Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Quinta-feira, 8 de Setembro de 2005
A ARMADILHA

Um texto do Hugo Fernandez ...o outro albardeiro!


A enviada especial do jornal Público, Maria João Guimarães, relata-nos uma conversa que teve, durante uma boleia, com uma reservista do exército israelita, de nome Moran de 23 anos, oriunda de Telavive, mobilizada para participar nas operações de retirada israelita da Faixa de Gaza. A jovem estava naturalmente apreensiva com o serviço que lhe seria atribuído e, não sendo de muitas palavras, acabou por ripostar às perguntas da repórter: “Mas o que é que interessa isto a Portugal? Eu sinceramente não me interessa nada o que se passa em Portugal. Nada mesmo.” (Público, 15/8/2005). A sobranceria da resposta denuncia a situação de excepção em que vive o seu país. O protagonismo de que goza Israel, artificialmente mantido pelos E.U.A, permite-lhe viver isolado da comunidade internacional.


Mas, se os israelitas não precisam de se preocupar com o resto do mundo, o resto do mundo não tem outra hipótese senão preocupar-se com Israel e com o conflito que alimenta, desde a sua fundação, com os palestinianos e países árabes da região. As repercussões deste conflito, são sentidas, infelizmente, a ferro e fogo, nos atentados bombistas de Bali, Istambul, Casablanca, Londres, Madrid ou Nova York. Conflito que não só está longe do fim, como foi agravado com as aventuras militares americanas no Afeganistão e no Iraque. E isto apesar de um dos principais alibis americanos para a invasão do Iraque ter sido a promessa da resolução do conflito israelo-palestiniano – “o caminho de Jerusalém passa por Bagdad”, diziam os think tanks neo-conservadores. Vê-se claramente o enorme embuste desta promessa e, pelo contrário, o agravamento exponencial do sentimento de injustiça e humilhação das populações afectadas, criando o caldo necessário para o alastramento do extremismo religioso e de actos de desespero de que todos os terrorismos se alimentam e de cuja violência todos, em qualquer parte do mundo, podem vir a sofrer.


É um facto que, pela primeira vez, Israel desmantela colonatos e retira a sua população de territórios ocupados (a retirada do Sinai há 23 anos foi feita num contexto inteiramente diferente, em troca da paz com o Egipto, e a recente retirada do Sul do Líbano foi exclusivamente militar). Mas também é verdade que isso significa, antes de mais, o emendar – tímido e claramente insuficiente – de graves atropelos ao direito internacional e aos direitos dos palestinianos que aí viviam antes da ocupação, e a pura e simples reposição da legalidade. Não será, aliás, suspeito que o principal impulsionador da implantação dos colonatos nos territórios ocupados por Israel após a Guerra dos Seis Dias em 1967, Ariel Sharon – aquele a quem, nos últimos 40 anos, chamam “bulldozer” – seja o mesmo que agora preconiza esta retirada? Estamos a falar do “falcão” militar que promoveu a invasão do Líbano em 1982 e que poucos meses depois, foi cúmplice no massacre dos campos de refugiados palestinianos de Sabra e Shatila, que provocou milhares de mortos. O que faz, então, correr o primeiro-ministro israelita? O que verdadeiramente Sharon visa com este gesto de “boa vontade” em Gaza, é preservar e alargar os colonatos na Cisjordânia (a anexação prevista é de mais de metade da Cisjordânia, cerca de 58%), muito mais importantes e decisivos para a construção do Eretz Israel – o Grande Israel –, possibilitando a criação de um Estado judaico do Mar Mediterrâneo até ao rio Jordão.


Ariel Sharon vai alegar a gigantesca dificuldade que teve de enfrentar nesta retirada, justificando assim a inviabilidade de futuras retiradas: para evacuar 8500 pessoas de 25 colonatos (4 no Norte da Cisjordânia e 21 na Faixa de Gaza), o governo israelita destacou cerca de 55.000 militares, num esforço orçamental de 1,6 mil milhões de euros, não contabilizando os mais de 400 mil euros que cada família de colonos receberá como indemnização (Visão, 11/8/2005). Mas verdadeiramente não seria muito mais dispendiosa a segurança de 8500 israelitas no meio de milhão e meio de palestinianos e a manutenção de uma importante força militar para fazer frente à prolongada e desgastante Intifada palestiniana? O próprio Sharon já garantiu que “o programa de colonização é sério e vai continuar”.


Esta retirada de Gaza está longe, por isso, de ser um acto de altruísmo. Trata-se, pelo contrário, de uma autêntica moeda de troca. Significará, isso sim, o enterro definitivo do processo de paz com os palestinianos e armadilhará definitivamente o sonho da construção de uma Palestina independente pois, a partir daqui, Israel considera o seu papel cumprido e as exigências da comunidade internacional satisfeitas. É que na Cisjordânia vivem mais de 250 mil colonos, sem contar com a população judia de Jerusalém Oriental. Os desgarrados enclaves palestinianos que aí permanecem, ainda assim totalmente controlados pelo exército israelita, são o máximo que Israel está pronto a tolerar. Nestas condições, um verdadeiro Estado Palestiniano torna-se inviável.


Como assinala Meron Rapoport, jornalista do diário Haaretz de Telavive, o objectivo é “retirar de Gaza para conservar a Cisjordânia” (Le Monde Diplomatique, edição portuguesa, Agosto de 2005). E este objectivo é perfeitamente assumido. Cita, a propósito, as declarações de um dos mais influentes conselheiros de Ariel Sharon, Dov Weisglass: “O que nós fizemos visa congelar o processo de negociação. Ao congelarmos o processo de negociação, impedimos a criação de um Estado palestiniano e a discussão sobre a questão dos refugiados”, concluindo com uma transparência cristalina, “A saída de Gaza contém uma apropriada dose de formol, a necessária para que não haja processo de negociação com os palestinianos.” Do seu rancho de Crawford, no Texas, o Presidente norte-americano George W. Bush aplaude a “iniciativa audaz” do primeiro-ministro Sharon, desejoso de notícias positivas que compensem o atoleiro iraquiano em que os americanos estão envolvidos.


Na reportagem do Público a que fizemos referência, são ouvidos três trabalhadores da construção civil tailandeses – trabalhadores asiáticos que, na sequência da segunda Intifada, substituiram os palestinianos – que, no colonato de Neveh Dekalim (o maior de Gaza, construído em 1983 e com 2500 habitantes) observam os preparativos para a retirada. Quando questionados sobre o que acham da situação, não hesitam em responder: “Israel faz o que a América diz: a América diz para sair, Israel sai.”


 Israel é um Estado confessional, tal como a Arábia Saudita. Tem um programa nuclear secreto à revelia dos acordos e inspecções internacionais, como a Coreia do Norte. Viola constantemente os mais elementares direitos humanos, perseguindo, torturando e matando, como qualquer ditadura sul-americana. Oprime a população palestiniana sob o seu domínio, expropriando as suas terras e os seus bens, deslocalizando-a e guetizando-a, à semelhança do odioso regime do apartheid sul-africano. Despreza a opinião pública mundial, o Tribunal Internacional de Haia – que solicitou o desmantelamento de um muro de 9 metros de altura que irá cercar mais de 100 quilómetros quadrados de terras palestinianas – e as inúmeras resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas, condenando as sucessivas anexações de territórios e violações das suas obrigações. Israel mantêm fronteiras que não são reconhecidas internacionalmente, como qualquer Estado pária. Porque se permite a Israel aquilo que se nega aos outros países? Poderá o mundo continuar a tolerar que Israel se comporte como um grande colonato dos E.U.A no Médio Oriente?



publicado por albardeiro às 17:13
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