Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Quarta-feira, 27 de Julho de 2005
... a um patrício que tive o grato prazer de conhecer em pessoa!

alma7.jpg


"Lá no sul, onde nasci: o meu corpo dentro do corpo da minha mãe, sob a sua pele, encostado aos seus ossos; lá no sul, existem casas caiadas, existem campos, existem planícies que estão agora tão longe de mim e que, ao mesmo tempo, estão aqui porque são a memória de algo que sei que existe. Dentro dessa memória, na primeira vez que a lua se encheu e brilhou perfeita depois de eu nascer, a minha mãe esperou o momento em que todas as pessoas da casa adormeceram. Pousou sobre a mesa da cozinha o xaile com que me envolvia e abriu portas até descer os degraus do quintal. Tinha os pés descalços sobre a terra. Eram os últimos dias do verão. No centro do céu da noite, a lua tinha parado na explosão da sua luz branca e gelada. Os dedos da minha mãe eram grossos no momento em que, com ambas as mãos me levantou no ar, sobre a sua cabeça, na direcção da lua e disse: Ò lua, ò luar,/ eu fi-lo nascer/ ajuda-mo tu a criar. Eu era pequeno e branco. Nos olhos da minha mãe via-se os seus braços erguidos, via-se o meu corpo dentro do círculo branco da lua. Nesta noite, antes e depois de nos separarmos, era essa mesma lua que existia no céu. Como a minha mãe, essa lua existia num lugar onde não a tentámos ver, mas sei agora que existia e saber isso é saber que o mundo é tão vasto. Agora, neste momento, não sei onde estás. Imagino-te a fazer tantas coisas. Imagino-te a não te lembrares de mim. Agora, longe daqui, existe a terra do sul onde nasci. Estou parado e sei que vou recomeçar a caminhar. Não passou muito tempo desde que a manhã nasceu. Olho para as minhas botas e vejo uma altura de nevoeiro que começa a levantar-se do chão e a envolver-me lentamente os joelhos. Os pontos de luz que brilham no chão são mais vagos. E uma voz terrível e negra começa a atravessar-me. Não distingo as palavras que diz através de mim. Lentamente, levanto o olhar ao céu. Sobre mim, existe um lugar infinito e maior do que eu. Sobre mim, o céu desta manhã é o espaço infinito onde pode existir tudo aquilo que existe no meu peito. Como a sombra pálida do meu coração, distingo no céu desta manhã, no céu luminoso e baço do meu peito, a forma branca da lua. O dia nasceu sobre a noite e a noite continuou sob a luz cinzenta desta manhã." (Lunar do José Luís Peixoto)



publicado por albardeiro às 16:45
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