Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Segunda-feira, 27 de Dezembro de 2004
“NÃO FUI SÓ EU!”

O Padre António Vieira quando, em 1652, foi mais uma vez "desterrado" para o Brasil (São Luís do Maranhão), pensando ir encontrar um local que lhe desse algum sossego, face às constantes intrigas, ócio e mentira da corte de Lisboa, puro engano, Vieira desembarcou num caldeirão; encontrou o prolongamento do Reino da Mentira. Outros tempos, em que Lisboa era a capital de um império e podia exportar as suas mentiras para outros cantos do mundo. Hoje, isso já não existe. As mentiras dos “nossos” governantes já não têm para onde ir, quando muito podem alimentar ainda mais outras inverdades. Aqui nascem e aqui ficam. Como dizia Vieira “a mentira dança de roda”. O que sabemos é que o Reino da Mentira continua – uma governação sempre contaminada – triste destino este. É também disso que trata o texto do Hugo Fernandez:


É certo e sabido. Onde quer que um português pise o risco, logo dois ou três seguem o seu exemplo. Assim se passa no trânsito, assim se passa nas escolas, assim se passa nas empresas, nos serviços, nas mais simples acções do quotidiano. Onde quer que alguém queira infringir as regras, fugir às responsabilidades e, ainda por cima, parecer mais esperto do que os outros, aí aparece esta autêntica senha da impunidade: “não fui só eu!”. Como se a constatação numérica atenuasse a falta. Como se o acto de prevaricar tivesse cotação numa qualquer Bolsa imaginária da delinquência e a maior adesão a determinadas práticas ilícitas fosse directamente proporcional a lucros seguros em forma de amnistia generalizada. Esta malandragem larvar estende-se desde a mais tenra idade até à mais provecta velhice. É um grave defeito nacional.


Mas quando comportamentos semelhantes se verificam naqueles que, pelas suas responsabilidades na governação do país, deviam estar acima de qualquer suspeita, a situação torna-se verdadeiramente escandalosa. Quando o chico-espertismo passa a ser bandeira do Estado, então pouco há a esperar dos nossos governantes. O mote deste Governo, desde os tempos do fugitivo Durão Barroso, foi o da intransigência na contenção orçamental e na defesa à outrance do que determinava o Pacto de Estabilidade e Crescimento. Chamaram-lhe “estúpido”... ao Pacto. Manuela Ferreira Leite não conseguiu mais do que mascarar as contas do Estado, injectando no Orçamento as famosas “receitas extraordinárias”. Vendeu os anéis. Manteve a aparência. Mas não conseguiu o que realmente estava em causa: uma política efectiva de contenção orçamental, que conseguisse equilibrar as despesas e as receitas. Como sempre alguns denunciaram e agora toda a gente pode facilmente constatar, tudo não passou de um conjunto de mentiras e artifícios contabilísticos que, não só falharam a famigerada meta dos 3% do PIB, como lançaram Portugal num longo período de recessão. Se o país estava de tanga, perdeu entretanto qualquer vestígio de roupa para lhe cobrir as partes pudibundas.


Eis senão quando, no passado dia 21 de Dezembro, Santana Lopes, primeiro-ministro (diz-se!) e Bagão Félix, ministro das Finanças, dão uma conferência de imprensa para comunicar, com ar pesaroso, que o Eurostat tinha chumbado a operação expedita de venda e arrendamento – ou de sale and leaseback, que em inglês a negociata parece menos escandalosa – de imóveis do Estado. Esperavam que, perante as evidências, num acto de humildade intelectual e de contrição sincera, os ditos governantes viessem reconhecer a ineficácia das estratégias de contenção orçamental seguidas e a falácia das soluções apresentadas? Nada disso. Bagão Félix, para justificar a sua insustentável solução, estendeu um jornal que relatava casos semelhantes (diga-se de passagem – e isto é outra expressão muito em moda – nunca vi nada assim: uma comunicação oficial de um ministro, ostentando recortes de imprensa em defesa da sua actuação!). De facto, o artigo do Finantial Times revelava operações semelhantes por parte da Alemanha e da França para conter os respectivos défices.


Ora o que é que esta encenação revela? Em vez de apostar na contenção das despesas do Estado através da eliminação das mordomias e da gestão ruinosa de dirigentes incompetentes e sobretudo interessados na defesa de interesses próprios ou de correligionários e no aumento das receitas através do investimento produtivo e de um combate decisivo à fraude fiscal, reconhecendo que o recurso sistemático a receitas extraordinárias para reduzir o défice das contas públicas, para além de um flagrante embuste, configura um claro expediente chico-espertista de disfarce da verdadeira situação económica do país, Bagão apostou no regresso em força do “não fui só eu”. Não se procura emendar o que está mal. Ensaia-se, isso sim, uma fuga em frente, desculpando-se o erro próprio com o erro idêntico de outros. Não reparou certamente Bagão que o título do artigo que usou na sua atabalhoada intervenção era “Conjuring tricks and sleights of hand”, o que, em tradução livre, significa “Lançar mão de truques e malabarismos”. O referido artigo é, aliás, ilustrado por uma cartola de mágico, cartas de jogar e um coelho branco, daqueles usados nos números de prestidigitação. Como disse Miguel Sousa Tavares “Um falhado David Copperfield no fracassado papel de ministro das Finanças.” (Público 24/12/2004). Mais palavras para quê?



publicado por albardeiro às 12:46
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2 comentários:
De Caos-e-propaganda a 31 de Dezembro de 2004 às 14:50
E no meio deste caminho há um cinismo difuso, desavergonhado, que é a noção mesma do descaramento. Como poderemos viver assim?


De Anedotrio a 28 de Dezembro de 2004 às 12:53
Os políticos e governantes mentem com o maior descaramento e isto não lhes causa qualquer incomodo... em nada! A mentira é usada indiscriminadamente por estes governantes, que a justificam com questões de equilíbrio contabilístico do Estado. O quadro é deveras tenebroso e não traz muita esperança, mas foi pintado com as cores da pulhice existente - uma mentira cínica e desavergonhada. Os argumentos que apresentam são dignos de quem tem o mais profundo desrespeito pela inteligência humana.


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