Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Quarta-feira, 24 de Março de 2004
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Quarta-feira, Fevereiro 11, 2004


Conto de dois impérios


Atente-se no que escreveu Miguel Sousa Tavares sobre a mentira das armas de Saddam: Não vou maçar outra vez os leitores a tentar explicar porquê que Bush quis tão veementemente comprar uma guerra no Iraque. O grande mistério, para mim, permanece saber porquê que Blair o seguiu cegamente e se viu encostado a um grupo de gurus da extrema-direita americana que defende a total prevalência da vontade e dos interesses americanos sobre quaisquer outras considerações, com o consequente abandono, se necessário, da ONU e das regras de direito internacional que, mais ou menos bem, têm regulado os conflitos no mundo desde a Conferência de São Francisco e o nascimento da Sociedade das Nações. Quem são os Parvos?! (Provavelmente serei um...!) Continuámos a ler José Arbex Jr.* e de facto... temos que ¿POST¿(AR) mais um escrito!


O ¿vassalo¿ Blair tem de dar satisfações aos seus eleitores; o ¿amo¿ Bush provavelmente não corre o risco de perder o cargo.


A morte do cientista britânico David Kelly, ocorrida no dia 18 de Julho, por aparente suicídio, lançou novas evidências de que um bando de delinquentes (na verdade não vejo outro termo para os definir, são semelhantes aos que dizem combater!) ocupa os centros do poder mundial. Kelly, 59 anos, especialista em armas biológicas, ajudou a produzir um dossiê para o governo britânico sobre o poder bélico de Saddam Hussein. O dossiê foi apresentado ao Parlamento britânico, em Setembro de 2002, porém adulterado (agora dizem que o erro foi das secretas!), para atribuir a Hussein muito mais poder do que de facto tinha. Em Maio, a emissora pública BBC denunciou a manobra, citando ¿uma fonte¿ do serviço secreto britânico. O governo chefiado por Tony Blair desmentiu, e chegou a exigir a retractação da emissora. Kelly, sob suspeita de ter sido a ¿fonte¿ da BBC, passou a ser pressionado por jornalistas e políticos. Nessa condição, foi submetido a uma investigação da Comissão das Relações Exteriores da Câmara dos Comuns. Dia 18, foi encontrado morto, com o pulso esquerdo cortado. A BBC admitiu, depois disso, que ele foi mesmo a ¿fonte¿ da denúncia. Ultimamente, ao longo das últimas semanas, a Casa Branca foi levada a confirmar que as supostas armas de destruição em massa foram, de facto, apenas um pretexto para a invasão.


As Diferenças


Tony Blair sentiu/sente pressões para renunciar, mas tem afirmado que pretende manter o cargo de primeiro-ministro. O seu governo está em crise. George Bush permanece impávido na Casa Branca, quando muito, dá entrevistas trapalhonas à comunicação social ¿patriota¿ . Não só não se fala em impeachment presidencial, como a polícia política age com crescente desenvoltura nos Estados Unidos. A diferença entre os dois casos é determinada por vários factores.


Primeiro: Blair é membro de um partido que, supostamente, faz parte do campo da esquerda (às vezes adjectivada como ¿socialista¿, outras como ¿social-democrata¿ e outras, ainda, como ¿democrática¿; Blair foi, com Bill Clinton, um dos proponentes da suposta ¿Terceira Via¿). Bush, ao contrário, representa declaradamente o que existe de mais reaccionário na direita estadunidense. É fundamentalista, da seita born again christians (cristãos renascidos), que acredita no ¿destino manifesto¿ de os Estados Unidos serem a primeira entre as nações. Assim, enquanto o vassalo Blair tem de multiplicar as explicações aos seus partidários e eleitores, o seu amo Bush age com perfeita coerência.


Segundo: Blair está na União Europeia (será que conta para alguma coisa?). A invasão do Iraque colocou um holofote sobre a competição económica, geopolítica e cultural travada entre os vários imperialismos (estadunidense, alemão, francês, britânico e, porque não, o russo). Para ficar bem com Bush e os oil men do Texas, Blair foi obrigado a chegar ao limite da ruptura com a UE, o que, evidentemente, provocou grandes tensões dentro da Grã-Bretanha. Bush, ao contrário, sente não dever (dar) explicações a ninguém, incluindo a Organização das Nações Unidas (ONU), a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e a UE. Ostensivamente, a Casa Branca dispensa as alianças e ignora os eventuais compromissos diplomáticos, até mesmo com antigos aliados.


Terceiro e certamente mais complicado: a questão ideológica conjuntural. A Europa viveu/vive um momento de grandes tensões e manifestações, como o do funcionalismo público contra a reforma do sistema da Segurança Social (em Portugal, como sempre, espera-se que a coisa caia de podre! Depois está tão podre que já não vale a pena...). Lembram-se ainda das passeatas de milhões (alguns falam em 6, outros próximo dos 30) contra a invasão do Iraque, no ano passado um pouco por todo o Mundo, foram uma demonstração disso. Nos Estados Unidos também houve muitas manifestações, principalmente nas grandes cidades. Mas não podem ser comparadas, em impacto, àquelas que paralisaram a Europa. Além disso, a reprovação da opinião pública ao ataque diminuiu com rapidez directamente proporcional ao número de baixas estadunidenses. Isto é, muitos não condenavam a invasão por ser um acto de agressão e pirataria, mas sim por temerem um grande número de mortes estadunidenses; quando isso não se verificou, a popularidade de Bush cresceu.


Império e República


Como explicar esse quadro? Vários escritores, historiadores e intelectuais das mais variadas origens e filiações ideológicas ¿ de Gore Vidal a Michael Hardt e António Negri, passando por John Kenneth Galbraith ¿ viram nisso o perigoso avanço do império sobre a república americana. Bush seria a encarnação da vocação imperial dos Estados Unidos. Os interesses do império (no caso, reservas de petróleo e estratégia geopolítica) e a sua capacidade de garantir uma vida confortável a uma vasta classe média falam mais alto do que a convivência civilizada entre as nações e do que os princípios da democracia interna. Gore Vidal notou que a própria condução de Bush ao poder, em Dezembro de 2000, quando a ¿Suprema Corte¿ estuprou a Constituição para escolher como presidente o perdedor da eleição, abriu caminho para o despotismo. ¿A velha república é uma sombra dela mesma, e vivemos sob a luz forte de um império nuclear mundial com um governo que vê como seu verdadeiro inimigo - ¿nós, o povo¿ -, destituídos do nosso direito eleitoral garantido¿, afirmou. Os próprios fundadores dos Estados Unidos, profundos conhecedores da história do Império Romano e influenciados pelo iluminismo francês, já demonstravam preocupação com a vocação imperial que impregnava a ideologia do ¿destino manifesto¿. Thomas Jefferson dizia temer pelo futuro do seu país, ao reflectir sobre a justiça divina. Benjamin Franklin, já perto da morte, em 1787, ao ler, pela primeira vez, a constituição proposta à Convenção Constitucional, em Filadélfia, redigiu a seguinte nota: ¿Acredito que esta [forma de governo proposta] deverá ser bem administrada durante muitos anos e poderá terminar no despotismo, como já fizeram outras formas antes dela, apenas quando o povo se torne a tal ponto corrompido que precise de um governo despótico, tendo se tornado incapaz de suportar qualquer outro¿. Quase cem anos depois, no final da Guerra de Secessão (1861-65), foi a vez de Abraham Lincoln alertar contra o crescente poder corruptor das corporações, e de lembrar que contra elas, as corporações, tinha sido feita a revolução de 1776. ¿Por mais corrupto que o nosso sistema se tenha tornado ao longo do último século ¿ e eu vivi três quartos dele ¿, ainda nos apegávamos à Constituição e, sobretudo, à Carta dos Direitos [a declaração formal dos direitos dos cidadãos americanos, incorporada na Constituição através das emendas 1 a 10]. Por piores que as coisas ficassem, eu nunca imaginei que chegaria a ver grande parte da nação ¿ nós, o povo - passar sem ser consultada ou representada numa questão envolvendo guerra e paz, nem se manifestar em números tão grandes contra um governo arbitrário e conspirativo que prepara e conduz guerras (contra nós) ou, pelo menos, para que um Exército recrutado entre os desempregados possa combater nelas¿, disse Gore Vidal. As perspectivas, deste ponto de vista, são sombrias. Mas o seu desfecho ainda não está definido. Em 1940, as previsões de Adolf Hitler sobre o ¿Reich de mil anos¿ eram uma ameaça aparentemente factível; cinco anos depois, a Alemanha nazi estava em ruínas. Em 1991, o império soviético desabou com uma rapidez nem sequer imaginada pelo mais alucinado futurólogo. A história não chegou ao fim, nem pode ser domesticada. Há uma possibilidade de que Bush venha a ser lembrado como o coveiro da república americana; mas há também a possibilidade, nada pequena, de que se torne conhecido como um infeliz falastrão, tanto quanto já o é o vassalo Tony Blair, para não falar nos bobos ibéricos e seus lambe botas. ·*José Arbex Jr., para além de escrever muitas coisas, é sobretudo jornalista.



publicado por albardeiro às 19:57
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