Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Quinta-feira, 3 de Fevereiro de 2005
DESASSOMBRAMENTO... PARTE inacabada!

A propósito dos vários “choques” já anunciados e pouco enunciados, ocorreu-nos a ideia de propor a quem estiver interessado (os “militontos”, por razões óbvias, não lhes deve interessar!), uma ideia que colhi através da leitura de um livro que considero interessante, cujo autor é Aurélio de Oliveira (Em defesa da política)* e que no momento actual faz todo o sentido, isto é, a urgência de uma Política de Choque onde, inevitavelmente, tenha lugar um inequívoco choque de política - um choque que abane os interesses das ... A ideia, é mais ou menos esta que se segue: Pese embora toda a expectativa que cerca as eleições, os acontecimentos e as turbulências das últimas semanas deixaram claro que a política está na berlinda: “contemplada” com desconfiança e temor, como se trouxesse consigo mil e um factores de instabilidade, irracionalismo e, claro, “risco” – situação inigualável até agora na democracia portuguesa.


Há uma grande falta de confiança na política em si, mas a desconfiança é ainda maior nos políticos. A estes, indiscriminadamente, são dirigidas as críticas mais duras, as frustrações mais profundas, a indignação moral mais plangente. Não dando sinais de arrepiar caminho, embora nos custa dizer isto, não há que esperar muita coisa deles, agarrados que estão aos seus interesses mesquinhos, típicos da “classe política”, tendentes, portanto, a afastar-se das pessoas “comuns” ou a aproximar-se delas apenas com a intenção de capturar votos. O quadro não é mesmo nada animador. Impropérios, acusações mesquinhas, vitimização sues, denúncias em cascata, discursos pobres e repetitivos, escolhas discutíveis, marketing por todo lado. Há como que uma crise geral de legitimidade, um buraco separando o “social” do “político”.


O que é que se passa? O campo da política está hoje contaminado por três blocos de problemas. Primeiro: com a globalização da comunicação, a velocidade, a quantidade e a variedade das informações, o surgimento de uma cultura mais individualista, voluntarista e niilista, a democracia representativa desgastou-se e ficou mais tensa a relação das pessoas com a política. Segundo: as alterações estruturais na organização económica e social, particularmente no que diz respeito à conformação dos grupos e classes sociais, esvaziaram a política dos grandes sujeitos. Terceiro: o mercado e a economia transbordaram os limites do razoável, e colonizaram o todo. Junto com o extraordinário protagonismo dos média, condicionaram a política, fazendo com que o “ver” ficasse mais importante que o “pensar” e padronizando o debate democrático. Diante desta política orientada por critérios de mercado, o cidadão sente-se um estranho, um consumidor qualquer, ou mesmo um pacóvio, tratado como criança.


Nos últimos tempos, face aos actuais protagonistas da política, evoluímos sem muito esforço para predizer a política e maldizer a actividade política. Junte-se a isto a afirmação de um padrão incompetente de governo, concentrado na pseudo-estabilidade do défice, na redução do “peso” do Estado (quando o problema não é de despesa mas de investimento e de gestão de recursos), foi-se difundindo a ideia de que a política “atrapalha”, que a oposição e a crítica, que se querem actuantes, são armas destrutivas, e assim por diante. Embora não o pareça, presenciamos, entre nós, muita apatia e indiferença (veja-se o que aconteceu no PSD – como foi possível a massa cinzenta de qualidade neste partido, deixar que esta gente chegasse onde chegou?), misturada com uma frenética movimentação e muita crítica sem direcção. O estado de espírito geral é falsamente moralista e defensivo. Há pouco debate político e excessiva discussão rasca.


Com isto, os (pretensos) políticos acabam por ser arregimentados pelo lado mais perverso da política, o do favor, da fraude, da dissimulação. Não conseguem actualizar-se nem confirmar-se como verdadeiros representantes dos cidadãos (alguém já disse “A classe política é hoje menos qualificada que muitas das elites e por vezes não percebe a dimensão dos problemas e a forma de os resolver”). Perdem consideração junto dos cidadãos e são incapazes de fazer alguma coisa para melhorar o seu desmpenho. É como um círculo vicioso: desta forma, o desprezo pela política é uma reacção contra a crise da política e um factor a mais de reprodução desta crise.


No fundo, os políticos precisam de um “choque” de política: precisam de mais política, não de menos. Eles e a política como um todo, aliás. Ganharemos muito se toda a sociedade - importa dizer, os cidadãos, os grupos, as classes sociais, as instituições - vier a ser dramatizada pela política. Pela grande política, entendamo-nos. A grande política é uma aposta na vida colectiva, na instituição de um poder democrático que viabilize o melhor governo e distribua justiça. Como afirma Aurélio de Oliveira, «É “política com muita política”: política dos cidadãos. Por expressar uma construção delicada, a grande política está sempre desafiada, ou pela política que se volta para o poder, a autoridade, a coerção, ou pela política que usa e abusa da técnica, dos saberes especializados: a “política com pouca política” (a de tantos políticos profissionais) e a “política sem política” (a dos técnicos)».


O ideal seria que estas três formas de política convergissem e se completassem reciprocamente, sob o comando da “política dos cidadãos”. Como isto de facto não ocorre, a política dos políticos e também a dos técnicos ficam desligadas e desconcertadas do núcleo fundamental da vida colectiva, voltando-se contra os cidadãos. É o que acontece hoje. O quadro, portanto, é de crise e desarranjo. Mas não de “fim” da política. Face à confusão social, ao enfraquecimento da política e do Estado, emergem formas novas de envolvimento com as questões públicas, de participação, de resistência. São formas novas de política, que podem ser fundamentais para a recuperação da ideia mesma de política e para o reencontro das tradições despedaçadas ou momentaneamente neutralizadas.


Por muito tempo achei que a ausência é falta. / E lastimava, ignorante, a falta. / Hoje não a lastimo. / Não há falta na ausência. / A ausência é um estar em mim. / E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, / que rio e danço e invento exclamações alegres, / porque a ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim. (Carlos Drumond de Andrade, Ausência)


(*) Aurélio Nogueira é professor de Política na Unesp/Araraquara e autor, entre outros livros, de As possibilidades da política: ideias para a reforma democrática do Estado (Paz e Terra, 1998) , Em defesa da política (Senac São Paulo, 2001) e Um Estado para a sociedade civil. Temas éticos e políticos da gestão democrática (Ed. Cortez, São Paulo, 2004).



publicado por albardeiro às 18:42
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3 comentários:
De c<zc<zc a 28 de Março de 2005 às 22:43
xzczxczxc


De Caos a 5 de Fevereiro de 2005 às 14:33
Este desprezo pelo fazer política na política, é algo que já teve tempos de “ouro”. Tempos houve (estejam atentos eles estão de volta com roupagens novas) em que se ostentava o mais absoluto desprezo pela política do diálogo, do debate, da argumentação - um absoluto desprezo por procedimentos democráticos, embora estando dentro/fruindo do sistema democrático. Isto não é uma novidade e tem um aspecto muito perigoso. Bertolt Brecht dizia que a mãe do fascismo está sempre grávida.


De Anedotrio a 4 de Fevereiro de 2005 às 09:49
Ora bem, nem mais! Sabemos que existe uma crise de confiança na política, porque à maioria da actual "classe" políticos o que sobra em interesses e incompetência, falta o essencial - saber e fazer política.


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