Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Quarta-feira, 1 de Junho de 2005
DECLARAÇÕES

Existe quase sempre escondida uma arrogância (infinita) quando, piratas e vampiros, em nome da Paz e sobretudo da História, se juntam para comemorar eventos. Vem isto a propósito das comemorações da passagem dos 60 anos sobre o Fim da 2ª Guerra Mundial no continente europeu. Retórica e alinhamentos compromissórios constituíram a referência determinante e substantiva das comemorações. Com factos e argumentos o HUGO FERNANDEZ tratará de falar disso no texto que se segue:


É sabido que a História nunca se repete. Mas também é verdade que os processos históricos podem originar estranhas coincidências. Vem isto a propósito das recentes comemorações do final da última guerra mundial. Como se sabe, a 8 de Maio de 1945, a II Guerra Mundial terminava na Europa. No dia seguinte, o sucessor de Hitler, o almirante Karl Doenitz, assinava no quartel-general soviético em Berlim a incondicional capitulação da Alemanha. Na digressão europeia que efectuou por ocasião das celebrações do sexagésimo aniversário do 9 de Maio, dia da vitória do Exército Vermelho sobre as tropas nazis, o presidente norte-americano George W. Bush, fez um conjunto de declarações que revelam surpreendentes permanências, no domínio da política internacional, de uma particular maneira de entender o mundo.


Num discurso pronunciado em Riga, capital da Letónia, no dia 7 de Maio, o presidente americano reconheceu o inconcebível: “O fim da II Guerra Mundial levantou questões incontornáveis ao meu país: tínhamos lutado e feito sacrifícios apenas para conseguir a divisão permanente da Europa em campos armados? Ou será que a causa da liberdade e dos direitos das nações exigia mais de nós?”. O Presidente norte-americano acabou por constatar que os E.U.A permitiram “um dos maiores males da História”, ou seja, a dominação soviética da Europa Central e do Leste. O que estas declarações revelam é, para além de uma total falta de respeito pelos anteriores aliados, a certeza de que por vitórias apenas se pode considerar o total aniquilamento de todos os opositores e o domínio absoluto do vencedor. Ou seja, o que George W. Bush verdadeiramente quis dizer é que os americanos deviam ter sido capazes de conquistar militarmente toda a Europa – e quiçá a própria União Soviética – não permitindo quaisquer veleidades de autonomia nacional ou de alternativa política aos povos europeus. Numa altura em que se comemora o fim da II Guerra Mundial estas intenções mimetizam a lógica de actuação da... Alemanha nazi. Também Adolf Hitler pretendia o domínio absoluto da Europa sob o diktat do III Reich – o tal que, na profecia do ditador, duraria mil anos. Com esse objectivo arrastou o mundo para a guerra.


Bush aceitou, ainda assim, estar presente nas comemorações do final da II Guerra Mundial, que tiveram lugar precisamente em Moscovo. Na mesma ocasião, num encontro com os Presidentes da Estónia, da Letónia e da Lituânia, Bush reconheceu a “História dolorosa” destes países e declarou, num acto de falsa contrição que “Mais uma vez, quando governos poderosos negociaram, a liberdade das pequenas nações foi menosprezada", concluindo “Mas esta tentativa de sacrificar a liberdade pela estabilidade deixou um continente dividido e instável”. E acabou por assumir o direito absoluto dos americanos à livre ingerência em qualquer país, ao afirmar: “A ideia de países ajudarem os outros a tornarem-se livres, espero que não seja vista como revolucionária, mas como uma política externa decente e humana”. Com o beneplácito da hiperpotência mundial, os presidentes Arnold Ruutel, da Estónia e Valdar Adamkus, da Lituânia não participaram nas cerimónias, tal como aconteceu com Mikhail Saakachvili da Geórgia, em protesto pelo atraso do abandono das bases militares russas no seu território. Os presidentes da Letónia, Vaira Vike-Freiberga e da Polónia, Alexandre Kwasnievski decidiram participar, mas no essencial partilham das posições dos seus homólogos.


O que mais choca nesta assunção do estatuto imperial por parte dos E.U.A é a total falta de escrúpulos para atingir os seus objectivos hegemónicos, o absoluto desprezo pelos outros povos e pelas opiniões diversas, a arrogância do unilateralismo e a agressividade da intolerância. Com as evidentes idiossincrasias que o tempo e as circunstâncias sempre determinam, a Alemanha nazi seguia exactamente o mesmo padrão de comportamento. O atropelo dos mais elementares preceitos do direito internacional e a completa indiferença pela legalidade na relação entre os países, constituem comportamentos recorrentes. Tal como Hitler fez com as instituições internacionais do seu tempo, também Bush desrespeita compromissos anteriormente assumidos e contesta a autoridade de organismos com o prestígio do Tribunal Penal Internacional – isentando, por conta própria, os militares norte-americanos de prestarem contas à justiça internacional – ou mesmo da própria ONU. É sintomático, a este respeito, o desplante da recente indigitação de alguém como John Bolton para embaixador norte-americano na ONU. Lembremos que este senador republicano declarou publicamente que a ONU só tinha alguma utilidade se servisse os interesses americanos, na linha, aliás, do que Madeleine Albright afirmou, aquando da questão do Kosovo: “vamos para a guerra com a ONU se possível, sem a ONU se necessário”. Também Richard Perle, corifeu do pensamento neo-conservador norte-americano, no dia seguinte ao começo da invasão do Iraque, publicou na imprensa internacional um artigo com o sugestivo título: “Thank God for the Death of the UN”. Os E.U.A agem, assim, como um autêntico Estado “pária” que, inclusivamente, se recusa de forma obstinada a assinar os principais tratados internacionais.


Todas estas atitudes não nos podem deixar de trazer à memória as célebres declarações de Adolf Hitler aos juristas alemães em 1933, de que o direito se devia “subordinar aos interesses do Estado e à ética nazi”. Hitler também não respeitou os compromissos internacionais do seu país. A Alemanha abandonou a Sociedade das Nações e denunciou unilateralmente o Tratado de Versalhes, reocupando militarmente a Renânia e o Sarre em 1936. Acabou por anexar a Àustria em 1938 – na sequência do Acordo de Munique de Setembro de 1938, em que Hitler impôs a sua vontade a ingleses e franceses – o noroeste da Checoslováquia (o denominado “País dos Sudetas”, cuja população era maioritariamente de origem germânica), a Boémia-Morávia, já em 1939, reduzindo a Eslováquia ao mero estatuto de satélite alemão. Acabou por invadir a Polónia em Setembro de 1939 e iniciar a II Guerra Mundial.


A ideologia nazi proclamava o Lebensraum (espaço vital) e o pangermanismo nacionalista e xenófobo justificava a Anschluss (anexação) das áreas de colonização germânica, com vista à restauração de uma mítica unidade nacional e à consecução da grandeza imperial alemã. Tratava-se de construir uma Heimat (pátria) alargada, assegurada por um Estado imperial – o III Reich. “O objectivo da política alemã é a defesa e a segurança da comunidade racial germânica e a sua multiplicação. Precisamos, portanto, de espaço”, declarou Hitler às chefias militares alemães em 1937. Estas iniciativas talvez pudessem ter sido travadas na Conferência de Munique, se os primeiros-ministros da Grã-Bretanha e da França da altura, Neville Chamberlain e Édouard Daladier, tivessem posto um travão às intenções de Hitler. Mas, ontem como hoje, o perigo da situação não foi fácil de reconhecer.


CONTINUA



publicado por albardeiro às 20:54
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1 comentário:
De leitoratento a 2 de Junho de 2005 às 13:14
O resumo é este: o mais graduado neoconservador na máquina administrativa é Paul Wolfowitz, secretário-adjunto da Defesa. Os demais estão fora do governo e são influentes pelo que publicam e pela suas redes de relações pessoais.

O empenho do grupo em fazer a Guerra do Iraque levou publicações liberais, como a revista "The New Yorker" ou o jornal "The Boston Globe", a desconfiarem de uma espécie de conspiração de ideólogos e a desenterrarem os seus gurus. O que bastou para colocar em evidência, 30 anos após a sua morte, o filósofo de origem alemã Leo Strauss, que conheceu Heidegger e, emigrado nos Estados Unidos, leccionou em Nova York e na Universidade de Chicago.

Strauss nunca redigiu um manual do neoconservadorismo em linguagem simples ou teve empenho em divulgar as suas ideias para um público mais amplo. Tratava-se bem mais de um exegeta de textos clássicos, de um conhecedor de idiomas arcaicos, para quem apenas os segmentos minoritários da elite intelectual teriam acesso à linguagem cifrada do conhecimento filosófico.

Não é bem o perfil do ideólogo combativo e reacionário, que se transforma em rottweiler quando se fala de socialização dos meios de produção. Os straussianos --Wolfowitz ou Richard Perle, influente consultor de Bush-- acreditam que os EUA têm as chaves do jogo internacional e devem impor a sua lógica pela força, se encontrarem resistência.

Uma "hegemonia benevolente", na curiosa expressão de Robert Kagan e William Kristol, dois outros neoconservadores. Paralelamente, o grupo despreza o multilateralismo das Nações Unidas.


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