Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Quinta-feira, 3 de Março de 2005
HIPOCRISIAS

"(...) um monstro tão dissimulado, tão fingido, tão astuto, tão enganoso e tão conhecidamente traidor!" (...) "E debaixo desta aparência tão modesta, ou desta hipocrisia tão santa (...) o dito polvo é o maior traidor do mar. Se está nos limos, faz-se verde; se está na areia, faz-se branco; se está no lodo, faz-se pardo (...)". (Antº Vieira). É caso para dizer - contra factos não há hipocrisias; a vez do Hugo Fernandez


Usualmente a palavra hipocrisia significa um fingimento de qualidades para ocultar os defeitos. Em termos políticos, este sentido pode manter-se. Porém, quando esta dissimulação permite obter ganhos pessoais e políticos no exercício de funções públicas dever-se-á, com mais propriedade, usar o vocábulo oportunismo. As duas designações aparecem, em todo o caso, ligadas. De facto, só com um elevado grau de hipocrisia se pode ocultar o abuso de poder e a obtenção ilegítima de benefícios – característicos do oportunismo – e conseguir ainda fugir às sanções que adviriam se a situação fosse revelada. Em termos das doutrinas políticas, o oportunismo revela também uma inefável tendência para o desaforo e desembaraço na manipulação dos princípios e conceitos, configurando aquilo que se costuma designar por mentira. É o caso da palavra “libertas” exposta nas galés dos condenados ou da tristemente célebre expressão “Arbeit macht frei” (“O trabalho liberta”) à entrada do campo de concentração de Auschwitz. Também o actual poder norte-americano promete “libertar” – se necessário à força – os povos do mundo. Claro que, nesta situação, não se percebe bem quem serão os oprimidos e os opressores e de que liberdade estaremos realmente a falar. Até porque os E.U.A são o único país que se diz democrático e mantém em seu território um campo de concentração onde são violados os mais elementares direitos humanos, em Guantánamo.


E que dizer do gigantesco embuste que foi a invasão do Iraque, sob o pretexto da neutralização de armas de destruição maciça que o regime iraquiano possuiria e que, afinal, eram inexistentes? Neste caso, a hipocrisia das declarações públicas dos responsáveis americanos – todos estamos lembrados da célebre apresentação de “provas irrefutáveis” de Colin Powell nas Nações Unidas, semanas antes do ataque – permitiu levar por diante a invasão de um país soberano, com o exclusivo propósito de controlar os recursos energéticos e as riquezas do Iraque, bem como assegurar a dominação americana numa área estratégica do nosso planeta. Muitos denunciaram, já nessa altura, esse flagrante oportunismo.


É igualmente neste quadro que podem ser entendidas as recentes declarações de Bush em Bruxelas, de que “A América apoia uma Europa forte, porque precisamos de um parceiro forte no trabalho árduo de fazer avançar a liberdade no mundo” (Público, 22/02/05). É notável o contraste destas intenções com a doutrina seguida, desde o início, pelo governo neoconservador americano, segundo a qual a defesa exclusiva dos interesses americanos está acima de quaisquer outras considerações. Esta doutrina, amplamente exposta em inúmeros documentos oficiais, assenta em três grandes objectivos: a manutenção da doutrina da “guerra preventiva” e a não exclusão de acções militares unilaterais contra países soberanos, colocando-se assim à margem da legalidade internacional e das competências e resoluções das Nações Unidas; assegurar a todo o custo e contra quem for – incluindo, está bem de ver, a própria Europa – uma hegemonia tecnológica e militar que garanta o seu estatuto único de hiperpotência mundial; a utilização, para o efeito, de todos os meios que permitam o domínio estratégico dos recursos do planeta e o crescimento do complexo militar-industrial americano, bem como do poder e dos negócios multimilionários dos seus dirigentes, como ficou bem patente no Iraque. É fácil constatar que estamos em pleno “reino” da hipocrisia e do oportunismo.


Aliás, a manutenção de um estado de “guerra permanente” e de uma situação de extrema insegurança, pela promoção objectiva das desigualdades e injustiças e, deste modo, das condições necessárias ao alastramento do fenómeno terrorista, permite a Washington a desestruturação da ordem mundial, conforme estava estabelecida até aos nossos dias, de forma a garantir uma hegemonia totalitária dos E.U.A. Se, como dizia o jurista Carl Schmitt, no contexto da Alemanha hitleriana, “o soberano é aquele que decide mesmo em situações de excepção”, esta pax americana assegura plenamente esse desiderato, a coberto dos conceitos de “defesa da liberdade” e “promoção da democracia”. Outro domínio em que o actual poder norte-americano revela a mais rematada hipocrisia é aquele que diz respeito às questões ambientais. Apesar de, na sua visita europeia, George W. Bush ter asseverado que os E.U.A se preocupam com a qualidade do ar que respiramos, recordando que o seu país gasta por ano cerca de 5 mil milhões de euros na investigação científica sobre o clima, desde sempre os responsáveis norte-americanos têm garantido, pelo contrário, que nada vão fazer que possa prejudicar a sua economia predadora e o “american way of life”, caracterizado pelo excesso e pelo desperdício. É aliás sintomático que estas declarações do presidente norte-americano tenham sido feitas poucos dias depois da entrada em vigor do estabelecido no Protocolo de Quioto, no passado dia 16 de Fevereiro, que obriga os países signatários à adopção de medidas efectivas para reduzir as suas emissões de gases com efeito de estufa e contribuir, assim, para combater o aquecimento global do nosso planeta. Em 2001, já com Bush à frente do governo, os E.U.A, de longe o maior consumidor mundial de recursos e de energia e o maior poluidor atmosférico do planeta, abandonou o protocolo, diminuindo drasticamente a sua eficácia e condenando a humanidade a inevitáveis e dramáticas alterações climáticas. Tudo para assegurar os interesses norte-americanos! E se estas posições fundamentalistas americanas não causam já admiração, o que custa mais a entender é a passividade, quando não anuência, dos governos dos outros países do mundo. Até quando?



publicado por albardeiro às 13:47
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1 comentário:
De estounacrise a 5 de Março de 2005 às 23:06
Creio que é mais ou menos isto: a América Totalitária é a alavanca da dominação territorial do capitalismo corporativo mundial. Nesta dimensão, há um único Estado nacional importante: os Estados Unidos da América. Em breve, só este Estado será o mapa geopolítico de toda a América. No momento, ele é um apenas um Estado metonímico. Este Estado foi a criação constitucional de um poder político de potência transrepublicana. Isto significa claramente que sempre existiu um motor descansando na ordem republicana americana. Hannah Arendt registou, ainda timidamente, tal dispositivo na sua magnífica abordagem da sociedade americana. Este motor é o cesarismo como forma de uma dominação capitalista mundial. O neoliberalismo é o terrorismo económico de um totalitarismo que já está além do capitalismo tardio. Ele é a política totalitária do capitalismo corporativo mundial.


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