Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Segunda-feira, 3 de Maio de 2004
A "coisa" infinita...!

Por mou dos deveres... está tudo atrasado: as leituras, os comentários aos blogs de estimação, as minhas escritas... quase tudo! No entanto, os amigos dizem presente... quando estou mais ausente. Vai daí, aparecem alguns textos... o ALBARDEIRO, como sempre, agradece. Talvez (digo talvez...) possa parecer descontextualizado, mas não está; é mais actual do que parece! Do Hugo Fernandez, publique-se:


BARALHAR E DAR DE NOVO


Pedro Norton está enganado. Em recente artigo na revista Visão – “Em casa onde não há pão...” (15 de Abril, p. 52) – onde pretende estabelecer uma tipologia das posições existentes em Portugal sobre a situação iraquiana, um ano depois da queda de Bagdad, Norton conduz-nos a uma indisfarçável perplexidade. Com efeito, parte substancial do artigo parece uma missiva com destinatário errado. Expliquemo-nos. No espectro político da direita – classificação que o articulista, note-se, apenas aceita “por conveniência” – identifica e caracteriza dois grupos. Aqueles que genericamente designa por “vira-casacas” que, após terem sancionado incondicionalmente a intervenção americana no Iraque e aceite todas as falaciosas justificações então aduzidas por George W. Bush e seus acólitos, passam agora o tempo a desdizer o que tinham dito e, pensamos nós, entretendo-se em malabarismos argumentativos dignos da mais completa desorientação mental ou da mais rematada hipocrisia; e aqueles a quem chama “obsessivos” que mantêm, contra toda a lógica decorrente da simples constatação dos factos e o mais elementar bom-senso, a defesa da hiperpotência americana e do receituário imperial dos neo-conservadores reinantes.


O que há de comum nestas duas correntes é a terminante recusa em reconhecer o erro. É que, como nos parece claro, essa honestidade intelectual pressupunha aceitar a validade das posições dos adversários. Alguma objectividade analítica demonstrada até ao momento esbate-se, quando Pedro Norton se refere ao campo da esquerda (designação utilizada agora sem qualquer necessidade de precauções conceituais). Neste ponto, o articulista é muito menos contemporizador e revela uma acentuada acrimónia: “A ausência absoluta de sentido de Estado é aqui a palavra de ordem. Para não falar abertamente em irresponsabilidade”. Ficamos suspensos e procuramos nas linhas seguintes as evidências que confirmem semelhante asserção. Debalde. Nada do que é dito posteriormente parece sustentar tão liminar sentença. De facto, critica-se à esquerda a simples constatação daquilo que articulista designa por “evidente colapso da ordem interna no Iraque, com os desaires americanos, com a falência da estratégia de democratização do Médio Oriente.” Mas todas as circunstâncias invocadas, decorrem do que a realidade quotidiana nos mostra.


Parecem-nos ser absolutamente consensuais, para quem pretenda fazer uma análise séria do problema. Tudo isto, está bem de ver, não é culpa, nem invenção, da dita esquerda. E se aqui há irresponsabilidades é, isso sim, das políticas neo-conservadoras e de direita, da administração norte-americana; dos seus seguidores, que agem ao arrepio de toda a legalidade mostrando o mais profundo desrespeito pelas organizações internacionais e pela opinião dos demais países; mascaram a brutal avidez com que pretendem controlar os recursos energéticos mundiais para o consumo predador da sua economia; falam em democracia, mas sustentam todos os regimes ditatoriais que sirvam os seus interesses; mentem quando referem a ameaça de armas de destruição maciça inexistentes e com isso justificam o embuste da guerra preventiva visando, afinal, um domínio neo-colonial à escala planetária, para satisfazer os seus propósitos imperiais e alimentar o seu insano complexo militar-industrial.


Irresponsabilidade é a manutenção dos focos de tensão e injustiça que geram fenómenos como o do terrorismo, para justificar uma situação de “guerra infinita”. Irresponsabilidade e cobardia, acrescente-se, é governos de nações soberanas se colocarem em posição de completa subserviência perante a hiperpotência americana, na esperança de aceder a algumas benesses ou despojos de guerra. Como se o critério de verdade e legitimidade fosse apanágio exclusivo da administração Bush, qual cartilha fundamentalista a quem todos devem lealdade incondicional. Felizmente não é esse o caso. Norton conclui: “Como se de um jogo de crianças se tratasse, como se o fim último de toda esta tragédia fosse, prosaicamente, o de “ter razão” e como se as suas mais importantes consequências para o mundo fossem as que decorrem dos próximos actos eleitorais cá na paróquia.” Mais uma vez errou o alvo. E, como se viu no caso espanhol, foi o governo conservador de José Maria Aznar que reagiu desta maneira, com as consequências que todos conhecem. Para já não falar da clara ressonância freudiana da política de Bush-filho que, recorrendo a mentiras e subterfúgios, pretendeu justificar uma guerra decidida – como agora se sabe – muito antes do 11 de Setembro, para vingar o desaire de Bush-pai. Parece, aí sim, tratar-se de um trágico “jogo de crianças”, da necessidade de “ter razão” a todo o custo, para evitar a humilhação de perder a face e para ganhar as eleições que se avizinham.


Isto é, infantilidade – para além de espantosa insensatez – em toda a linha. Recorde-se, a propósito, que foi George W. Bush que dividiu, de forma manifestamente simplista e maniqueísta, o mundo entre os bons – os americanos e seus cúmplices – e os maus – de uma forma geral, todos os outros. Afinal, mutatis mutandis, parece mais uma vez confirmar-se que o argumento da autoridade substitui a autoridade dos argumentos. Apesar de querer situar-se numa asséptica equidistância entre os dois opostos do espectro político – qual Benjamin Constant em busca do juste milieu –, o articulista não consegue disfarçar as suas verdadeiras preferências ideológicas. Até porque, como diz Manuel Villaverde Cabral numa análise que faz sobre a evolução política após o 25 de Abril, na edição portuguesa do Le Monde Diplomatique de Abril, “Como ideologia de substituição, o centrismo dominante é pobre, pois o que não divide também não une.” (p. 3). Acrescentávamos, por isso, uma outra categoria à taxonomia de Pedro Norton: aqueles que, à direita, são os confusionistas. Afinal, trata-se tão-só de baralhar e dar de novo.


Sobre o Alentejo, o prometido será devido.



publicado por albardeiro às 19:31
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