Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Quarta-feira, 2 de Novembro de 2022
PERIGO

No passado dia 22 de outubro, os fascistas chegaram ao poder em Itália. Pela mão de Giorgia Meloni, quase um século depois de Benito Mussolini, é a extrema-direita que governa um dos países fundadores da unidade europeia (na sua versão CEE), em documento assinado, precisamente, em Roma, corria o ano de 1957. E, para que não haja dúvidas sobre a natureza político-ideológica do seu partido, o facho permanece como o símbolo dos Irmãos de Itália, recordando orgulhosamente a herança do Il Duce. Esta tendência extremista marcou, na Europa, a viragem do século, na forma de coligações governamentais: logo em 2000 com Jörg Haider na Áustria, em 2010 com Geert Wilders nos Países Baixos, em 2013 e 2017 com o Partido do Progresso na Noruega, em 2018-19 com Matteo Salvini enquanto vice-primeiro-ministro de Itália, para além de resultados eleitorais espetaculares na Dinamarca, na Finlândia, na Suécia e em França (com os Democratas Suecos e a União Nacional de Marine Le Pen como os segundos maiores partidos dos respetivos países). O Vox espanhol e o Chega português, na qualidade de terceiros maiores partidos nos parlamentos espanhol e português, bem como a consolidação parlamentar dos neonazis da Alternativa para a Alemanha, compõem este ramalhete sinistro. Para não falar dos regimes iliberais – designação tão dúbia quanto a sua democracia – na Polónia de Mateusz Morawiecki e na Hungria de Viktor Orbán.

As estratégias de isolamento (o proclamado “cordão sanitário”) destas forças políticas esbarram com a realidade de uma globalização desregulada, de uma desigualdade social descontrolada, de um desprezo intolerável – e intolerante – em relação a crescentes camadas da população e de uma desvalorização sobranceira dos problemas existentes por parte das “elites do poder”. Sobrevém o racismo, a xenofobia, a homofobia, a autarcia nacionalista, a intolerância e o fanatismo religioso. E como justamente sublinha Mafalda Anjos, diretora da Visão, numa situação de grave crise económica como aquela que a Europa está a atravessar, “a tendência é para os eleitores descontentes irem buscar respostas alternativas quando «os do costume» não oferecem soluções. […] Mais do que combater os movimentos políticos, é preciso combater as suas causas. Caso contrário, tentar detê-los é como tentar parar o vento com as mãos.” (Visão, 22/9/2022).

Há um aforismo que diz que “os inimigos dos meus inimigos, meus amigos são”. Nesta dialética schmittiana dos amigos/inimigos, encontra-se, em boa parte, a razão para o sucesso fulgurante da extrema-direita europeia. Claro que esta gente não quer o bem comum, nem pugna pela justiça social. Claro que esta gente quer restringir ou, mesmo, eliminar, os direitos e liberdades fundamentais, e regressar a uma “Idade de Ouro” do ordenamento autoritário do “respeitinho é muito bonito”, da castração mental, dos temas tabu, da sacralização dos poderes instituídos (civis e religiosos), das proibições, da repressão. Como se explica, então, tamanha adesão a semelhantes forças políticas? Precisamente pela sua oposição aos poderes fácticos das democracias que, seguindo a cartilha neoliberal, desregularam a vida social, subjugando tudo e todos aos interesses da especulação financeira, e lançaram na miséria e no desespero largas camadas da população. É contra esta “elite do poder” que se insurgem aqueles que, mais por ressentimento do que por convicção, apoiam os partidos extremistas. Mas a alternativa que estes partidos apresentam não passa de uma gigantesca falácia e, por isso, são sumamente demagógicos e oportunistas ao cavalgar todas as frustrações e instrumentalizar todas as raivas, escamoteando as suas verdadeiras origens e intenções. Tratam-se, afinal, de meros concorrentes dos atuais detentores do poder e dos mecanismos de exploração capitalista, à espera da sua vez para dominarem, com brutalidade acrescida, o sistema que agora fingem criticar.

Sou Giorgia, sou mulher, sou mãe, sou italiana, sou cristã”, constitui uma espécie de mantra ideológico da nova primeira-ministra italiana. Mas é muito mais do que isso. Num discurso pronunciado em junho, numa iniciativa do Vox, foi taxativa: “Não há meio-termo possível. Hoje, a esquerda secular e o Islão radical ameaçam as nossas raízes. Ou é sim, ou não. Sim à família natural, não aos lóbis LGBT. Sim à universalidade da cruz, não à violência islâmica. Sim a fronteiras seguras, não à imigração em massa” (Visão, 22/9/2022). “Deus, Pátria e Família” era o lema de Mussolini, agora recuperado por Meloni (e que os portugueses tão bem conhecem da ditadura salazarista). “Meto-vos medo?” perguntou Meloni num comício durante a campanha eleitoral. Fica-nos, à laia de resposta, a sábia advertência do escritor e filósofo italiano Umberto Eco: “É sempre melhor que quem nos incute medo tenha mais medo do que nós”.

Há, sobretudo, algo de muito errado quando a esquerda não consegue capitalizar este descontentamento.



Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 20:15
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Quinta-feira, 13 de Outubro de 2022
A RELAÇÃO

Adotando a definição do conceito de Propriedade avançada pelo historiador italiano Giuliano Martignetti, chama-se Propriedade “à relação que se estabelece entre o sujeito «A» e o objeto «X», quando A dispõe livremente de X e esta faculdade de A em relação a X é socialmente reconhecida como uma prerrogativa exclusiva, cujo limite teórico é «sem vínculos» e onde «dispor de X» significa ter o direito de decidir com respeito a X, quer se possua ou não em estrito sentido material.” [Giuliano Martignetti, “Propriedade” (pp. 1021-1035), in Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino (coord.), Dicionário de Política, vol. II, Brasília, UNB/Dinalivro, 2004, p. 1021]. Sem se especificar quem ou que coisa sejam A ou X (entendidos enquanto unidades ou grupos), e tomando como referência a formulação jurídica de “dispor de alguma coisa de modo pleno, sem limites” (o ius utendi, fruendi et abutendi do direito romano), esta definição revela o aspeto essencial da posse; como o adjetivo latino proprius indica – e do qual derivou o respetivo substantivo – a propriedade estabelece uma relação de exclusividade entre quem possui objetos específicos e todos os outros indivíduos (e objetos), daí decorrendo que propriedade é algo que pertence a alguém de modo exclusivo. É esta relação de exclusividade face aos demais que aqui nos importa realçar.

Tomando o sistema social no seu todo, constituído por outros sujeitos e objetos para além de A e X que apresentamos como referência, a relação de posse implica sempre uma limitação, quer de sujeitos possuidores, quer de objetos possuídos, e o estabelecimento de processos mais ou menos alargados de exclusão. Radica nesta relação de posse a problemática da desigualdade e da justiça social. E ainda que nas nossas sociedades demoliberais, o “direito de propriedade” seja entendido como universal, é fácil constatar que se A é proprietário de X, ficam automaticamente excluídos dessa possibilidade os indivíduos ou grupos B, C, D, etc. A limitação dos recursos disponíveis agrava ainda mais as possibilidades aquisitivas, transformando o desígnio proprietarista em mera capacitação formal.

Numa altura em que as desigualdades sociais atingiram níveis nunca antes vistos na história da humanidade, e em que o rendimento de alguns ultrapassa a riqueza de nações inteiras, a posse dos meios de produção é o exemplo mais acabado da relação que necessariamente se estabelece entre os que têm e os que não têm. O filósofo alemão Anselm Jappe cita o antropólogo norte-americano Marshall Sahlins, quando este explica como a escassez é típica da sociedade moderna: “O mercado institui a escassez de uma maneira sem precedentes, num grau nunca antes atingido, […] a insuficiência de meios materiais torna-se o ponto de partida explícito, numerável, de toda a atividade económica.” (Anselm Jappe, As aventuras da mercadoria. Para uma nova crítica do valor, Lisboa, Antígona, 2006, p. 227). Ora, para Jappe, “é a privatização dos recursos que cria a escassez: o acesso privilegiado de alguns aos recursos significa necessariamente que os outros não podem aceder a eles.” (op. cit., p. 239).

Há mais de 150 anos que Karl Marx escalpelizou o sistema que engendrou esta situação. Como revelou o pensador alemão, o capitalismo caracteriza-se pela busca exclusiva do lucro, entendido no seu sentido lato de vantagem, de ganho, que advém da apropriação da mais-valia, isto é, da parte do valor não pago do trabalho incorporado no produto. A quantidade de mais-valia realizada é o resultado da diferença entre o valor que o trabalhador produz e o custo da sua força de trabalho. Para que esta exploração se concretize há que assegurar a separação dos produtores dos respetivos meios de produção, fazendo com que àqueles apenas reste vender a sua força de trabalho (para assegurar a sobrevivência) aos detentores destes últimos. A extração do sobrevalor do trabalho assalariado no próprio processo de produção capitalista tem como resultado a condição existencial que Karl Marx qualificou, com amarga ironia, de dupla liberdade do trabalhador: a liberdade de vender a sua força de trabalho ou a liberdade de morrer de fome. Passados quase dois séculos, e por mais que as formas de propriedade, as dinâmicas produtivas e a própria estrutura social tenham sofrido alterações consideráveis, a matriz da exploração capitalista mantem-se. Com efeito, o funcionamento estrutural do capitalismo tem na exploração do trabalho e na busca incessante do lucro o seu modus operandi.

Na lógica capitalista neoliberal, exacerba-se o efeito do “exército de reserva”, isto é, do agudizar do desemprego como garantia do esmagamento dos salários e da precarização das condições laborais; alastra o trabalho sem direitos. Impõe-se a ideia, sumamente perversa, das populações “dispensáveis”. Como sublinha, a este propósito, o economista Manuel Couret Branco, “a economia não tem por objetivo a criação, ou sequer a manutenção, de empregos, mas sim a mais eficaz afetação possível dos fatores de produção, por outras palavras criar um máximo de riqueza desejavelmente com um mínimo de recursos.” (Manuel Couret Branco, Economia política dos direitos humanos, Lisboa, Sílabo, 2012, p. 51). O trabalho é um custo e nem o que o desemprego significa em termos de sofrimento humano e desagregação do tecido social, leva os capitalistas a hesitarem na sua eliminação. A ideia é: quanto menos afetação de recursos humanos, mais lucros. A única preocupação que os proprietários dos meios de produção têm é a de produzir riqueza… para si próprios. A eficácia do sistema traduz-se na maximização dos lucros e na diminuição dos custos dos fatores de produção, custe o que custar; e não são eles que pagam!

É por isso que afirmações como a de Vítor Bento, presidente da Associação Portuguesa de Bancos, a propósito dos lucros excessivos na banca, para quem “o uso e abuso da expressão «lucros excessivos» na nossa comunicação […] reflete uma hostilidade cultural ao capital e à sua acumulação” (Expresso, 2/8/2022), não podem deixar de nos fazer sorrir. Pela ingenuidade? Não, pela desfaçatez. Quando os resultados do primeiro semestre de 2022 demonstram que os 5 maiores bancos portugueses – CGD, BCP, BPI, Santander e Novo Banco – obtiveram lucros de 1,3 mil milhões de euros, 80% acima dos valores reportados em período homólogo, e que num contexto de forte crise económica e social, por via de uma inflação galopante que, em julho, atingiu os 9,1%, as comissões bancárias aumentaram cerca de 12% face ao ano transato (só a CGD, o maior banco nacional, obteve, por esta via, rendas de 300 milhões de euros), apenas a generosa remuneração dos acionistas está plenamente assegurada, falhando quer o crédito adequado a empresas e famílias, quer a qualidade do serviço público prestado aos cidadãos. Como refere a economista Eugénia Pires, “Já o saudoso Francisco Pereira de Moura alertava para o sistema de cadinhos que é a economia. Para quaisquer lucros excessivos existe sempre um contraparte empobrecido.” (Eugénia Pires, “Lucros nada inesperados”, Le Monde Diplomatique, ed. portuguesa, setembro de 2022).

Quando, a esta acumulação de capital, acresce a recusa, por parte do governo de António Costa, da tributação dos lucros excessivos, aquilo a que assistimos é a uma gigantesca transferência de rendimentos do trabalho para o capital. Quem perde? A generalidade da população. Não esqueçamos que, para além das situações de desemprego, 11,6% dos portugueses que trabalham, não conseguem auferir um rendimento suficiente para os tirar da situação de pobreza. Ora, nas avisadas palavras de Sandra Monteiro, diretora da edição portuguesa do Le Monde Diplomatique, “Abandonada uma perspetiva socialista, e quando o social-liberalismo é impossível de distinguir do neoliberalismo puro e duro, não é contra as empresas-abutre que a raiva e o protesto tendem a exprimir-se: é contra a política, os políticos, o Estado, o governo, a democracia” (Sandra Monteiro, “Dos lucros dos oligarcas aos vistos dos pobres”, Le Monde Diplomatique, ed. portuguesa, agosto de 2022). Estende-se, por esta via, a passadeira ao extremismo populista.


Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 20:52
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Domingo, 4 de Setembro de 2022
RECONHECIMENTO

Houve quem acreditasse que a pandemia do Covid-19 iria mudar tudo. Puro engano. Se houve alguma alteração, esta foi de escala nos lucros desmedidos das empresas tecnológicas e na acumulação descomunal de riqueza por parte dos seus dirigentes. Business as usual, portanto. Aliás, se virmos o caso paradigmático dos EUA, o agravar das desigualdades sociais está bem patente nos cálculos feitos pelos economistas Thomas Piketty, Emmanuel Saez e Gabriel Zucman: para o ano de 2018, e por cada 100 dólares do rendimento nacional, os 20% mais ricos recebiam 62 dólares, enquanto os mais pobres 20% se quedavam por 1 dólar e 70 cêntimos. Se juntássemos todo o rendimento da metade mais pobre da sociedade norte-americana, apenas teríamos 12 dólares e 50 cêntimos, muito abaixo da soma dos apenas 1% mais ricos; 20 dólares e 20 cêntimos. De então para cá – e apenas reportando ao ano de 2020 – a situação agravou-se: o rendimento dos 10% mais ricos representava 77% total e o 1% mais rico excedia a riqueza combinada de 90% dos estadunidenses (cf. Michael J. Sandel, The Tyranny of Merit, New York, Farrar, Straus and Giroux, 2020, pp. 113, 245).

Estes números assombrosos têm a sua confirmação no último relatório da Oxfam, significativamente intitulado “Lucrando com a dor”, e apresentado este ano no Fórum Económico Mundial de Davos. Esta organização internacional de luta contra a pobreza revela que as maiores fortunas subiram tanto em 24 meses como nos 23 anos anteriores. Nos últimos dois anos surgiram 573 novos multimilionários (1 a cada 30 horas), ao mesmo tempo que 263 milhões de pessoas correm o risco de pobreza extrema em 2022 (ou seja, um milhão de pobres a cada 33 horas), devido às consequências da pandemia e ao custo crescente da alimentação. Trata-se do “maior salto na pobreza extrema em 20 anos”, conforme se lê no referido documento (Público, 25/5/2022). Para se ter uma ideia da abissal disparidade na distribuição da riqueza, calcula-se que uma pessoa que faça parte da metade mais pobre da população mundial, terá de trabalhar 112 anos para conseguir auferir o mesmo que um indivíduo pertencente ao 1% dos mais ricos ganha num único ano.

Mas a pandemia teria sido uma boa oportunidade para romper com algumas práticas do passado e introduzir mudanças efetivas na nossa vivência coletiva. Por exemplo, no reconhecimento da importância dos serviços de saúde ou de educação, no papel fundamental da produção e distribuição de alimentos e outros produtos básicos, nos transportes coletivos, nos serviços sanitários ou de segurança. Incensados na altura, rapidamente os seus profissionais foram esquecidos. A desejada “economia do cuidado” que tinha como principais objetivos o apoio e a solidariedade sociais, retornou, com uma pujança nunca vista, aos desmandos da “economia de casino” neoliberal. Dos “heróis” de ontem, restou a mágoa e a revolta daqueles que se sentem, uma vez mais, desvalorizados e abandonados à sua sorte.

É particularmente elucidativa, a este propósito, o conjunto de exigências inscritas nos “cadernos de reivindicações” dos gilets jaunes franceses. Movimento espontâneo, com laivos de populismo, nascido em outubro de 2018, punha frontalmente em causa muitas das instituições da V República e, em especial, das políticas neoliberais da governação de Emmanuel Macron, como o aumento de impostos (em especial dos combustíveis), o aumento da idade de reforma e cortes nas prestações sociais, que agravaram sobremaneira o custo de vida e o poder de compra das classes populares e médias. Implementando um novo tipo de consulta popular (não inédito na história francesa, se nos lembrarmos dos “cahiers de doléances” de 1789, nas vésperas do final do Ancien Régime), foram recolhidas reclamações escritas por parte dos manifestantes, nas reuniões e ações de protesto, ideia mais tarde retomada pelas autarquias rurais francesas e finalmente alargada a todos os municípios do país por iniciativa do próprio governo, que os apelidou “cadernos de expressão livre”, entre janeiro e março de 2019, no quadro do “grande debate”, organizado também online. Desta recolha nacional resultaram 680 mil páginas de contribuições, constituindo um corpus documental de inegável importância.

Dos estudos já feitos, e à cabeça das reivindicações, aparece o restabelecimento do imposto sobre a fortuna (ISF), destacando-se uma clara consciência da exploração sofrida pelos trabalhadores em benefício dos grandes financeiros, proprietários e rentistas: “Os produtores de riqueza (operários, empregados, comerciantes, quadros, funcionários públicos, engenheiros, artistas, etc.) detêm o poder real, político, contra os que são consumidores ociosos (acionistas, grandes patrões, banqueiros)”. Aparecem também reiteradas referências ao “desprezo pelo povo” e “arrogância” do chefe de Estado. Mas a exigência mais frequente e que encerra maior significado social diz respeito à possibilidade de “poder viver dignamente do trabalho ou da pensão”. Denuncia-se a desresponsabilização do Estado pelas políticas sociais, em especial no domínio da habitação e no acesso aos transportes e serviços públicos (bem como o receio da sua privatização) – “um serviço público não é infelizmente sempre rentável, mas faz parte da solidariedade nacional” –, propondo-se o aumento do SMIC (salário mínimo) para fazer face ao aumento das despesas. Pelo contrário, temas como a imigração, a delinquência, o islão ou a questão da identidade, são claramente secundarizados (ao contrário do que é constantemente veiculado pelos mass media e pelos “fazedores de opinião”) (cf. “Os cadernos da cólera”, in Le Monde Diplomatique, versão portuguesa, junho 2022).

“Poder viver dignamente do trabalho ou da pensão”, eis a questão fulcral. E esta reivindicação tem não só a ver com a questão substantiva do acesso a remunerações condignas – e, convenhamos, quem trabalha tem de ser capaz de sustentar uma vida decente – como também com o reconhecimento social do trabalho (de todo o trabalho) e da merecida pensão após uma prolongada atividade profissional. É precisamente sobre este último aspeto que reflete Axel Honneth, na sua obra The struggle for recognition – the moral gramar of social conflicts (Cambridge, MA, MIT Press, 1996). Como refere o filósofo alemão, “the social standing of subjects is indeed measured in terms of what they can accomplish for society within the context of their particular forms of self-realization.” (op. cit., p. 127). É esta a base do que denomina “social esteem”, que engloba o respeito próprio e a autoconfiança. Com efeito, “the experience of being socially esteemed is accompanied by a felt confidence that one’s achievements or abilities will be recognized as ‘valuable’ by other members of society.” (ibid., p. 128). Quando este reconhecimento social não acontece, retira-se aos indivíduos e grupos em questão a possibilidade de atribuírem valor às suas competências e às atividades profissionais que desenvolvem, fazendo com que o seu modo de vida perca “something of positive significance within their community.” (ibid., p. 134). Sentindo-se dispensáveis, segundo uma lógica neoliberal de globalização planetária, sobrevêm o desespero e o ressentimento.

É também sobre a dignidade do trabalho como uma das principais garantias da coesão social e do bom funcionamento das sociedades, que fala o filósofo norte-americano Michael Sandel. Em entrevista ao Público, critica os dirigentes políticos que, perante as desigualdades sociais, em vez de procederem a reformas na economia, mandam os cidadãos tirar uma licenciatura (à semelhança do famoso “Enrichez-vous!” de François Guizot relativamente ao sufrágio censitário). Como explica Sandel, foi dito aos trabalhadores americanos que “a única saída para a desigualdade e para a estagnação salarial é; melhore-se a si próprio, obtendo uma melhor educação. «O que ganhas depende do que aprendes», disse Bill Clinton muitas vezes nos anos 1990. «Podes consegui-lo se tentares”, assegurou Barack Obama aos americanos nos anos 2000 e 2010. Mas o que estas mensagens políticas não tinham em conta foi o insulto implícito que transmitiram. Diziam aos trabalhadores em dificuldades: se não estão a florescer na nova economia e se não têm um diploma universitário, o fracasso é culpa vossa, não se aperfeiçoaram. O problema não está nas políticas ou na estrutura da economia que criámos, o problema é não terem o diploma universitário.” (Público, 15/5/2022).

A hipervalorização do grau universitário e de determinado tipo de competências intelectuais e técnicas, desvaloriza outro género de atividades e profissões – no entanto, tão necessárias quanto aquelas –, inferiorizando os que a elas se dedicam. Como refere Sandel na obra citada The tyranny of merit, “It tells them that the work they do, less valued by the market than the work of well-paid professionals, is a lesser contribution to the common good, and so less worthy of social recognition and esteem.” (op. cit., p. 198). Esquecem-se, hipocritamente, todos os constrangimentos económicos, sociais e culturais (incluindo as questões de raça e de género) que condicionam de forma decisiva esse apregoado caminho virtuoso para o “sucesso”. Numa situação em que a “igualdade de oportunidades” não passa de uma falácia oportunista, distorcendo qualquer ideia de mérito, o poder e riqueza dos bem-sucedidos é apresentado como a melhor prova da sua superioridade e constitui-se como modelo social a seguir.

Por isso, ser pobre é duplamente penalizador. Na impossibilidade de invocar o destino para explicar as injustiças sociais (expediente ideológico próprio das sociedades antigas), numa sociedade supostamente meritocrática ser pobre significa não só estar privado dos bens e recursos essenciais a uma existência digna, como assumir a responsabilidade exclusiva por tal circunstância. A desigualdade experienciada transforma-se em desmoralização individual e inferiorização social. Prevalece um sentimento de malogro, tanto mais agudo quanto mais pobre se é. O desvalimento é vivido como uma culpa pessoal pela ausência do esforço ou do talento necessários para alcançar uma melhor condição de vida. Nas palavras de Michael Sandel, “A society that enables people to rise, and that celebrates rising, pronounces a harsh verdict on those who fail to do so.” (op. cit., p. 115). “Cada um tem o que merece”, converte-se no lema da ideologia meritocrática, premiando indevidamente toda a riqueza e condenando injustamente toda a pobreza.

A eleição de Donald Trump em 2016 (ele próprio um milionário, mas que desdenhava da elite universitária e bem-pensante instalada no poder) foi o resultado da frustração sentida por milhões de americanos pobres em relação à clique governante de Washington (precisamente aqueles a quem Hillary Clinton, a sua rival eleitoral, apelidou de “deploráveis”). Para Sandel, “uma importante fonte do ressentimento que produziu a revolta populista contra as elites foi a sensação entre muitos trabalhadores de que as elites os olhavam com desprezo e não respeitavam o seu trabalho ou as suas contribuições para o bem comum.” (Público, 15/5/2022). Muitos americanos – e, de resto, milhões de cidadãos por todo o mundo – sentiram-se arredados das apregoadas vantagens da globalização que, ao invés, beneficiou uma minoria de tecnocratas altamente qualificados, de especuladores financeiros e de gente muito rica e poderosa. A desregulamentação e privatização de atividades industriais e serviços, a deslocalização de setores produtivos para países de baixos salários, a desvalorização e esvaziamento de comunidades trabalhadoras e o desemprego galopante, foram o seu corolário lógico. A perda da identidade coletiva e do orgulho de classe, uma consequência inevitável. Para inúmeros indivíduos, foi crescente a sensação de terem sido descartados, de se tornarem “estranhos na própria terra”.

O título do artigo de Jorge Almeida Fernandes no Público (30/7/2022) deixa pouca margem para dúvidas: “Itália: extrema direita seduz operários”. Com 44% de eleitores que se reclamam de direita e apenas 31% de esquerda, a direita é maioritária em todas as camadas sociais, e com percentagens maiores no mundo operário. Em França sabe-se como Marine Le Pen domina o voto dos trabalhadores. Muitos outros partidos e movimentos populistas e de direita radical pululam pela Europa e por todo o mundo. Serão as classes populares mais reacionárias e extremistas que todos os outros? Na formulação lapidar do historiador e jornalista francês Jacques Julliard, na sua obra La faute aux élites, de 1997, (demonstrando como, a partir dos finais dos anos 70 do século XX, o divórcio entre as elites e as classes populares empurrou aquelas para o populismo), “são as mais expostas, eis tudo.” (ibid.).

A recuperação do sentido comunitário nas nossas sociedades é fundamental. A certeza de que dependemos uns dos outros para o seu correto funcionamento é um princípio que tem de ser reafirmado e valorizado. Há um lugar para todos e o contributo de cada um é necessário para a existência coletiva. Como lembrou um dia Martin Luther King a trabalhadores da limpeza, em Memphis, “One day our society will come to respect the sanitation workers if it is to survive, for the person who picks up our garbage is in the final analysis as significant as the physician, for if he doesn’t do his job, diseases are rampant. All labor has dignity.” (Sandel, op. cit., p. 210).

Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 23:22
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Sexta-feira, 3 de Junho de 2022
SOCIEDADE DO DESCONHECIMENTO

Imagine-se a seguinte cena: numa escola americana, um aluno (Danny) confronta a professora por ter tido má nota num teste de Matemática. A professora explica-lhe que está com dificuldades nas operações de adição, exemplificando que este respondeu 22 à soma de 2+2. Numa atitude pedagógica, a professora diz: “Não fiques aborrecido; estás aqui para aprender e nós aprendemos com os nossos erros.”, ao que o petiz profere um sonoro e frustrado “Nãaaao!” A professora tenta demonstrar-lhe o cálculo que devia ter feito mas, perante a resposta correta, o aluno exclama, “Isso é estúpido”, insistindo que o resultado certo é 22 em vez de 4, e saindo intempestivamente da sala. No dia seguinte, a professora recebe a visita dos pais do Danny. Quando esta lhes diz que o aluno respondeu 22 ao resultado da soma de 2+2, os pais olham surpreendidos um para o outro e questionam, “E…?”, ao que a professora esclarece, incrédula, que essa não é a resposta certa, mas sim 4. A mãe da criança pergunta, então, à professora, “Quem disse?”, ao que esta responde calmamente, “A Matemática disse”. A troca de palavras sobe de tom, com os pais a acusarem a docente de estar a chamar o seu filho de “burro”, o que esta prontamente nega. Irritado, o pai pergunta-lhe: “Quem é você para afirmar que a sua resposta está certa e a do meu filho errada?” Começam os insultos, com o pai a alegar que o filho “é um livre pensador”. A professora acaba por ser agredida pela mãe do aluno. É apresentada queixa à direção da escola, que exige à docente um pedido de desculpa aos pais, alegando que “não é trabalho dos professores dizer quando os alunos estão certos ou errados.” Perante a recusa em pedir desculpa, a docente é suspensa de funções, enquanto “reconsidera as suas atitudes extremistas”.

Entretanto os pais do Danny promovem uma campanha pública contra a professora, processando a escola por esta ter causado “stress emocional a um menor”. Dias depois, face à posição assumida, a docente é chamada à administração escolar e instada a declarar que está “aberta à possibilidade de existirem várias respostas certas”, ao que a docente, indignada, alega que “isso não é verdade”. É, então, despedida. A questão chega aos media e o desnorte e desinformação sobre o episódio atingem o seu auge. Convocada a comparecer na escola para receber a indemnização pelo despedimento e, perante o testemunho dos jornalistas, prevenir situações futuras, o diretor entrega-lhe um cheque no valor de quatro mil dólares, correspondendo a dois mil dólares pelo pagamento do último ordenado, mais dois mil dólares de compensação. É então que a professora alega – deliciosa vingança – que a conta está errada e que a escola lhe deve, como ficou demonstrado pela acusação que lhe fizeram, vinte e dois mil dólares! Este pequeno filme tornou-se viral na internet e o seu lado anedótico e certamente exagerado, revela muitas das disfuncionalidades e distorções presentes nas nossas escolas e que as sociedades contemporâneas enfrentam quotidianamente.

Vivemos numa sociedade do desconhecimento? Nas palavras iniciais do seu estudo sobre a ignorância, a conclusão dos historiadores da ciência da Universidade de Stanford, Robert Proctor e Londa Schiebinger, deixa pouca margem para dúvidas: “We live in an age of ignorance” (Robert Proctor e Londa Schiebinger, Agnatology. The making and unmaking of ignorance, Stanford, California, SUP, 2008, p. VII), quer esta ignorância seja deliberadamente induzida (secretismo, censura ou destruição de informação), quer tenha uma raiz negligente (mecanismos de educação e divulgação deficitários), quer advenha de crenças e tradições inquestionadas ou de preconceitos infundados, quer seja produzida pela seletividade informativa. Em todo o caso, poucos estão dispostos a assumir que “Education is a progressive discovery of our own ignorance.” (ibid. p. 29), como disse o filósofo e historiador norte-americano Will Durant.

Mais do que isso, recusamo-nos a aprender, pondo em causa os sistemas periciais e as opiniões avalizadas ao nosso dispor. É pelo menos essa a convicção de Tom Nichols, professor de Relações Internacionais e Segurança na Universidade de Harvard, quando afirma que “Vivemos tempos perigosos. Nunca tantas pessoas tiveram tanto acesso a tanto conhecimento, sendo completamente resistentes a aprender seja o que for.” (Tom Nichols, A morte da competência, Lisboa, Quetzal, 2018, p. 19). Claro que este estado de coisas tem consequências. Como refere Nichols para o caso americano – mas que facilmente pode ser replicado à escala mundial – “Os Estados Unidos são hoje um país obcecado em venerar a sua própria ignorância.”, sendo que “o grande problema é que nos orgulhamos de não saber.”. E passa a explicar: “É uma nova Declaração da Independência: já não defendemos que estas verdades são evidentes, defendemos que todas as verdades são evidentes, mesmo as que não são verdadeiras. Tudo é passível de se conhecer e uma opinião sobre qualquer assunto vale tanto como outra qualquer.” (ibid., pp. 9-10), num processo em que os indivíduos passam de desinformados a mal informados, para se tornarem “agressivamente errados”.

Mas nem tudo é do âmbito da opinião, em especial daquela que não é informada; há coisas certas e erradas, e é inaceitável o postulado de que “a minha ignorância vale o mesmo que o teu conhecimento”, na certeira formulação de Isaac Asimov (Tom Nichols, op. cit., p. 17). A “ignorância convicta” e o questionamento sem dados comprovados, mas apenas a partir de crenças – a fezada do “achismo” – acerca do conhecimento científico e das ilações dos sistemas periciais, faz Nichols afirmar que “As pessoas não se limitam a acreditar em coisas parvas, mas resistem ativamente a aprender só para não terem de abdicar dessas crenças.” (ibid., p. 11). E as histórias que ouviu de médicos, advogados ou professores confirmam esta asserção: “Estas histórias surpreenderam-me: não eram sobre pacientes ou clientes que faziam perguntas sensatas, mas sobre esses mesmos pacientes e clientes a explicarem convictamente àqueles profissionais porque é que a opinião deles estava errada. Em todos estes casos, a ideia de que o perito sabia o que estava a fazer era praticamente rejeitada à partida.”, acrescentando, “Pior, aquilo que me choca particularmente hoje em dia não é que as pessoas descartem a competência, mas a frequência com que o fazem, em relação a assuntos tão diversos, e a raiva com que o fazem.” (ibid., p. 12). O académico norte-americano conclui: “Os americanos já não conseguem separar a frase «não tens razão» da frase «és estúpido». Discordar é o mesmo que desrespeitar. Corrigir o outro é o mesmo que insultá-lo. E não reconhecer todas as opiniões como igualmente dignas de consideração, por mais fantasiosas e ilógicas que sejam, equivale a ser-se intolerante.” (ibid., p. 46). Situação particularmente preocupante se tivermos em consideração que, segundo a National Science Foundatiom, um em cada cinco americanos considera que é o Sol que gira à volta da Terra; mas pior do que isso é que, quando confrontados com o erro, têm orgulho em reitera-lo (cf. ibid., p. 283). Assim estamos!

A verdade é que as nossas sociedades não conseguiriam funcionar sem que cada um de nós reconheça os limites do seu conhecimento e, em consequência, tenha que confiar no saber de outros, daqueles que tiveram a formação e o treino necessários ao exercício das funções que desempenham. A complexidade das questões com que nos defrontamos, a todos os níveis, obriga a uma interdependência permanente. Mas é esta circunstância que nem todos estão dispostos a assumir. E é essa sensação de crescente falta de autonomia individual que leva à assunção de posições tão extremadas quanto perigosas. Ao refletir sobre este fenómeno, o historiador e politólogo Richard Hofstadter, na sua obra Anti-intellectualism in american life (1963), constata que “a complexidade do mundo moderno reduziu paulatinamente as tarefas que o cidadão normal pode desempenhar sozinho com inteligência e competência”, dando-nos um exemplo muito claro desta situação: “No sonho original e populista da América, a omnicompetência do homem comum era fundamental e indispensável. […] Hoje, ele tem consciência de que nem sequer é capaz de fazer o pequeno-almoço sem a ajuda de aparelhos que lhe são, de certa forma, misteriosos e que lhe foram disponibilizados pela competência especializada. Quando se senta para tomar o pequeno-almoço e pega no jornal, lê sobre um leque vasto de assuntos e temas que, se for honesto consigo mesmo, terá de reconhecer que não tem competência para avaliar.” (Tom Nichols, op. cit., pp. 36-37).

Como o episódio com que iniciamos este texto amplamente demonstra, a “complexidade avassaladora” das sociedades modernas cria uma sensação de impotência que alimenta um ressentimento da população face à crescente dependência das aptidões dos especialistas. Tal hostilidade traduz-se na ideia errada e sumamente perversa de que todas as opiniões sobre qualquer assunto valem o mesmo. Mas, como é evidente, não valem! Trata-se, pelo contrário, de uma ameaça ao bem-estar de todos. Porque, mesmo reconhecendo que os especialistas podem, por vezes, errar, é uma sorte os leigos conseguirem acertar alguma vez. E isso faz toda a diferença. Para além da formação adequada e aquisição de uma serie de competências específicas, o perito dedica toda ou uma parte substancial da sua vida a trabalhar nas matérias em que é especialista, o que torna o seu saber necessariamente habilitado e exclusivo. Em quaisquer circunstâncias, o seu veredito é muito mais confiável do que o de um leigo.

Será esta, certamente, uma das raízes do fenómeno populista a que todos assistimos. Não é por acaso que o filósofo basco Daniel Innerarity começa o seu livro Uma teoria da democracia complexa, com a seguinte advertência: “A principal ameaça à democracia não é a violência nem a corrupção, ou a ineficiência, mas sim a simplicidade.” (Daniel Innerarity, Uma teoria da democracia complexa, Lisboa, Ideias de Ler, 2021, p. 13). A “rebelião contra a complexidade” de que fala o filósofo alemão Peter Sloterdijk, baseia-se no processo que Innerarity caracteriza desta forma: “A uniformidade, a simplificação e os antagonismos toscos exercem uma grande sedução sobre aqueles que não toleram a ambiguidade, a heterogeneidade e a plurissignificação do mundo, que são incapazes de reconhecer de maneira construtiva a conflitualidade social.” (ibid. pp. 13-14). E acrescenta: “As soluções simples costumam produzir uma descompressão momentânea da perplexidade e dos conflitos, mas acabam por piorar as coisas, no plano do conhecimento e da ação, diminuindo a nossa capacidade cognitiva e as nossas opções práticas.” (ibid., p. 17). Como disse o jornalista e crítico social norte-americano Henry Louis Mencken, “Por cada problema complexo existe uma resposta que é clara, simples e falsa.” (ibid., p. 59).

A complexidade decorre, antes de mais, do aprofundamento e especialização do conhecimento e da necessária diferenciação funcional das nossas sociedades. Assumir a incompletude do saber é uma atitude que parte do pressuposto certo de que a ciência é uma busca incessante – e, por isso, necessariamente imperfeita e provisória – de conhecimento. É uma atitude que nada tem a ver com a ignorância que, ao invés, é profundamente autossuficiente, ineficaz e intolerante. Neste contexto, um dos dilemas essenciais das nossas sociedades é a circunstância de dependermos do saber dos outros para a condução da vida de cada um, isto numa era de crescente indeterminação e incerteza, onde “quase tudo é possível, quase nada é previsível.”, nas palavras de Innerarity (op. cit., p. 359). Até porque, como sublinha o autor basco, “Os limites entre o saber e o não-saber não são inquestionáveis, nem evidentes, nem estáveis. Em muitos casos, o quanto se pode ainda saber, o que já não se pode saber ou o que nunca se saberá são questões em aberto.” (ibid. p. 67), ainda que só os que sabem se apercebam realmente deste problema. É a confiança nos outros que está aqui em jogo, em sociedades baseadas na ganância individual e crescentemente deslassadas pela exploração e desigualdade sociais. Mas, a não ser que concordemos com o ex-secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger, quando este dizia que “Para ter a certeza absoluta de algo, é preciso saber tudo ou nada sobre o assunto” (Visão, 26/5/2022), não temos alternativa senão aproveitar o que de melhor os sistemas periciais nos podem proporcionar.

Numa crónica antiga no Público (24/6/2021), Miguel Esteves Cardoso fez um impressivo diagnóstico da situação que vivemos: “O ser humano gravita inexoravelmente para o artificioso, para o falso, para o adocicado. Somos fáceis de enganar, porque queremos ser enganados e não temos coragem de o admitir.” E conclui: “Que acontecerá aos nossos olhos depois de tantos anos a comer só açúcar?” Fica a pergunta.



Hugo Fernandez



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Quinta-feira, 5 de Maio de 2022
O ECLIPSE

Imaginem uma eleição decisiva para a governação de um país disputada entre Cotrim de Figueiredo e André Ventura. Não precisam imaginar; foi o que se passou em França no passado dia 24 de abril (uns dias antes, os húngaros tiveram que fazer uma escolha semelhante nas eleições legislativas que deram o 4º mandato a Viktor Orbán). E o principal problema não está nesta evidente falta de escolha, mas na ausência da esquerda. Pela segunda vez consecutiva, a esquerda esteve ausente da 2ª volta das eleições presidenciais francesas. Jean-Luc Mélenchon, com os seus quase 8 milhões de eleitores, mais os 3,5 milhões de outros candidatos de esquerda, representando cerca de 30% do eleitorado (Emmanuel Macron atingiu os 28% e Marine Le Pen quedou-se pelos 23%), perderam, mais uma vez, a oportunidade de juntarem as suas forças e impedirem aquilo que o historiador Manuel Loff designou como uma “escolha horrível” entre “o radicalismo neoliberal e o radicalismo fascista” (Público, 19/4/2022). Cita, a este propósito, o historiador e sociólogo francês Marcel Gauchet que, já em 2019, avisava que “se em 2022 tivermos uma segunda volta Macron/Le Pen, dir-nos-ão a mesma coisa que da última vez: ‘Cuidado, [Le Pen] é uma ameaça para a República’. E eu concordo plenamente. Mas estaremos a prevenirmo-nos contra uma ameaça potencial com um candidato que é uma ameaça comprovada para a República!” Como é possível que, num dos mais importantes e influentes países europeus, não haja uma alternativa de esquerda a disputar não só esta, mas todas as eleições?

Como se explica este autêntico eclipse da esquerda? Uma primeira tentativa de resposta está na sua fragmentação endémica. A outra, na sua incapacidade analítica e falta de clarividência sobre os reais problemas e anseios da população. Em 2017, o mandato de Emmanuel Macron iniciou-se com a eliminação do imposto de solidariedade sobre as grandes fortunas (ISF), a redução da carga fiscal sobre os lucros empresariais e uma “reforma” do Código de Trabalho altamente favorável ao patronato. De entre as dez medidas-chave que foram agora a escrutínio contam-se o adiamento da idade da reforma dos 62 para os 65 anos e a obrigação dos beneficiários do rendimento de solidariedade ativa (RSA) trabalharem mais quinze horas por semana, proporcionando às empresas uma mão-de-obra barata e a recusa do aumento dos salários em setores em que as ofertas de emprego têm dificuldade em ser preenchidas. Um autêntico bingo neoliberal que foi apresentado como “uma medida de justiça” (cf. Serge Halimi, “Eleições francesas sob impacto internacional”, Le Monde Diplomatique, ed. portuguesa, abril de 2022).

Acresce que, perante o regresso – e a previsível escalada – da inflação, não está prevista qualquer medida de apoio aos rendimentos dos mais desfavorecidos ou de mitigação do aumento do custo de vida, preservando, isso sim, as margens de lucro das empresas (ameaçadas pela redução da procura) e os dividendos dos respetivos acionistas, em especial daquelas que integram o índice bolsista CAC40 e que tiveram lucros históricos de 160 mil milhões de euros em 2021. Não é, aliás, por acaso que, em novembro de 2021, a revista britânica The Economist tenha publicado um artigo com o título provocatório “A França está a sair-se bem mas a sentir-se miserável” (Público 9/4/2022), destacando a melhoria geral da situação económica do país relativamente aos outros parceiros europeus (com um crescimento na ordem dos 7%), com menos desemprego e um aumento da produção no âmbito da estratégia governamental Made in France, bem como um acréscimo considerável dos lucros empresariais. Mas este desempenho só foi conseguido à custa de um aumento dos horários de trabalho, de uma forte contenção salarial, de um agravamento brutal do custo de vida e da degradação dos serviços de saúde e dos apoios sociais, situação que piorou com a pandemia e, mais agora, com os efeitos inflacionistas da guerra na Ucrânia, aspetos naturalmente omitidos na análise da publicação supracitada.

O dossier temático do Le Monde Diplomatique (ed. portuguesa) de janeiro de 2022 intitulado “Encruzilhadas da Esquerda”, sintetiza, desta forma, o problema: “O inverno atinge grande parte da esquerda na Europa. As novas formações críticas da social-democracia, como o Podemos em Espanha ou o Die Linke na Alemanha, estão hoje longe das esperanças que inicialmente suscitaram, enquanto o desaparecimento do Partido Comunista em Itália, em abril de 1991, deixou o campo progressista desorientado.”, concluindo, “Incapaz de escutar as aspirações populares e de beneficiar do descontentamento geral, a esquerda fecha-se muitas vezes num discurso em que o pathos compete com a frivolidade.” Trata-se de um diagnóstico impiedoso, mas certeiro.

Como aí é referido, em 2002, os sociais-democratas dirigiam 13 dos 15 governos da União Europeia; passados vinte anos, restam apenas 7 em 27 estados-membros (Alemanha, Finlândia, Suécia, Dinamarca, Espanha, Portugal e Malta). Semelhante colapso encontra uma explicação no paradoxo cruel enunciado em 2020 pelo velho senador socialista, Jean-Pierre Chevènement: “A globalização neoliberal, através da liberdade de circulação de bens, serviços, capitais e seres humanos, não está posta em causa pela esquerda, que em grande medida se uniu ao social-liberalismo, mas pela chamada direita «populista»”. E aqui reside parte substancial da tragédia da esquerda.

Comentando tal circunstância, Benoît Bréville e Serge Halimi explicam que “Para serem concretizados, os objetivos de transformação social têm de se apoiar num forte movimento das classes populares. Já ninguém ignora que a consciência dos fracassos de uma política, ou até da ilegitimidade de um sistema, não faz nascer automaticamente a vontade de os derrotar. Quando faltam instrumentos para o conseguir, a revolta ou a cólera cedem muitas vezes caminho ao desenrascanço, ao salve-se-quem-puder ou à convicção de que os direitos sociais do vizinho constituem privilégios.” (Le Monde Diplomatique, ed. portuguesa, janeiro de 2022). Esta disposição favorece, obviamente, a extrema-direita populista. Quando teve responsabilidades governamentais, a esquerda não falhou porque aplicou o seu programa; falhou porque alinhou com o programa dos seus adversários. E isso os povos não lhe perdoam. Ficou tristemente célebre a sentença do presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker quando, na sequência da vitória do Syriza nas eleições de 2015, advertiu os gregos que “Não pode haver uma escolha democrática contra os tratados europeus”. Perante este estado de coisas, advém uma sensação absoluta de impotência, indutora do desespero. A “despolitização” e abstenção crescentes de amplas camadas da população de que se fala, resulta certamente da constatação de que as alternativas estão bloqueadas, nada muda e nada se pode vir a ganhar no atual jogo político.

O perigo da esquerda se tornar insignificante reside essencialmente na sua incapacidade de ultrapassar dogmas e sectarismos totalmente irrelevantes para responder às atuais preocupações das pessoas. Como diz o ex-dirigente comunista Domingos Lopes, “A sociedade mudou. Não podemos repetir o que não tem sentido dadas as novas condições. A atualidade de Marx é, em muitos aspetos, muito mais rica do que a de muitos dos seus intérpretes, que lhe transformaram o pensamento em mandamento, em texto sagrado, algo totalmente contrário ao espírito do filósofo da práxis.”, concluindo que “o passado é apenas um ponto de referência para perscrutar o futuro.” (Domingos Lopes, 100 anos do PCP. Resgatar e reconfigurar o ideal comunista, Lisboa, Guerra & Paz, 2022, p. 33).

Fica a ingente questão colocada pelo jornalista Rui Guedes, diretor-executivo da revista Visão, a propósito das eleições francesas: “O que raio terá acontecido à democracia quando nos resignamos, sem sobressalto, à hipótese de ela desaparecer?” (Visão, 21/4/2022).

Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 22:15
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Domingo, 17 de Abril de 2022
Atualidades - velhas e novas "coisas" do mundo

Estudos Globais

Falar do altermundismo do altercapitalismo, da crise do capitalismo, da crise da democracia, da desorientação da esquerda, da recomposição dos totalitarismos através da pressão dos nacionalismos, falar disto tudo, é falar de erros das democracias, dos sistemas políticos e dos seus dirigentes. Tema introdutório apresentado no seminário do doutoramento de Estudos Globais da UAb.

Como sabemos o Fórum Social Mundial (FSM), no seus primeiros anos (início em 2001 em Porto Alegre - Brasil) foi o principal território no compartilhar da experiência das esquerdas e dos movimentos pela transformação social. Mais do que um espaço para multiplicar iniciativas e redes militantes, significou uma política da composição e de partilha, uma estratégia organizacional mais aberta, afirmativa, transnacional, com múltiplos sentidos e objetivos: médias, internet, minorias, luta pela terra, cultura, políticas urbanas (cidades e territórios mais sustentáveis), — bem no espírito do movimento da participação cidadã e também pela defesa dos direitos das minorias autóctones da América. Desde a primeira edição, o FSM foi objeto de muitas críticas, internas e externas.

O altermundismo estaria enquadrado e “capturado” por instâncias representativas tradicionais, rapidamente cooptado por governos e líderes. Estaria também hegemonizado por uma esquerda moderada, que não fez jus à contestação sistémica, manifestada pelas lutas dos anos 1990. Foi ainda infestado pela febre das ONGs, que capturaram os movimentos populares, para comodamente se instalarem como entidades da sociedade civil em parceria com os estados. Estaria ainda rendido à ideia de um capitalismo mais humano e sustentável: a ideologia por excelência das classes médias ilustradas, liberais e “terapeutizadas” (a dita conversa dos afetos…). Em suma, seria anticapitalista mas pelo lado “fofinho” . Não soube, não se preocupou e não lhe interessou em traçar a linha entre o dentro e o fora, e acabou engolido no lamaçal geral das próprias concessões e ambiguidades. Em parte, essas críticas até têm razão de ser. Já em 1996, no “pós-Glasnost”, os movimentos que pugnavam por uma “nova esquerda” diagnosticavam a importância de abrir as práticas, contra qualquer esboço de esquerdismo ou isolacionismo, de militantes nostálgicos de outros tempos históricos. Viúvas de Seattle (as manifestações contra o encontro da OMC de novembro de 1999) e Génova (manifestações contra a reunião do G8 em Génova, julho de 2001) lamentam o “adesismo”, a subserviência e a impudência de novas alianças e composições políticas. Declaram-se extrema-esquerda, que é outra forma de dizer-se mais esquerda do que os outros. Munidos de “esquerdómetro”, passam a monopolizar o parâmetro de julgamento para separar o joio do trigo. Esse julgamento com fundo moral e em tom de denúncia, professado como compromisso mais puro e convicto do que os demais, passa então a infiltrar-se nas atividades e posturas mais quotidianas dos coletivos esquerdistas, infetando tudo de uma moralidade que é insuportável a longo prazo. Uma fração do que hoje se denomina luta anticapitalista está permeada dessa cultura política negativa e sectária, cuja impotência se reflete na incapacidade de agregar bases sociais minimamente significativas.

Noutra medida, contudo, essas críticas ao altermundismo têm a sua razão de ser. Porque a abertura do FSM também deixou a porta aberta para a diluição da revolta, da recusa e do poder constituinte por formas neutralizadas, ou mediante a captura pura e simples pelo espírito do capitalismo. Isso desde a primeira edição. Ao longo dos anos 2000, aconteceu, de facto, um movimento de “adoçamento” generalizado. A geração descafeinada (a geração descafeinada é a do tempo presente que perdeu o estímulo pelas coisas importantes na vida e por esta razão vive na dependência de quem a estimule) dos anos 2000 toma o lugar da geração revoltada dos 1990. Com a domesticação, o discurso radical ganha um duplo mutilado, um gémeo esmorecido, sem a mesma verve. Assim, o ambientalismo é reduzido ao ecologismo verde; a desigualdade social reduzida à sustentabilidade e assistência; a opressão de raça e género, ao culto da diversidade e ao politicamente correto; a falência da lógica representativa, a um problema de gestão e profissionalismo. Enquanto isso, a corrupção institucionalizada e sistémica tornar-se-à uma questão individual e moral; e a democracia, uma questão de procedimentos e transparência; os novas médias, de capacitação jornalística e blogosfera progressista; a cultura livre, de novos modelos de negócios; e a revolução digital desregulada está a caminhar para uma nova profecia redentora que unificará a humanidade pela própria força utópica além da luta de classe. Militância torna-se uma palavra pesada e é substituída por ativismo. O campo das esquerdas é capturado por missionários deste neo-ativismo de classe média, entre verdes, gente das ONGs (os ditos ongueiros), humanistas liberais e o bom e velho gestor capitalista autossustentável. É o Zeitgeist do altercapitalismo: responsabilidade social, consciência planetária e sacos de plástico tornam-se palavras-de-ordem no melhor interesse geral… do capitalismo. Starts with you! Se alguns anticapitalistas falham em considerar como processos de transformação não se dão simplesmente porque queremos, mas em virtude de forças políticas sobre os quais eles se apoiam; os altercapitalistas exprimem forças e direcionam esses processos exatamente no sentido de uma reestruturação conservadora da ordem capitalista.

A par das vacinas antiCovid, talvez uma vacina antropofágica, nome poético para a urgentemente necessária esquizoanálise altermundialista da cultura em que vivemos. O próprio sistema capitalista já tomou consciência da necessidade de reestruturar-se e reinventar-se: ser outro. Desde 2008 até estes tempos atuais, em que um Estado de oligarcas declara e invade um país, uma nação….na maior crise sistémica desde a quebra da Bolsa de 1929 e consequente segunda guerra mundial, os seus pensadores, dirigentes e consultores têm esforçado por trabalhar por algo como um novo New Deal. Afrontado com um ciclo de lutas potentíssimo e sem conclusão à vista, o altercapitalismo está na ordem do dia no seio do próprio establishment. Eles sabem que as coisas não serão como antes, então é preciso adaptar-se, ceder os anéis para não perder os dedos, e contemplar novos territórios de exploração e acumulação, agora mais intensiva e horizontal. O capitalista sabe como nunca que precisa empreender criativamente. Nesse contexto, em 2022, subsiste uma convergência geral no discurso de sustentabilidade, da gestão, do desenvolvimento humano, da responsabilidade social, do empreendedorismo criativo e da consciência global.

Se certo anticapitalismo não é alternativa, à altura do horizonte de lutas em 2022; por outro lado, o altermundismo parece estar encerrado como processo constituinte, esgotado das suas polivalências e (algumas) brechas constituintes — e não é à toa que alguns já falam em pós-altermundismo. Outro nome para o novo capitalismo? Para onde vamos? O tempo é de perplexidade. As lutas globais de 2011-14 (tempos da troika) certamente não se perderam. Existem vetores de transformação por dentro dessa bifurcação? O facto é que será necessário voltar a pensar, às cartografias sociais e urbanas, à antropologia dos movimentos, na imanência das lutas. È imperativo e necessário derrapar pela tangente das grandes sínteses e fazer postular as feridas de um discurso cada vez mais asséptico, neutralizado. A invocação de convergências e consensos deve ser respondida com a agressividade teórica e prática. Uma nova imanência e um novo materialismo, eis aí o desafio da geração que ainda pulsa. Que isto inspire o apoio convergente de nacionalistas, neofascistas e comunistas em diversos países do mundo mostra bem a crise de civilização em que vivemos.

Albardeiro



publicado por albardeiro às 14:05
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Sábado, 26 de Março de 2022
JOGO DE ESPELHOS

O mito ultraliberal do mercado autorregulado e sem necessidade de intervenção pública, e a constatação de que o crescimento económico não significa necessariamente desenvolvimento social, podendo, ao invés, ser indutor de pobreza, encontra o seu expoente máximo na Rússia de Vladimir Putin. A rápida e generalizada desestatização e desregulação da economia russa, numa sociedade carente de uma estrutura jurídica e institucional minimamente preocupada com garantias de coesão social, fez com que o boom económico prometido após o fim da União Soviética, não viesse a acontecer. Pelo contrário, a economia caiu para metade, a deterioração do nível de vida foi brutal, o número dos que viviam em condições de pobreza (cerca de 4 dólares por dia), aumentou de 2% para perto de 50%, enquanto os expedientes mafiosos e as privatizações generalizadas transformavam em multimilionários uma clique de poderosos, numa altura em que o governo não tinha sequer dinheiro para pagar aos pensionistas e funcionários do Estado. A liberalização da economia provocou, nestas circunstâncias, a fuga maciça de capitais e a colocação das fortunas dos oligarcas em mercados financeiros mais apetecíveis ou em paraísos fiscais mais protegidos (cf. Joseph Stiglitz, “Prefácio” a Karl Polanyi, A grande transformação, Lisboa, Edições 70, 2012, p. 73).

A Rússia ficava dependente de todo o tipo de esquemas criminosos, com a entrega dos ativos económicos a um conjunto de comparsas fiéis, sempre na expetativa de comissões e retribuições várias, através da criação de uma complexa teia de avençados – o “capitalismo mafioso” de que fala Joseph Stiglitz (op. cit., p. 77) – com consequências sociais catastróficas e sob o domínio autocrata de um novo Czar, esquecendo “os muitos indivíduos que são precipitados na pobreza, ou os muitos postos de trabalho destruídos por comparação com os criados, ou o aumento dos níveis de violência, ou a extensão do sentimento de insegurança ou de redução à impotência.” (ibid.). Ou seja, o gigante euro-asiático tornou-se um dos sistemas mais extremados de exploração capitalista, de selvajaria de mercado e de pura cleptocracia (com toda a coorte de corrupção endémica, lavagem de dinheiro, especulação financeira, violação sistemática de leis e regulamentos), exemplo paradigmático da ordem neoliberal globalizada.

Os casos relatados por João Miguel Tavares relativos ao comportamento de governantes russos são, não só verdadeiramente escandalosos, como deveras elucidativos. Conta-nos o jornalista que um anterior ministro da Defesa, Anatoli Serdiukov, teve de se demitir em 2012, porque a sua amante, funcionária no ministério, andou a vender propriedades pertencentes ao Estado a preço de saldo, algumas das quais compradas com dinheiro roubado de uma empresa estatal de manutenção de equipamentos de aviação sob a tutela do próprio Serdiukov. Por sua vez, o atual ministro, Serguei Shoigu, construiu em segredo um sumptuoso palácio de 20 milhões de euros nos arredores de Moscovo, que registou em nome da filha, e uma sua cúmplice fechou negócios no valor de 100 milhões de dólares com o próprio Ministério da Defesa. João Miguel Tavares cita, a este propósito, o economista e prémio Nobel da Economia em 2008, Paul Krugman, em artigo publicado no The New York Times (“A lavagem de dinheiro pode ser o calcanhar de Aquiles de Putin”), em que este estima que a elite russa terá bens num valor correspondente a 85% do PIB russo fora do país, dados confirmados pela ONG Transparência Internacional, que assegura que, entre 2008 e 2020 – em pleno consulado de Putin – atuais e antigos altos funcionários do Estado russo adquiriram 28 mil propriedades em 85 países (cf. Público, 19/3/2022).

Neste contexto, é útil relembrar a reflexão premonitória de Vladimir Ilyich Ulianov (Lenine) – nomeadamente na sua obra O imperialismo, fase superior do capitalismo, de 1917 – que constitui um clássico da análise marxista acerca do imperialismo, processo de acumulação capitalista à escala mundial na fase que o autor russo designou por “capitalismo monopolista”, e que a atual globalização tão bem representa. Na caracterização que faz deste processo, Lenine conclui que as potências capitalistas dividem o mundo em esferas de influência, e que essa divisão abre a possibilidade de uma futura luta intercapitalista para redividir o mundo. Foi nesse quadro, aliás, que ele identificou as causas da Grande Guerra e que o Comintern encontrou também os fundamentos da II Guerra Mundial (pelo menos até à invasão nazi da União Soviética).

O fenómeno imperialista, manifestando-se, obviamente, de formas diversas e em contextos históricos diferenciados, tem expressão matricial nas relações hegemónicas entre as superpotências e os países das respetivas áreas de influência, quer em termos de estratégias neocoloniais exploradoras e extrativistas, quer em termos de subjugação militar e da exigência de vassalagem política. É a este processo que assistimos com a presente invasão da Ucrânia pela Rússia. Para Putin, a soberania da Ucrânia é um obstáculo à restauração do seu projeto imperial pan-eslavo, autêntico “espaço-vital” russófono (a lembrar outros Lebensraum de triste memória!) baseado na agregação dos territórios de Minsk, Kiev e Moscovo. Não é por acaso que, em 2005, no discurso sobre o estado da nação, Putin declarou que “o fim da URSS foi a maior catástrofe geopolítica do século XX. Para o povo russo, isto constituiu um verdadeiro drama”. Referindo-se ao abandono da Rússia por parte de milhões de habitantes dos novos países independentes, na sequência da desagregação da União Soviética em 1991, Putin empregou a expressão “tragédia humana em larga escala” (Público, 16/3/2022). Significativo! Como disse em 1994, na revista Foreign Affairs, Zbigniew Brzezinski, diplomata e Conselheiro Nacional de Segurança do Presidente norte americano Jimmy Carter, “Sem a Ucrânia, a Rússia deixa de ser um império; mas com a Ucrânia subornada e subjugada, a Rússia converte-se automaticamente num império.” (Visão, 10/3/2022).

Em qualquer caso, não há imperialismos “bons” e “maus” e nenhum impulso irracional de tipo pavloviano os poderá jamais justificar. Nas justas palavras de Rui Tavares, “quem for anti-imperialista não pode ser agora outra coisa senão inimigo da estratégia de Putin e capaz de lhe contrapor outra melhor: mais libertadora, mais respeitadora das muitas identidades de que somos feitos, mais prenhe de futuro e, portanto, mais capaz de mobilizar os seus muitos milhões com uma visão positiva digna do século XXI.” (Público, 1/3/2022). Certamente a Ucrânia não é um modelo de democracia; é mesmo provável que nunca o venha a ser. Mas tem todo o direito de seguir o seu caminho como qualquer outro país soberano. E só a independência nacional e a liberdade da sua população para tomar as decisões que muito bem entenda, asseguram que tal aconteça.

Numa emissão televisiva em novembro de 2016, ao perguntar a uma criança de 9 anos onde terminava a fronteira russa, Putin teve como resposta “estreito de Bering”. Imediatamente corrigiu o seu pequeno interlocutor, retorquindo que “A fronteira da Rússia não acaba em lado nenhum”. Confessaria, mais tarde, que estava a “brincar” (Visão, 3/3/2022). Mas este lapsus linguae é revelador do pensamento do autocrata. E, como refere António Guerreiro, “Um país que olha para o passado e o vê à sua frente e não atrás de si tem de facto uma existência muito complexa, a precisar de um tratamento radical que a história acabará por lhe ministrar.” (Ípsilon, Público, 4/3/2022).


Hugo Fernandez



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Terça-feira, 1 de Março de 2022
CONSEQUENTE

Se não fosse trágico, dir-se-ia uma anedota. António Filipe, o histórico deputado comunista e vice-presidente da Assembleia da República – que agora falhou a eleição para o Parlamento – concluiu, em declarações ao Diário de Notícias (21/2/22), que “Não é expectável que o PCP possa ter a influência política e social que já teve”. A justificação para esta lapalissada é a lacónica afirmação, “Não era o que desejávamos e lutámos para que assim não fosse, mas aconteceu que foi.” Por seu lado, a líder do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, em entrevista ao Público (18/2/22), e refletindo sobre o que falhou nas eleições legislativas antecipadas de 30 de janeiro, reitera que “o partido não se arrepende de ter votado contra o Orçamento do Estado de 2022.” Culpa-se o clima de medo criado quer pela pandemia, quer pelo avanço da extrema-direita, com a consequente bipolarização política e a concentração de votos no PS. E é tudo.

Claro que o PS, perante a fraqueza dos partidos à sua esquerda (de que as eleições presidenciais e autárquicas foram sinais inequívocos) quis livrar-se dos parceiros da “geringonça” e forçar eleições, para conquistar a maioria absoluta. Contou para isso com a colaboração ativa do Presidente da República, que almejava acabar o mandato colocando o PSD, ou uma versão alaranjada do bloco central, no poder. Montada a armadilha, foi esticar a corda no momento oportuno. O OE para 2022 não era pior do que os anteriores, que mereceram a viabilização da esquerda à esquerda do PS. Mas a situação destes partidos era consideravelmente mais frágil. Quiseram ir a jogo sem terem condições para tal. Perderam. Perdemos.

Há uns anos, era usual fazer-se a distinção entre a esquerda “consequente” e a “inconsequente”, para explicar a diferença entre o PCP e o BE, por um lado, e o PS, por outro. Por pouco rigorosa que fosse a terminologia usada, essa divisão fazia sentido e correspondia a uma efetiva divisão no seio da esquerda. A demarcação passava pela postura oportunista de um PS onde, como acontece em todos os catch all party, os princípios tendem a adequar-se a uma vasta gama de interesses e raramente constituem obstáculos para um variado leque de opções, numa espécie de pragmatismo de alta flexibilidade. Foi, aliás, este ecleticismo ideológico que, ao longo da história, o levou a aliar-se mais frequentemente às forças de direita do que às outras formações de esquerda. Por outro lado, havia a esquerda “a sério”, que se pautava por uma análise rigorosa da realidade, pela defesa intransigente de princípios políticos justos e por uma luta inspirada “num profundo sentimento de insatisfação e de sofrimento perante as iniquidades das sociedades contemporâneas”, na definição certeira do conhecido filósofo político italiano Norberto Bobbio (Direita e Esquerda, Lisboa, Presença, 1995, p. 21). Habituamo-nos a ver nesta esquerda consequente um porto seguro e a garantia da defesa dos interesses dos desfavorecidos e injustiçados. E o povo de esquerda, como se viu, apreciava o papel do PCP e o BE na fórmula política encontrada em 2015. Era a pressão exercida por seu intermédio que permitia manter o PS alinhado com objetivos de esquerda, assegurando benefícios importantes para a população. Por isso, não percebeu nem aceitou o chumbo do Orçamento, penalizando fortemente estes partidos.

A gestão satisfatória da crise pandémica, a manutenção de um papel significativo do Estado social e do SNS, o aumento do salário mínimo, das pensões e das prestações sociais, o novo regime de passes e a baixa no preço dos transportes, os manuais escolares gratuitos, a redução de propinas e avanços na progressividade fiscal serão, para alguns, coisa pouca. Mas eram conquistas que estavam consolidadas. E, certamente, seria mais avisado esperar pelo fim da legislatura para o ajuste de contas político. Não é por acaso que foi na margem sul do Tejo, onde se concentra muito do eleitorado tradicionalmente comunista e bloquista, que houve maior transferência de votos para o PS (cerca do dobro da média nacional).

É por isso que as declarações do dirigente bloquista Jorge Costa, são incompreensíveis. Em nome de uma “posição de coerência”, assume a espantosa bravata, “Se soubéssemos o resultado das eleições, manteríamos o voto”, reiterando, “Se o Bloco fosse um partido eleitoralista, poderia ter cedido ao calculismo eleitoral e ter definido outro sentido de voto no OE”, mas que “o BE não procede segundo esses critérios” (Público, 4/2/2022). É certo que a “chantagem política” do PS nesta legislatura, os efeitos da bipolarização com o PSD – este último de braço dado com a extrema-direita – e a perspetiva do regresso ao pesadelo da troika neoliberal, deu uma maioria absoluta a António Costa que ninguém podia prever e um afundamento – que, esse sim, muitos anteciparam – da esquerda consequente. Mas o que irão conseguir agora PCP e Bloco, reduzidos à insignificância parlamentar é à irrelevância política?

Pouco sentido fará, aliás, questionar-se sobre “O que seria da esquerda a longo prazo, se se remetesse a essa posição de roda suplente do carro do PS?”, como faz Jorge Costa. Não se tratava de apoiar o PS, mas de respaldar as políticas que reconhecidamente beneficiavam os cidadãos. De defender um património que é principalmente da esquerda consequente – de que o BE faz parte – e não deixar fugir a oportunidade de continuar uma ação minimamente eficaz nas várias áreas da luta política. Isto não será coerência? É que coerência não significa dogmatismo, mas assertividade e eficácia na defesa dos princípios de sempre. Da mesma forma que uma prática política que não atende à teoria se pauta pelo simples oportunismo, uma teoria que não tem em consideração a realidade concreta, não passa de mera especulação ou voluntarismo estéril, por mais bem intencionado que seja. Como escreve a direção da revista Manifesto (publicação semestral da Associação Fórum Manifesto, fundada por Miguel Portas), “as soluções políticas de convergência à esquerda só não ficarão inscritas na história do nosso país como um simples parêntese, como um momento único e singular, se houver alternativas genuínas e com capacidade de convergir.” (Manifesto, inverno de 2021). Para se ser consequente é preciso, antes de mais, ser. E, como se sabe, a política tem horror ao vazio.

Claro que se pode alegar que, em 2002, PCP e BE tinham um número de votos semelhante ao que tiveram agora (cerca de meio milhão), passando em 2015, devido à sua luta contra a troika, para o dobro e impondo a derrota à direita. Mas não me parece que a situação que vivemos possa ser comparável à dessa época. A vitimização de Costa com o chumbo do OE para 2022 pelos partidos à sua esquerda, funcionou. Muito melhor, aliás, do que ele próprio esperava. Fez o seu jogo político e ganhou em toda a linha. Mas a falta de visão de PCP e BE que, não só caíram na armadilha, como foram incapazes de ler os sinais que o povo de esquerda lhes transmitia, isso sim, é o mais preocupante. Doravante ver-nos-emos confrontados com um PS em roda livre, com políticas mais restritivas e OE certamente piores do que o que aqueles partidos chumbaram: brilhante estratégia! E como ficará a mobilização para as lutas sociais e para os confrontos laborais que se adivinham?

No editorial do Le Monde Diplomatique (fevereiro de 2022), Sandra Monteiro fez, de forma muito lúcida, o rescaldo do que aconteceu: “Nas eleições legislativas de 30 de janeiro, o medo de ter ainda menos superou a vontade de ter um pouco mais.” O medo de uma vitória da direita coligada com a extrema-direita e o regresso dos “anos de chumbo” da troika, fizeram os votantes de esquerda escolher o mal menor, através do que ela apelidou de “votos anti austeridade”. E, num país em que 5% dos portugueses concentram 42% da riqueza nacional e onde 22,4% da população (cerca de 2,3 milhões de pessoas) vive na pobreza (sendo que quase metade destas, trabalha), “o ano de 2022 começa com piores condições para resolver os seus problemas.” E aqui, a culpa não morre solteira.

Esta esquerda permanecerá consequente. Mas será confiável?


Hugo Fernandez





publicado por albardeiro às 12:41
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Domingo, 2 de Janeiro de 2022
72 QUILÓMETROS

No Afeganistão, 45 milhas (cerca de 72 quilómetros) marca, a partir de agora, uma nova fronteira da indignidade. Desde o passado dia 26 de dezembro, os taliban anunciaram que as mulheres têm de ser acompanhadas por um parente do sexo masculino para realizarem viagens de longa distância, recomendando aos motoristas dos transportes coletivos que apenas aceitem passageiras portadoras de véu islâmico. Tal absurdo, emanado de um autointitulado “Ministério para a Promoção da Virtude e da Prevenção do Vício” – designação sinistra para a atuação de um poder totalitário – vem demonstrar, mais uma vez, aquilo que era já uma certeza: a barbárie que se abateu sobre o Afeganistão com a chegada dos taliban ao poder, em agosto deste ano, “vai tornar as mulheres afegãs prisioneiras”, conforme denunciou Heather Barr, da organização não-governamental Human Rights Watch (Público, 27/12/2021).

Porque é de direitos humanos que se trata; nada mais. E tal como é inconcebível, nos nossos dias, que um ser humano seja propriedade de outro, como acontecia com a escravatura no mundo antigo, é igualmente intolerável que a metade feminina da população afegã seja considerada inferior, desprovida de direitos, de razão e de vontade, a ponto de ter que se sujeitar a uma tutela masculina, tão aviltante para as mulheres como vergonhosa para os próprios homens. Infelizmente não é caso único. Mas não pode deixar de ser considerada uma aberração e de merecer a mais firme condenação da Humanidade.

Uma das principais conquistas da modernidade é a perceção da evolução das sociedades e a noção clara de que não se pode parar o tempo histórico. Não é possível reviver o século VII em pleno século XXI. Claro que, filosoficamente, os direitos humanos são contingentes à própria historicidade, mas a força da sua facticidade decorre da aprovação universal dos seus postulados e do reconhecimento formal da Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU (1948), por países de todas as proveniências e tradições culturais, incluindo o Afeganistão. Nas palavras do filósofo germânico Jürgen Habermas, “los derechos humanos provienen menos del transfondo cultural particular de la civilización occidental que del intento de responder a desafios específicos planteados por una modernidade social que ha acabado por abarcar todo el globo” (cit. in Perry Anderson, Spectrum, Madrid, Akal, 2008, p. 168).

Aliás, como bem lembra Rui Tavares a propósito da génese deste documento (Público, 27/8/21), foram as delegadas indiana, Hansa Mehta, e brasileira, Bertha Lutz, que propuseram, logo nas primeiras sessões da Comissão da ONU encarregue da sua elaboração, a denominação mais inclusiva de “Direitos Humanos”, em vez de “Direitos do Homem” (como anteriores documentos históricos europeus consignavam). Foram também os representantes filipino, Carlos Romulo, o chinês PC Chang e o libanês Charles Malik, que mais defenderam o caráter universal dos seus postulados. Nenhum deles era ocidental.

Há um velho provérbio afegão que diz: “Vocês têm relógios, mas nós temos tempo”. Mas, como justamente lembrou o nosso compatriota Padre António Vieira já nos idos de seiscentos, “Não há poder maior no mundo que o do tempo: tudo sujeita, tudo muda, tudo acaba”. Que realidade é esta que irrompeu no Afeganistão? Certamente não falamos de espiritualidade devota, mas da ditadura de uma súcia de tiranos que a coberto da legitimação religiosa asseguram uma autoridade discricionária e absoluta. A isso costuma chamar-se fascismo!

Hugo Fernandez



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Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2021
TEATRO DO ABSURDO

Há dias em que nos deparamos com uma sequência de afirmações públicas que são expressão do mais puro disparate. É o caso de Maria Helena Costa, porta-voz do movimento “Deixem as crianças em paz” (o que quer que este movimento seja!). Conforme revelou Joana Marques no seu programa radiofónico Extremamente desagradável, da Rádio Renascença (do qual o artigo de Bárbara Reis, no Público de 13/11/2021 faz eco), tal personagem publicou um vídeo nas redes sociais em que declarava, “Um pai entrou em contacto comigo e disse-me que, em Viana do Castelo, há escolas a passarem filmes pornográficos, pelo menos uma vez por semana, para alunos de 11 e 12 anos!”, ou “O meu filho adorava-me, muito mesmo. Até o socialismo dominar a mente dele”. Mas há mais pérolas desta fervorosa crítica da disciplina curricular de Cidadania e Desenvolvimento: “[As ideias da identidade de género são] puramente ideológicas e servem os interesses de associações radicalizadas, altamente financiadas por grupos que querem baixar rapidamente a população mundial.” Para esta ex-chefe de distribuição no Grupo Jerónimo Martins, que se define como “cristã, esposa e mãe – a ordem é mesmo essa” (como faz questão de sublinhar), “O problema é quando nós vivemos numa sociedade em que os meios de comunicação social são claramente marxistas, claramente reféns do Estado”, rematando com o seguinte delírio: “Vem meia dúzia de iluminados para a televisão dizer que aquilo que estamos a dizer é mentira e as pessoas, simplesmente – como eles aparecem na televisão, como alguns são ministros – acreditam mais depressa neles do que em quem estuda, quem pesquisa e quem está a lutar contra este flagelo [itálicos meus]. Faz lembrar a Alemanha: quando os alemães deram conta, já milhões de judeus tinham morrido nas câmaras de gás.” Hã?!

Também temos exemplos de sinal contrário, isto é, do domínio do “politicamente correto”. Na recente produção de “Romeu e Julieta”, levada à cena pela Shakespeare’s Globe Theatre, em Londres, procurou-se não ferir a sensibilidade dos espetadores, ao distribuir um folheto com avisos do seguinte teor: “No final, quando Romeu bebe veneno, e o ator vomita e entra em convulsões, isso não é real – e não, o ator não está doente.”, ou “Há uma luta no palco. A violência, no entanto, não é real e não deve ser imitada. Há sangue no palco – mas não é real.” (Ler, verão/outono de 2021). Os responsáveis do teatro, com a preocupação de protegerem os espetadores mais impressionáveis – e como “ativistas da saúde mental”, conforme declaram – disponibilizam mesmo uma consulta num hospital para quem, ainda assim, ficar chocado com a morte de Julieta! Não sei o que é pior; se a infantilização dos espetadores, se o despropósito da inquietação, se a insensatez da proposta.

Há, de facto, dias em que parece estarmos a viver uma qualquer peça do chamado “teatro do absurdo”, designação dada em 1961 pelo crítico húngaro Martin Esslin à dramaturgia dos aspetos inusitados da nossa existência, do “sentido do sem sentido da condição humana”, aqui versado no abandono do mais ténue resquício de bom senso e na dissolução dos mais elementares princípios da racionalidade, pela indução da ignorância extrema e do fanatismo mais descabelado. Neste contexto, do simples absurdo, facilmente podemos resvalar para o domínio da iniquidade e para a afirmação verdadeiramente indecorosa. Entrevistado a propósito do seu mais recente livro, O Jardim dos Animais com Alma, e depois de uma série de patetices sobre a capacidade pensante dos animais, o jornalista José Rodrigues dos Santos sai-se com esta declaração espantosa: “Se descobrimos que as galinhas têm inteligência e emoções, matamo-las? Então nós, que nos indignamos com o que se passou em Auschwitz e nos Gulags, temos isso à porta de casa?!” (TVGuia, 11/11/2021). Sem comentários! (apesar de apetecer lembrar a José Rodrigo dos Santos que – helás – Adolf Hitler era vegetariano).

Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 16:05
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