Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Sexta-feira, 10 de Setembro de 2004
Quadratura do círculo!

Nova roupagem..., o mesmo percurso..., gente boa..., os mesmos intervenientes...


Recomeça o Hugo Fernandez


Como cantava há anos Sérgio Godinho, “pode alguém ser quem não é?”


Vivemos tempos estranhos. Tempos em que um primeiro-ministro português preferiu as mordomias de Bruxelas às responsabilidades mesquinhas da governação de Portugal, sendo essa deserção apresentada como um acto patriótico. Tempos em que o poder dito democrático passou de mão em mão – qual sucessão dinástica de uma qualquer monarquia – sem que a população tenha sido consultada, como seria normal que acontecesse. Tempos em que um Presidente da República dito socialista nomeou, por sua iniciativa, um primeiro-ministro irresponsável e demagogo, que não foi eleito por ninguém. Tempos em que o governo assim constituído resultou numa amálgama extremista de neo-liberalismo e do mais descarado populismo. O cenário não podia ser mais desconsertante. E se, como disse Eduardo Prado Coelho, “os disparates da direita convidem à preguiça” (Público, 9/8/04), a realidade existente, mesmo que se apresente como absurda, tem que ser fruto de cuidadosa reflexão e de permanente denuncia.


Neste tempo de enganos, hipocrisias e falsidades, não admira que as principais medidas do Governo se tenham limitado ao campo da propaganda. Torna-se fundamental passar para a opinião pública uma imagem de competência e responsabilidade que, na realidade, são fictícias. Santana Lopes e os seus ministros contrataram um “exército” de assessores de imprensa, essa “espécie de jornalistas pagos para atraiçoar o jornalismo” nas palavras de José Manuel Barata-Feyo (Grande Reportagem, 14/8/04). Mesmo Ministérios como o da Economia e da Cultura que, em termos orgânicos, são dos mais reduzidos, passarão a contar com três assessores cada. Importa sobremaneira que a mensagem política seja divulgada na forma e nos timings mais adequados ao Governo.


Mais. À imagem e semelhança do SNI de má memória, o ministro de Estado e da Presidência, Morais Sarmento, irá chefiar uma “central de informações”, destinada precisamente a coordenar a comunicação governamental, que deverá começar a funcionar no final do ano e que contará com a colaboração de um grupo de spin doctors da agência Ipsis (cerca de 20 pessoas), sob a responsabilidade de um antigo jornalista de economia, Luís Goldschmidt. O “tratamento” da informação, de maneira que chegue sempre na altura exacta e da maneira mais favorável ao Governo – revelando apenas os aspectos considerados positivos e camuflando tudo o resto – constitui a grande prioridade do Executivo.


Outra das iniciativas prioritárias do actual Primeiro-ministro, foi a contratação de assessores de imagem para o seu gabinete. É notória a preocupação de Santana Lopes com a aparência. Parecer em vez de ser – ou melhor, de fazer – constituem obsessão do chefe de Governo. Não é inédita esta preocupação. Basta lembrar a passagem – efémera, diga-se – de Pedro Santana Lopes à frente da Câmara Municipal de Lisboa e da autêntica agência publicitária em que esta se tornou. Citando Vasco Pulido Valente (Diário de Notícias, 20/8/04), “nunca ninguém fez tão pouco e tão mal com tanto espalhafato.” O dirigente populista sabe que não resiste ao trabalho sério e às responsabilidades. Sem o espectáculo permanente das luzes da ribalta política, sucumbe. Por isso só existe em função daquele. Talvez isso explique o alerta de Miguel Sousa Tavares, quando escreveu “a imagem e a demagogia afastaram a reflexão e a ideologia (...). A ambição e o oportunismo substituíram a verdade e a coragem” (Público, 29/7/04).


Assim, para Pedro Santana Lopes, a realidade deve-se subordinar sempre à imagem que dela se fizer, num jogo de aparências construído para mostrar um “mundo maravilhoso” que, de facto, não existe. É que nunca houve tanto desemprego e miséria em Portugal, nunca houve tanta corrupção e compadrio – que na nova linguagem se traduz por “colocar pessoas de confiança em lugares de influência” – , nunca se assistiu a tão despudorado oportunismo e hipocrisia, nunca tantos estiveram subordinados a tão poucos. Isto é, o populismo no seu melhor. Mediatização e fulanização políticas fabricam o carisma de um líder que tudo promete, sem ter a mínima intenção de cumprir. Recorde-se que o actual Primeiro-ministro nunca – sublinhe-se nunca – cumpriu o que prometeu, nem sequer relativamente aos prazos dos mandatos que desempenhou. A aparência passa a contar mais do que a realidade. As intenções sobrepõem-se às decisões. E numa sociedade desestruturada, onde as pessoas se sentem desenraízadas e descrentes no sistema democrático-representativo que pouco lhes diz – destruído que foi, precisamente, pelas práticas demagógicas e populistas continuadas – o terreno apresenta-se particularmente fértil. Reduzindo-se a política à comunicação e esta à televisão, atingimos o grau zero da cidadania e a sabonetização dos seus intervenientes. Lembremo-nos da afirmação profética de Emídio Rangel, proferida há uns anos – e que, na altura, causou grande controvérsia – de que a televisão pode “vender um Presidente da República como se vende um sabonete”. É nesse tempo que agora vivemos e é um produto dessa lógica mediática que actualmente chefia o Governo português. Um poderosíssimo “shampoo”, portanto. Um exemplo claro da acção demagógica a que assistimos, é a carta enviada por Pedro Santana Lopes, enquanto presidente do partido, aos militantes do PSD. Esta carta termina com uma exortação patética de optimismo: “Na sua vida, no seu dia-a-dia, quando vir pessimismo, derrotismo, conformismo, diga alto que o futuro é um tempo melhor.” É fácil falar! E não se trata de um desabafo dos que, num comentário muito infeliz, José Sócrates recentemente designou como a esquerda “zangada com a vida”. Trata-se de reconhecer que os “contentes” – ou, nas palavras de Fernando Dacosta, os “tecnocratas do contentismo “standardizado” (Visão 2/9/04) – se produzem à custa de índices galopantes de miséria e de desgraça e que só aqueles, cada vez mais minoritários, que beneficiam das benesses dos grandes interesses económicos, das boas graças dos grandes “lobbies” sociais e políticos ou da falta de escrúpulos de oportunistas de toda a espécie, se podem dar por felizes.


Todo este cenário populista e demagógico tem o reverso da medalha. É que quando a realidade não se deixa iludir, a injustiça torna-se patente e sobrevem a indignação e a revolta. Por isso, simultaneamente, Pedro Santana Lopes, os seus ministros e os seus secretários de Estado rodeiam-se de guarda-costas. Todos eles exigiram ter agentes da PSP à porta das suas residências, o que representa um total de 135 polícias diariamente envolvidos na segurança da equipa governamental. Isto para além das dezenas de elementos que fazem a protecção pessoal dos responsáveis governativos. Esta, porém, não é uma prática habitual. Com a excepção dos ministros da Administração Interna, da Justiça e da Defesa que, segundo a legislação em vigor desde 1991, têm direito a segurança pessoal, todos os outros a solicitaram, mesmo contra as indicações do relatório do Serviço de Informações de Segurança (SIS) que avalia os graus de ameaça existentes e que foram considerados irrelevantes. O próprio Pedro Santana Lopes é acompanhado por 16 agentes do Corpo de Segurança Pessoal da PSP, o dobro dos que protegiam Durão Barroso. Significativo! È que há um ditado popular que diz “quem não deve não teme”. Quando o “convencimento” pela propaganda falhar, são de esperar todo o tipo de acções discricionárias e repressivas por parte do actual poder político. Como refere Manuel Villaverde Cabral “O populismo é o fim da linha da política democrática e não se compreende como é que o Presidente da República decidiu ser o agulheiro deste famigerado comboio!” (Diário de Notícias, 23/7/04). Tempos estranhos, estes em que vivemos!



publicado por albardeiro às 12:21
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1 comentário:
De Raiodevida a 12 de Setembro de 2004 às 12:50
Boa posta. Mas os gajos não têm vergonha nenhuma, são tão determinados e boçais que nada lhes importa.


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