Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Sexta-feira, 24 de Setembro de 2004
De uma vez por todas!

Marx! Oh Marx... onde estás? ... é só para dizer que está na altura de... vamos fazer de outra maneira... estás perdoado!


A história da modernidade é a história da formação, pela primeira vez, de um sistema-mundo. Nos últimos quinhentos anos, as antigas sociedades humanas, que permaneceram em relativo isolamento durante milénios, foram progressivamente unificadas num novo sistema muito mais amplo. Essa unificação foi feita através da incorporação de áreas e povos sob o controlo e influência do antigo subsistema europeu.


Os agentes e promotores dessa transformação construíram as suas próprias formas de compreender e conferir sentido ao que faziam. Primeiro foi a difusão do cristianismo; não obstante, esse discurso correspondia já a uma consciência de um tempo histórico que estava a ser posto em causa (Reforma). Rapidamente veio uma consciência nova. O iluminismo forneceu os dois conceitos fundamentais que justificaram o papel universal da burguesia europeia: razão e liberdade. Conceitos congénitos. Até então, a revelação e a tradição é que forneciam normas válidas para a organização da vida social. O pensamento só poderia ocupar um lugar central se também dele fosse possível deduzir princípios e normas universais que ultrapassassem os limites da mera opinião. Enorme desafio. Os iluministas afirmaram que era possível superá-lo: o pensamento podia produzir esses conceitos universais, e à sua totalidade eles denominaram - razão. A razão pressupunha a liberdade, pois o sujeito só pode atingir a verdade se o seu esforço de conhecimento não reconhecer nenhuma autoridade externa que lhe imponha limites. E a liberdade pressupunha a razão, pois ser livre é poder agir de acordo com o conhecimento da verdade.


Ao contrário dos defensores das tradições, necessariamente vinculadas a sociedades específicas, as vanguardas da modernidade europeia cedo proclamaram a validade universal das suas proposições. As mitologias, as religiões, a arte, a tradição, o direito, o Estado, a política e a economia, tudo foi julgado à luz do ideal homogeneizador do progresso. Pela primeira vez, a história passou a ser encarada como um processo. Inseridas nele, todas as demais formas de estar-no-mundo foram declaradas arcaicas.


A crítica à consciência histórica da burguesia europeia, feita por Marx, começou por colocar essa consciência na história. Marx mostrou que o motor da expansão europeia não estava na razão ou na liberdade, considerados como conceitos abstractos. Estava no desenvolvimento pleno, pela primeira vez, das potencialidades e das contradições da forma-mercadoria. Ela esteve presente, é verdade, na grande maioria das sociedades, mas sempre de maneira marginal e limitada. A moderna sociedade europeia libertou-a.


Histórica e sociologicamente, isso ocorreu a partir da inclusão, no circuito mercantil, de três elementos que sempre tinham ficado fora dele: a força de trabalho humana, a terra e os meios de produção. Transformar coisas em mercadorias era/é banal, mas não era/é banal transformar em mercadorias os atributos fundamentais das pessoas e da natureza. Só então o circuito mercantil reorganizou à sua imagem e semelhança, pela primeira vez na história humana, toda a vida social. Todos os agentes sociais relevantes, incluindo os detentores do poder político, se inseriram nele. Toda a produção passou a ser produção de mercadorias, e a produção de mercadorias passou também a ser feita por meio de mercadorias. Ao fechar-se, como a cobra que mordeu o próprio rabo, o circuito mercantil tornou-se imune a forças externas que lhe eram hostis.


Nos meados do século XIX, Marx escreveu que a sociedade assim organizada desenvolveria, pelo menos, três características novas:



a) seria compelida a aumentar incessantemente a massa de mercadorias, quer fosse pelo aumento da capacidade de as produzir, quer fosse pela transformação de mais bens, materiais ou simbólicos, em mercadoria; ou seja, no limite, tudo seria transformado em mercadoria;


b) seria compelida a ampliar o espaço geográfico inserido nesse circuito, de modo que mais riquezas e mais populações dele participassem; isto é, no limite, esse espaço seria todo o planeta;


c) seria compelida a criar permanentemente novos bens e novas necessidades; como as “necessidades do estômago” são limitadas (julgo eu!), esses novos bens e essas novas necessidades, criados para dar sustentação a uma acumulação ilimitada de riqueza abstracta, seriam, cada vez mais, bens e necessidades voltados para a fantasia, que também é ilimitada.


Essa nova sociedade desdobrar-se-ia em três direcções fundamentais: promoveria uma revolução técnica incessante (voltada essencialmente para expandir o espaço e contrair o tempo da acumulação), realizaria uma profunda revolução cultural (para fazer surgir um novo homem portador daquelas novas necessidades em expansão) e formaria o sistema-mundo (para incluir o máximo de populações no processo mercantil). Tudo isso se confirmou. De certa forma, esse processo já pertence ao passado, embora ainda seja recente. Mas o percurso teórico de Marx não foi interrompido aí. O seu verdadeiro lance de génio foi ter percebido que o capital procuraria ampliar as suas possibilidades de acumulação numa forma (que chamou D – D’) na qual ele (capital) nunca deixaria de existir como riqueza abstracta.


Pasme-se! É, exactamente, o que acontece hoje, com a pouca vergonha da acumulação financeira global. Mais... Marx anteviu: quando essa forma se tornasse predominante, a civilização do capital entraria em crise. Pois, ao repudiar as “coisas”, isto é, o trabalho e a actividade produtiva e ao afastar-se da realidade quotidiana, a acumulação de capital não poderia ser mais o eixo em torno do qual a vida social se organiza. A forma-mercadoria teria então de ser superada ou, pelo menos, remetida novamente para um lugar secundário, sendo substituída por algum outro princípio de organização da vida social.


Que não haja dúvidas: Marx nunca deixou de ser um filósofo, mesmo quando fez a crítica da economia política. Todavia, eis o que nos quis dizer: mantida sob o comando do capital e aprisionada nos sucessivos rearranjos da forma-mercadoria, a capacidade criadora da humanidade – capacidade que decorre da sua liberdade essencial, ontológica – poderia tornar-se muito mais destrutiva numa época em que o capitalismo atingisse um estádio senil, ou quando a capacidade técnica da própria humanidade fosse muito mais desenvolvida. Dependendo, no entanto, de quais fossem as forças sociais que predominassem então, - essa capacidade técnica expandida poderia ser colocada ao serviço da liberdade (aqui surgia a utopia: com a abolição do trabalho físico, cansativo, mecânico e alienado) ou da destruição (aqui a realidade: com a escalada do desemprego e da guerra).


Essa parece ser a disjunção mais relevante proposta por Marx e a sua profecia mais certeira. Não haja acanhamento: o capitalismo venceu. Estamos, finalmente, num sistema-mundo em que tudo é mercadoria, em que se produz loucamente para se consumir mais loucamente, e se consome loucamente para se produzir mais loucamente. Produz-se por dinheiro, especula-se por dinheiro, mata-se por dinheiro, corrompe-se por dinheiro, organiza-se toda a vida social por dinheiro, só se pensa em dinheiro. Cultua-se o dinheiro, o verdadeiro Tótem da nossa época – um deus indiferente aos homens, inimigo da arte, da cultura, da solidariedade, da ética, da vida do espírito, do afecto. Um deus que se tornou imensamente mediocrizante e destrutivo. E que é insaciável: a acumulação de riqueza abstracta é, por definição, um processo sem limites.


O capitalismo venceu. Talvez, agora, possa perder – esse tem que ser o nosso desafio. Pois, antes que o novo tenha condições de surgir, Hegel dizia, é preciso que o antigo atinja a sua forma mais absoluta, que é também a mais simples e a mais essencial, abandonando as mediações de que necessitou para se desenvolver. O momento do auge de um sistema, quando as suas potencialidades desabrocham plenamente, é o momento que antecede o seu esgotamento e a sua superação. As crises do mundo contemporâneo mostram que a acumulação de capital e a sua forma-mercadoria não podem continuar a ser o princípio organizador da vida social. É o desafio que está posto para nós neste século. O pensamento de Marx nunca esteve tão vivo.


Depois desta reflexão, quero agradecer ao César Benjamin que é autor de A Opção Brasileira (Contraponto, 1998, nona edição) e Bom Combate (Contraponto, 2004).



publicado por albardeiro às 02:06
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8 comentários:
De Genesia a 27 de Novembro de 2007 às 16:18
Tudo esta uma droga hoje!!! que saco, porra!!!


De Plancie Herica a 25 de Setembro de 2004 às 01:54
Pois... (em certa medida apetecia-me ficar por aqui).
Por outro lado não resisto a responder-lhe por educação e por me citar um teórico francês.
Concordo que no Ocidente o homem económico venceu completamente. Reconheço nessa premissa a possibilidade de se reforçar a 'auto-estima' do indíviduo e, nesse sentido, se favorecer o fortalecimento das ideologias como forma de acção, como movimento positivo de mudança. Aceito que esse processo faça emergir o homem moral. Este é um racicínio lógico. Cartesiano. É um raciocínio 'à francesa'...
No entanto o amigo Albardeiro há-de reparar sem dúvida no umbiguismo deste raciocínio. Nem chega a ser um raciocínio baseado no primeiro mundo: baseia-se no caso francês. Quase e apenas no caso da França 'e arredores'!
Falando da diminuição do lucro pergunto-me "que diminuição?!!!" Um exemplo prático: o café expresso que lhe custa 50 cêntimos deixa 45 cêntimos de lucro longe do produtor. E as 'costas' de quem o produziu, nâo chegam a receber 1 cêntimo pelo trabalho dispensado!!!
A que cidadania nos referimos? Que economia mundial analisamos?
A luta de classes tal como a leu Marx não faz, neste caso, qualquer sentido.
A globalização do capital não tem nada que ver com a globalização social. Quando pedimos um café estamos, na prática, a ser coniventes com a exploração das costas do brasileiro que o produziu ou do colombiano que o arrancou da terra.
São os tais contracensos de se falar do Mundo numa perspectiva de quem esquece 80% da Humanidade.
Aqui chegado, (e recordando os mais que estudados ciclos económicos que se verificam e se analisam desde a época vitoriana, com base nos quais não se pode prever que a acumulação de capital tenha chegado ao seu ponto crítico -no sentido em que atravessará outros pontos críticos...-) refuto a possibilidade de, a médio prazo, se verificar que "[...] a acumulação como investimento chegou a um ponto crítico, e a sua continuidade manteria o lucro num patamar baixo, voltando a produção para os que não detêm o capital, democratizando os bens de consumo, novamente consolidando o fetichismo da mercadoria e reafirmando as contradições expressas."
As estratégias das multinacionais já nem passam pelas mercadoria... apostam nas marcas.
É falso, portanto, que haja uma democratização do consumo. É muito egocentrico afirmá-lo.
Ficam pois pertinentes num quadro nacional, -num quadro conjuntural- as questões b) e c) colocadas.
Dir-lhe-ei que, apesar do que escrevo na minhas postas, acredito que os cidadãos do Ocidente terão a 'massa crítica' e o instinto para resolver os seus problemas económicos. Acredito tanto no que acabei de afirmar como acredito que não vejo saída para os problemas sociais da América do Sul, de África e do Sul da Ásia (Índia incluída - ao que sei...).
Quer dizer:"Não, não me parece solucionável a contradição entre a democratização política e autocracia económica".


Um abraço,
Francisco Nunes


De Albardeiro a 25 de Setembro de 2004 às 00:05
Prezado compadre Francisco:
Acredito que o Francisco fez as perguntas certas e elencou as dúvidas mais pertinentes. Acredite..., também eu gostava de ter respostas para o seu questionamento... e não tenho! Na verdade, (ainda) só tenho “sobressaltos” teóricos, todavia, prometo ao longo do nosso intercâmbio comunicacional ir respondendo à pertinência de muitas das suas (nossas) dúvidas. Contudo, tenho outros questionamentos: o facto de o homem económico se sobrepor ao homem político e ao homem moral não significa o fim da ideologia, mas o seu primado, pois fortalece-se a ideia do homem responsável pelo seu próprio destino, quando este depende em grau crescente do movimento quase que autónomo do capital. Chesnais, (A Mundialização do Capital – um dia destes publico um “POST” sobre este livro e a temática abordada) na análise que fez sobre o novo momento histórico do capitalismo, apontava para o fortalecimento do capital financeiro, que por si só realizaria o dinheiro como mercadoria, apresentando como aparência, a independência do capital em relação ao trabalho social e abstracto. Contudo, esse movimento indica que a acumulação como investimento chegou a um ponto crítico, e a sua continuidade manteria o lucro num patamar baixo, voltando a produção para os que não detêm o capital, democratizando os bens de consumo, novamente consolidando o fetichismo da mercadoria e reafirmando as contradições expressas.
Voltam as dúvidas:
a) Será que a cidadania política abstracta caminha para a “des-cidadanização” social.
b) Pode progredir a democracia num cenário recessivo e com um quadro de miséria e desemprego?
c) Até que ponto a plena democratização da sociedade é capaz de superar o hiato entre a igualdade política formal e a desigualdade social? Ou melhor, é solucionável a contradição entre democratização política e autocracia económica?
Amigo Francisco, um abraço.


De Plancie Herica a 24 de Setembro de 2004 às 19:22
Gostei do texto. Achei pertinente as citações de Marx.
Ficaram-me algumas dúvidas.
Será que o Mundo, no seu todo, atingiu e se entregou ao capitalismo mais absoluto.
Não é incorrecto dizer-se que o Ocidente são 20% dos habitantes do planeta, será correcto achar-se que todos os seus habitantes prestam culto ao dinheiro?
Aceitando que o dinheiro faz andar o mundo, é aceitável dizer-se que isso só começou a acontecer depois do Renascimento?
Se o limite técnico do homem é ilimitado pode saber-se qual é o limite -o auge- do capitalismo como o conhecemos hoje? ('Sonhando' é possível perguntarmo-nos se a Nossa marca ecológica se deixará fechar, limitar ao planeta).
Concordando que vivemos numa era de valores mediocres, pior, de valores 'a la carte', teremos que assumir que a necessária evolução se fará abruptamente e em corte com o 'status quo' existente? Não será admíssivel uma revolução lenta, sem cortes?
A evolução histórica pregou sempre grandes partidas a quem a quis limitar a ciclos.
A Humanidade não avança assim...
Quantos retrocessos viu o Homem (claro que este é um juízo feito à luz dos valores da nossa época)?

Não era democrática a sociedade de caçadores do Paleolítico?
Não era esclavagista a sociedade em que a cultura mais humanista e racionalista da Antiguidade surgiu?
Não era 'assistencialista' o Império Chinês que Marco Polo conheceu?

Pois é esse o risco do marxismo... de resto o seu racicínio, neste ponto, não difere muito da ideias de Malthus... e em certa medida das ideias de Darwin...


De carlos a.a. a 24 de Setembro de 2004 às 12:43
Excelente, Alberdeiro, o texto, o arrazoado e as conclusões.


De Diogo a 24 de Setembro de 2004 às 11:28
"Não há machado que corte a raiz ao pensamento". Muito bem esgalhado!


De raiodevida a 24 de Setembro de 2004 às 03:04
Excelente escrita. A revolução começa a sair à rua...Boa! Sem medos.


De Paulo a 24 de Setembro de 2004 às 02:30
A Arte salvará o mundo!(?)


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