Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Quarta-feira, 24 de Março de 2004
Mais Coisas!

Sábado, Dezembro 13, 2003


Depois de um breve interregno por motivos profissionais e académicos aqui estamos novamente, mais animados(!), mais..., mais preocupados, mas sempre bem dispostos! ... nunca vi nada assim. Voltamos à vaca fria. Atenção, isto não é mais do mesmo... é só um poucochinho! Reportagem A guerra e o saque É só por curiosidade: em meados do ano passado, enquanto se estava a incubar ¿esta guerra¿, George W. Bush declarou que "temos de estar prontos para atacar em qualquer obscuro canto do mundo". O Iraque, portanto, é um obscuro canto do mundo. Julgará Bush que a civilização nasceu no Texas e que foram os seus compatriotas que inventaram a escrita? Nunca terá ouvido falar da biblioteca de Ninive, nem da torre de Babel, nem dos jardins suspensos da Babilónia? Não ouviu nem um só dos contos das mil e uma noites de Bagdad? Quem o elegeu presidente do planeta? A mim, ninguém me convocou para votar nessas eleições. E a vocês? Iríamos nós eleger um presidente surdo? Um homem incapaz de ouvir nada mais senão os ecos da sua voz? Surdo perante o troar incessante de milhões e milhões de vozes que pelas ruas do mundo estão declarando paz à guerra? Nem sequer foi capaz de ouvir o carinhoso conselho de Günter Grass. O escritor alemão, compreendendo que Bush tinha necessidade de demonstrar alguma coisa muito importante ao seu pai, recomendou-lhe que consultasse um psicanalista em vez de bombardear o Iraque. Em 1898, o presidente William McKinley declarou que Deus lhe tinha dado ordem de se apoderar das ilhas Filipinas, para civilizar e converter ao cristianismo os seus habitantes. McKinley disse que falou com Deus ao passear, à meia-noite, pelos corredores da Casa Branca. Mais de um século depois, o presidente Bush assegura que Deus esteve/está do seu lado na conquista do Iraque. A que hora e em que lugar recebeu a palavra divina? E porque terá Deus dado ordens tão contraditórias a Bush e ao Papa de Roma? Declarou-se guerra em nome da comunidade internacional, que está farta de guerras. E, como de costume, declarou-se guerra em nome da paz. Não é pelo petróleo, dizem. Mas se o Iraque produzisse rabanetes em lugar de petróleo, a quem passaria pela cabeça invadir esse país? Bush, Dick Cheney e a ¿doce¿ Condolezza Rice, terão renunciado realmente aos seus altos empregos na indústria petrolífera? Porquê esta mania de Tony Blair contra o ditador iraquiano? Não será porque há 30 anos Saddam Hussein nacionalizou a britânica Irak Petroleum Company? Quantos poços espera receber José María Aznar na próxima partilha... e o nosso barão ex-maoísta? A sociedade de consumo, bêbeda de petróleo, tem pânico da síndroma de abstinência. No Iraque, o elixir negro é o menos dispendioso, e se calhar o mais valioso. Numa manifestação pacifista em Nova Iorque, um cartaz perguntava: "Como é que o nosso petróleo foi parar debaixo das areias deles?" Os Estados Unidos anunciaram uma longa ocupação militar, após a vitória. Os seus generais encarregar-se-ão de estabelecer a democracia no Iraque. Será uma democracia igual à que ofereceram ao Haiti, à República Dominicana ou à Nicarágua? Ocuparam o Haiti durante 19 anos e fundaram um poder militar que foi desembocar na ditadura de Francois Duvalier. Ocuparam a Dominicana durante nove anos e fundaram a ditadura de Rafael Leónidas Trujillo. Ocuparam a Nicarágua durante 21 anos e fundaram a ditadura da família Somoza. A dinastia dos Somoza, que os marines puseram no trono, durou meio século, até que em 1979 foi varrida pela fúria popular. Então, o presidente Ronald Reagan montou a cavalo e lançou-se a salvar o seu país ameaçado pela revolução sandinista. A Nicarágua, pobre entre os pobres, tinha, no total, cinco ascensores e uma escada rolante, que não funcionava. Mas Reagan denunciava que a Nicarágua era um perigo; e enquanto ele falava, a televisão mostrava um mapa dos Estados Unidos pintado de vermelho a partir do sul, para ilustrar a invasão iminente. O presidente Bush copia-lhe os discursos que semeiam o pânico? Bush diz Iraque onde Reagan dizia Nicarágua? Títulos dos jornais, nos dias anteriores à guerra: "Os Estados Unidos estão prontos a resistir ao ataque". Recorde de vendas de fitas isolantes, de máscaras anti-gás, de pílulas anti-radiações... Porque é que tem mais medo o verdugo do que a vítima? Só por este clima de histeria colectiva? Ou treme porque pressente as consequências dos seus actos? E se o petróleo iraquiano incendiasse o mundo? Não será esta guerra a melhor vitamina de que está a precisar o terrorismo internacional? Dizem-nos que Saddam Hussein passou (agora?) a alimentar os fanáticos da AL Qaeda. Um ninho de corvos para que lhe arranquem os olhos? Os fundamentalistas islâmicos odiavam-no. É satânico um país onde se viam filmes de Hollywood, onde muitos colégios ensinavam/ensinam inglês, onde a maioria muçulmana não impede os cristãos de andarem com a cruz ao peito e não é de estranhar verem-se mulheres de calças e com blusas ousadas. Não houve nenhum iraquiano entre os terroristas que derrubaram as torres de Nova Iorque. Eram quase todos da Arábia Saudita, o melhor cliente dos Estados Unidos em todo o mundo. Também é saudita Bin Laden, esse bandido que os satélites perseguem enquanto foge a cavalo pelo deserto, e que diz presente de cada vez que Bush precisa dos seus serviços de ogre profissional. Sabiam que o presidente Dwight D. Eisenhower, em 1953, disse que a "guerra preventiva" era uma invenção de Adolfo Hitler? Afirmou: "Francamente, eu não levaria a sério ninguém que viesse propor-me uma coisa semelhante." Os Estados Unidos são o país que mais armas fabrica e vende no mundo. São também a única nação que lançou bombas atómicas contra a população civil. E está sempre, por tradição, em guerra contra alguém. Quem ameaçava/ameaça a paz universal? O Iraque? O Iraque não respeitava as resoluções da Organização das Nações Unidas (ONU)? Respeita-as Bush, que acaba de dar o mais espectacular coice na legalidade internacional? Respeita-as Israel, país especializado em ignorá-las? O Iraque ignorou no período anterior à ocupação, 17 resoluções da ONU. Israel, 64. Irá/pensará Bush bombardear o seu mais fiel aliado? O Iraque foi arrasado, em 1991, pela guerra de Bush pai, e reduzido à fome pelo bloqueio posterior. Que armas de destruição em massa pode esconder este país que foi em massa destruído? Israel, que desde 1967 usurpa terras palestinas, conta com um arsenal de bombas atómicas que lhe garantem a impunidade. E o Paquistão, outro fiel aliado que de resto é um notório ninho de terroristas, exibe as suas próprias ogivas nucleares. Mas o inimigo foi/é o Iraque, porque "poderia ter" essas armas. Se as tivesse, como a Coreia do Norte proclama que as tem, teriam a coragem de atacá-lo como o atacaram? E as armas químicas e biológicas? Quem vendeu a Saddam Hussein as substâncias para fabricar os gases venenosos que asfixiaram os curdos, e os helicópteros para lançar esses gases? Porque não mostra Bush os recibos? Naqueles anos, de guerra contra o Irão, de guerra contra os curdos, Saddam era menos ditador? Até Donald Rumsfeld o visitava em missão de amizade. Porque é que os curdos comovem agora, e antes não? E porque é que só comovem os curdos do Iraque, e não os curdos muito mais numerosos que a Turquia sacrificou? Rumsfeld, actual secretário da Defesa, anunciava que o seu país usaria "gases não mortais" contra o Iraque (se calhar usou e o mundo ainda não deu conta). Seriam gases tão pouco mortais como os que no ano passado usou Vladimir Putin no teatro de Moscovo, e que mataram mais de cem reféns? Durante uns tantos dias, durante a invasão, nas Nações Unidas cobriu-se com uma cortina a Guernica de Picasso, para que essa desagradável cenografia não perturbasse os toques de clarim de Colin Powell. De que tamanho será a cortina que esconderá a carnificina do Iraque, segundo a censura total que o Pentágono impôs aos correspondentes de guerra? Leiam o livro de Carlos Fino. Para onde irão as almas das vítimas iraquianas? Segundo o reverendo Billy Graham, assessor religioso do presidente Bush e agrimensor celestial, o paraíso é bem mais pequeno: mede nada mais que 1500 milhas quadradas. Poucos serão os eleitos. Adivinha: Qual será o país que comprou quase todas as entradas? E uma pergunta final, que peço emprestada a John Le Carré: - Vão matar muita gente, papá? - Ninguém que tu conheças, querido. Só estrangeiros. Nos próximos ¿Posts¿ vão surgir mais textos. Textos de autores por quem temos alguma simpatia, também de quem admiramos, e de quem, por vários anos de cumplicidades nos une uma profunda amizade.



publicado por albardeiro às 19:20
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