Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Sexta-feira, 14 de Janeiro de 2005
ALGUÉM FALOU NUM TSUNAMI DE IDEIAS...

Foi Miguel Coutinho, no editorial do DN de 13 de Janeiro quem afirmou que “os debates, ao contrário dos programas eleitorais, têm a virtude de revelar convicções e denunciar hesitações. Os debates vivem de ideias, os programas eleitorais, tal como os comícios, de generalidades. A escolha entre uns e outros não é, portanto, indiferente. (...) os dois partidos (os do rotativismo actual, digo eu!) precisam de um choque ideológico. Ou, dito de outro modo, de um tsunami de ideias”. Mas como diz a minha fonte da ponte Atlântica “não quero assustá-lo, amigo leitor, com antiguidades”, todavia, lá terá de ser. Parece–nos que anda muita gente entusiasmada com as “pesquisas” pré-eleitorais... puro logro!? Verdade... é que ainda não descobrimos seriamente que este país é barroco e precisa de metafísica para viver e para se movimentar. Na verdade, não nos lembramos de um outro período pré-eleitoral, onde os partidos que aspiram a governar este país, tenham uma visão tão racional, tão ampla e precisa sobre o país (este gajo só pode estar... devem dizer alguns, e tem razão). O conjunto de reformas que propõem abriga uma clara elegância de coisa nenhuma, e são de uma harmonia interna que só pode provocar uma indolente emoção. A cascata de argumentos e raciocínios que, em particular, os cabecilhas do actual governo despejam sobre nós, para além de não ter lógica porque foram eles os principais responsáveis pela situação, é gelada como uma lâmina de cutelo. Vamos ver se nos entendemos! Tentativa de explicação: o que a nossa (actual) elite política no poder, não nos conseguiu oferecer, ou não conseguiu desenhar, foi um mito correspondente às suas ambições reformadoras e refundadoras do país, provavelmente qualquer coisa que encarnasse uma “aurea mediocritas”.


Explique-se melhor esta história de barroco e da metafísica. Não somos barrocos apenas porque desbaratamos uma imensa riqueza nos altares da crendice. A visão de mundo do barroco materializava, nos séculos XVII e XVIII, uma "vontade de crer", uma ânsia de sentidos e significados estáveis para a vida, diante dos estragos relativistas da racionalidade, da ciência nascente e da incerteza quanto à nossa salvação eterna. O avanço da razão e das ideias recheava de dúvidas o mundo, e o barroco organizava a estratégia de reconstituição de um quadro de valores vitais, “reclamando” da metafísica um enorme esforço reflexivo para a fixação de significados claros para a vida. Ciente da precariedade da própria metafísica, enquanto exercício da razão, o barroco mobilizava a arte para a certificação sensorial destes valores. Daí a sua gesticulação exagerada, torturada, espectaculosa, testemunhal, destinada a conferir veracidade aos valores que dificilmente podiam ser afirmados no campo exclusivo da razão.


Suprema ironia! Sem mostrarmos qualquer arrependimento, somos barrocos porque vivemos num país e duvidamos dele. E o pior é que temos “razões” para isso. Duvidamos do seu destino, sempre cercado de precariedade e marcado pela exploração, pela injustiça, pela falta de desenvolvimento, pela contaminação da mediocridade. Mas chegámos ao fim da linha: não podemos esperar nenhuma salvação fora dele. Desbaratámos três impérios mais o dinheiro dos contribuintes europeus. O seu fracasso é o nosso fracasso e a nossa perdição. Precisamos de acreditar nele, encontrar para ele um significado e um destino, e por mais que nos custe, isto não é só tarefa para as frias lâminas da razão. Não há “encoberto” que nos valha. Precisamos é de um mito sobre o país, de uma imaginação que nos devolva permanentemente a candura nas suas possibilidades, por mais irracionais que pareçam. Precisamos de um mito que nos envolva e arrebate, e justifique esta vida de misérias e sacrifícios no quotidiano. E necessitamos dos gestos autênticos, de manifestações concretas, pictóricas, sensoriais, que tornem este mito presente, visível, material e eficaz.


Os nossos “patrícios” da restante Ibéria “ergueram-se” com um mito: o de um “país” com liberdade, vontade e organização. Mas este mito, e qualquer um, seria reles mentira se a realidade nada tivesse a ver com ele. Por isso ele não foi para os povos da Espanha (como não deve ser para nós) produzido por técnicas de manipulação simbólica. Só existe como o desenho vivo de um conjunto de valores exigentes, que sincronize e empolgue os governos e a sociedade. Claro que necessitamos de refundar a nossa vida, mas para tal não precisamos de uma ruptura com a nossa história, devemos é redefinir o nosso mito nacional, reconstruindo-o de modo mais poderoso e envolvente, isto é, a “nova” epopeia das descobertas tem que ser cá dentro – educação, qualificação, majoramento dos recursos. Foi o que não se fez até hoje. A maior parte da actual elite política esqueceu-se (provavelmente nunca aprendeu) que o país precisa de ser vivido como uma epopeia colectiva, não apenas como desvairada “passerelle” de eunucos. Não foi de admirar este alvoroço da politiquice na escolha de cinzentos parlamentares. Parafraseando as minhas fontes do DESASSOMBRAMENTO: à medida que se aproximam as eleições, vamos assumindo cada vez mais a condição de animais metafísicos e “angélicos” barrocos. Ninguém parece ter ainda rasgado o véu do que precisamos. Nem a razão! Só um tsunami de ideias...


Acuso-te, Destino! /A própria abelha às vezes se alimenta / Do mel que fabricou.../ E eu leio o que escrevi / Como um notário um testamento alheio./ Esvazio o coração, cuido que me exprimi, / E vou a olhar o poço, e ele continua cheio! / Acuso-te e protesto. / É manifesto / Que existe malvadez ou má vontade! / Com a mais humilíssima humildade, / Requeiro, peço, imploro... / Mas trago às costas esta maldição / De sofrer com razão ou sem razão, / E de não ter alívio nas lágrimas que choro! (Miguel Torga, «Penas do Purgatório». Coimbra, Ed. Autor, 1954; 3.ª ed. 1976)


O DESASSOMBRAMENTO CONTINUARÁ com a ajuda das leituras da ponte Atlântica...



publicado por albardeiro às 01:32
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3 comentários:
De JVC a 18 de Janeiro de 2005 às 12:28
O Albardeiro é um dos meus blogues de destaque. No entanto, com a maior amizade, faço uma crítica à sua fraca regularidade de escrita. É muito frustrante visitá-lo obrigatoriamente todos os dias e não encontrar um novo post. Mas isto não desmerece no que ele me faz reflectir. Parabéns e obrigado.


De Anedotrio a 17 de Janeiro de 2005 às 18:45
Como já alguém disse, a culpa pela existência dos males sociais não está exclusivamente nos governantes, ela cabe a cada um de nós, responsável pela educação das novas gerações e pelo estilo de vida que caracteriza a sociedade em que vivemos. Quem não se educa a si próprio, não poderá realizar a contento a educação dos outros, tendendo a impregnar vícios do carácter e reforçá-los com maus exemplos, atitudes equivocadas por força dos valores invertidos que lhe orientam o viver. Isto é, educar é a palavra chave, no exacto e profundo entendimento de desenvolvimento societário. E já agora, queremos necessariamente mais responsabilidade política.


De Caos a 14 de Janeiro de 2005 às 23:38
Gostei do texto. Mas agrada-me também a ideia de ainda continuar viva a utopia. Sabemos que nos finais do século XX, a tendência histórica para o pensamento e a esperança utópicas passou por mudanças significativas. Assistiu-se ao esgotamento ou enfraquecimento das grandes utopias que marcaram a modernidade, e a resultante incredulidade face aos modos utópicos de pensar a sociedade ou o mundo em geral, deram lugar a relatos menores ou micro-narrativas mais modestas mas não menos inspiradas utopicamente ou preocupadas com o bem-estar e destino da sociedade. Assim parece ser o que transparece do seu texto. Ainda há gente que não desiste... ou será que resiste?


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