Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Sexta-feira, 18 de Junho de 2004
Alentejo e Alentejano

Sobre o Alentejo... património, antropologia, história e...; eu diria... também nostalgia!


PARTE I


A palavra Alentejo, a substância e o sentido expressivo, concentram-se nas primeiras sílabas:—Além. No que diz distância e imensidade. No que transporta o ser para a ilimitação dos horizontes. E, em boa verdade, dividi-lo em Alto, Médio e Baixo, ofende-lhe a grandeza. É mais um desses pretensiosos abusos e faltas de respeito com que a nefasta espécie dos burocratas pretende diminuir com as suas ridículas etiquetas a majestosa Natureza.


Alentejo e alentejano são duas unidades maciças, para não dizer uma única, tão estreitamente fundidas se apresentam. Esta terra tinha que dar aquele homem, e aquele homem tinha que nascer nesta terra. Separá-los é esvaziá-los de sentido. Aqui o espaço raso e a perder de vista, mercê da exiguidade do relevo e da secura do clima, a intérmina planície balizada por escassos acidentes, supera de longe os demais caracteres geográficos.


Já passou meio século que o etnólogo Jorge Dias, numa comunicação que apresentou ao II Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, reunido em São Paulo em Setembro de 1954, e a que deu o título de «Algumas considerações acerca da estrutura social do povo português», propôs como objecto de exame as relações culturais entre o Alentejo e o Brasil, na base da coexistência em ambos da instituição social do compadrio, com caracteres e desenvolvimento excepcionais.


 Convimos — e lá iremos um dia — em que esse seja um tema a explorar de antropologia cultural e sociológica, cujas conclusões interessam conjuntamente a brasileiros e a portugueses. Mas, ao que nos convencemos, na raiz desses fenómenos estão os caracteres básicos da geografia física respectiva.


Do ponto de vista histórico e antropológico, na formação do homem, o Alentejo imprimiu ao alentejano duas tendências opostas ou, quando menos, que estão no extremo duma escala e explicam a complexidade da sua psique. A escassez de relevo e a secura do clima geraram, ao longo dos tempos, a charneca, os grandes espaços ermos, a agricultura de afolhamento, a rarefacção dos habitantes e a sua concentração em agregados urbanos. Predomina, ainda, a grande propriedade; e dezenas de léguas separam às vezes as vilas e as cidades, ligadas umas às outras por estradas, outrora carreteiras, que, por vezes, são rectas infindáveis e monótonas. De longe em longe onde se viam pastores e rebanhos grises estreitamente fundidos com a terra, vêem-se vinhedos, quando não eucaliptos – ironia do...


Contudo, abibes, abetardas e cegonhas ainda rasam, com voos baixos, a planície; e um cheiro acre e penetrante vem das estevas resinosas e bravias que cobrem a charneca de tufos dum verde escuro luzidio e de corolas brancas e singelas pintalgadas de sangue.


Com raízes neste solo e naquele povoamento, rarefeito e concentrado, o alentejano oscila entre o semi-nómada, sem laços que o prendam ao agregado social, beduíno errante, individualista até ao nihilismo, e o cidadão, capaz de erguer-se à mais aguda e isenta consciência das necessidades nacionais. A madre do cidadão é a cidade. Nela se respira o ar da vida colectiva, oxigenado pela densidade do convívio e a livre crítica, que valem por um plebiscito permanente. E as cidades e vilas alentejanas, tipo do aglo- merado dominante no Alentejo, criaram essa espécie de cidadania intensa.


 Como se sabe, o tipo mais acabado do semi-nómada alentejano era o maltês, que errava de monte em monte, pedindo esmola, ou melhor, exigindo subsistência, rude e intonso, coberto de remendos e lama, como veneras, tão acremente pintado por Fialho. Num plano menos perfeito mas etnicamente superior, estavam os pastores, com tão pitoresco vestuário, com a samarra, o pelico e os safões, de porte altivo, sobrecenho severo e carregado, e empunhando o cajado — que digo eu? — o ceptro, insígnia da sua majestade de soberano errante, da charneca e dos rebanhos. Vinham depois os arrieiros, que transportavam de feira em feira, de lonjura em lonjura, as recuas de mulas, envoltos através da planície, num rolo de poeira dourada pelo sol. Embora existissem até aos meados do século passado, estes tipos humanos eram mais vincados há dois, três e quatro séculos.


Continua



publicado por albardeiro às 19:32
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1 comentário:
De Plancie Herica a 19 de Junho de 2004 às 00:20
Isto promete...

Um abraço,
Francisco Nunes


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