Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2016
ILUSÃO FATAL

Na ânsia de digerir o resultado das eleições norte-americanas, uma multidão de comentadores e analistas lançaram-se num concurso de explicações mais ou menos rigorosas, teses mais ou menos fantasistas, justificações mais ou menos convincentes, que permitissem entender o que, para todos eles (e muitos, muitos milhões de outros), apareceu como algo incompreensível. A maior parte destas análises acabaram por convergir, porém, numa conceção profundamente enganadora: a de que Donald Trump era alguém fora do sistema. Esta suposta aura anti sistémica do presidente eleito levou estes observadores – consciente ou inconscientemente – a alinhar com toda a propaganda desenvolvida pela campanha do magnata nova-iorquino, cujo estilo truculento e provocador pretendeu, desde sempre, vender essa ideia, mas cuja veracidade dificilmente resistirá à realidade dos factos.

Aceita-se que todos aqueles que perderam os seus empregos na outrora próspera indústria americana que foi deslocalizada para outras partes do mundo, ou que sofreram a concorrência de uma mão-de-obra muito mais barata de emigrantes ou de outras minorias internas, só pode estar revoltada com o sistema. Vítimas do aumento exponencial das desigualdades e deserdados dos acordos de “comércio livre” e da revolução tecnológica, não tiveram qualquer benefício com a globalização. A tríade neoliberal da desregulação, privatização e austeridade, afundou as suas perspetivas de vida e condenou os seus descendentes a uma existência ainda mais precária. Foram estas camadas da população que constituíram o grosso dos votantes no candidato republicano e, no seu discurso de vitória, Donald Trump não deixou demagogicamente de sublinhar que “Os homens e mulheres esquecidos no nosso país não o serão mais”. Só que, embora eles não o reconheçam, Trump foi um dos atores principais desta engrenagem. A crença de que os políticos tradicionais não responderam às suas necessidades é, por isso, ao mesmo tempo verdadeira e terrivelmente falaciosa quando aplicada ao personagem em questão.

Candidato anti sistema? Constituída sobretudo por lobbyistas e consultores, a equipa do novo presidente americano é bem um exemplo da promiscuidade entre política e negócios em Washington. Nada de novo, portanto. Para um dos principais conselheiros de Trump, Harold Hamm, a presidência do novo inquilino da Casa Branca ficará marcada precisamente pelos cortes nos impostos e desregulação da atividade económica, isto é, a cartilha neoliberal – que é o statu quo global da atualidade, recorde-se – em todo o seu esplendor: “Funcionou bem com Ronald Reagan baixar os impostos, pôr o povo americano outra vez a trabalhar e desregular”, afirmou Hamm ao Financial Times (Público, 12/11/2016). Acabar com a legislação financeira de Barack Obama de 2010, a chamada Dodd-Franck Act – lei que, na sequência da crise financeira de 2008, apertou o controlo financeiro e regulou a atividade dos consultores de investimento, ao mesmo tempo que incrementava um sistema de regulação federal e uma rede de agências de defesa dos consumidores – é um dos primeiros objetivos da nova Administração americana. Tal como o é a redução da carga fiscal para as grandes empresas de 35% para 15% ou para os multimilionários, diminuindo o escalão máximo da tributação de rendimentos de 39,6% para 33%. Cientes de que os seus interesses estão salvaguardados, os principais bancos americanos já ganharam em Bolsa qualquer coisa como 120 mil milhões de dólares, desde que Trump foi eleito presidente dos EUA. Nas concludentes declarações ao New York Times de Peter Wehner, o insuspeito autor de discursos de George W. Bush, “Esta ideia de que ele era um outsider que iria destruir o establishment político e secar o pântano eram afinal as deixas de um vigarista” (Público, 12/11/2016).

Mas afinal o que tem sido a atividade do recém-eleito presidente americano? A “8ª maravilha do mundo”, como Donald Trump a designou na inauguração em 1990, o casino Trump Taj Mahal fechou recentemente, como já tinha acontecido com os seus outros casinos Atlantic Club, Showboat, Reve e Trump Plaza em 2014, mergulhando Atlantic City em mais uma onda de desemprego e miséria para cerca de 10 mil pessoas. Em todas estas situações, Trump aproveitou-se das promessas feitas a investidores incautos e dos estratagemas com que vigarizou pequenas empresas, com o objetivo de garantir uma rápida acumulação de lucros, logo abandonando os empreendimentos feitos assim que os benefícios começaram a não atingir os montantes desejados. Ora, o que pode ser mais do sistema do que a especulação financeira e imobiliária? O que pode ser mais conforme com a ordem neoliberal que a ideia reaganómica de que cada um deve tratar de si e não se preocupar com os outros? Para esta gente, o capitalismo é muito mais importante do que a mais elementar noção de bem-comum, defendendo o individualismo radical em detrimento de qualquer consideração comunitária. É, aliás, publicamente conhecida a sua jactância na fuga aos impostos e o descaramento com que fala do perdão fiscal de que beneficiou (ao contrário da esmagadora maioria dos seus conterrâneos). Ele próprio declarou no primeiro debate presidencial, em setembro de 2016, que “Não pagar impostos faz de mim alguém inteligente”. Pode este indivíduo ser apresentado como um inadaptado do sistema? Ou será antes o exemplo perfeito do empresário de sucesso incensado pela teologia do mercado, cujo pleno funcionamento sustenta todo o aparelho político estadunidense? Donald Trump considera mesmo que não há conflito de interesses entre a governação do país e o mundo empresarial a que se tem dedicado, tendo chegado a sugerir a gestão dos seus negócios a partir da Casa Branca.

Falido nos anos 90, salvo por um escandaloso perdão fiscal a que a generalidade da população americana nunca pôde ter acesso, o filho do multimilionário Fred Trump, construiu um gigantesco império empresarial que se estendeu do setor imobiliário (hotéis, casinos, prédios de apartamentos e escritórios) – tornando-se um dos grandes senhorios da cidade de Nova Iorque nos anos 80 –, a campos de golfe (na Escócia), uma equipa de futebol americano, uma companhia aérea e a indústria do jogo, do entretenimento e da moda (com a sua marca de roupa a ser produzida no Sri Lanka a baixo custo, diga-se de passagem). Mas que ninguém se iluda. A sua fortuna e o seu caminho de êxito foi feito à custa de uma completa falta de escrúpulos para com os seus concidadãos (isto é, à custa dos outros), aqueles mesmos que, por um processo mimético, votaram nele, esperando ingenuamente atrair sobre si – como que por um “toque de Midas” (de resto, o título de um dos seus mais afamados manuais de autoajuda pato-bravista) – alguma da fama e da fortuna do multimilionário. Isso e o medo. O medo das disfuncionalidades do atual mundo globalizado que recaiu sobre muitos daqueles que votaram Trump enquanto suposto expoente do “anti sistema”. A evidente ausência de alternativas facilitou a disseminação da falácia.

Ora, como sublinhou o historiador Manuel Loff, “Uma sociedade que sacraliza a riqueza escolhe ricos para a representar.”, segundo a ideia de que “quem é rico é-o por mérito próprio”, ainda que seja o mérito de “manipular o mercado, da lei do mais forte e da conquista de espaço mediático.” Com Trump, chegou-se a este ponto: “um dos homens mais ricos dos EUA, que está no centro da oligarquia, denuncia as maldades do sistema e promete vingar as vítimas do empobrecimento.” Loff conclui, “Pelos vistos, não há nada de mais convincente que um rico que, em nome dos pobres, se queixa dos outros ricos.” (Público, 12/11/2016). Se isto não é o sistema…

Na certeira explicação de Diogo Vaz Pinto, Trump representa assim “as duas faces da nova moeda espiritual que, como Deus, não se vê mas tem o dom da ubiquidade, configurando para meio mundo o paraíso na terra: Fama & Dinheiro, Inc.” Num texto datado de junho de 2015, Vaz Pinto afirma sobre Trump que, com o seu “carisma bimbo”, “Há outros príncipes, mas foi ele que fez do espalhafato uma estratégia ganhadora.”, invocando o seu domínio no ramo imobiliário e a sua presença constante nos media norte-americanos em todo o género de séries, desde o “Bairro Sésamo”, ao “Príncipe de Bel Air”, “O Sexo e a Cidade”, “Spin City” ou “The Nanny”, até ao programa líder de audiências “The Apprentice”, reality show sobre o empreendedorismo – ou da ideia rapace que se faz dele – em que Donald Trump despedia, com evidente gáudio, os concorrentes perdedores (como, na realidade, foram despedidos muitos daqueles que agora votaram nele), mediante o espantoso cachet de 3 milhões de dólares por emissão. Embora nunca tenha, até agora, desempenhado um cargo político, é das figuras públicas mais conhecidas e influentes dos EUA. Com a política rebaixada ao grau zero da vida coletiva, e como diz Vaz Pinto, apostada, cada vez mais, “na anedota, com o confronto de posições a servir de palco a um desgraçado carnaval mediático.”, Trump só teve que esperar pela altura certa… e ser ele mesmo, como quando anunciou as suas intenções presidenciais à frente da Trump Tower, em Manhattan, a uma multidão de apoiantes que, segundo o jornal Hollywood Reporter, eram, na sua maioria, atores pagos a 50 dólares por cabeça, através de uma agência de casting. Para Diogo Vaz Pinto, “Trump é o palhaço que comprou o circo e sabe geri-lo como ninguém.” (I, 10/11/2016).

Sinais dos tempos (e do sistema), Donald Trump foi um candidato que fez uso, de forma muito ativa, das redes sociais, em especial do Twitter (famosos especialmente quando eram escritos de madrugada!). Tendo sido uma estrela de televisão, sabe bem o valor da comunicação de massas e do protagonismo noticioso (quer as notícias a seu respeito sejam positivas ou negativas). Como constatou David Birdsell, especialista em comunicação política da Universidade Baruch de Nova Iorque, “Ao contrário do que ele próprio diz, Donald Trump deve estar muito satisfeito com o tipo de cobertura dos grandes grupos de media. Em particular durante as eleições primárias, os media trataram Donald Trump como nunca tinham tratado nenhum outro candidato na história das eleições com cobertura televisiva. Durante semanas a fio abriram-lhe as portas dos programas mais prestigiados, nos períodos de maior audiência. Deixaram que ele entrasse em direto por telefone, algo que nunca tinha sido permitido a nenhum outro candidato.” (Público, 7/11/2016). Discriminado pelos media? Só por brincadeira. A verdade é que, através da hábil utilização dos meios de comunicação e da manipulação da opinião pública, Donald Trump é, desde há décadas, uma celebridade da sociedade americana. Quando, em dezembro de 2013, um grupo de empresários pretendeu lançar a sua candidatura a governador de Nova Iorque, Trump respondeu-lhes que almejava a Casa Branca e, segundo o jornal norte-americano Politico, explicou-lhes como ia proceder para atingir tal objetivo: “Vou aparecer e todas as sondagens vão ficar loucas. Vou sugar todo o oxigénio da sala. Sei como manipular os media de tal forma que eles nunca vão tirar as luzes de mim.”, acrescentando que nem precisava de gastar muito dinheiro em propaganda, pois “A chave está no poder das audiências em massa.” (Sábado, 10/11/2016). Elucidativo!

Para o jornal britânico Economist, comentando o novo presidente dos EUA, “A sua experiência, temperamento e caráter tornam-no horrendamente inapto para ser o chefe de Estado de uma nação da qual o mundo democrático espera liderança, o comandante-chefe das Forças Armadas mais poderosas do mundo, e o indivíduo que controla a dissuasão nuclear americana.” (Público, 5/11/2016). Trump é um proto ditador, racista, sexista, xenófobo, anti-imigração e perseguidor de minorias; é um demagogo populista, antidemocrático, desprezador da cultura e do conhecimento científico, darwinista social e individualista extremo; um verdadeiro cromo. A sua oposição ao combate às alterações climáticas –uma “fraude inventada pelos chineses para minar a industrialização dos EUA”, como caracterizou, durante a campanha, o fenómeno do aquecimento global – ou a proliferação de armas nucleares – relativamente às quais, Trump declarou não entender porque “não são usadas com mais frequência” – são uma pequena amostra do pensamento do novo inquilino da Casa Branca. Por isso, a sua eleição foi “um erro de proporções épicas” (Visão, 17/11/2016), como se lhe refere, no The New York Times, o economista norte-americano e prémio Nobel da Economia em 2008, Paul Krugman.

Mas, longe de ser um risco para o sistema, Trump funciona, isso sim, como uma válvula de escape para que aquele se perpetue, ao assegurar, para além da controvérsia do pensamento e da boçalidade das atitudes, o que é verdadeiramente importante para o fortalecimento da ordem vigente, deixando os seus apoiantes salivar de ódio contra os bodes expiatórios habituais: emigrantes, minorias raciais, sexuais e religiosas. Desmascarar esta ilusão é essencial e terá que ter o empenho das forças progressistas norte-americanas e internacionais. Porque a doença tem tendência a alastrar.

Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 17:47
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