Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Sábado, 26 de Fevereiro de 2005
A questão do Choque Tecnológico versus analfabetismo digital!

O tema do Choque Tecnológico traz consigo, de modo inevitável, também a controvérsia da democracia electrónica. Hodiernamente, acredita-se que a maior facilidade de receber informações e emitir opiniões levaria o cidadão a participar com mais intensidade na vida da polis. Estaríamos a entrar numa espécie de “ágora virtual”, onde os membros da comunidade, tal como os antigos gregos, apresentariam as suas ideias e aprovariam as propostas que viessem a ser feitas pelos diversos proponentes. A democracia assumiria a forma da democracia directa e os representantes seriam levados a tornar- se “virtuais”, a viver conectados permanentemente com as suas bases, acabando por ser, desta forma, dirigidos por elas. Todos deliberariam sobre tudo a todo o momento.


Independentemente de se questionar a validade da ideia, não é difícil perceber que ela está a camuflar parte da realidade. Não se confessa, por exemplo, que o “cidadão electrónico”, conectado e “navegante”, é alguém que pode espernear, votar e escolher, mas vê reduzidas as hipóteses de ser protagonista na construção da comunidade. É que ele actua num quadro demarcado por uma forma específica de política: a política espectáculo. A democracia requer um tipo específico de sujeito: o cidadão activo, sintonizado com a sua época, em condições de igualdade com os demais e disposto a participar politicamente. Será que as novas tecnologias ajudam a criar este cidadão? De que modo: facilitando o seu acesso a informações ou dando-lhe também mais e melhores condições de se envolver com o inteiro processo da decisão política? Há muita gente a acreditar piamente que a “telepolítica” é democratizante e educativa, graças à sua capacidade de atingir grandes massas de criaturas e facilitar o acesso dos partidos e candidatos (mesmo os mais decrépitos ou medíocres) a um eleitorado sempre mais difícil de ser alcançado. Poucas vezes se analisa criticamente a questão. Não se destacam os aspectos problemáticos, com os quais a política é aviltada e banalizada, onde os seus ritos e rotinas são subvertidos, e de certa forma perde os seus melhores protagonistas e os seus procedimentos mais típicos... e não se pense que é apenas uma questão de adaptação.


No reino da “telepolítica”, a democracia é abalada por aquilo que Paul Virilio chamou de tirania do tempo real, que transforma todos em espectadores e desta forma substitui o esforço de reflexão pela dinâmica passiva dos reflexos. Do mesmo modo, o debate público deixa de se fazer com base em posições substantivas, e assenta em estratégias de marketing, jogos de cena, administração do tempo e da imagem. Não é propriamente um debate, uma vez que não se deseja argumentar nem educar, apenas induzir. Vão-se assim diluindo a relevância e o sentido das instituições e dos espaços públicos. O convite é para que se abandonem ou não se recriem tais espaços. Não se trata, é óbvio, nem de negar o valor do acesso a informações, nem de ignorar a dimensão positiva das novas tecnologias. Mas será que elas, por si só, ao tornar tecnicamente possível o ingresso mais imediato dos cidadãos no circuito proposta/decisão/controlo, poderão ajudar-nos a inventar a democracia de que necessitamos?


Todavia, ATENÇÃO! Actualmente, face a estes desafios em caso algum devemos ignorar a chamada “exclusão digital”. Hoje, a imensa maioria da população está afastada das novas tecnologias e vai sendo prejudicada por elas, que criam barreiras atrás de barreiras. E porquê? Porque vive a vida digital de modo embevecido, alienado e passivo. Há pouca interactividade real. Por contraproducente que possa parecer, caso se concretize, a grande maioria está longe de fruir as vantagens de um choque tecnológico ou ingressar na “ágora virtual”. A conectividade ainda é privilégio de certas camadas da população. Contudo, o trabalho neste domínio tem que rapidamente começar a ser feito – é uma questão de presente e de futuro. Se quisermos mesmo aproveitar os benefícios das novas tecnologias, teremos de desencadear uma maciça campanha educacional, para que se dissemine o uso do computador e se crie uma cultura electrónica crítica e consistente. Contudo, não se pense que despejando as máquinas na escola ou na sala de aula que o problema fica resolvido. Puro engano! Com formação, critério e estratégia, acima de tudo, será indispensável conectar o sistema escolar, desde a base, e antes de tudo a escola pública, lugar democrático por excelência, onde se educam as grandes maiorias. Como enunciam as minhas leituras do desassombramento - não poderá haver “cidadão electrónico” enquanto houver analfabetismo digital. E a alfabetização digital não passará de uma nova forma de opressão e alienação se não for acompanhada de educação política. Ou seja, a mesma velha e boa história de sempre.


“Qualquer coisa de não formado, de tosco, de não acabado pertence ainda à cultura portuguesa de hoje. Qualquer coisa que, no entanto, perdeu a força diante da extraordinária produção cultural popular, que foi absorvendo o fundo bárbaro sem nunca o esgotar, sem nunca o transferir para formas civilizacionais. (...) Entorpecimento, gozo, violência do grosseiro. E, por cima, à superfície, a proliferação progressiva de formas de cultura (nomeadamente popular), com que se procura preencher a ausência (e proteger-se contra o vazio). Nos interiores das casas, as pequenas coisas cobrem paredes, mesas, janelas, o mais pequeno espaço numa prateleira de um vão de escada, e os pensamentos saltitam estabelecendo relações extrínsecas ou insignificantes, ocupando constantemente a consciência, quando não atafulha o entorpecimento. No interior como no exterior reina o pânico do vazio.” José Gil, “O vazio e o pleno”, in Portugal, hoje. O medo de existir, Lisboa: Relógio d’Água, 2004, p. 108


... com a ajuda das leituras da ponte Atlântica, entre outros, de Milton Lahuerta, Marco Aurélio Nogueira, Fernando de La Cuadra, Alessia Ansaloni, Leandro Konder, Guido Liguori, etc.



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Sábado, 19 de Fevereiro de 2005
Embrulhar a questão...!

No momento presente faz todo o sentido a firmação de Aurélio Nogueira, ou seja, “como forma de olhar a política, as pesquisas eleitorais dizem muito, mas falam pouco”. Os números que “alardeiam” o PS na dianteira, com mais de 15 pontos à frente do segundo partido, onde se emolam Santana & Cª, mostram à evidência que o principal responsável do PS até não é preciso “tirar” trunfos preciosos: a sua longa exposição aos média, o seu temperamento político e, sobretudo, a oportunidade de capturar o difuso espírito oposicionista que parece ter tomado conta da população, pelo menos neste momento. A questão é como administrará este património daqui para a frente? Os números são tão expressivos que acabam por estimular diferentes fantasias e visões conspiratórias. Há alguns analistas que neles se respaldam para prever a abertura, pelo sistema, de uma inescrupulosa caixa de maldades contra o “próximo primeiro-ministro deste país contaminado”: quanto mais crescerem os números, dizem, ao mesmo tempo que aumenta a sua responsabilidade, maior será o seu trambolhão. Outros analistas apressam-se em recordar que, nas últimas três eleições, as previsões das sondagens se desfizeram por completo à medida que as urnas se foram abrindo. Em função disto, dizem, é melhor não haver muita excitação antes da hora.


A política é móvel e dinâmica, além de pouco previsível. Apesar de sabermos disto, vivemos enfeitiçados pelas ilusões das estatísticas e tendemos a confundi-las com os nossos desejos e receios. Passamos a atribuir aos números o poder quase mágico de anunciar o futuro, e vamos permitindo que eles fiquem poderosos demais. Esquecemos que bastaria um facto forte para apagar as estrelas ou pôr no céu quem estava no inferno. Sondagens eleitorais são sempre bem-vindas. Elas fornecem-nos um importante recurso de análise. Como sabemos (existe muita “escrita” sobre o assunto), no actual panorama político/eleitoral português, se algum problema existe, ele não vem das pesquisas, mas dos políticos e do sistema com que se disputam as eleições. Os políticos mais uma vez recuaram e entregaram a direcção do espectáculo aos especialistas em marketing, o que chegou aos eleitores? Produtos-padrão, vendidos como um outro qualquer. As estratégias foram dedicadas primordialmente a burilar imagens, efeitos e “conceitos”, no fundo, embalagens. Os conteúdos importaram menos. Os números iam complementando isto e passaram a ser cortejados sofregamente.


Perante esta realidade, uma campanha eleitoral não passa de uma encenação “Bufa”. Uma falha de comunicação, uma frase aparvalhada, uma foto inoportuna, um escorregão inesperado, um inocente aperto de mão, um detalhe esquecido (ou acrescentado) na biografia, qualquer baboseira é susceptível de deitar tudo ladeira abaixo. No fundo, todos tendem a não se afastar muito de um ponto “óptimo” de campanha, reforçando as estratégias mercadológicas, as frases estudadas, os sorrisos de rotina. Uma boa imagem torna-se fundamental. Um fait-divers bem assestado vale ouro. A escolha correcta do “inimigo” passa a ser decisiva. Ao mesmo tempo, como os espaços de manobra vão ficando apertados, todos procuram, como podem, atamancar os seus discursos, recheando-os com obstinadas acusações aos adversários. É a anticampanha oprimindo a campanha, o ataque aos outros combinando-se com o disfarce de si próprio, as escaramuças pseudo-moralistas e “imagéticas” ganhando mais peso que o debate democrático.


O pior é que isto aconteceu e tomou conta do processo eleitoral. Mais uma vez perdeu-se uma bela oportunidade de injectar qualidade à política nacional e de permitir a plena explicitação das posições dos partidos e respectivos programas eleitorais. Disseram pouco à sociedade. Mais uma vez perderam a oportunidade de protagonizarem um grande debate político. Se o marketing, o pseudo-moralismo, as caixas de maldades, a imagem em si, se superpuseram à luta de opiniões e ao diálogo com a sociedade, nada mais foi do que a vitória da forma sobre o conteúdo. Reafirmou-se um padrão de política, cinzento, e não se construiu nenhuma ponte para projectar o país no futuro.


“Quando o luto não vem inscrever no real a perda de um laço afectivo (de uma força), o morto e a morte virão assombrar os vivos sem descanso.Num outro aspecto ainda, a não-inscrição parece mais grave por não se ter liquidado a si própria, já que a herdámos também do salazarismo. Se, num certo sentido, se disse até há pouco (hoje diz-se menos) que «nada mudou» apesar das liberdades conquistadas, é porque muito se herdou e se mantém das antigas inércias e mentalidades da época da ditadura: desde o medo, que sobrevive com outras formas, à «irresponsabilidade» que predomina ainda nos comportamentos dos portugueses. Com efeito, no tempo de Salazar «nada acontecia» por excelência. Atolada num mal difuso e omnipresente, a existência individual não chegava sequer a vir à tona da vida. E o que era uma vida, nesse tempo? Aquilo que ditava o ideal moral do salazarismo: uma sucessão de actos obscuros, com tanto mais valor quanto se faziam modestos, humildes, despercebidos… Onde inscrevê-los, se não havia espaço público e tempo colectivo visíveis; onde, senão na eternidade muda das almas, segundo a visão católica própria de Salazar?” José Gil, “O país da não-inscrição”, in Portugal, hoje. O medo de existir, Lisboa: Relógio d’Água, 2004, pp. 15-23


O DESASSOMBRAMENTO CONTINUARÁ ... Milton Lahuerta, Marco Aurélio Nogueira, Fernando de La Cuadra, Alessia Ansaloni, Leandro Konder, Guido Liguori, etc.



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Sábado, 12 de Fevereiro de 2005
CARTA ABERTA... a quem interessar!

Os principais dirigentes do BE teimosamente por estratégia não “querem” fazer a descoberta de que existe vida fora do seu território ou dos espaços formais que a ortodoxia costuma atribuir à esquerda. Também teimosamente por estratégia ainda não assumiram que o BE já não tem “idade” para continuar a ser o partido "intra-uterino" que precisa de se afirmar a todo instante como único e verdadeiro representante dos injustiçados, contra a parte intransigente dos detentores do aparelho de Estado. Sem essas teimosias tem que se apresentar mais tranquilo, mais convencido da sua força e mais afinado com as exigências da política (democrática). Mais aberto, por isso mesmo, para abraçar questões que até recentemente eram vistas como alheias ao seu programa e à sua filosofia. Como a das alianças.


Como sabemos, o problema das alianças é crucial na política portuguesa. Quem as concebe atabalhoadamente ou de modo tosco, tanto quanto quem as rejeita in limine ou por princípio, dá-se invariavelmente mal. Pode até crescer - como é o caso do próprio BE, até agora bem sucedido projecto partidário - , mas não consegue (teimosamente) posicionar-se como real alternativa de poder nem acrescentar experiência de governo. Bem sabemos que fazer alianças, na política, diria mais na sociedade portuguesa, é uma imposição e, paradoxalmente, um desafio na vida: das abismais diferenças sociais, da cidadania politicamente deseducada, do sistema político desenhado para “abater” o eleitor (o eleitor ao eleger o eleito nunca mais lhe põe a vista em cima, só pela pantalha!) e pulverizar a representação, dos seguidos ciclos da improficiência, da fragmentação da sociedade civil, do rápido assentamento da política espectáculo. Os senhores do BE têm que abandonar essa soberba e perceber que coligar-se, entre nós, é uma condição natural da política.


Mas existem alianças e alianças. Há aquelas que são feitas apenas para contabilizar votos e arregimentar recursos de campanha. Há as que visam tão somente conseguir calaceirar para chegar ao posto almejado. Invariavelmente, estão despojadas de maior grandeza ou densidade, mas infelizmente conseguem... Para os verdadeiramente democratas e para a esquerda, porém, uma aliança precisa de fazer sentido substantivo, e assim tem que ser, não pode ser mera expressão de uma aritmética eleitoral, como invariavelmente tem acontecido na política portuguesa, veja-se os que estão demissionários. Não pode ser apenas a união circunstancial dos que são contra, mas deve assentar sobre uma proposta positiva de futuro. Tem de demonstrar um eixo programático de larga respiração. Ser uma alternativa para chegar ao poder, mas também um instrumento para governar. Em suma, ser tanto um recurso para ganhar eficácia política quanto um elemento de civilidade e pedagogia política. Justamente por isso, alianças, para a esquerda (já chega de limianos), é algo que tem que ser construído por parceiros dotados de personalidade política e programática bem clara e capazes de se respeitar nas suas especificidades. É uma unidade de coisas diversas que exige a mais completa transparência e que se equilibra numa delicada dialéctica de tolerância e firmeza. Incontestavelmente tem que ser uma operação para gente com sentido de responsabilidade, já convencida da sua identidade e já tratada pelos outros como tal. Uma operação para partidos que já saíram do “útero”, que se põem diante do Estado como um outro todo, ou seja, como um protagonista capaz de afirmar um programa para toda a sociedade, e não apenas para os seus nichos de eleitores. Um protagonista responsável, disposto a algum "sacrifício" em nome de um objectivo maior.


E é precisamente neste ponto que o BE deverá demonstrar que a sua disposição de mudar é mesmo concludente. Não basta apelidar-se de esquerda para estar à esquerda. Ser de esquerda não é ser contra o governo do Santana ou de outro incompetente qualquer, até mesmo porque há muitos sectores de direita que também o são. Ser de esquerda é bem mais do que isso: é atestar e difundir uma opinião sobre o futuro, uma utopia, um desenho de sociedade mais justa, uma proposta de governo diferenciado, uma nova forma de pensar e gerir a economia, uma nova escala de valores e ideais. É ir além da gestão dos interesses do capitalismo. É responder aos desafios interpostos à sociedade pela "grande transformação" que vem adjacente com a globalização económica, a sociedade informacional e a revolução tecnológica. Ser de esquerda, em suma, é definir de modo crítico, realista e criterioso (ou seja, não doutrinário) um "modelo" de socialismo e um caminho para viabilizá-lo. Coisa que o BE, proclamando-se de esquerda, tem ainda medo, receio ou relutância em fazer e que, como sabemos, esteve sempre longe de ter sido feito pelos demais postulantes da "frente de esquerda" que corporizam o BE.


Sem uma melhor circunscrição do que é ser de esquerda hoje, nesta sociedade contaminada, onde algumas forças partidárias, por força dos seus actuais agentes, teimam em prosseguir na maior “rasquice” até hoje nunca vista numa campanha eleitoral, o futuro continuará tão cinzento e imperscrutável quanto antes. Pior: à custa desta mediocridade, deste abaixamento e degradação discursiva, a sociedade continuará sem saber o que as forças de esquerda pretendem fazer com ela amanhã.


“Nisso, como em tantos outros aspectos, o Portugal de hoje prolonga o antigo regime. A não-inscrição não data de agora, é um velho hábito que vem sobretudo da recusa imposta ao indivíduo de se inscrever. Porque inscrever implica acção, afirmação, decisão com as quais o indivíduo conquista autonomia e sentido para a sua existência. Foi o salazarismo que nos ensinou a irresponsabilidade – reduzindo-nos a crianças, crianças grandes, adultos infantilizados. O 25 de Abril abriu um processo complexo de luta intensa contra a não-inscrição, pelo menos num plano restrito, com os governos provisórios a tomarem medidas «definitivas», a criarem «factos (leis, instituições) irreversíveis» antes de caírem, na ânsia desesperada de deixarem obra feita, indestrutível, com a qual contribuiriam para a construção da nova sociedade. Simplesmente, o substrato da não-inscrição continuava vivo, e toda essa actividade frenética e delirante para inscrever a Revolução – escrevendo a História – não fazia mais do que alimentar a impossibilidade de inscrever, essa sim, inscrita no mais profundo (ou à superfície inteira) dos inconscientes dos portugueses.” José Gil, “O país da não-inscrição” in Portugal, hoje. O medo de existir, Lisboa: Relógio d’Água, 2004, pp. 15-23


O DESASSOMBRAMENTO CONTINUARÁ com a ajuda das leituras da ponte Atlântica, entre outros, de Milton Lahuerta, Marco Aurélio Nogueira, Fernando de La Cuadra, Alessia Ansaloni, Leandro Konder, Guido Liguori, etc.



publicado por albardeiro às 18:12
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Terça-feira, 8 de Fevereiro de 2005
AS ALTERNATIVAS

"Il n'y a que les montagnes qui ne se rencontrent pas" ou "Alegrias entrudo, que a manham serà cinza".


 É a vez da escrita do Hugo Fernandez


A apresentação das listas de candidatos a deputados nas eleições legislativas que se avizinham, provocaram um sem número de comentários e acesos debates sobre a “crise do sistema” ou, por outras palavras, a crise da democracia. Compreende-se que assim seja. Que em algumas destas listas se encontram pérolas de pouca-vergonha e do mais puro oportunismo político, ou mesmo autênticas aberrações, ninguém poderá negá-lo. Mas a democracia estará, ela própria, verdadeiramente em causa? Pensamos que não. Felizmente nem todos são iguais e aqueles que vivem para a política e não da política ainda existem e exercem os cargos públicos com lisura e abnegação. Existem também vários partidos e movimentos políticos concorrentes, bem como muitos candidatos à escolha do eleitorado. Há, portanto, alternativas. Por outro lado, parece-nos garantido o funcionamento regular das instituições democráticas – ainda que com as limitações conhecidas e a necessidade evidente de aperfeiçoamentos – e salvaguardados os princípios e garantias essenciais da cidadania e da soberania popular. Dito desta maneira esquemática e simplista, o assunto parece encerrado. Obviamente não o está porque, de facto, a crise existe.


O que parece evidente é que os cidadãos estão afastados da política e alheados da vida social activa. O desinteresse generalizado da população e o pouco crédito, quando não aberta desconfiança, que merecem os partidos e os responsáveis políticos aí estão para o atestar. As expressões tão ouvidas “são todos iguais”, “andam todos ao mesmo”, “só querem é o poder”, “prometem muito, mas não fazem nada”, etc, são sintomas deste afastamento. Esta quebra de relação de confiança entre governantes e governados – que devia ser assegurada, ainda que com as limitações conhecidas, pelo sufrágio livre e universal dos cidadãos – arrisca-se, assim, a transformar-se numa descrença no próprio sistema democrático e nas virtudes da cidadania. As razões desta apatia encontram-se, no entanto, onde talvez menos se esperasse. A despolitização generalizada das populações é o resultado de décadas de induzido afastamento dos cidadãos da política e da sua reconversão à simples condição de consumidores, num mercado globalizado, desregulado e dominado pelo “fim das ideologias” da nova ordem mundial. Com efeito, o domínio avassalador dessa espécie de “teologia do mercado”, que transforma os cidadãos em consumidores passivos e o esvaziamento da vida colectiva num mundo anómico de globalização desenfreada, são o resultado de décadas de opções políticas tomadas com esse objectivo. Basta lembrarmo-nos das teorias do “fim das ideologias”, das repetidas proclamações da caducidade e absurdo da distinção entre esquerda e direita, das políticas economicistas do neo-liberalismo. E aqui, os órgãos de comunicação social têm particular responsabilidade que, não poucas vezes, alijam com mal disfarçada ingenuidade e assinalável cinismo. A futilização dos seus conteúdos, a falsa encenação da realidade, o privilegiar o fait-divers, o episódico e o anedótico, resultam numa acrescida alienação das populações. Também os media servem os interesses instalados e as suas lógicas de domínio.


Verificamos, assim, que ao longo destes anos, a concorrência desenfreada, a obsessão da defesa de interesses individuais, a busca, a todo o custo, do lucro imediato, tiveram como resultado a dissolução das sociedades, a diluição das identidades e de quaisquer preocupações colectivas, ameaçando transformar o nosso mundo no pesadelo hobbesiano da “luta de todos contra todos”, em que o homem se transforma no mais perigoso predador da sua própria espécie. Esta situação foi, não tenhamos dúvidas, o resultado de um processo que, ainda que contraditório e cheio de avanços e recuos – e nestes, para o caso português, há que destacar o nosso 25 de Abril – visou obter uma determinada ordenação social e política favorável à livre iniciativa da especulação e da ganância, que se desenvolveu sem entraves, face à passividade generalizada das populações. Estes factores de ordem global contribuíram para o alheamento dos cidadãos e a sua cumplicidade foi garantida, ao longo dos tempos, precisamente, pelos apóstolos da “crise do sistema”. Mas também é verdade que a demissão dos cidadãos da vida cívica decorre de uma efectiva desresponsabilização destes perante a colectividade onde vivem, mais do que por causa de quaisquer impedimentos ou entraves do dito “sistema”. A vivência da cidadania aprende-se e cultiva-se. O seu âmbito de acção pode ser imenso e as modalidades de que se reveste podem ser muito variadas. Há alternativas. Claro que uma atitude interventora exige esforço e empenhamento pessoal. Mas podendo a cidadania activa manifestar-se de formas tão díspares e corresponder efectivamente aos problemas e anseios mais concretos das populações, é difícil entender uma atitude tão passiva. Quantos de nós alguma vez reclamaram os seus direitos de consumidor por um serviço mal prestado, ou apresentaram uma sugestão ao Presidente da Junta de Freguesia do local de residência no sentido de melhorar a qualidade de vida de todos? Quantos de nós se empenharam na organização de uma actividade colectiva? Quantos de nós ousou sair da sua carapaça e se preocupou em debater com os seus vizinhos ou colegas de trabalho assuntos da actualidade ou problemas que dizem respeito a todos? Quantos de nós toma posição publicamente? Quantos de nós aceitaram eleger ou ser eleitos na escola, na empresa, no clube ou na colectividade? Quantos de nós são sindicalizados? Quantos de nós exercem o seu direito de voto? Quantos de nós dão a cara? É na resposta a estas e outras perguntas que a consciência individual pode começar a ir de encontro às preocupações colectivas.


A proclamada crise da democracia não será então verdadeiramente uma crise da cidadania? Uma coisa vai com a outra, dir-nos-ão. É certo. Mas o enfoque recai habitualmente na avaliação negativa dos representantes e pouco na responsabilidade cívica dos representados. Talvez aqui resida a chave da explicação do aparente paradoxo enunciado. A representação política democrática derivada do sufrágio livre e universal, permite aos cidadãos, ainda que de forma esporádica e não tão informada quanto seria desejável, obter uma resposta aos seus anseios e uma maior satisfação das suas necessidades. Permite, pelo menos, punir quem não merece e premiar aqueles que se acredita virão a desempenhar melhor as funções governativas. Apesar de todos os obstáculos e perversidades colocadas pelas lógicas, por vezes obscuras, dos interesses partidários, no fundo é disto que se trata: exercer de forma responsável e exigente a cidadania, para que ao eleger estejamos também, de certa forma, a ser eleitos. A responsabilidade da escolha é nossa e de mais ninguém. É essa a virtude da democracia. Como escreveu António Barreto recentemente no Público, “o que está em causa são os eleitores, não os eleitos”, já que o aspecto essencial dos sistemas eleitorais “é o poder conferido ao eleitor, não a qualidade do orgão eleito.” Chama-se aqui claramente a atenção para o papel essencial a desempenhar pelos cidadãos na defesa dos seus interesses e, por essa via, do condicionamento e rejeição das actuações menos próprias dos responsáveis políticos.


O reverso da medalha será, inexoravelmente, a degradação da vida política, cujos resultados são, infelizmente conhecidos; já os vimos, ao longo da nossa história, no mito sebastianista dos homens-providenciais, no 28 de Maio em Braga ou na ilusão tecnocrática do cavaquismo. O alheamento e despolitização das populações é sempre aproveitado por alguém. O condicionamento da liberdade dos cidadãos será, nesta eventualidade, seguramente, bem maior. Sendo as eleições um momento privilegiado para os cidadãos julgarem os governantes, o alheamento beneficiará sempre estes últimos e nunca aqueles. Desta forma, em vez de um aumento da exigência e de uma melhoria de qualidade de vida para todos, premiamos os inaptos e incompetentes; em vez de tentarmos resolver os problemas existentes, insistimos em “soluções” demagógicas e populistas; em vez de fazermos ouvir a nossa voz, calamo-nos e, cobardemente, resmungamos e lamentamo-nos a posteriori. Esvaziamos, assim, o verdadeiro significado de opinião pública, quedando-nos num patético papel de figurantes mal-humorados. Abdicamos de decidir (ainda que num sistema representativo, essa decisão seja a de escolher “quem vai decidir por nós”). A indiferença e a passividade, como vimos, pagam-se caro.


Mesmo – ou sobretudo! – em período de campanha eleitoral, vale a pena apreciar e discutir as propostas dos candidatos, avaliar a sua pertinência e coerência, as suas virtudes e fragilidades. Confrontada, assim, com a exigência da cidadania, a política pode tornar-se uma actividade verdadeiramente digna, para o bem de todos. Até porque, como refere a filósofa do direito e da política Simone Goyard-Fabre, “A marca da política está impressa com tanta força nas múltiplas figuras do mundo em que vivemos que o apolitismo se configura impossível.” Tal como em todas as actividades e circunstâncias da vida dos cidadãos, em todos os níveis de decisão em que é preciso escolher alguém, não devemos transigir com a incompetência e o oportunismo. Devemos escolher os mais competentes, os mais capazes para o desempenho das funções. Que a competência se sobreponha a todas as conveniências ou conivências. A crítica deve tomar sempre o lugar da condescendência. Temos assim todos que dar o nosso contributo para que, em cada momento em que sejamos chamados a escolher, escolhamos os melhores ou, quando estivermos em lugar de ser escolhidos, não pactuemos com o compadrio, o oportunismo e a mediocridade. Só esta cultura cívica de exigência pode dar um novo significado à participação política e à eleição dos deputados. Até porque, em todos os momentos, bem como nas próximas eleições, as alternativas existem. Como disse há dias Augusto Santos Silva, “Os medíocres só estão lá porque nós deixamos.” Não é?



publicado por albardeiro às 23:38
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Quinta-feira, 3 de Fevereiro de 2005
DESASSOMBRAMENTO... PARTE inacabada!

A propósito dos vários “choques” já anunciados e pouco enunciados, ocorreu-nos a ideia de propor a quem estiver interessado (os “militontos”, por razões óbvias, não lhes deve interessar!), uma ideia que colhi através da leitura de um livro que considero interessante, cujo autor é Aurélio de Oliveira (Em defesa da política)* e que no momento actual faz todo o sentido, isto é, a urgência de uma Política de Choque onde, inevitavelmente, tenha lugar um inequívoco choque de política - um choque que abane os interesses das ... A ideia, é mais ou menos esta que se segue: Pese embora toda a expectativa que cerca as eleições, os acontecimentos e as turbulências das últimas semanas deixaram claro que a política está na berlinda: “contemplada” com desconfiança e temor, como se trouxesse consigo mil e um factores de instabilidade, irracionalismo e, claro, “risco” – situação inigualável até agora na democracia portuguesa.


Há uma grande falta de confiança na política em si, mas a desconfiança é ainda maior nos políticos. A estes, indiscriminadamente, são dirigidas as críticas mais duras, as frustrações mais profundas, a indignação moral mais plangente. Não dando sinais de arrepiar caminho, embora nos custa dizer isto, não há que esperar muita coisa deles, agarrados que estão aos seus interesses mesquinhos, típicos da “classe política”, tendentes, portanto, a afastar-se das pessoas “comuns” ou a aproximar-se delas apenas com a intenção de capturar votos. O quadro não é mesmo nada animador. Impropérios, acusações mesquinhas, vitimização sues, denúncias em cascata, discursos pobres e repetitivos, escolhas discutíveis, marketing por todo lado. Há como que uma crise geral de legitimidade, um buraco separando o “social” do “político”.


O que é que se passa? O campo da política está hoje contaminado por três blocos de problemas. Primeiro: com a globalização da comunicação, a velocidade, a quantidade e a variedade das informações, o surgimento de uma cultura mais individualista, voluntarista e niilista, a democracia representativa desgastou-se e ficou mais tensa a relação das pessoas com a política. Segundo: as alterações estruturais na organização económica e social, particularmente no que diz respeito à conformação dos grupos e classes sociais, esvaziaram a política dos grandes sujeitos. Terceiro: o mercado e a economia transbordaram os limites do razoável, e colonizaram o todo. Junto com o extraordinário protagonismo dos média, condicionaram a política, fazendo com que o “ver” ficasse mais importante que o “pensar” e padronizando o debate democrático. Diante desta política orientada por critérios de mercado, o cidadão sente-se um estranho, um consumidor qualquer, ou mesmo um pacóvio, tratado como criança.


Nos últimos tempos, face aos actuais protagonistas da política, evoluímos sem muito esforço para predizer a política e maldizer a actividade política. Junte-se a isto a afirmação de um padrão incompetente de governo, concentrado na pseudo-estabilidade do défice, na redução do “peso” do Estado (quando o problema não é de despesa mas de investimento e de gestão de recursos), foi-se difundindo a ideia de que a política “atrapalha”, que a oposição e a crítica, que se querem actuantes, são armas destrutivas, e assim por diante. Embora não o pareça, presenciamos, entre nós, muita apatia e indiferença (veja-se o que aconteceu no PSD – como foi possível a massa cinzenta de qualidade neste partido, deixar que esta gente chegasse onde chegou?), misturada com uma frenética movimentação e muita crítica sem direcção. O estado de espírito geral é falsamente moralista e defensivo. Há pouco debate político e excessiva discussão rasca.


Com isto, os (pretensos) políticos acabam por ser arregimentados pelo lado mais perverso da política, o do favor, da fraude, da dissimulação. Não conseguem actualizar-se nem confirmar-se como verdadeiros representantes dos cidadãos (alguém já disse “A classe política é hoje menos qualificada que muitas das elites e por vezes não percebe a dimensão dos problemas e a forma de os resolver”). Perdem consideração junto dos cidadãos e são incapazes de fazer alguma coisa para melhorar o seu desmpenho. É como um círculo vicioso: desta forma, o desprezo pela política é uma reacção contra a crise da política e um factor a mais de reprodução desta crise.


No fundo, os políticos precisam de um “choque” de política: precisam de mais política, não de menos. Eles e a política como um todo, aliás. Ganharemos muito se toda a sociedade - importa dizer, os cidadãos, os grupos, as classes sociais, as instituições - vier a ser dramatizada pela política. Pela grande política, entendamo-nos. A grande política é uma aposta na vida colectiva, na instituição de um poder democrático que viabilize o melhor governo e distribua justiça. Como afirma Aurélio de Oliveira, «É “política com muita política”: política dos cidadãos. Por expressar uma construção delicada, a grande política está sempre desafiada, ou pela política que se volta para o poder, a autoridade, a coerção, ou pela política que usa e abusa da técnica, dos saberes especializados: a “política com pouca política” (a de tantos políticos profissionais) e a “política sem política” (a dos técnicos)».


O ideal seria que estas três formas de política convergissem e se completassem reciprocamente, sob o comando da “política dos cidadãos”. Como isto de facto não ocorre, a política dos políticos e também a dos técnicos ficam desligadas e desconcertadas do núcleo fundamental da vida colectiva, voltando-se contra os cidadãos. É o que acontece hoje. O quadro, portanto, é de crise e desarranjo. Mas não de “fim” da política. Face à confusão social, ao enfraquecimento da política e do Estado, emergem formas novas de envolvimento com as questões públicas, de participação, de resistência. São formas novas de política, que podem ser fundamentais para a recuperação da ideia mesma de política e para o reencontro das tradições despedaçadas ou momentaneamente neutralizadas.


Por muito tempo achei que a ausência é falta. / E lastimava, ignorante, a falta. / Hoje não a lastimo. / Não há falta na ausência. / A ausência é um estar em mim. / E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, / que rio e danço e invento exclamações alegres, / porque a ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim. (Carlos Drumond de Andrade, Ausência)


(*) Aurélio Nogueira é professor de Política na Unesp/Araraquara e autor, entre outros livros, de As possibilidades da política: ideias para a reforma democrática do Estado (Paz e Terra, 1998) , Em defesa da política (Senac São Paulo, 2001) e Um Estado para a sociedade civil. Temas éticos e políticos da gestão democrática (Ed. Cortez, São Paulo, 2004).



publicado por albardeiro às 18:42
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