Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Terça-feira, 10 de Janeiro de 2017
ERA UMA VEZ

Nos escombros da II Guerra Mundial, surgiu a ideia generosa da construção de uma Europa unida e próspera, que permitisse o estabelecimento de relações pacíficas duradouras entre os países europeus (nomeadamente a França e a Alemanha), através de um processo de integração supranacional e a criação de políticas económicas comuns e de um mercado único europeu. O Tratado de Roma de 1957, ao instituir a Comunidade Económica Europeia (futura União Europeia), lançou as bases desta construção, a partir do princípio essencial da solidariedade entre os diferentes países do continente, tendo por base iniciativas consensuais de cooperação. Era isso que constava do preâmbulo deste documento fundador, onde se podia ler “A Comunidade tem como missão, através da criação de um mercado comum e da aproximação progressiva das políticas dos Estados-Membros, promover, em toda a Comunidade, um desenvolvimento harmonioso das atividades económicas, uma expansão contínua e equilibrada, uma maior estabilidade, um rápido aumento do nível de vida e relações mais estreitas entre os Estados que a integram.”, bem como um conjunto de outras disposições que tinham como objetivo assegurar “o progresso económico e social dos seus países eliminando as barreiras que dividem a Europa”, fixar “como objetivo essencial dos seus esforços a melhoria constante das condições de vida e de trabalho dos seus povos” e “assegurar o seu desenvolvimento harmonioso pela redução das desigualdades entre as diversas regiões e do atraso das menos favorecidas”.

Passaram 60 anos. A União Europeia converteu-se numa máquina burocrática ao serviço dos interesses económicos e financeiros dominantes. Nada mais. Em vez do respeito mútuo e da solidariedade, assistimos a uma escalada dos egoísmos nacionais, da intolerância e da xenofobia. Em vez da cooperação e da atenuação das assimetrias, a “lei do mais forte”, a chantagem, a humilhação. Quando, em julho de 2015, o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, foi obrigado a aceitar as condições draconianas de um empréstimo de 86 mil milhões de euros – sob a ameaça de expulsão da zona euro – foi mais uma vez o mecanismo comunitário da chantagem que prevaleceu. Considerado pelo Financial Times como “o mais intrusivo programa de supervisão económica alguma vez aplicado na União Europeia” e mesmo tendo o FMI considerado que a dívida pública da Grécia era absolutamente insustentável, esta foi, como refere a politóloga e especialista em questões europeias, Catherine Moury, “uma ilustração paradigmática de um jogo de poder, que a Grécia acabou por perder em benefício da Alemanha e dos seus aliados. No entanto, a União Europeia (UE) foi originalmente criada para garantir que nenhuma potência europeia iria exercer hegemonia sobre os seus parceiros.” (Catherine Moury, A democracia na Europa, Lisboa, FFMS, 2016, p. 7).

O mesmo aconteceu quando, no final do ano passado, o governo grego enunciou a sua intenção de devolver o 13º mês às pensões mais baixas e não aumentar o IVA das ilhas que têm o encargo de acolher milhares de refugiados que demandaram a Europa, tentando, no primeiro caso, mitigar a miséria de grande parte da sua população e, no segundo, implementar a solidariedade europeia com um dos países que constituem a sua fronteira externa. A recusa liminar das autoridades de Bruxelas mostra bem o ponto a que se chegou, com o Eurogrupo a retaliar com a suspensão de quaisquer medidas de alívio à dívida grega.

Nesta “central de negócios” em que se transformou a UE, a crescente concentração de poder nas mãos dos países credores é inversamente proporcional aos mais elementares princípios da democracia, imunizando a atuação dos dirigentes comunitários da indispensável legitimidade eleitoral e da consequente responsabilização pública pelas suas decisões. Ainda para mais quando estas decisões implicam cidadãos de outros países, relativamente aos quais não há qualquer espécie de consulta, impondo-lhes medidas extremamente gravosas para a sua vida e dignidade pessoais, e atentatórias do seu orgulho nacional. As ideias originais de solidariedade, consenso e compromisso que constituíram os alicerces da construção europeia (nomeadamente no respeito pelos interesses dos países mais fracos), há muito que já não têm qualquer relevância no governo da União, tendo sido substituídas pela mera lógica usurária do credor-devedor. A exclusão do Parlamento Europeu das deliberações tomadas no quadro da União Económica e Monetária é um exemplo flagrante deste processo. Tal como a constatação de que apenas 10% do dinheiro dos resgates recebidos pela Grécia reverteu para o Governo e cidadãos helénicos, tendo todo o resto servido para a amortização da dívida e recapitalização dos bancos. Em declarações a uma televisão grega em março de 2015, um dos diretores executivos do Fundo Monetário Internacional, Paolo Batista, reconheceu mesmo que as instituições europeias e o FMI “deram dinheiro para salvar os bancos alemães e franceses, não a Grécia” (Moury, 2016: 84).

Daí a perplexidade de um dos mais conceituados sociólogos do nosso tempo, o alemão Ulrich Beck, sobre o estado da União Europeia, ao ouvir, em finais de fevereiro de 2012, a notícia de que “O Bundestag alemão decide hoje o destino da Grécia”. Tratava-se da votação do segundo “pacote de ajuda” (cínica designação!) à Grécia, que suscitaram ao professor de Munique estas interrogações: “como é isto possível? O que significa, na realidade, uma democracia votar o destino de outra democracia? Qual a democracia que se impõe? Com que direito? Com que legitimação democrática? Ou será que os meios de extorsão da economia desempenham aqui o papel decisivo?”, para concluir, “Em que país, em que mundo, em que crise vivemos realmente quando uma tal declaração de incapacidade de uma democracia passada por uma outra não causa qualquer escândalo?” [itálicos no original] (Ulrich Beck, A Europa alemã, 2013, pp. 15-16).

Na afirmação taxativa de Ulrich Beck, “Todos sabem, mas dizê-lo abertamente significa quebrar um tabu: a Europa tornou-se alemã.” (Beck, 2013: 11). Valha-nos a esperança que o sociólogo germânico enuncia: “Este tipo de discrepância entre as expetativas e a realidade é sempre motor para a mobilização social.” (ibid: 27). Oxalá tenha razão.

 

Hugo Fernandez

 



publicado por albardeiro às 17:07
link do post | comentar | favorito
|

pesquisar
 
Junho 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30


posts recentes

A MENTIRA

ELEIÇÕES

TIROS NO PORTA-AVIÕES

A NOVA ORDEM

INFORMAÇÃO

ERA UMA VEZ

ILUSÃO FATAL

A LIÇÃO

SALVE-SE QUEM PUDER

ESCOLHA RACIONAL

arquivos

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Janeiro 2016

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Abril 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds