Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Quarta-feira, 12 de Maio de 2004
Movimentos Civis!...

Quando se fala nos prisioneiros iraquianos e na actuação dos carcereiros ligados às forças militares ocupantes, todos são unânimes em afirmar que as chamadas ONGs, mais próximas deste tipo de situações, já sabiam do que se estava a passar nos campos de prisioneiros. Muito sinceramente, com todas as letras, para mim, não foi surpresa. Quando os delegados ideológicos do Pentágono, afirmavam que “Guerra... é Guerra”, o que é que se estava à espera! No entanto, feita a denúncia por “alguma” comunicação social, tudo se indignou com o “facto”. Posto isto, fiquei “rodeado” de dúvidas . Então se as tais ONGs já sabiam porque não o denunciaram como fizeram no caso de Guantanamo?! Porque é que os inquéritos já decorriam, parece que desde Janeiro de 2004, e praticamente nenhuma organização fez o “favor” de fazer a denúncia veemente da situação? Teve que ser a “maldita” da comunicação social a denunciar os procedimentos dos paladinos da “exportação” dos direitos humanos e da democracia!


Hoje no Público, o Fernando Rosas escrevia sobre as mentiras da invasão e ocupação do Iraque, o que em parte concordo (aliás, tanto eu como o Hugo, já escrevemos, neste blog, sobre o assunto, é só consultar o arquivo), mas também escrevia isto sobre a presumível denúncia do “tratamento” dos prisioneiros iraquianos, a saber: Também o não serão, seguramente, para as várias organizações humanitárias (Human Rights Watch, Cruz Vermelha Internacional, Amnistia Internacional) que, desde a invasão do Afeganistão, passando por essa "zona de não direito" que é a base de Guantanamo, até à guerra civil e às prisões dos EUA no Iraque, têm vindo, há mais de um ano, a denunciar persistentemente, mas sem sucesso, junto das autoridades americanas, o recurso sistemático e repetido por parte das forças militares ocupantes, dos seus serviços prisionais e dos vários serviços de informações, à tortura de prisioneiros, às execuções sumárias de civis, ao uso desproporcionado da força durante as detenções, à negação dos mais elementares direitos de defesa aos presos.


Em parte, não posso concordar com F. Rosas. Talvez tenha razão num aspecto, a denúncia do que se estava a passar junto das autoridades americanas. Mas essas (autoridades) pouca coisa iriam fazer, já que eram também “autoridades” americanas que estavam a cometer as atrocidades. O que as ONGs deviam ter feito era dar a máxima visibilidade à situação de denúncia. Quanto a mim não o fizeram. Resulta daqui que, para já, tenho duas dúvidas: ou porque não sabiam efectivamente o que se estava a passar (e então “inventam” que já sabiam); ou por não ser oportuno e haver algum engajamento de algumas organizações com o sistema... a situação dos prisioneiros estava no “reino” da omissão. Estou de facto “rodeado” de dúvidas.


Depois de ler mais um texto de Emir Sader*, sobre a conjuntura internacional e onde se inclui o papel das ONGs, o que não tenho dúvidas - é o que me parece que são algumas das tais Organizações Não-Governatais, nomeadamente as de cariz socioeconómicas -, e disso, na medida do possível, passo a dar conta:


Todo o fenómeno que é “novo” assume provisoriamente nomes que não chegam a dar conta de toda a sua riqueza. Frequentemente assumem a sua identidade, no início, mais pela negação àquilo a que se opõem do que pela afirmação da sua própria natureza.Não foi estranho, assim, que novas formas de organização surgidas ao longo das últimas décadas tenham assumido o nome de “organizações não governamentais” ou ONGs. Lutando por reivindicações no campo dos direitos – das mulheres, dos negros, do meio ambiente, da democratização dos meios de comunicação, dos cuidados de saúde, dos consumidores, da cidadania, entre outros –, conquistaram um espaço próprio, incentivaram a mobilização e a organização de amplos sectores da sociedade, foram mais além do que as formas tradicionais de “luta” – partidos, sindicatos, eleições, parlamentos, governos.


O seu sucesso e perduração – como também as suas mudanças de forma e de função – passaram a colocar problemas mais sérios sobre a sua natureza, a sua composição, a sua relação com outras instâncias da sociedade, a sua transparência, a sua composição, etc. O carácter “não-governamental” dessas organizações passou a revelar, cada vez de maneira mais aguda, a sua ambiguidade. Provavelmente, porque a sua autodefinição como organizações não-governamentais assenta na oposição governamental/não governamental ou, caso se prefira, na oposição estatal/privado.Essa oposição é a que fundamenta o pensamento liberal sobre a sociedade e se presta a grandes confusões ou, pior, a fazer o jogo do liberalismo e do neoliberalismo. Para o liberalismo, trata-se de desqualificar o Estado (e os governos) e privilegiar os espaços da “sociedade civil” composta por indivíduos, articulados pelo mercado. No espaço da “sociedade civil” congrega-se tudo o que não é Estado – de sindicatos de trabalhadores a empresas privadas, de movimentos sociais a máfias. A “sociedade civil”, assim, é um saco de gatos quando se torna conceito, introduzindo confusões e, pior, amalgamando coisas diferentes, em oposição ao Estado e ao governo, como convém ao liberalismo e ao neoliberalismo.


Se se tratar de lutar contra a hegemonia neoliberal e a sua concepção mercantil do mundo, segundo a qual tudo se vende e tudo se compra, tudo tem um preço – em suma, a centralidade do mercado ou o mercado é tudo –, parece-nos que a oposição não é aquela entre estatal e privado, mas entre público e mercantil. Porque o estatal é um espaço de disputa, havendo Estados (a maioria) dominados pelos interesses privados – isto é, dos grandes capitais privados – e Estados hegemonizados pelos interesses públicos. Um exemplo destes são aqueles em que os governos se orientam pelas políticas de orçamento participativo, em que a cidadania organizada decide sobre a utilização dos recursos orçamentais.A esfera pública é aquela que atende aos direitos universais da população, identificando-se assim com as políticas democráticas, que se supõe, pelo atendimento dos direitos dos indivíduos, no fundo, a sua constituição em cidadãos. Como se sabe, para o liberalismo, o seu conceito de “sociedade civil”, compõe-se de indivíduos e não de cidadãos – isto é, de sujeitos com/de direitos, não reconhecidos pelo mercado.


Assim, os movimentos que lutam por “um outro mundo possível” têm de ser mais democráticos, mais transparentes do que as organizações do sistema político liberal, que até lhes convêm (transformaram –nos numa outra forma de caridade; lembram-se das filantropias e das beneficências, que campearam para redimir os pecados do capitalismo selvagem, ao longo do século XIX?!) . Devem portanto, antes de tudo, assumir a sua natureza de movimentos civis – de cidadania, assente na defesa dos interesses públicos – e abandonar a denominação de ONGs, que se presta a confundi-las com organizações neoliberais e com organizações que se submetem às políticas do Banco Mundial.Devem, além disso, ter absoluta transparência sobre as suas fontes de financiamento, sobre os critérios de participação nelas, sobre as formas democráticas de eleição dos seus dirigentes, sem o que são vulneráveis às acusações de que lutam por aprofundar a democracia, mas têm legitimidade duvidosa por não se assumirem claramente como organizações civis e públicas.


Por exemplo, uma das mais importantes organizações surgidas no movimento contemporâneo na luta por “um outro mundo possível” – ATTAC de França (www.france.attac.org)– possui um exemplar formato organizativo, transparente e sob controlo democrático, nas suas formas de participação, de financiamento e de escolha dos seus dirigentes.As ONGs e todas as nebulosas fronteiras com o neoliberalismo ou os movimentos civis: não se trata somente de assumir nome, mas de assumir um conteúdo coerente com a luta por democracias políticas, sociais, económicas e culturais, com carácter público, contra a mercantilização do mundo.


Como já fiz referência noutro "post", *Emir Sader é jornalista, escritor, autor de A Vingança da História, editora Boitempo.



publicado por albardeiro às 18:25
link do post | comentar | favorito
|

3 comentários:
De sei l a 13 de Abril de 2006 às 16:01
Muitas aqui na Europa se revestem deste cunho de salvadoras do mundo subdesenvolvido para na verdade abrir as portas destes pobres mercados(porém algumas vezes grandes e rentáveis), as empresas Europeias, através principalmente de projetos de cooperação internacional financiados pelos governos.


De Plancie Herica a 15 de Maio de 2004 às 23:44
Algumas organizações não governamentais servem, de alguma forma, as necessidades de protagonismo dos seus dirigentes...

Rigorosa esta posta,

Um abraço,
Francisco Nunes


De Go,go! a 15 de Maio de 2004 às 12:09
Também me parece que as ONGs são como que pragas espalhadas pelo capitalismo, escondidas em fachadas de luta popular, enquanto trabalham o reformismo e ajeitam-se, por verbas públicas, em qualquer governo. Tanto é possível tentar apropriar-se das ideias de um revolucionário notável, Paulo Freire, como, na prática, burocratizar o esquema e cingi-lo ao clubinho dos donos. Parece que é uma coisa, mas é outra. Como aquelas grandes redes de magazines que anunciam um determinado produto a preço de banana e quando você chega percebe que é uma grosseira falsificação.


Comentar post

pesquisar
 
Novembro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29
30


posts recentes

RESCALDO

ESTADO DA QUESTÃO

EUROPA

ECONOMIA POLÍTICA

A MENTIRA

ELEIÇÕES

TIROS NO PORTA-AVIÕES

A NOVA ORDEM

INFORMAÇÃO

ERA UMA VEZ

arquivos

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Janeiro 2016

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Abril 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds