Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2006
Civilizações em choque ou a provocação orquestrada!!?

Afirmou Braudel na sua “sintética” Gramática das Civilizações (Lisboa: Teorema, 1989), que as civilizações são espaços, as civilizações são sociedades, as civilizações são económicas e, sobretudo, são mentalidades colectivas. Afirmou então, que após a geografia, a sociologia e a economia, é a psicologia que nos leva a um último confronto, apenas com a diferença de que a psicologia colectiva não é uma ciência tão segura de si, tão rica de resultados como as ciências do Homem e raras vezes se aventurou nos caminhos da história.


Vem a isto a propósito do que para aí anda em discussão (parece-me que é mais alarido!) sobre as caricaturas de Mafamede e a “consequente” reacção dos fundamentalismos, quer religiosos quer políticos, de ambas as partes. Dizem uns, a maioria, escudados no delírio de Samuel Hunitington que é uma questão civilizacional. Também aqui me parece que lhes falta literatura. Como se sabe, O Choque de Civilizações foi escrito originalmente como um artigo para a revista Foreign Affairs. Publicado na edição do verão de 1993, o texto fez tanto sucesso e despertou tanta polémica que levou o seu autor a ampliá-lo num volumoso livro de 367 páginas publicado em 1996 pela Simon & Shuster (a 1ª edição em Língua Portuguesa foi em 1997 - Samuel P. Huntington. O Choque de Civilizações e a recomposição da ordem mundial. Trad. de M. H. C. Côrtes. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 1997, 455 p). O que era hipótese no primeiro - “Choque das Civilizações?” – tornou-se uma certeza no segundo, sem que nenhuma das suas palavras tenha sido revista e modificada. Os seus alvos eram claros: em primeiro lugar, a celebração edificante do “fim da história”, que outro funcionário do Departamento de Estado, Francis Fukuyama, tinha tomado de empréstimo (e deturpado) de Hegel para comemorar a vitória do capitalismo liberal sobre o socialismo “czarista”; em segundo lugar, o desvario megalomaníaco da especulação de Wall Street, diplomatas e políticos de Washington, teóricos da “terceira via” e governantes do ex-Terceiro Mundo emergente, que se iludiram e que nos quiseram iludir com um suposto e “irreversível” processo de “globalização” financeira e cultural do mundo. Falando a linguagem dos “factos”, eis que chega o velho Realpolitiker para pôr ordem na casa.


Nas suas mãos, alguns argumentos liberais clássicos são triturados. Em nome da defesa dum Ocidente que quer como locomotiva universal, Huntington não acredita nem no poder do “doce comércio”, nem na universalidade das instituições democráticas, nem na inexorabilidade do “desencantamento do mundo”, nem na realidade da globalização, cujos níveis, aliás, são estatística e realisticamente inferiores aos da belle époque liberal e capitalista que mediou entre a derrota da Comuna de Paris e a eclosão da Primeira Guerra Mundial. Desde logo, sugere que é necessário relativizar a natureza da modernização e a sua capacidade expansiva. Na verdade, não era apenas Marx e a luta de classes que estavam superados. Era também Weber que estava errado ou, pelo menos, deixava de estar certo. O processo actual não é o da racionalização de todas as esferas da existência nem o do desencantamento do mundo. Em vez de secularização, estamos a assistir, à la revanche de Dieu, à revitalização da religião e ao reforço dos laços tribais e familiares entre os membros da mesma civilização. Parodiando o lema dos “globalizadores”, segundo o qual na época actual é preciso “pensar globalmente, agir localmente”, Huntington “decreta” que a “política local é política de etnia, enquanto política mundial é política de civilização”.


Como sabemos, este antigo teórico da modernização, não lhe passou evidentemente pela sua cabeça negar que ela existia, mas sim observar que ela não estava/está a produzir uma civilização universal nem a ocidentalizar as sociedades não-ocidentais. É claro que o Ocidente está mais forte, mais poderoso e bem armado, mas a sua influência relativa está em declínio, seja pela expansão económica, política e militar das sociedades asiáticas, seja pela explosão demográfica do Islão. Além disso, muitas sociedades não-ocidentais querem modernização, mas rejeitam ocidentalização. Na verdade, o que significa ocidentalização? Digamos assim: um processo mediante o qual, consciente da superioridade de sua cultura, o ingénuo ocidental oferece as suas mercadorias na crença de que, ao vendê-las, vende algo muito maior. Confia em que o tal “doce comércio”, principalmente quando se sustenta em doses cavalares de superioridade bélica, cria redes de interesse mútuo, arredonda os costumes, faz economia da guerra, propaga a verdadeira religião e espalha entre os bárbaros a insuperável liberal-democracia. Nesse processo, todos têm a ganhar, cada um fica no seu lugar e explora a sua “vantagem comparativa” (provavelmente fomos nós as primeiras vítimas encartadas deste artificio – lembram-se do Tratado de Methuen).


Agradável engano, replica o fundamentalista ocidental e cristão, os nativos não desejam e jamais comprarão o pacote inteiro. Escolhem cuidadosamente a mercadoria que lhes interessa e voltam as costas para o contrabando que vem com as bugigangas. Eles querem a técnica ocidental, mas não as suas instituições e muito menos os seus valores. Está bem, alguns deles sofrem da síndrome de identificação com os seus superiores e esforçam-se para se tornar iguais a eles, mas vocês hão de convir que todas as tentativas anteriores de ocidentalizar sociedades não-ocidentais fracassaram, até o próprio Japão. Agora, sejamos realistas, fracassaram não porque estas sociedades fossem incapazes, mas porque as suas culturas e as suas civilizações são outras, diferentes e naturalmente distintas da nossa. Não é, portanto, o “doce comércio” nem a beleza das ideias, mas a afinidade cultural entre povos, entre sociedades no interior da mesma civilização, que os leva a cooperar entre si. Cada civilização, de facto, é uma ilha e nenhuma delas é responsável pela outra que cativa. Com as suas pretensões universalistas, o Ocidente enfrenta civilizações inebriadas pela certeza da sua superioridade cultural e acabrunhadas pela realidade da sua inferioridade material, tecnológica e política.


Nesse compasso, a única convivência possível não pode ser só aquela propiciada pelo equilíbrio pelo terror. Não nos libertamos da estafada Realpolitiker por trás do fundamentalismo civilizacional. Huntington e os seus seguidores, querem que os ocidentais voltem a escutar o seu Deus esquecido e se ponham ao serviço daquele Ocidente profundo. Todavia, tenham cuidado: a sobrevivência da civilização ocidental depende da inteligência de aceitar que as suas instituições - liberalismo, democracia, constitucionalismo, mercado, ciência, etc. - não são valores universais ou susceptíveis de serem universalizados à bomba e a tiro, mas singularidades restritas e exclusivas ao seu modo de vida. Depende, em segundo lugar, de que se procure revitalizar os seus valores mais básicos. É lícito deduzir daí que será preciso combater o materialismo actual, o hedonismo, a destruição dos elementos não-contratuais do contrato, a desregulamentação do mercado, etc., e promover o renascimento da política, não esquecendo que há diferenças civilizacionais e que no fundo ainda existem pessoas. Para sermos justos, cabe acrescentar que, de acordo com as premissas de Huntington, o que vale para uma civilização vale para a outra e a essência de cada uma delas está para além dos seus fundamentalistas.


Para terminar, voltamos a Braudel esse clássico da “longa duração”, onde o tempo próprio das estruturas que corresponde a uma história “quase imóvel” está presente em todas as civilizações e que as torna distintas, mas que simultaneamente lhe dá a sua afirmação e as estigmatiza. Disse Braudel que em todas as épocas, há uma certa representação do mundo e das coisas, uma mentalidade colectiva dominante, que anima, penetra toda a massa da sociedade. Esta mentalidade que dita as atitudes, orienta as opções, enraíza os preconceitos, dirige os movimentos de uma sociedade é eminentemente um factor de civilização. Muito mais do que os acidentes ou as circunstâncias históricas e sociais de uma época, é fruto de heranças longínquas, de crenças, de medos, de inquietações antigas muitas vezes quase inconscientes, o verdadeiro fruto de uma imensa contaminação cujos germes se perderam no passado e são transmitidos através de gerações e gerações. As reacções de uma sociedade aos acontecimentos do momento, às pressões que sobre ela exercem, às decisões que dela exigem obedecem menos à lógica, e até ao interesse egoísta do que a este comando não formulado, não formulável muitas vezes, e que brota do inconsciente colectivo. Quase sempre as civilizações são invadidas, submergidas pelo religioso, pelo sobrenatural, pelo mágico; sempre viveram aí, sempre aí foram buscar as mais poderosas motivações do seu psiquismo próprio. É isso que todos temos que perceber. Este “desencantamento com o mundo”, enquanto metáfora do esclarecimento e da emancipação continua a ser desafiado por preconceitos e superstições, intolerâncias e racismos, irracionalismos e idiossincrasias, interesses e ideologias. Nunca se esqueçam que as civilizações são continuidades.


Mais uma vez a publicitação deste texto só foi possível devido às leituras da PONTE ATLÂNTICA, entre outros, de Milton Lahuerta, Marco Aurélio Nogueira, Marçal Brandão, Fernando de La Cuadra, Alessia Ansaloni, Leandro Konder, Guido Liguori, etc.



publicado por albardeiro às 12:16
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