Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Terça-feira, 20 de Abril de 2004
"Além-Tejo"

ComUrbs, Taifas e Alentejo


Neste saudável debate acrescentamos:


Os autarcas deviam ter a noção que são herdeiros de um património histórico cultural comum, do Tejo ao Espinhaço de Cão, do Pessegueiro a Noudar, moldado pela Língua e em parte pelo Cante, cimentado na convivência multissecular dos Povos e populações que aí se fixaram, ao longo dos séculos. São eles os legítimos depositários e porta-vozes das expectativas, reivindicações e Esperança das populações que representam, as quais, ciosas das suas identidades e especificidades num mundo conturbado reclamam mais Humanidade e Desenvolvimento duradouro em Paz, Progresso e Democracia. São também, inequivocamente, as autoridades locais o nível mais próximo do cidadão e, por consequência, o mais competente para mobilizar as populações com vista às tarefas colectivas atinentes ao bem-estar comum; por isso, devem estar em condições privilegiadas para serem o alicerce e o cimento futuro de uma nova ordem de solidariedade e cooperação e não de divisão e de discórdias, abertas às contingências de um Mundo em constante renovação e mudança. As transformações impostas pelos fenómenos da globalização e da interdependência mundiais estão a provocar também a universalização das aspirações e dos direitos fundamentais e inalienáveis dos cidadãos, os quais reivindicam legitimamente o combate aos problemas sociais que as fracturas das sociedades vão gerando, agravando as disparidades sociais e económicas e ampliando as causas das assimetrias regionais. O Governo Local, emanação por excelência do sentir e dos anseios dos cidadãos, devia ter o dever indeclinável e a legitimidade própria para ser o nível mais competente no sentido de mobilizar as iniciativas, agregar as vontades e dinamizar os meios com vista as desenvolvimento estratégico sustentado das “nossas” populações e do território que ocupa, no respeito do primado do todo nacional. Por agora, tem avondo! Vamos à História...


Continuação


Alentejo: geografia e História!


No centro do Alentejo está Évora. A sua fortuna vem dele. Nunca, antes de haver «Alentejo», conseguiu suplantar completamente outros centros que lhe disputavam a primazia no Sudoeste da Península Ibérica. Por outro lado, o fracasso de D. Afonso Henriques em Badajoz anunciou a repartição do Sudoeste peninsular em duas áreas de conquista distintas, a leonesa e a portuguesa. Consumada aquela, na centúria de Duzentos, desenrolaram-se dois processos autónomos de organização do território. A cidade estremenha ficou, assim, impedida, pela presença da fronteira que corre ao longo do Guadiana ou dos seus afluentes, de estender para ocidente a sua capacidade polarizadora.


Entre ela e Lisboa, demasiado afastada para se poder afirmar como pólo regional concorrente, estava Évora, plantada no meio de uma planície fértil e ocupada havia muito tempo, quase no centro da comarca administrativa de Entre Tejo e Odiana. Não surpreende que se tenha firmado rapidamente como o natural núcleo ordenador de todo o Alentejo, instalando-se numa indiscutível preeminência que, em medidas e graus diversos, é de anteontem, ontem e hoje. A sua sorte está, por isso mesmo, ligada à da região no seu conjunto, organizando-se com ela, com ela crescendo e com ela, porventura, decaindo. O granito dos seus monumentos quase se pode ler como um gráfico que desenha as flutuações do peso económico e político do Entre Tejo e Odiana.


Uma das personagens da Aparição de Vergílio Ferreira notara já este significado do tecido urbano eborense: «Uma cidade fantástica erguia-se-me imaginada, numa geometria árida de superfícies lisas com faixas de sombra e luz estiradas dos candeeiros às esquinas, com filas de janelas altas e cerradas, túneis de arcarias desertas, flechas de torres de chaminés à altura dos astros, ângulos negros de ruas - imóvel espectro de uma civilização perdida...» Para um observador que, de um qualquer ponto em seu redor, aviste a cidade, o que se impõe por sobre a branca geometria dos seus edifícios é uma construção imensa e aparentemente fora dela - a catedral. Construída em grande parte no século XIII, a Sé está, em Évora, como em Beja a torre de mármore do castelo. O rei junta-se-lhe desde cedo, escolhendo a cidade – a única que durante toda a Idade Média merecia esse título (como se sabe, Beja, Foi elevada à categoria de cidade em 1517) entre o Tejo e a serra algarvia - como frequente local de pousada. A preferência pelo Alentejo e especialmente por Évora, esboça-se sobretudo a partir do fim do século XIII e do reinado de D. Dinis que, de resto, procedeu a uma enorme operação de investimento na região (a Torre de Menagem de Beja data dessa época), criando de novo ou reforçando estruturas militares e contribuindo, assim, de forma decisiva, para a ordenar territorialmente.


O Alentejo e o seu centro urbano mais importante, parecem, pois, ter um protagonismo seguro no interior do eixo político da construção nacional. O destaque político do Alentejo não cessa de se ampliar durante os duzentos anos seguintes, em especial na área directamente estruturada por Évora. O protagonismo político de Évora torna-se ainda mais acentuado pelas longas permanências da corte e, em especial, daquela que ocorre entre 1532 e o fim de 1536, que leva a discutir a ideia de transferir para aí a cabeça do reino.


Este longo crescimento, que afectou, de resto, a maior parte dos centros urbanos alentejanos durante os mesmos séculos, assenta numa sólida base agrícola. É verdade que os solos sobre os quais a cidade foi edificada não permitiam colocá-la ao nível da produção cerealífera dos grandes centros agrícolas concorrentes, como Beja ou Elvas. Mas os rendimentos eram, ainda assim, suficientemente altos para permitirem pingues proventos aos senhorios e ao sistema fiscal da Igreja: a acreditarmos em António de Sousa Macedo, citado pelo autor do Diccionario Geografico, só a freguesia directamente dependente da Sé-Catedral de Évora rendia em dízimos 700 moios anuais. À cultura de sequeiro, cerealífera, havia ainda que juntar o anel que encerrava a cidade apertando-a como um torno, principalmente pelo norte, desde a ribeira de Peramanca, passando pela de Xarrama até ao Degebe; aí dominavam a vinha - até a filoxera levar no passado século a maior parte dela - os ferragiais e as hortas. Esta organização das relações entre a cidade e o campo em três áreas distintas e concêntricas - núcleo urbano, cultura intensiva, cultura extensiva -, repetida, por todo o Alentejo, em Montemor-o-Novo, Arraiolos, Estremoz, mais longe, em Elvas, Moura ou Beja, permitia à cidade abastecer convenientemente uma considerável (para os padrões da época) população urbana e responder sem problemas às solicitações provocados pelas frequentes estadas da corte.


A facilidade de abastecimentos, contrastando com a crónica insuficiência cerealífera de Lisboa, que amiúde desembocava em surtos de fome, bem como as favoráveis condições do sítio, fazem com que alguns dos seus naturais tentassem propô-la para substituir a cidade do Tejo como cabeça do reino. Garcia de Resende explica assim as suas razões ao camareiro-mor do rei: «Aqui está a real corte. Aqui tendes touros, canas, e saraus de nobres damas. Se quiserdes passear, tendes terreiro e rocio e também hortas como lá [em Lisboa], e ruas largas bem chãs, cidade bem assombrada com solenes mosteiros. Se sairdes fora aqui estão os verdes campos, cheios de todalas caças e, se pescar, pescarias, e se desejardes jogar jogo achareis que farte e banquetes mui sobejos», O modelo proposto era afinal o castelhano, com Lisboa/Évora no lugar de Sevilha/Valladolid e depois Madrid - o pólo económico no litoral, o centro político no interior, longe dos perigos que os grandes centros urbanos encerravam.


CONTINUA



publicado por albardeiro às 23:21
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2 comentários:
De Plancie Herica a 21 de Abril de 2004 às 00:14
Passei agora mesmo pelo Alentejanando... por mim pode ser tão breve quanto se combine...

Um abraço,
Francisco Nunes


De Plancie Herica a 20 de Abril de 2004 às 23:39
Gostei.
Muito rigoroso e interessante.

Um abraço,
Francisco Nunes


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