Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Sexta-feira, 5 de Setembro de 2014
O EFEITO IDEOLÓGICO

Os Homens pensam o seu mundo e atuam de acordo com crenças paradigmáticas. Qualquer sociedade depende de um aparato lógico-concetual que a organize e lhe dê sentido. Naturalmente que o conjunto de regras e princípios que sustentam a vida social são, por sua vez, enformados por essa mesma realidade, sem a qual, aliás, dificilmente poderiam existir (ou, em todo o caso, a sua existência e inteligibilidade situar-se-iam no horizonte mais ou menos longínquo da utopia).

A sociedade de Antigo Regime (séculos XVI-XVIII) era avessa a qualquer ideia de mobilidade social. Pelo contrário, era na hierarquia dos seus corpos e ordens, sancionada pela tradição e abençoada pelo divino, que encontrava a sua razão de ser. Os direitos e privilégios de cada um dos estratos da cadeia hierárquica deviam ser clara e imediatamente reconhecidos e era nessa medida que a ordem social antiga mantinha a coerência da sua estrutura. O beneplácito régio cumpria aqui a função de distribuir benefícios e prerrogativas na remuneração dos serviços prestados à coroa, não como prémio de méritos individuais (estava longe a ideia meritocrática do liberalismo), mas como consagração dos privilégios corporativos. A denominada “qualidade de nascimento” assegurava a atribuição a quem de direito – isto é, àqueles que tinham o estatuto necessário para aceder às benesses outorgadas – de um bem, título ou função. Era essa a razão que sustentava a exclusividade social e o domínio político.

Este sistema autorreprodutivo, beneficiando sempre os mesmos (uns poucos) em detrimento de todos os outros (a generalidade da humanidade), tornou-se crescentemente inaceitável, tendo a sua contestação resultado nas revoluções liberais de finais de setecentos e durante a centúria oitocentista. Com o advento do liberalismo, acreditou-se que a “boa ordem” social assentava na igualdade de direitos e num estatuto comum de cidadania. Invertendo a lógica aristocrática-corporativa da harmonia da sociedade assente no princípio do privilégio e da distinção hierárquica, a sociedade liberal propugnava a igual consideração social e a possibilidade de todos acederem a profissões, cargos e dignidades, possibilidade que ficava apenas a depender do mérito de cada um. O protagonismo que antes era dado ao nascimento era substituído pelo princípio da meritocracia do desempenho.

O sucesso dos indivíduos (doravante entendidos enquanto sujeitos independentes, apenas irmanados pelo mesmo estatuto cívico) passou a ser medido pela capacidade de aceder a avultadas remunerações e acumular bens e fortuna. No imaginário social das sociedades contemporâneas a riqueza valorizou-se decisivamente em relação à hereditariedade. Todo o desenvolvimento e consolidação do mundo industrial foi feito com base nestas premissas ideológicas. A imagem icónica do self-made man preenchia as aspirações da generalidade da população, doravante subjugada à premência da obtenção, “a todo o custo” e “a qualquer preço” – isto é, para lá de qualquer escrúpulo ou consideração pelos seus concidadãos – do êxito propagandeado.

A emergência do mercado globalizado e do poder financeiro nas últimas décadas do século XX apenas agravou esta propensão predadora. Não só as desigualdades sociais atingiram patamares inéditos, como a lógica do the winner takes it all (jogo de “soma-zero” em que o vencedor, ficando com tudo, despoja os vencidos) cobriu a ideologia neoliberal de uma estranha capa de arcaísmo estamental. Cavando-se inevitavelmente um fosso entre o mito do sucesso dourado (de uns poucos) e as reais possibilidades de ascensão social (da generalidade da humanidade), em virtude dos inexoráveis mecanismos da exploração capitalista, dir-se-ia que, por um surpreendente (ou talvez não!) ricorsi da história, assistíamos à reconstituição de lógicas antigas de exclusivismo e privilégio.

A diferença é que, ao contrário das imputações transcendentais ou naturalistas de antanho no entendimento e organização das sociedades, agora é a riqueza tout court – a que, em princípio, ou melhor, por princípio, qualquer um pode aceder – o critério que marca a superioridade social e a dominação política. Vivemos sob a oligarquia dos possidentes, aferindo-se pelo montante das respetivas fortunas o grau de sucesso alcançado. Claro que, para os vencedores, se atingiu a ordem perfeita – o “fim da história” de que nos falava Fukuyama –, quedando-se os perdedores com o ónus do fracasso social e da culpa por não atingirem tal propósito. Esquecem-se as conexões existentes entre a riqueza e a pobreza, e de como a riqueza alcançada por uns engendra necessariamente a pobreza de todos os outros (“quantos pobres são necessários para fazer um rico?”, demandava Almeida Garrett na sua obra Viagens na Minha Terra).

Transformou-se o discurso meritocrático em sentença de vida, não se tendo em conta a enorme disparidade dos contextos reais da existência das pessoas. Subsumindo-se a diferença de oportunidades num discurso moralista de falta de iniciativa e de empenho – a “preguiça” e o “desleixo” que sempre se atribuem aos mais pobres – esquecem-se as condições efetivas em que o talento pode medrar. Falamos, por exemplo, da qualidade da subsistência e da instrução recebidas, das zonas de habitação e dos meios frequentados, dos contactos e interações sociais e profissionais a que se tem acesso, tudo fatores potenciadores de aptidões naturais sem os quais dificilmente aquelas se podem manifestar, estiolando imersas em necessidades mais prementes da sobrevivência quotidiana. A ideia meritocrática nascida do “paradigma igualitário” liberal tornou-se, afinal, uma miragem para a esmagadora maioria da população, em muitos casos não por ausência de virtudes ou talentos intrínsecos, mas por falta de oportunidades para os desenvolver. A igualdade não passou (ainda!) por aqui.

Eppur si muove! Como constata com uma simplicidade desarmante o afamado filósofo esloveno Slavoj Zizek, “É assim que o capitalismo funciona, é esta a eficácia da ideologia capitalista: até mesmo quando sabemos como as coisas são continuamos a agir baseando-nos em falsas crenças.” (Viver no Fim dos Tempos, Lisboa, Relógio D’Água, 2011, p. 173).

 

Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 00:07
link do post | comentar | favorito
|

pesquisar
 
Novembro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29
30


posts recentes

RESCALDO

ESTADO DA QUESTÃO

EUROPA

ECONOMIA POLÍTICA

A MENTIRA

ELEIÇÕES

TIROS NO PORTA-AVIÕES

A NOVA ORDEM

INFORMAÇÃO

ERA UMA VEZ

arquivos

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Janeiro 2016

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Abril 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds