Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Sábado, 26 de Fevereiro de 2005
A questão do Choque Tecnológico versus analfabetismo digital!

O tema do Choque Tecnológico traz consigo, de modo inevitável, também a controvérsia da democracia electrónica. Hodiernamente, acredita-se que a maior facilidade de receber informações e emitir opiniões levaria o cidadão a participar com mais intensidade na vida da polis. Estaríamos a entrar numa espécie de “ágora virtual”, onde os membros da comunidade, tal como os antigos gregos, apresentariam as suas ideias e aprovariam as propostas que viessem a ser feitas pelos diversos proponentes. A democracia assumiria a forma da democracia directa e os representantes seriam levados a tornar- se “virtuais”, a viver conectados permanentemente com as suas bases, acabando por ser, desta forma, dirigidos por elas. Todos deliberariam sobre tudo a todo o momento.


Independentemente de se questionar a validade da ideia, não é difícil perceber que ela está a camuflar parte da realidade. Não se confessa, por exemplo, que o “cidadão electrónico”, conectado e “navegante”, é alguém que pode espernear, votar e escolher, mas vê reduzidas as hipóteses de ser protagonista na construção da comunidade. É que ele actua num quadro demarcado por uma forma específica de política: a política espectáculo. A democracia requer um tipo específico de sujeito: o cidadão activo, sintonizado com a sua época, em condições de igualdade com os demais e disposto a participar politicamente. Será que as novas tecnologias ajudam a criar este cidadão? De que modo: facilitando o seu acesso a informações ou dando-lhe também mais e melhores condições de se envolver com o inteiro processo da decisão política? Há muita gente a acreditar piamente que a “telepolítica” é democratizante e educativa, graças à sua capacidade de atingir grandes massas de criaturas e facilitar o acesso dos partidos e candidatos (mesmo os mais decrépitos ou medíocres) a um eleitorado sempre mais difícil de ser alcançado. Poucas vezes se analisa criticamente a questão. Não se destacam os aspectos problemáticos, com os quais a política é aviltada e banalizada, onde os seus ritos e rotinas são subvertidos, e de certa forma perde os seus melhores protagonistas e os seus procedimentos mais típicos... e não se pense que é apenas uma questão de adaptação.


No reino da “telepolítica”, a democracia é abalada por aquilo que Paul Virilio chamou de tirania do tempo real, que transforma todos em espectadores e desta forma substitui o esforço de reflexão pela dinâmica passiva dos reflexos. Do mesmo modo, o debate público deixa de se fazer com base em posições substantivas, e assenta em estratégias de marketing, jogos de cena, administração do tempo e da imagem. Não é propriamente um debate, uma vez que não se deseja argumentar nem educar, apenas induzir. Vão-se assim diluindo a relevância e o sentido das instituições e dos espaços públicos. O convite é para que se abandonem ou não se recriem tais espaços. Não se trata, é óbvio, nem de negar o valor do acesso a informações, nem de ignorar a dimensão positiva das novas tecnologias. Mas será que elas, por si só, ao tornar tecnicamente possível o ingresso mais imediato dos cidadãos no circuito proposta/decisão/controlo, poderão ajudar-nos a inventar a democracia de que necessitamos?


Todavia, ATENÇÃO! Actualmente, face a estes desafios em caso algum devemos ignorar a chamada “exclusão digital”. Hoje, a imensa maioria da população está afastada das novas tecnologias e vai sendo prejudicada por elas, que criam barreiras atrás de barreiras. E porquê? Porque vive a vida digital de modo embevecido, alienado e passivo. Há pouca interactividade real. Por contraproducente que possa parecer, caso se concretize, a grande maioria está longe de fruir as vantagens de um choque tecnológico ou ingressar na “ágora virtual”. A conectividade ainda é privilégio de certas camadas da população. Contudo, o trabalho neste domínio tem que rapidamente começar a ser feito – é uma questão de presente e de futuro. Se quisermos mesmo aproveitar os benefícios das novas tecnologias, teremos de desencadear uma maciça campanha educacional, para que se dissemine o uso do computador e se crie uma cultura electrónica crítica e consistente. Contudo, não se pense que despejando as máquinas na escola ou na sala de aula que o problema fica resolvido. Puro engano! Com formação, critério e estratégia, acima de tudo, será indispensável conectar o sistema escolar, desde a base, e antes de tudo a escola pública, lugar democrático por excelência, onde se educam as grandes maiorias. Como enunciam as minhas leituras do desassombramento - não poderá haver “cidadão electrónico” enquanto houver analfabetismo digital. E a alfabetização digital não passará de uma nova forma de opressão e alienação se não for acompanhada de educação política. Ou seja, a mesma velha e boa história de sempre.


“Qualquer coisa de não formado, de tosco, de não acabado pertence ainda à cultura portuguesa de hoje. Qualquer coisa que, no entanto, perdeu a força diante da extraordinária produção cultural popular, que foi absorvendo o fundo bárbaro sem nunca o esgotar, sem nunca o transferir para formas civilizacionais. (...) Entorpecimento, gozo, violência do grosseiro. E, por cima, à superfície, a proliferação progressiva de formas de cultura (nomeadamente popular), com que se procura preencher a ausência (e proteger-se contra o vazio). Nos interiores das casas, as pequenas coisas cobrem paredes, mesas, janelas, o mais pequeno espaço numa prateleira de um vão de escada, e os pensamentos saltitam estabelecendo relações extrínsecas ou insignificantes, ocupando constantemente a consciência, quando não atafulha o entorpecimento. No interior como no exterior reina o pânico do vazio.” José Gil, “O vazio e o pleno”, in Portugal, hoje. O medo de existir, Lisboa: Relógio d’Água, 2004, p. 108


... com a ajuda das leituras da ponte Atlântica, entre outros, de Milton Lahuerta, Marco Aurélio Nogueira, Fernando de La Cuadra, Alessia Ansaloni, Leandro Konder, Guido Liguori, etc.



publicado por albardeiro às 03:11
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4 comentários:
De Anónimo a 2 de Março de 2005 às 19:44
Concordo plenamente com esta posta. É evidente que numa altura em que 60% dos portugueses não acede de todo à internet a aposta neste meio para a vida política tem algo de perturbantemente proselito. Tem algo de Século XIX e de 1ª república. Os cidadãos e os outros...

Mais grave: muitos documentos oficiais já só constam neste meio...


Um abraço,
Francisco Nunes



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Para TODOS os Pu.tos dessa Zona.

Para EVITAREM SER BURLADOS como foi o DEPUTADO COMUNISTA Bruno Dias!!

Ver: “PROFESSORA E AUXILIAR ENVOLVIDAS EM BURLA GIGANTESCA” in http://www.correiodamanha.pt/noticia.asp?id=58796&idselect=21&idCanal=21&p=94

Nota: Em BRAGA até já foi descoberto UM dos SANTOS BURLÕES !!!!!

Só espero que o PAPA dos Católicos MELHORE para que possa DESCOBRIR outras DEZENAS DELES e muitas, muitas DEZENAS DELAS!! Em especial aqui no MINHO!

Ver: “Vaticano riscou S. Victor do livro”, http://www.correiodamanha.pt/noticia.asp?id=147814&idCanal=10


Aqui vai:
.
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OFERTA PARA DIVULGAREM aos PUTOS nas ESCOLAS

Subsídios nas Escolas e/ou Bolsas de Estudo nas Universidades E NOS INSTITUTOS POLITÉCNICOS. Tanto Públicas como “PRIVADAS”!


MENSAGEM: Que TODOS se candidatem TODOS os anos. Mesmo que tenham A CERTEZA ABSOLUTA de que não têm direito a receber.

?! Porquê?! Porque os Pais podem MORRER de Acidente de Carro. Podem ficar DESEMPREGADOS. Etc, etc, etc, etc, ......... , etc.


In: Oh ALUNOS Portugueses III - SUBSÍDIO ESCOLAR e BOLSA DE ESTUDO,

http://eunaodesisto.blogs.sapo.pt/arquivo/2004_04.html#128423


IMP: O MELHOR AMIGO DAS FAMÍLIAS, e muitas vezes o ÚNICO, é o DIÁRIO DA REPÚBLICA. O resto – deuses incluídos - são tretas


AT: Só DIVULGAM nos DISTRITOS ONDE NÃO HÁ DICs da P.J. (Dep de Investigação Criminal): http://www.pj.pt/htm/dics/dep_inv_criminal.htm

Só 8, em 22, é que têm DIC´s?! Estranho. MUI ESTRANHO?!

E os do Litoral diziam que os do INTERIOR são Parolos! São, são! Os do Litoral são mas é 1 BANDO DE PALERMAS


Extra:

Para 25% dos Católicos:

OS da Igreja Católica, na Idade Média, já usavam o PRESERVATIVO.

http://eunaodesisto.blogs.sapo.pt/arquivo/2005_01.html#444232

e

"O AR que se respira nas IGREJAS atrofia o CÉREBRO DOS CATÓLICOS"
in
http://www.alertamedico.med.br/index.php?option=news&task=viewarticle&sid=711



Top Secret_1:

Lembrem-se que é próprio (é natural, faz parte da natureza) dos Jovens associarem-se em Grupos. Então …..

? Quem é que cometeu este CRIME CONTRA A HUMANIDADE em Portugal:

“Uma esmagadora maioria (86,4%) dos JOVENS não tem …..” http://jn.sapo.pt/2005/01/26/sociedade/maioria_jovens_fora_grupos_civicos_e.html


Top Secret_2:

As maiores ESCRAVAS SEXUAIS em Portugal são as PROFESSORAS DAS ESCOLAS. E esta. Hein!?

É bem feita! ES-TU-DA-SSEM em vez de ter (Explicações), em especial a Português e a MATEMÁTICA

NOTA: Não desanimem que OS MAIORES ESCRAVOS, Sexuais, são os PADRES da Igreja Católica e muitos EX-Seminaristas. Perguntem-lhes!

Uma Ajuda aos Padres. Mas só aos QUE VALEM A PENA. Ver: “Ateísmo.net” em http://www.ateismo.net/


Top Secret_3:

Tou farto (30 anos) de ver as FOTOS DOS POLÍTICOS.

Podiam pôr FOTOS de alguns que realmente mandam no País: Os DONOS das CONFRARIAS, das IRMANDADES e das SANTAS CASAS da Misericórdia?

Se não não voto.


ÚLTIMA HORA: Eu não acredito em nenhuns deuses. Mas gosto muito do SOLINHO.

ENERGIAS ALTERNATIVAS in http://www.soaresoliveira.br/projetoenergia.em/


José da Silva Maurício

Braga mas Lisboeta, 26.1.05

mauricio_102@sapo.pt






MIL VEZES MELHOR QUE O CHOQUE TECNOLÓGICO: "Câmara-de-Filmar-Humana-com-Poucas-Habilitações-Escolares" IN "INVENTUMINHO 2005: Primeiro Concurso Nacional de INVENTOS & PROTÓTIPOS.", http://eunaodesisto.blogs.sapo.pt/arquivo/2005_02.html#495101 /// José da Silva Maurício /// mauricio_102@sapo.pt /// http://eunaodesisto.blogs.sapo.pt




De raiodevida a 26 de Fevereiro de 2005 às 19:12
O seu texto sugere-me duas questões:
Será que a verdadeira democracia electrónica consiste em encorajar, tanto quanto possível – graças às possibilidades de comunicação interactiva e colectiva oferecidas pelo ciberespaço -, a expressão e a elaboração dos problemas da cidade pelos próprios cidadãos, a auto-organização das comunidades locais, a participação nas deliberações por parte dos grupos directamente afectados pelas decisões, a transparência das políticas públicas e sua avaliação pelos cidadãos? Será que é colocar a inteligência colectiva no posto de comando e escolher de novo a democracia e reactualizá-la por meio da exploração das potencialidades mais positivas dos novos sistemas de comunicação?


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