Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Segunda-feira, 18 de Outubro de 2004
Recordações da Terra Transtagana

COM DEDICATÓRIA...


(Contra as tiradas de mau gosto e preconceituosas de determinados governantes)



“Entre quem é e chegue-se para o lume” - é o que diz a quem lhe bate à porta (ainda ontem o li em Raul Brandão) a voz grossa do trabalhador alentejano. Não se deteve a perguntar quem era. Entre. Entre quem quer que seja que o lume não é menos de quem chega que de quem está. É lume do Alentejo. Achas de azinho? Hão-de lá estar, já em brasa viva e aliciante - tão belo espectáculo só o das ondas. Mas o lume do Alentejo é feito, princi­palmente, de calor humano, de ternura que se dá sem efusão - simples, discreta, profunda. Entre quem é.


A solidão ai dão ai dão do Alentejo não é de almas. A palavra ecoa, angustiadamente e longamente, é na pla­nície, pela planície fora... Que é das fontes? Mas entre a gente não é assim.. Ainda não consegui, no Alentejo, estar integralmente sozinho; ainda não consegui ter frio. Em vez de solidão, senti à minha volta aconchego, ternura. No ar. Nas pessoas. Até dos que nada dizem e passariam despercebidos a um coração menos atento, sinto que vem até mim, para comover-me, uma onda suave, ou humilde, não sei bem, de compreensão, acolhimento, carinho.


Falam os livros da hospitalidade alentejana. Mas não foi nos livros que eu me habilitei a não estranhar o clima que me recebeu nesta cidade amena e amável. Lá onde a solidão é possível, lá onde a solidão tantas vezes dói, à Lisboa que amo de outro amor - vão dar, e para sempre quedam nostálgicos da paisagem erma que os fez, poetas dos quatro cantos do Alentejo. Exilados, e tristes alguns irremediavelmente, junta-os a mesma saudade e a mesma sede de aconchego. É o Raul de Carvalho, é o Luís Amaro (“velho e fraterno Amigo”, como ainda ontem se dizia ele, a fechar uma longa carta). Junto deles – “Entre quem é e chegue-se para o lume” - é que eu aprendi o Alentejo. Na voz deles, que logo dá a saber, iniludivel­mente, com que amizade e com que franqueza se pode contar; e na sua poesia, onde o Alentejo passa mesmo quando parece esquecido.


“Entre quem é.” Era eu. Bem podia responder: “Sou eu - sou o amigo do Luis e do Raul.” Mas ao alentejano, que falta lhe faz a recomendação?... Entrei. Cheguei-me para o lume. Quentes de entendimento, nem precisaram as nossas mãos de apertar-se. Ali, à volta do lume e no mais quente do lume, era o Alentejo.


(Está aqui quase tudo... Fragmentos de um texto de Sebastião da Gama)


 



publicado por albardeiro às 02:13
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3 comentários:
De Plancie Herica a 18 de Outubro de 2004 às 23:24
Do Alentejo e dos alentejanos fica quase tudo dito...


De Pitoresco a 18 de Outubro de 2004 às 14:50
Adorei essas lembranças.É destas coisas que essas aventesmas tem inveja.


De Anedotrio a 18 de Outubro de 2004 às 12:00
A ignorância e o desplante leva-os a asneirar, até naquilo que por vezes é tão singular. Lindo texto.


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