Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Segunda-feira, 27 de Dezembro de 2004
“NÃO FUI SÓ EU!”

O Padre António Vieira quando, em 1652, foi mais uma vez "desterrado" para o Brasil (São Luís do Maranhão), pensando ir encontrar um local que lhe desse algum sossego, face às constantes intrigas, ócio e mentira da corte de Lisboa, puro engano, Vieira desembarcou num caldeirão; encontrou o prolongamento do Reino da Mentira. Outros tempos, em que Lisboa era a capital de um império e podia exportar as suas mentiras para outros cantos do mundo. Hoje, isso já não existe. As mentiras dos “nossos” governantes já não têm para onde ir, quando muito podem alimentar ainda mais outras inverdades. Aqui nascem e aqui ficam. Como dizia Vieira “a mentira dança de roda”. O que sabemos é que o Reino da Mentira continua – uma governação sempre contaminada – triste destino este. É também disso que trata o texto do Hugo Fernandez:


É certo e sabido. Onde quer que um português pise o risco, logo dois ou três seguem o seu exemplo. Assim se passa no trânsito, assim se passa nas escolas, assim se passa nas empresas, nos serviços, nas mais simples acções do quotidiano. Onde quer que alguém queira infringir as regras, fugir às responsabilidades e, ainda por cima, parecer mais esperto do que os outros, aí aparece esta autêntica senha da impunidade: “não fui só eu!”. Como se a constatação numérica atenuasse a falta. Como se o acto de prevaricar tivesse cotação numa qualquer Bolsa imaginária da delinquência e a maior adesão a determinadas práticas ilícitas fosse directamente proporcional a lucros seguros em forma de amnistia generalizada. Esta malandragem larvar estende-se desde a mais tenra idade até à mais provecta velhice. É um grave defeito nacional.


Mas quando comportamentos semelhantes se verificam naqueles que, pelas suas responsabilidades na governação do país, deviam estar acima de qualquer suspeita, a situação torna-se verdadeiramente escandalosa. Quando o chico-espertismo passa a ser bandeira do Estado, então pouco há a esperar dos nossos governantes. O mote deste Governo, desde os tempos do fugitivo Durão Barroso, foi o da intransigência na contenção orçamental e na defesa à outrance do que determinava o Pacto de Estabilidade e Crescimento. Chamaram-lhe “estúpido”... ao Pacto. Manuela Ferreira Leite não conseguiu mais do que mascarar as contas do Estado, injectando no Orçamento as famosas “receitas extraordinárias”. Vendeu os anéis. Manteve a aparência. Mas não conseguiu o que realmente estava em causa: uma política efectiva de contenção orçamental, que conseguisse equilibrar as despesas e as receitas. Como sempre alguns denunciaram e agora toda a gente pode facilmente constatar, tudo não passou de um conjunto de mentiras e artifícios contabilísticos que, não só falharam a famigerada meta dos 3% do PIB, como lançaram Portugal num longo período de recessão. Se o país estava de tanga, perdeu entretanto qualquer vestígio de roupa para lhe cobrir as partes pudibundas.


Eis senão quando, no passado dia 21 de Dezembro, Santana Lopes, primeiro-ministro (diz-se!) e Bagão Félix, ministro das Finanças, dão uma conferência de imprensa para comunicar, com ar pesaroso, que o Eurostat tinha chumbado a operação expedita de venda e arrendamento – ou de sale and leaseback, que em inglês a negociata parece menos escandalosa – de imóveis do Estado. Esperavam que, perante as evidências, num acto de humildade intelectual e de contrição sincera, os ditos governantes viessem reconhecer a ineficácia das estratégias de contenção orçamental seguidas e a falácia das soluções apresentadas? Nada disso. Bagão Félix, para justificar a sua insustentável solução, estendeu um jornal que relatava casos semelhantes (diga-se de passagem – e isto é outra expressão muito em moda – nunca vi nada assim: uma comunicação oficial de um ministro, ostentando recortes de imprensa em defesa da sua actuação!). De facto, o artigo do Finantial Times revelava operações semelhantes por parte da Alemanha e da França para conter os respectivos défices.


Ora o que é que esta encenação revela? Em vez de apostar na contenção das despesas do Estado através da eliminação das mordomias e da gestão ruinosa de dirigentes incompetentes e sobretudo interessados na defesa de interesses próprios ou de correligionários e no aumento das receitas através do investimento produtivo e de um combate decisivo à fraude fiscal, reconhecendo que o recurso sistemático a receitas extraordinárias para reduzir o défice das contas públicas, para além de um flagrante embuste, configura um claro expediente chico-espertista de disfarce da verdadeira situação económica do país, Bagão apostou no regresso em força do “não fui só eu”. Não se procura emendar o que está mal. Ensaia-se, isso sim, uma fuga em frente, desculpando-se o erro próprio com o erro idêntico de outros. Não reparou certamente Bagão que o título do artigo que usou na sua atabalhoada intervenção era “Conjuring tricks and sleights of hand”, o que, em tradução livre, significa “Lançar mão de truques e malabarismos”. O referido artigo é, aliás, ilustrado por uma cartola de mágico, cartas de jogar e um coelho branco, daqueles usados nos números de prestidigitação. Como disse Miguel Sousa Tavares “Um falhado David Copperfield no fracassado papel de ministro das Finanças.” (Público 24/12/2004). Mais palavras para quê?



publicado por albardeiro às 12:46
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Quarta-feira, 22 de Dezembro de 2004
DESASSOMBRAMENTO... PARTE IV!

É imperativo fazer política, é essencial mais política...


Suprema ironia! Vivemos simultaneamente há anos enovelados e pautados pelas reformas. As ditas, por assim dizer, primam pela ausência e não saem de cena. Mas, a respeito do alento, da movimentação intensa em nome delas, das declarações e dos compromissos oficiais, a agenda reformadora continua congestionada. Não se registam avanços substantivos. O Estado é hoje bem diverso do que foi até aos anos 80, sobretudo graças aos ininterruptos programas de tudo privatizar (não importa a que preço e com que custos) postos em prática pelos últimos governos. Apesar disso, não temos hoje no país um Estado melhor, mais estruturado ou mais competente. Somos convidados o tempo todo, pelo discurso dominante, a ver o Estado como algo «externo» à sociedade, um simples agente de controlo, protecção e regulação do mercado. A sério, falta política no nosso debate sobre o Estado, que não é tratado nem como instrumento de dominação, a expressar uma dada correlação de forças, nem como um desdobramento vivo da sociedade, espaço no qual se condensam interesses e relações sociais, nem, muito menos, como elemento de realização de determinadas aspirações e apostas comunitárias. Chega de panaceia demagógica. Entre nós, o Estado tem sido tratado como um agente entre outros, quase sempre como um instrumento «negativo», cujas proporções «exageradas» e cuja ineficácia crónica pesariam como um castigo sobre a sociedade, os indivíduos, o livre mercado. Banalizado, abjecto e invariavelmente maltratado, o Estado não consegue ver as suas necessárias reformas avançarem.


Este empobrecimento do debate do Estado -- esta redução economicista do Estado -- não surgiu do acaso nem é simples artifício posto em prática pelos que se assenhorearam da cena política actual. É também isso, mas é sobretudo um produto histórico, de incompetência, se quisermos ir longe, pela forma mesma como somos capazes de desbaratar “rios” de dinheiro que aqui chegaram sob a forma de ajudas comunitárias e que hoje pouco resta (minto, existem estádios e rotundas) - e a culpa é do Estado. Para os artificiosos, não interessa ver o Estado pelo seu lado «nobre»; é preciso pintá-lo como um entrave ou tentar moldá-lo como instrumento passivo e apequenado de determinados interesses. No meio de hiatos esta amálgama doutrinária de menos Estado, sem as necessárias reformas administrativas, foi-se recriando entre nós, emaranhando ainda mais as já confusas relações entre o público e o privado, com a visível mercantilização geral da vida, da cultura e da política.


A visão reducionista que cerca o debate sobre o Estado trava e inviabiliza a sua reforma, na mesma medida em que tende a apresentá-la como uma questão de custos e dimensões. Nessa operação, o serviço público é entendido como um acessório da política económica e o Estado como um obstáculo para o progresso, quer dizer, para a modernização típica deste início-de-século, que, como sabemos, não compartilha qualquer ideia generosa (mais «clássica», digamos assim) a respeito do que seja progresso, quase sempre reduzindo-o também a avanço tecnológico, a oferta abundante de bens descartáveis ou a meras sofisticações organizacionais – atenção, e isto é válido para as alternativas político/partidárias que neste momento estão no “terreno” (vd. o chavão do “choque tecnológico”). Como consequência, generaliza-se a opinião de que, quanto menor for o Estado e quanto menos investido de poderes e atribuições ele estiver, melhor para a sociedade. O Estado converte-se, assim, numa espécie de refém do mercado e do cálculo financeiro; algo, em suma, vazio de densidade e nobreza, desligado da sociedade que o gera e o determina.


Com isso, não se debatem os aspectos mais substantivos, concernentes ao sentido e à natureza da comunidade política estruturada que é o país. Não nos podemos surpreender, portanto, que os temas propriamente políticos do que deve ser uma reforma não consigam impor-se à discussão. Por um lado, ficam à margem, represados, reaparecendo, de tempos em tempos, de modo simplificado e casuístico, se para o caso der jeito. Por outro lado, quer dizer, de um modo não casuístico, mantém-se activo um discurso reformador eminentemente «passadista e estatizante», dedicado a desenhar soluções institucionais engenhosas, quase todas aprisionadas àquela frieza formal típica do raciocínio por «modelos e etapas» -- um discurso que, hoje querendo politizar, em nada ajuda a politizar a discussão e que mais confunde que esclarece. De uma forma ou de outra, permanecemos longe da política: presenciamos um debate despolitizado.


Já para não falar das proposições referentes à chamada «reforma administrativa» (sempre presente e sempre adiada) que invariavelmente cedem ao discurso «contábil», penalizando recursos humanos e institucionais, entregando-se à lógica «pseudo-empresarial do vale-tudo» do sector privado, numa clara demonstração de que, também aqui, estamos fortemente amarrados à prevalência do interesses (e não do mercado, que é outra coisa) sobre o Estado: o economicismo que contamina a cultura da época traduz-se, na área da administração pública, numa valorização desfasada e muitas vezes apressada das técnicas e das «tecnologias» e dos procedimentos pensados pelo mundo empresarial, vistos como expressão pura do que há de mais moderno e bem acabado e, por isso, passíveis de serem transferidos para as organizações do sector público, ignorando as necessárias reformas que devem ser realizadas, nesse mesmo sector, para não criar mais gastos desnecessários e desbaratar recursos.


Meus caros, não se iludam... batemos no fundo! É urgente que desencadeamos uma “batalha” pelo Estado. Uma peleja que tenha a ver não tanto com o «custo» do Estado, mas com as ideias e os projectos a respeito do modo como desejamos viver. Não se trata portanto do Estado, mas essencialmente da sociedade: dos interesses que nela prevalecerão, da organização institucional e da cidadania que deverão nela vigorar, do padrão de desenvolvimento, justiça social, distribuição de riqueza e inclusão no qual viveremos. Por isso, qualquer reforma digna desse nome não pode ser pensada em função dos recursos que os governos deixarão de gastar, mas da capacidade que tiverem de conceber uma nova sociedade e de se vincularem aos destinos da população, à defesa dos seus direitos, à promoção do seu bem-estar. Quer dizer que a reforma do Estado deve ser o prolongamento de uma reforma democrática e social, pois o seu objectivo é reformular as relações entre o Estado e a sociedade civil. Só pode frutificar se for possível a “combinação” com uma iniciativa voltada para repor o sentido da política e recuperar os vínculos entre as instituições, os indivíduos e os grupos. A sua meta, afinal, é o revigoramento das possibilidades de que, entre os cidadãos, se estabeleçam relações superiores de reciprocidade que não só garantam direitos adquiridos e reconhecidos como também propiciem novas oportunidades de justiça social, de representação política e de democracia (vejam-se as novas formas de participação cívica e de debate – claro que estou a referir a “blogoesfera”) . Isto tudo, no fundo, nada mais é que o reconhecimento de que o Estado continua a ser, agora em novas circunstâncias e com outra envergadura, o ambiente no qual se celebra o "contrato social".


O tema do Estado e da sua reforma deveria estar no centro das preocupações nacionais. Não pode ser visto como mero item de um programa de governo, mas como algo revestido do mais elevado e autêntico interesse público. No momento presente, face ao clamoroso falhanço dos populismos, as formações políticas democráticas e de esquerda, nesse particular, têm uma importante função a cumprir, pois a elas cabe não só examinar e questionar o actual modelo mas propor uma alternativa, mais generosa e mais contundente. A elas cabe, também, fazer com que o debate chegue às bases da sociedade e atraia/convide os cidadãos .


Face ao ponto a que chegámos, é insensato achar que o tema do Estado e da sua reforma possa ser monopolizado por um qualquer grupelho de indivíduos que se assumam como governo, pelo discurso oficial, por técnicos e cientistas ou por uma forma qualquer de «pensamento único». É igualmente insensato pensar que o debate, sobre a necessária reforma do Estado, possa ser mantido à margem, represado, entregue ao manuseio e ao monitoriamento de quem quer que seja. Mais do que qualquer outro, ele tem que estar (está) no coração da democracia e da sociedade civil, e manter-se-á vivo e «fora do controlo» enquanto existir movimentação anti-sistémica e oposição ao modo de vida que se consolidou nestes primórdios do século.


{Nota: para aqueles que tiveram a paciência de ler este “lençol” (já houve queixumes), tenham um bom período de Natividades; claro que para os outros, também!}


O DESASSOMBRAMENTO CONTINUARÁ com a ajuda das leituras da ponte Atlântica, entre outros, de Milton Lahuerta, Marco Aurélio Nogueira, Fernando de La Cuadra, Alessia Ansaloni, Leandro Konder, Guido Liguori, etc.



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Quinta-feira, 16 de Dezembro de 2004
DESASSOMBRAMENTO... PARTE III!

Já que o espectro da crise não parece destinado a abandonar-nos e a todo momento está de volta ao palco com um furor redobrado (é só ter alguma atenção aos sinais... escritos, sonoros, visuais, etc), contaminando o léxico corrente, vale a pena especular livremente sobre a questão. Na ideia de crise (do grego krinein: separar, romper), estão arreigadas as ideias de transformação súbita, perturbação, dificuldade, podendo-se insinuar também, com certa facilidade, a de morte, de fim, de caos... Na maior parte dos seus inúmeros significados, "crise" associa-se a um turning point, no qual explicitar-se-ia uma situação de particular gravidade e, simultaneamente se revelariam, como diriam os médicos, as chances de recuperação do paciente.


Fala-se (presentemente) em crise política pela incompetência dos nossos governantes. Em crise económica para assinalar uma fase de desemprego ou recessão. Em crise de consciência para demarcar uma inquietação causada por graves problemas éticos. O senso comum das pessoas regista a existência de crises sempre que se manifesta a ruptura de um padrão (pessoal, grupal ou colectivo) tido como "normal". A psicanálise muitas vezes associa crise a surto, a perturbação de um estado de relativo equilíbrio psíquico por força do descontrolo de certas fantasias afectivas. Muitos sociólogos usam a palavra para qualificar situações afectadas pela quebra dos padrões tradicionais de organização social, pelo "dilação do tecido social" que comprometeria a reprodução de uma dada "ordem".


Tão forte é a carga dramática do substantivo que quase nunca se chega a perceber que as crises também têm um quê de positividade e de possibilidade e podem ser um momento de renascimento, no qual se entrelaçam passado, presente e futuro: um ponto inequivocamente "crítico", no qual se faz sentir uma insatisfação em relação ao que está aí, a um presente que nos descontenta e atormenta, então, estabelece-se uma distância em relação ao que já foi e prepara-se uma aposta para o que virá a seguir. Embora não seja sinónimo de «morte», a ideia de crise insinua, quase sempre, que há algo morto na realidade.


Quando se diz, por exemplo, que uma doutrina está em crise, não se quer necessariamente dizer que ela perdeu o sentido, mas sim que algumas das suas teses e elaborações chegaram aos dias de hoje privadas de maior poder de convencimento. Uma crise de governo não anuncia necessariamente o fim do governo, mas sim que algumas das suas condutas e opções já não preenchem os requisitos mínimos para o sustentar. O problema é que nem tudo o que morre é enterrado. Como diria Gramsci, temos uma crise quando o "velho" insepulto já não dirige os vivos e o "novo" ainda não se explicitou, não se qualificando portanto para orientar o presente.


As teorias que explicam o mundo, quando despidas das carapaças dogmáticas que tendem a acompanhá-las, estão sempre em transformação. Deveria ser assim também com os projectos e as convicções das pessoas, dos governantes e das organizações. Tendo em conta, alguns organizações e pseudo-projectos políticos que se posicionam na sociedade portuguesa, diríamos que não se transformar representa, no caso, perecer: perder a capacidade de continuar explicando uma realidade que não cessa de mudar. A chamada «consciência crítica» tem o seu principal atributo justamente nesse ponto. É uma consciência sempre "em crise": desafiada a negar- se a si própria para permanecer em condições de captar a realidade que muda ininterruptamente.


Todavia, disso também se podia concluir que não há por que temer a crise. Ela destrói, mas também cria a possibilidade de construção. Dissolve resistências dogmáticas e receosas ao novo. Abre espaços para experiências inéditas, altera a posição relativa dos interesses e das forças em luta. Em rigor, numa crise, vêm à tona as misérias e as grandezas humanas: agudizam-se desníveis e desigualdades sociais ao mesmo tempo que pode (atenção, pode!) ganhar destaque o talento dos autênticos líderes, daqueles que agem quando todos parecem desanimar e que conseguem extrair do confuso presente o eixo de um futuro melhor – devia ser assim! Se os homens chamados a liderar não o fazem, não são líderes (ou só o são nominalmente), mas protagonistas subalternos, fadados a ser impiedosamente devorados pela crise.


A dimensão «purificadora» de uma crise só pode ser bem aproveitada se, no organismo em questão, existirem iniciativas com capacidade para dirigir processos e ampliar as margens de controlo e regulação do que é «desartificioso» e «natural». Em termos de sociedade, tudo isto só faz sentido, se houver perspectiva política, disposição para intervir e coordenar e instituições preparadas para organizar o futuro.


"A minha terra não é inefável. A vida da minha terra é que é inefável. Inefável é o que não pode ser dito". (Jorge de Sena, trecho de “Paraísos Artificiais”)


Reiteramos a proposta: O DESASSOMBRAMENTO VAI CONTINUAR com a ajuda das leituras da ponte Atlântica, entre outros, de Milton Lahuerta, Marco Aurélio Nogueira, Fernando de La Cuadra, Alessia Ansaloni, Leandro Konder, Guido Liguori, etc.



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Domingo, 12 de Dezembro de 2004
COINCIDÊNCIAS

Tem a palavra o Hugo Fernandez:


Na última edição de Novembro da revista Visão, verificou-se uma curiosa coincidência. Em vésperas do XVII Congresso do Partido Comunista Português e respondendo à pergunta “Como explica que não haja nenhum blogue de referência feito por comunistas?”, o dirigente comunista Ruben de Carvalho teceu as seguintes considerações (que transcrevemos na integra): “Os blogues são um tema que me inquieta. Em primeiro lugar, por me parecer que resultam de uma postura individualista, socialmente estéril e a fomentam. Inquieta-me que a maioria dos blogues portugueses seja de direita. Receio também o tipo de escrita, a sua brevidade, pouco susceptível de elaboração e reflexão.” E sobre o assunto mais não disse.


Umas páginas adiante, encontramos um artigo sobre um dos mais conhecidos blogs do momento, o Barnabé, “um blogue de esquerda e heterodoxo que não é um albergue espanhol”, conforme afirmaram os seus autores no manifesto de apresentação, em Setembro de 2003. Estas opiniões, ainda por cima vindas de pessoas que se reivindicam da esquerda, não podiam ser mais díspares. Pensamos, isso sim, que o dirigente comunista falha claramente a análise da realidade. Vejamos.


A acusação feita por Ruben de Carvalho de que a maioria dos blogs portugueses é de direita, cai por si. Se ele conhece alguma evidência estatística que o demonstre – o que duvidamos – não poderá negar a enorme audiência de blogs de esquerda como o Causa Nossa, Blogue de Esquerda ou o próprio Barnabé que, em determinadas alturas, contabilizou o surpreendente número de um milhão de leitores. Com a modéstia de um score muito menos significativo, também o Albardeiro é um projecto de gente solidamente de esquerda. Muitos outros há.


Por outro lado – e como escreveu no Albardeiro o meu amigo Domingos Caeiro – se é certo que os blogs nasceram como “representações do eu” e, por isso, “podem ser considerados narcísicos”, também é verdade que, representando alguém, os blogs proporcionam encontros e cumplicidades que podem reverter numa activa interacção com os outros. Todos os blogs acima citados são, de resto, feitos por várias pessoas. E esta tendência “comunitária” parece estar a frutificar. Verifica-se mesmo que há autores de blogs individuais que sentem a necessidade de se juntar num colectivo de reflexão; estamos a lembrarmo-nos, a título de exemplo, do Torre de Menagem. Isto para além dos comentários que livremente são feitos aos post de cada um e que possibilitam a partilha e discussão de opiniões. Assim sendo, pensamos que esta comunidade virtual tem pouco a ver com a “postura individualista, socialmente estéril” de que fala o dirigente comunista, assumindo-se cada vez mais como elemento essencial de intervenção e de transformação do real, com consequências evidentes, quer a nível nacional, quer a nível local.


Aliás, a posição de Ruben de Carvalho é tanto mais estranha, quanto o seu próprio partido se queixa – e muitas vezes, com razão – da marginalização a que é votado por parte dos orgãos tradicionais de comunicação social. Ora, uma das conquistas da blogosfera, é, precisamente, o de dar uma possibilidade alargada de expressão de ideias e opiniões. A sua matriz constituinte resulta da circunstância de ser um espaço de comunicação livre e aberto. Esta sociabilidade pode constituir uma alternativa eficaz à opinião publicada nos media, tantas vezes limitada ou constrangida por interesses, pressões ou “distracções”. A autonomia e independência que o ciberespaço permite, pode contribuir para um aprofundamento da intervenção dos cidadãos e uma melhoria da qualidade da democracia, contrariando a função de “filtro” – ou “gatekeepers”, na conhecida terminologia das teorias sistémicas – que os meios de comunicação tradicionais têm em relação ao sistema político, assegurando a selecção dos conteúdos ou matérias que podem ou não podem ser tomadas em consideração pelos responsáveis políticos. Pelo contrário, a blogosfera permite o alargamento exponencial daquilo que Pierre Bourdieu define como “competência social” para ter opinião política, retirando-a do domínio exclusivista da tecnicidade burocrático-profissional. E se, em muitos casos, essa dimensão interventiva dos blogs ainda não se verifica, como diz o ditado “o caminho faz-se caminhando”.


Quanto aos receios manifestados por Ruben de Carvalho em relação ao “tipo de escrita, a sua brevidade, pouco susceptível de elaboração e reflexão”, está longe de corresponder à realidade. Basta ler os textos dos blogs que citamos, para o comprovar. No que concerne à qualidade das “reflexões” do Albardeiro, só aos outros caberá fazer o respectivo julgamento. A liberdade de expressão constitui o maior trunfo da blogosfera. Ruben de Carvalho diz que há coisas que o “inquietam”. Para quem se reclama de esquerda, esta não pode, certamente, ser uma delas.



publicado por albardeiro às 20:45
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Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2004
DESASSOMBRAMENTO... PARTE II!

Dadas as características da conjuntura actual., em que o espectro da «crise» se agita sem cessar, admitir-se-à ser útil recordar algumas observações que o filósofo e político italiano António Gramsci fez há 70 anos nas suas reflexões sobre Maquiavel. Analisando as situações nas quais a classe dirigente fracassa num determinado empreendimento político, «em nome do qual pediu ou impôs pela propaganda o consenso das grandes massas», Gramsci comentou: nesses casos, fala-se em «crise de autoridade», mas o que se verifica é uma «crise de hegemonia, ou crise do Estado no seu conjunto».


Será, então, possível dizer que a nossa crise deriva do facto de que a classe dirigente fracassou no seu principal empreendimento político e por isso perdeu o consenso e o consentimento dos “cidadãos”? Com o devido cuidado e sem querermos forçar o raciocínio, achamos que sim. Talvez se possa mesmo afirmar que, em rigor, no plano histórico mais geral, nenhum grupo dirigente (geracional/partidário/) conseguiu exercer uma efectiva “hegemonia” (no plano dos valores da democracia/ética/política) entre nós, desde que entendamos por hegemonia a capacidade de obter apoio activo e imprimir uma direcção moral e intelectual à sociedade. Isso, porém, levar-nos-ia longe demais. Mas há algo que não precisa de  muita investigação, salta à vista: é que a nossa actual classe dirigente -- que congrega na sua base uma diversidade de grupos e interesses -- nunca chegou a apresentar um desenho/estratégia/projecto ao (de) país e uma moral que a credenciassem à hegemonia, no sentido atrás definido. O seu simulacro de projecto sempre foi o do economicismo, secundado por uma vaga ideia de modernização entendida como «abertura para o mundo» (que mundo? Terceiro! Primeiro! Dos antípodas!) e por uma categórica opção pelo «mercado» sem ter nada para oferecer a esse mercado. Nunca apresentou à Nação (ao povo) que País estava disposta a construir, nunca a conclamou a aderir a algo mais substantivo (só se for o pontapé na bola!). Nomeadamente, agora, quando o falhanço foi/é total e hegemónico, quando os próprios sectores económicos (todos!) bradam contra o governo e este se entregou a uma mera radicalização da sua ideia matriz (lembram-se – estabilidade e controlo do défice), como se pode dizer que temos apenas uma «crise de autoridade» ou de governabilidade? Estamos é diante de uma profunda ausência de hegemonia.


Todavia, porém, não quer dizer que o fracasso deste governo seja absoluto ou que, pasme-se, já amadureceu uma nova capacidade hegemónica, quer dizer, uma nova disposição de forças que traga consigo um outro empreendimento político - um outro projecto - e possa em nome dele postular a condução do nosso país. Se a crise é de hegemonia, diria Gramsci, preparem-se - podemos esperar que dela resultem muitas «situações delicadas e perigosas», pois os diversos grupos partidários/políticos (sobretudo os que neste momento são poder) não têm «a mesma capacidade de se orientar e de se reorganizar rapidamente». Existe um risco claro de fugas para a frente! Paira no ar, muita ansiedade e afã de poder e de notoriedade. Nem sempre se produzem autênticas soluções orgânicas, impostas pela fusão dos oposicionistas e dos que estão fora do poder. Pode parecer descabido e absurdo, todavia, podem surgir, por exemplo, soluções de outro tipo, fundadas na força ou na actividade de homens providenciais ou de cariz messiânico (não é inédito, a nossa história tem vários registos!).


Donde ser possível antedizer que a crise dos nossos dias não está necessariamente fadada a convergir para desfechos que beneficiem os grupos sociais desfavorecidos e os sectores que neste momento são oposição. Não que estejamos sendo impelidos para retrocessos autoritários ou para a revivescência de taras personalistas. Mas, como em toda a crise orgânica em países desmemoriados, de população com elevada iliteracia, diferenciada e sempre à procura do vendedor de sonhos, com um sistema político fragilizado e atolado em vastos e difíceis problemas, o facto é que a oposição nem sempre se mexe com rapidez e o governo ainda tem “boas” chances de se recompor, fazer alguns «sacrifícios» e retomar o controlo da situação. Tanto mais se conseguir contar com conjunturas internacionais favoráveis – não sei bem como, mas... desconfiem! Com franqueza, se agora ressurgir em cena (como alguém já disse) a “tralha” que já nos atolou, sejamos claros: o que não parece destinado a desaparecer é o nervo do problema - justamente a crise de hegemonia, a crise do Estado no seu conjunto. E contra essa crise de pouco adiantam as soluções cosméticas que têm sido aventadas nos últimos tempos. Para dar um rumo sério e credível ao País (e não a este ou àquele governo em particular), carecemos mesmo é de uma efectiva reinvenção da política, com a qual seja possível reformar democraticamente o Estado.


O DESASSOMBRAMENTO VAI CONTINUAR com a ajuda das leituras da ponte Atlântica de Milton Lahuerta, Marco Aurélio Nogueira, Fernando de La Cuadra, Alessia Ansaloni, Leandro Konder, Guido Liguori, etc.



publicado por albardeiro às 01:22
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Quinta-feira, 2 de Dezembro de 2004
DESASSOMBRAMENTO !

Mais do que nos dar informações sobre alguém e as suas circunstâncias, as obras biográficas têm a função de lançar desafios práticos, suscitar aspirações, desencadear desejos de incorporações dos leitores às causas do personagem biografado. Biografias, em última instância, descrevem modelos, cuja essência é provocar alguma forma de ascese naqueles que transitam pelo chão comum da história.


António Gramsci: vida e obra de um revolucionário coloca-nos frente a frente com um jovem (sardo) desprovido de saúde e de condições materiais de sobrevivência, mas que, influenciado pela mãe, culta para o seu contexto, desejava ser professor de língua e literatura. Quase que atropelado pela história, durante a sua intranquila vida universitária, ocupou-se das questões da cultura operária e popular, sendo, enfim, levado ao “engajamento” político revolucionário, por conta das lutas sociais dos tempos da sua juventude. A profundidade do seu pensamento, entrelaçada com o optimismo da sua vontade férrea, manteve incorruptível a sua posição ideológica e a sua prática revolucionária, mesmo que para isso tivesse de suportar a violência sobre a sua liberdade, saúde e estrutura familiar. A coerência é a marca das grandes personalidades, pelo menos daquelas que merecem sucessivas descrições biográficas. É o caso.


(Re)ler Gramsci, no momento que nos trespassa, é um exercício intelectual de rara relevância. Afinal, trata-se de um dos mais importantes pensadores clássicos da política que o último século conheceu.


(Re)ler Gramsci pode ser, também, uma tentativa de captar e elevar ao palco dos conceitos os complicados processos de transformação que atingem as sociedades contemporâneas, (Portugal tem dado bastante para este balanço). Ou seja, uma tentativa de surpreender a crítica teórica e prática das sociedades exactamente ali onde ela nasce, se reconstrói e se projecta para este novo século, apesar de todos os obstáculos.


Depois da queda de todos os muros, descobrir que Gramsci está vivo e recomenda-se (vejam-se os “Blogs orgânicos” do centro-direita). Ficamos ainda mais convencidos de que Portugal é um enorme laboratório político, no qual as categorias gramscianas - e da esquerda em geral - devem voltar a mostrar a sua força analítica e o seu poder de convicção – quando o bem público e os elementares direitos cívicos assim o impõem. Estão lançadas as razões de uma esquerda democrática, cuja implantação social e consistência político-cultural faz todo o sentido, porque a alternativa da barbárie estava cada vez mais palpável.


A ler: António Gramsci: vida e obra de um revolucionário, de Mário Maestri e Luigi Candreva (São Paulo, Expressão Popular, 2001, 224 p.).



publicado por albardeiro às 13:23
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