pediu ao Supremo Tribunal que revogue o Affordable Care Act (mais conhecido por “Obamacare”), assinado pelo anterior Presidente Barack Obama, em 2010, sistema público de acesso aos serviços sanitários que permitiu, só este ano, que 24 milhões de pessoas acedessem a um seguro de saúde a valores acessíveis e com uma cobertura equiparável ao do setor privado. Promessa eleitoral nuclear da campanha de Trump em 2016 (e após a tentativa frustrada de derrubar a lei no Congresso, em 2017 – apesar do Partido Republicano dominar, nessa altura, a tanto a Câmara dos Representantes como o Senado – em virtude da oposição de alguns membros da maioria), esta atitude foi justamente classificada pelos Democratas como “Um ato de inexplicável crueldade” (Público, 27/6/2020). Mas tamanha “crueldade” pode, afinal, ter explicação.

No livro da sobrinha de Trump, a psicóloga clínica Mary J. Trump, (filha do irmão mais velho do Presidente, Fred Trump Jr., que morreu alcoólico quando Mary tinha dez anos), intitulado Too Much And Never Enough: How My Family Created The World’s Most Dangerous Man, é dito que o tio mantém uma psique infantil, sendo “Incapaz de crescer, aprender ou evoluir, incapaz de controlar as suas emoções, de moderar as suas respostas ou absorver e sintetizar informação.” (Público, 9/7/20). Vítima de “privações que o marcaram para toda a vida” e de um ambiente de bullying por parte do patriarca da família, Fred Trump – que Mary caracteriza como um “sociopata” – que propagava todo o tipo de ideias racistas, xenófobas e sexistas na família, Trump revela um caráter e um comportamento que, segundo a sobrinha, “ameaçam a saúde, a segurança económica e o tecido social do mundo”.

Onésimo Teotónio Almeida, na entrevista referida, não deixará de sublinhar que “É a maior aberração que já vi em termos de Presidente, e o mistério está em entender-se como é que grande parte do eleitorado não enxerga isso.” Esse é, sem dúvida, o grande paradoxo do fenómeno Trump; é que ele foi eleito (tal como Hitler).

 

Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 14:19
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