Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Quarta-feira, 24 de Março de 2004
Continua!

O ¿POST¿ que segue é mais um texto enviado pelo meu amigo Hugo Fernandez, aliás, publicado no último número da Seara Nova. Como é um pouco extenso será ¿postado¿ em fatias...


O ¿EIXO DO BEM¿? REFLEXÕES SOBRE O DOMÍNIO IMPERIAL NORTE-AMERICANO


No discurso pronunciado a 20 de Setembro de 2001, na sequência dos atentados às Twin Towers e ao Pentágono, George W. Bush faz esta espantosa afirmação: ¿Cada país, cada região, deve agora escolher: ou estão connosco, ou estão com os terroristas. Esta luta é do mundo inteiro. É uma luta de civilização.¿ Para além do aspecto caricatural desta visão do mundo e do esquematismo desta chantagem grosseira, exigindo a vassalagem incondicional do mundo ao poder americano, é a agressividade da linguagem do presidente norte-americano que mais impressiona. A arrogância deste ultimatum corresponde ao estatuto ímpar dos E.U.A no mundo de hoje, que o ministro francês Hubert Védrine designou por hiperpotência. De facto, desde a desagregação da União Soviética e o fim da Guerra Fria, a hegemonia americana não oferece dúvidas. Acresce que a actual administração norte-americana, na sequência de tendências que tinham surgido em governos anteriores, optou decididamente por uma política belicista e por uma ¿cruzada¿ contra o Mal que, pelo seu efeito de atracção sobre a generalidade de uma população ignorante e infantilizada, é verdadeiramente trágica. Como diz Bush, com um assinalável cinismo, ¿É uma luta de civilização¿. Um pouco à semelhança, afinal, do maniqueísmo das posições próprias do fundamentalismo islâmico ¿ qual reverso da mesma moeda ¿ de que, aliás, os E.U.A foram os principais patrocinadores e também as principais vítimas. Ao descurar outros campos de intervenção e protagonismo e ao privilegiar exclusivamente uma estratégia guerreira, baseada em tecnologias militares de ponta, os norte-americanos parecem ter assegurado o domínio do planeta. Esta opção, tomada muito antes dos acontecimentos do 11 de Setembro, tem a sua grande base de apoio no gigantesco poder do complexo tecnológico-militar, cuja teia de interesses e cumplicidades se estende ao actual governo e guia a sua acção. Diga-se, em abono da verdade, que do ponto de vista americano com assinaláveis êxitos. De facto, desde a conquista militar do Afeganistão e do Iraque, até ao controle do Médio Oriente por intermédio de um apoio incondicional a Israel, passando pelo estabelecimento de bases militares nas ex-repúblicas soviéticas da Ásia central, assistimos a uma presença reforçada das tropas americanas em regiões do mundo que, até agora, fugiam ao seu controle directo. Isto para além do domínio absoluto do continente americano e da forte presença no Extremo Oriente e em pontos estratégicos de África. A coberto de uma pretensa luta anti-terrorista, mascaram-se os verdadeiros interesses no acesso às fontes de combustíveis, como o petróleo ou o gás natural e o controle das principais rotas comerciais, com vista a assegurar uma supremacia global. Estaremos, no entanto, a falar de um domínio da mesma natureza daquele que já existia anteriormente? Pensamos que não. Aparentemente vitorioso e incontestado, este domínio revela, de facto, fragilidades insuspeitas. São aliás essas dificuldades que explicam a própria agressividade da postura norte-americana. Paradoxal? Atentemos nalguns aspectos.


UMA ECONOMIA EM DECLÍNIO


Desde logo, no aspecto económico. É neste preciso momento de máximo domínio militar e estratégico que, curiosamente, os E.U.A têm o défice comercial mais elevado do mundo, dependendo, como nunca, do exterior. De facto, a América encontra-se, do ponto de vista económico, extremamente vulnerável, uma vez que as importações necessárias para alimentar um mercado interno insaciável são muito superiores às actuais exportações americanas. Os Estados Unidos já não conseguem produzir o suficiente para o seu sustento. Este constitui um facto inédito na história contemporânea. Em 2001, o défice norte-americano atingia os 366 mil milhões de dólares ¿ aproximadamente 3500 vezes o produto total de um país como Portugal -, sendo a maior fatia em dívida à China, seguida do Japão e da União Europeia (e desta, quase metade à Alemanha). De 1995 para 2000, a importação de produtos industriais não cobertos pelas exportações passou de 5% para 10%. Acresce a esta situação, a constante valorização da moeda europeia face ao dólar, com uma expressão nunca antes vista. E apesar desta valorização do euro poder significar, a curto prazo, uma perda do poder concorrencial das exportações europeias, parece certo que também reflecte a crescente confiança de zonas do mundo cada vez mais alargadas na capacidade económica dos países da UE, em detrimento da tradicional hegemonia americana, conforme ficou definida após a Segunda Guerra Mundial, em Bretton Woods. A ordem monetária e económica baseada no dólar está em crise. Para salvar a sua economia, os E.U.A são forçados, contra as regras de mercado livre que supostamente defendem e a que querem obrigar os outros países, a promoverem cada vez com mais frequência políticas económicas proteccionistas e a enveredarem por constantes ¿guerras comerciais¿ com o resto do mundo. Aliás, muita da estratégia militar americana visa precisamente o controle das fontes energéticas a nível mundial, já que o petróleo representa cerca de um quinto do total das suas importações. Mas não porque haja perigo imediato de escassez destes produtos para o consumo predador dos americanos e sim para impedir qualquer outro país de ter a possibilidade de fazer concorrência aos E.U.A. Recupera-se, desta forma, o sentido estratégico da opção militar que consta no famoso texto de Março de 1992, apresentado no final do mandato de Bush sénior ¿ o Relatório Cheney-Rumsfeld-Khalilzad (qualquer deles, sublinhe-se, altos responsáveis da actual administração americana) ¿ que, sem ambiguidades, defende que ¿a missão da América consiste em assegurar que nenhuma outra superpotência possa emergir no resto do mundo. Poderemos consegui-lo convencendo todos os restantes países industriais avançados de que os E.U.A defenderão os seus interesses legítimos e mantendo um potencial militar suficiente.¿ E conclui, dizendo: ¿Os E.U.A deverão instaurar mecanismos a fim de dissuadirem os concorrentes potenciais de procurarem ter a pretensão de desempenhar um papel regional mais importante ou um papel mundial.¿[1] Esclarecedor!


A CRISE IRAQUIANA


A hegemonia americana precisa, assim, de se afirmar pela força das armas. Não porque exista qualquer ameaça real ao seu domínio. Mas porque é necessário garantir que não haja qualquer hipótese de concorrência nem muito menos de paridade. O Império sente-se ameaçado. E isso, longe de constituir uma posição de força constitui, pelo contrário, uma declaração de fraqueza. Como afirmou recentemente o historiador americano Immanuel Wallerstein, a perda do domínio económico e ideológico e a sua substituição por uma hegemonia exclusivamente militar, é uma situação característica das potências em declínio[2]. De facto, no momento em que o domínio imperial americano parece ter atingido o seu ponto máximo, talvez nunca tantas pessoas, instituições e governos em tantos países diferentes do mundo, tenham assumido abertamente as suas divergências perante a política dos E.U.A. Generaliza-se uma atitude de reserva, quando não de claro repúdio, face à crescente hegemonia norte-americana. A opção da actual administração norte-americana por uma política externa abertamente agressiva, faz com que a relação dos E.U.A com os outros países do mundo se apresente de forma substancialmente diferente. É certo que, desde sempre, os E.U.A se revelaram uma potência agressiva, não hesitando em empreender acções militares directas contra outros países ou em fomentar golpes de estado ou acções violentas em vários pontos do mundo, na defesa dos seus interesses. Havia, no entanto, outros factores de hegemonia que iam desde o domínio económico ao domínio político e ideológico, que agora estão claramente enfraquecidos e subalternizados. A sobranceria do poder militar absoluto e o egocentrismo agressivo que advém de uma pretensa superioridade moral leva, por outro lado ao desprezo pelo papel das instâncias e dos organismos internacionais e principalmente da ONU. Não é de admirar o repúdio generalizado a tais pretensões. A crise iraquiana é, a este respeito, paradigmática. Por isso, personalidades insuspeitas de terem quaisquer simpatias de esquerda ou tentações anti-americanas, como é o caso de Adriano Moreira, numa recente intervenção no ciclo de conferências ¿Não à Guerra ¿ o Desconserto do Mundo¿, no Porto, fez esta sugestiva afirmação: ¿Da nova ordem internacional, só sei que acabou a antiga¿. Crítico assumido da invasão unilateral norte-americana do Iraque, este professor universitário reconhece o profundo mal-estar que esta intervenção provocou sobretudo entre os E.U.A e os seus aliados europeus ¿ com conhecidas excepções ¿ apelando, aliás, para a necessidade de não acentuar a divisão existente e ¿deitar fora um património que levou meio século a construir¿. Este foi, sem dúvida, um momento de ruptura e não uma mera divergência pontual. Com efeito, o vigor das críticas publicamente manifestadas face à guerra no Iraque pela França, pela Rússia, mas sobretudo pela Alemanha ¿ uma atitude inédita por parte de um dos países europeus considerados mais próximos dos E.U.A ¿, traduz grandes alterações nas relações trans-atlânticas A ponto do insuspeito Javier Solana, ex Secretário-Geral da NATO e actual Alto Representante para a Política Externa e de Segurança Comum da União Europeia ter desabafado que as ¿relações Europa-E.U.A não melhoram com sorrisos¿[3]. Esta divisão é tão acentuada que começam a surgir em Washington vozes que se interrogam sobre se a emergência de uma Europa unida e alargada é do interesse dos próprios Estados Unidos. Talvez isso explique o descarado aliciamento dos americanos aos países de Leste candidatos à UE, bem como as intoleráveis pressões da Casa Branca no sentido de acelerar o processo de integração europeia da Turquia. Tal como o azedume das referências de Donald Rumsfeld ao que ele apelidou de ¿velha Europa¿, na tentativa de quebrar a unidade europeia o que, diga-se em abono da verdade, parcialmente conseguiu. Há, com efeito, que garantir aliados seguros e inquestionavelmente submissos. Nessa linha já se tinha assistido à imposição do alargamento da NATO a países do ex-bloco soviético, bem como a constantes humilhações da Rússia na cena internacional. Toda a situação política internacional, aliás, mudou. A manifesta dificuldade dos americanos em conseguirem convencer os países que actualmente têm acento no Conselho de Segurança das Nações Unidas ¿ países de peso internacional modesto como o Chile ou Angola ¿ em legitimar a sua aventura iraquiana, obrigou-os mesmo à embaraçosa retirada duma segunda resolução nesse sentido. Os seus propósitos ficaram assim excluídos do direito internacional e a sua acção tornou-se não só ilegítima como manifestamente ilegal. Mesmo países da região, como a Turquia ¿ membro da NATO ¿ ou a Arábia Saudita, tradicionais e fieis aliados dos E.U.A, recusaram liminarmente a presença das tropas americanas nos seus territórios e qualquer envolvimento no conflito vizinho. Trata-se de algo absolutamente inédito. A própria evolução da intervenção americana no Iraque é prova das enormes pressões a que os E.U.A estão sujeitos . Verificou-se o refreamento dos impulsos mais destruidores por parte dos chefes militares e dos ¿falcões¿ da administração norte-americana, que advogavam para o Iraque uma solução do tipo daquela levada a cabo no Japão no final da Segunda Guerra Mundial: bombardeamentos maciços das principais cidades iraquianas, com milhares de mortos ¿ o célebre efeito ¿choque e pavor¿ ¿ e o recurso, se necessário fosse, a armamento nuclear. Como se viu, a pressão da opinião pública americana e internacional, para quem tal perspectiva era pura e simplesmente intolerável, obrigou à adopção de outras soluções mais limitadas e ¿cirúrgicas¿. Estamos convencidos que foi também a força da opinião pública e dos governos de todo o mundo, que impediu uma escalada do conflito a países vizinhos, como a Síria, contrariando as intenções publicamente manifestadas pelas autoridades de Washington.


2ª PARTE


A FRAQUEZA DA FORÇA


A opção belicista da administração Bush está longe de constituir prova inequívoca de força. Antes revela uma indisfarçável ansiedade e insegurança. Pensamos que é precisamente o conhecimento que os E.U.A têm dos seus reais limites no controle do mundo, que provoca a brutal agressividade da política norte-americana. Tudo e todos são considerados uma ameaça, se não se mostrarem inteiramente subservientes aos diktats dos E.U.A. Aliás, no preciso momento em que o domínio imperial americano parece atingir o seu apogeu, é também o momento em que a hegemonia dos E.U.A é mais contestada. Não é por acaso que o historiador e ensaísta norte-americano Max Boot, ¿think tank¿ do poder neoconservador de Washington, defendeu, em recente entrevista ao jornal Público, que se os E.U.A não conseguissem promover os seus valores e ideias no mundo, perderiam a guerra contra o terrorismo e veriam a seu domínio planetário altamente comprometido[4]. Esta simples constatação mostra como a ferida está aberta e a crise instalada. A situação não está tão controlada como poderíamos pensar. A administração Bush necessitou, por tudo isto, de lançar a ideia da ¿guerra permanente¿. O próprio Bush afirmou, no seu célebre discurso de 20 de Setembro de 2001, na sequência dos atentados de Nova Iorque e Washington, que ¿Os americanos não devem esperar uma única batalha, mas uma longa campanha sem precedentes.¿ Mesmo que a ameaça seja meramente potencial e a guerra ganhe o estatuto de ¿preventiva¿. Há é que manter um constante estado de tensão internacional que justifique a política agressiva e hegemónica dos americanos. A extrema perversidade desta concepção explica a despudorada confissão feita pelo secretário adjunto de Donald Rumsfeld, Paul Wolfowitz, à revista Vanity Fair, segundo a qual se admitiu que a existência dos arsenais de armas proibidas não foram a principal razão para a invasão do Iraque. Para este responsável da administração norte-americana, ¿Por razões burocráticas centrámo-nos numa questão, as armas de destruição maciça, porque era o único motivo sobre o qual todo o mundo se podia entender¿[5]. Por ¿razões burocráticas¿!? A total desfaçatez desta declaração, mostrando sem margem para dúvidas a intencional sobreavaliação do perigo que o regime iraquiano constituiria para os países vizinhos, mostra até que ponto pode ir a nova administração americana na persecução dos seus objectivos e na manutenção da sua estratégia belicista. O próprio secretário da Defesa norte-americano, Donald Rumsfeld, em recentes declarações à imprensa, colocou a possibilidade do dito armamento ter sido destruído antes do início da guerra, o que, sublinhe-se, tinha sido precisamente a condição imposta pelos próprios americanos ao Iraque para que a guerra não existisse. O regime iraquiano tinha, afinal, cumprido a principal exigência do Conselho de Segurança da ONU e dos próprios E.U.A, para evitar uma guerra que sabia ser o seu fim. É tal a gravidade deste gigantesco embuste, que nos próprios E.U.A, membros do Senado pedem explicações formais à Casa Branca e duvidam das reais motivações da intervenção americana e da política externa de George W. Bush. À semelhança do que, aliás, acontece com os deputados britânicos que na Casa dos Comuns acusaram Tony Blair de exagerar propositadamente a ameaça do arsenal de Saddam Hussein, exigindo a apresentação de provas da sua existência. O desenrolar da operação militar no Iraque mostra, pelo contrário, que o potencial bélico do regime iraquiano era irrelevante ¿ exaurido que estava por anos de sanções internacionais e de privações de toda a ordem ¿ e que a proclamada ameaça de armas de destruição maciça não fazia sentido. Pura e simplesmente não existiam. Ninguém duvida que, se Saddam Hussein tivesse tal tipo de armamento, no estertor do seu regime, certamente teria feito uso desta ¿última cartada¿. Como se sabe, no passado, o ditador não hesitou no uso de armas químicas contra a sua própria população. Tal como nunca existiram as proclamadas ligações entre o regime iraquiano e a Al-Qaeda, conforme foi recentemente revelado por dois dos mais altos responsáveis dessa organização, capturados no Paquistão e detidos nos E.U.A. Abu Zubaydah, responsável pelo planeamento e recrutamento da rede terrorista e o chefe operacional Khalid Sheikh Mohammed negaram, em distintos interrogatórios à CIA, qualquer colaboração com o regime de Saddam Hussein[6]. É fácil de perceber que seria pouco provável o entendimento entre um regime nacionalista laico, ainda que muçulmano, e um movimento fundamentalista islâmico. A


¿GUERRA INFINITA¿


Afinal de contas, o poderio tecnológico-militar acaba por ser o domínio em que os norte-americanos se superiorizam claramente a todos os outros países, atingindo quase a metade dos gastos mundiais em armamento. Isso explica, na nossa opinião, essa necessidade de manter constantemente um clima de tensão internacional e de agressividade guerreira. Um estado de permanente conflito; uma ¿guerra infinita¿. Esta é a matriz da sua supremacia e a justificação do seu poder. Para o antropólogo americano Emmanuel Todd, ¿Os Estados Unidos estão em vias de se tornar um problema para o mundo.¿[7]A proclamada ¿cruzada¿ anti-terrorista, não poderia constituir melhor pretexto para este papel. A diabolização de alguns países ¿ o¿Eixo do Mal¿- e a encarnação do inimigo na organização Al-Qaeda, são disso exemplos. Isso explicaria, por outro lado, a falta objectiva de empenho por parte dos E.U.A em resolver conflitos internacionais, como o que se verifica entre israelitas e palestinianos no Médio Oriente, para o qual tinham óbvia capacidade de intervenção. Pelo contrário, ali como em outras zonas do mundo, interessa aos norte-americanos manter um permanente foco de instabilidade, que permita justificar o seu poderio militar e a sua estratégia agressiva. Veja-se o próprio caso do Iraque. A perpetuação da ocupação militar deste país ¿ já se fala num período de 4 anos ¿ tem como justificação a necessidade de controlar uma situação generalizada de desordem, consentida senão mesmo fomentada pela passividade da actuação das tropas americanas, após o derrube de Saddam Hussein. Curiosamente, este estado de anarquia nunca se verificou em tudo o que diz respeito à produção petrolífera. Neste caso, não só as instalações e infra-estruturas nunca foram atacadas durante a guerra, como não sofreram qualquer saque ou destruição depois desta ter terminado. Os níveis de produção petrolífera já são semelhantes aos verificados antes do conflito. Não é aliás por acaso que numa recente sondagem do prestigiado grupo empresarial Gallup, realizada em 41 países, a opinião largamente maioritária indique que as intervenções militares no Afeganistão e no Iraque deixaram o mundo mais perigoso[8]. A omnipotência americana provoca, isso sim, uma crescente desestabilização do nosso planeta. Vamos mesmo mais longe. Para que a sua supremacia guerreira possa compensar a sua efectiva fragilidade económica, política e ideológica, os E.U.A deixam alimentar o ódio que crescente número de populações manifestam em relação ao seu domínio, provocando incompreensões e gerando revoltas que permitam posteriores reacções punitivas. Lembremo-nos, a este respeito, da evidente negligência no tratamento dos relatórios que circularam entre a CIA e o FBI, a propósito da presença de elementos e de actividades suspeitas, desenvolvidas em território americano por parte daqueles que, meses mais tarde, levariam a cabo os atentados de 11 de Setembro de 2001. Apesar de terem cometido um evidente erro de cálculo na dimensão e gravidade das consequências destes atentados, não podemos excluir a hipótese das autoridades norte-americanas terem propositadamente ¿fechado os olhos¿ às informações que iam recebendo, na esperança de que algum acto terrorista, embora de âmbito mais restrito, pudesse justificar o lançamento da sua estratégia belicista. Como, de facto, veio a acontecer. Esta hipótese aparece como demasiado inverosímil? Pois não o é, pelo menos a julgar pelas conclusões do relatório apresentado por uma comissão americana independente, chefiada pelo democrata Tim Roemer, membro da Câmara de Representantes dos E.U.A, que precisamente investiga os erros dos serviços secretos que terão contribuído para os ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001. Esta deriva securitária que resulta da afirmação do poder absoluto americano no mundo tem, no entanto, também consequências a nível interno dos próprios Estados Unidos. À paranóia da segurança da ¿ilha americana¿ e do controle dos estrangeiros nas suas deslocações aos E.U.A, acresce um cada vez maior controle dos movimentos dos próprios americanos no seu país e restrições à sua liberdade. A sistemática invocação de situações de excepção, a coberto da suposta luta anti-terrorista, leva a constantes violações dos mais elementares direitos de cidadania. As ideias de liberdade ou democracia esvaziam-se de conteúdo, quando utilizadas até à exaustão por um governo cujos princípios e actuação pouco ou nada tem a ver com estes conceitos. Por isso, não podemos confundir a ideologia fundamentalista e totalitária da actual administração Bush, com a diversidade de opiniões e a complexidade da própria sociedade americana. As gigantescas manifestações de protesto nos E.U.A contra a guerra no Iraque aí estão para o demonstrar. Pensamos mesmo que será pela contestação a esta ordem de coisas, por um genuíno impulso democrático, que os americanos irão responder, primeiro que todos os outros, à ameaça extremista actualmente existente no seu país. As fragilidades apontadas destronam os E.U.A da condição de única super-potência mundial? Certamente que não. Mas condicionam sobremaneira o seu domínio, que não só não tem as mesmas características, como não conta com os apoios de épocas anteriores. Como muito bem diz o professor Fernando Catroga, ¿os europeus podem morrer por excesso de passado, e os americanos caminhar para o suicídio por julgarem que são futuro.¿[9] O poder agressivo e arbitrário só pode provocar o medo ou o repúdio. Nunca o respeito.


NOTAS


[1] Citado em Francisco Louçã e Jorge Costa, A Guerra Infinita, Porto, Afrontamento, 2003, p. 37. Para os dados sobre a economia americana ver pp. 41-42.


[2] Citado em Gustave Massiah, ¿O G8, um clube de ricos muito contestado¿, Le Monde Diplomatique (edição portuguesa), 14 de Maio de 2003, p. 15.


[3] Em entrevista publicada na Visão de 15 de Maio de 2003, p. 15.


 [4] Cf. Público, 1 de Junho de 2003, pp. 22-23.


[5] Cf. Público, 30 de Maio de 2003, p. 16.


[6] Cf. Público, 10 de Junho de 2003, p. 18.


[7] Cf. Emmanuel Todd, Após o Império, Lisboa, Edições 70, 2002, p. 11.


 [8] Cf. Visão, 15 de Maio de 2003, pp. 84-85.


[9] Cf. Público, 21 de Junho de 2003, p. 19.



publicado por albardeiro às 19:50
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