Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Sábado, 31 de Julho de 2004
ALENTEJO: um equívoco ou uma região?

A GEOGRAFIA E A HISTÓRIA


Parte VI


Muito do Alentejo que aqui se descreveu, dir-se-á, é outro agora. O trigo vai-se indo e em seu lugar a caça, ou outra vez o porco, o de montado. A vinha, onde já estava, fica e cresce, mais sofisticada, saída do consumo local para os meandros comunitários do consumo externo. Assim em Portalegre, Borba, Reguengos, Vidigueira, e também nas regiões mais recentes que se esboçam. A paisagem transmuta-se, outra vez, com o lento avanço dos incultos. No seu centro, as aldeias urbanizam-se ou desertificam-se, cedendo à pressão das cidades e grandes vilas, agora à distância automóvel de alguns minutos: as velhas técnicas de construção de taipa e de adobe substituídas nos últimos vinte anos pelo tijolo e o betão, o gosto aderindo casa a casa, fachada a fachada a uma estética global televisivamente difundida.


Mas, apesar da mudança, a imagem persiste de um Alentejo que já não é, teimando em agarrar-se ao olhar simultaneamente escrutinador e selectivo dos fotógrafos, dos poetas, dos turistas, obstinados em ver aquilo que querem ver. Essa perspectiva do olhar não se encontra, é verdade, totalmente descasada da realidade; algumas vilas e cidades, sobretudo aquelas que obtiveram nas últimas décadas um grande reconhecimento externo da sua riqueza patrimonial - Monsaraz, Mértola, Marvão, Évora, por exemplo - mantêm intactas as geometrias de cal sobre o azul intenso do céu. Do mesmo modo, o colapso de um estilo tradicional de agricultura não significa o fim de toda a economia rural. Os primeiros indícios de uma reanimação talvez sejam já visíveis quer na especialização e no apuramento - os vinhos, as carnes - quer no regresso a indústrias antigas - os queijos, os enchidos, as olarias. O corte não será porventura tão radical quanto as ameaças de descaracterização física e social permitirão pensar. No fundo, por detrás da modernização, a mesma muita terra a dividir por poucos, a mesma concentração dos homens, as mesmas casas como sólidos brancos na paisagem, as mesmas azinheiras, às vezes esparsas, às vezes raras, e finalmente o mesmo tipo humano, a fazer pensar que a imagem recente do poeta poderá ainda, e sempre, ser verdadeira:


«Incapaz de não ser senão diferente


há um modo de calar e um falar claro


um olhar cara a cara e frente a frente


um viver devagar que tudo é raro


e único e só assim urgente.»


(Manuel Alegre, Alentejo e Ninguém, «O Estilo», p. 18)



publicado por albardeiro às 13:30
link do post | comentar | favorito
|

1 comentário:
De Plancie Herica a 1 de Agosto de 2004 às 18:54
Gostei da análise, da mensagem subliminar de esperança e do poema que encerrou este conjunto de postas.

Um abraço,
Francisco Nunes


Comentar post

pesquisar
 
Julho 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


posts recentes

ECONOMIA POLÍTICA

A MENTIRA

ELEIÇÕES

TIROS NO PORTA-AVIÕES

A NOVA ORDEM

INFORMAÇÃO

ERA UMA VEZ

ILUSÃO FATAL

A LIÇÃO

SALVE-SE QUEM PUDER

arquivos

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Janeiro 2016

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Abril 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds