Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Sexta-feira, 29 de Outubro de 2004
Continuação da conversa...

Como é possível que as palavras ou que a linguagem tenham o poder para tornar o verdadeiro, falso, e fazer do falso, verdadeiro? Como seria uma sociedade na qual a mentira fosse a regra e, portanto, na qual não conseguíssemos nenhuma informação, por menor que fosse, que tivesse alguma veracidade? Como faríamos para sobreviver, se tudo o que nos fosse dito fosse mentira? As perguntas e as respostas seriam inúteis, a desconfiança e a decepção seriam as únicas formas de relação entre as pessoas e a tal sociedade seria a imagem do Inferno.


Todas as pessoas de bem sabem que para a atitude crítica ou filosófica, a verdade nasce da decisão e da deliberação de encontrá-la, da consciência da ignorância, do espanto, da admiração e do desejo de saber. Nessa busca, a vida é herdeira de três grandes concepções da verdade: a do ver-perceber, a do falar-dizer e a do crer-confiar.


Tudo isto para dizer que a conversa entre amigos passou essencialmente por esta busca de procurar entender, conversando sobre as coisas. Deste modo, o texto que segue é do Hugo Fernandez e o seu objectivo é completar mais um dos aspectos da tal conversa...!



REGRESSO AO PASSADO


Oliveira Salazar disse um dia que “Politicamente o que parece é”. E completou o raciocínio, juntando-lhe outra frase cheia de significado: “Politicamente só existe o que se sabe que existe”. Proferiu estas palavras no âmbito do trabalho das comissões da União Nacional de Lisboa, reunidas na sala do Conselho de Estado em 26 de Fevereiro de 1940, na intervenção que então fez subordinada ao tema “Fins e necessidades da propaganda política”. Estávamos em pleno Estado Novo. Numa sociedade democrática como a que temos hoje em Portugal, definir o que existe, o que se pode ou deve saber, dificilmente cabe ao Governo. Dificilmente, aliás, cabe a quem quer que seja. Pelo menos se esse alguém pretender impor os seus pontos de vista a todos os outros. No entanto, o actual Governo é useiro e vezeiro nesse tipo de expediente. De facto, a livre circulação de ideias e a expressão democrática da diferença assusta este executivo, obcecado em restringir a dissidência e em controlar o pensamento e a acção dos possíveis críticos. Por isso vive num mundo de medos, fantasmas e pretensas cabalas.


No reino da fantasia


E nem uma simples sesta, referenciada en passant numa notícia do jornal Expresso, passou despercebida ao crivo censório da paranóia governamental, tendo sido merecedora não só de um diligente desmentido da chefe de gabinete do primeiro-ministro, Ana Costa Almeida, como alvo de acusações de falta de rigor aos jornalistas em questão. Aquilo que é o exemplo acabado de uma não-notícia, ganhou foros de relevância nacional e de disputa política.


Como se pode ler na carta enviada ao director do Expresso, o gabinete do primeiro-ministro mostrou-se mesmo “indignado”. Estaremos certamente perante aquele aforismo que sentencia que “um chefe nunca dorme, apenas descansa”, sempre alerta e preocupado com a governação do país, mesmo se o seu destino imediato era assistir a um certame tão mundano como a ModaLisboa. A carta oficial termina com uma afirmação verdadeiramente espantosa de Ana Costa Almeida: “Por isso me interrogo se, como eu, muitos dos leitores de sempre do Expresso não se questionarão se algo de estranho não se estará a passar com o seu jornal”. Quem sabe, alvitramos, uma perigosa conspiração? Se não fosse dramático, era patético. É sobretudo sintomático do que se está a preparar. Como refere Miguel Sousa Tavares, “O episódio da sesta do primeiro-ministro não é um “fait-divers” ridículo, mas sim um revelador eloquente do estilo de fazer política de Santana Lopes, onde a aparência é tudo e a essência dispensável.” (Público, 22/10/04).


Assim, para Pedro Santana Lopes, a realidade deve-se subordinar sempre à imagem que dela se fizer, num jogo de aparências construído para mostrar um “mundo maravilhoso” que, de facto, não existe. Mediatização e fulanização políticas fabricam o carisma de um líder que tudo promete, sem ter a mínima intenção de cumprir. Recorde-se que o actual Primeiro-ministro nunca – sublinhe-se nunca – cumpriu o que prometeu, nem sequer relativamente aos prazos dos mandatos que desempenhou. A aparência passa a contar mais do que a realidade. As intenções sobrepõem-se às decisões. E numa sociedade desestruturada, onde as pessoas se sentem desenraízadas e descrentes no sistema democrático-representativo que pouco lhes diz – destruído que foi, precisamente, pelas práticas demagógicas e populistas continuadas – o terreno apresenta-se particularmente fértil. Reduzindo-se a política à comunicação e esta em especial à televisão, atingimos o grau zero da cidadania e a sabonetização dos seus intervenientes. Lembremo-nos de uma antiga afirmação de Emídio Rangel – e que, na altura, causou grande controvérsia – de que a televisão pode “vender um Presidente da República como se vende um sabonete”. É nesse tempo que agora vivemos e é um produto dessa lógica mediática que actualmente chefia o Governo português. Um poderosíssimo “shampoo”, portanto.


 No fundo, trata-se da repetição pela enésima vez da bitola de actuação de Santana Lopes: irresponsabilidade e demagogia, aparências em vez de realizações, parecer em vez de ser – ou melhor, de fazer. O que sobra em ambição, falta em competência. Vive da imagem e, por isso, vê a relação com a comunicação social de forma necessariamente instrumental. Não é, aliás, por acaso que o Conselho Nacional do PSD de 3 de Setembro, tenha desde logo aprovado a criação de uma “central de comunicação”, por iniciativa do próprio chefe do Governo. Como salienta Eduardo Cintra Torres, “Este Governo é perigoso. A sua actuação nos “media” é e será de enorme brutalidade.”, explicando que “Santana e o seu grupo não querem mais nada da política. Para eles, vencer é manter-se na crista da opinião pública o máximo tempo possível. A governação é irrelevante.” (Público, 11/10/04).


 O papel da propaganda


Para vender o seu “produto”, o Governo aposta tudo na propaganda. Segue, aliás, alguns princípios básicos do marketing político: qualquer mensagem é condensada ao máximo e reduzida, se possível, a um breve slogan, facilmente captado e rapidamente recordado; a mensagem é repetida até à exaustão; as posições assumidas, ainda quando parcelares e minoritárias, são transmitidas como as únicas existentes e, por isso, tornadas evidentes e incontroversas; simultaneamente, as posições contrárias, ainda que pertinentes e sábias, são simplificadas, distorcidas e caricaturizadas – para que percam qualquer validade argumentativa – ou, pura e simplesmente, ostracizadas e ignoradas; proibição absoluta de qualquer expressão de dúvida ou de perplexidade.


Por isso não interessam as trapalhadas, as situações de descoordenação, as contradições, os desmentidos, a ignorância e improviso governamentais. Desde que se consiga criar a ilusão de normalidade e eficácia, especialmente se tudo vier embrulhado num qualquer formato light de concurso televisivo ou de reality-show, tudo está bem. Isso é o que verdadeiramente interessa a Santana. Embaladas na doce propaganda do poder, as populações estão sujeitas ao mais descabelado fingimento e hipocrisia e à mais rematada alienação porque, nas palavras de Augusto Santos Silva, “a dispensa da razão crítica superficializa as coisas e desproblematiza as situações – tudo parece plano e linear, as equações simples, as soluções prontas, basta seguir e não pensar” (Público, 9/10/04). Só que, mais cedo ou mais tarde, a realidade acabará por impor-se. A “mistura explosiva de incompetência nata e impunidade total” de que fala Constança Cunha e Sá (Sábado, 15/10/04), ou a menos fleumática “absoluta inépcia e devastadora burrice” que refere Baptista-Bastos (Jornal de Negócios, 15/10/04), revelam, afinal, que as preocupações subjacentes à actuação do Governo de Santana Lopes – e que Jorge Sampaio nomeou em nome da estabilidade, recorde-se – residem na exclusiva defesa de interesses particulares de governantes e apaniguados tentando, através da propaganda, fazer crer que existem opções estratégicas e um plano coerente de governação para o país. Basta ver a quantidade de assessores, consultores e adjuntos designados – que na curta vigência do actual Governo, já superou aquilo que qualquer executivo anterior fez no decorrer de legislaturas completas – para nos apercebermos da dimensão do polvo instalado. Basta referir os milhares de elementos de confiança colocados nas chefias do aparelho de Estado e mesmo do funcionalismo público, bem como as pressões que são exercidas ao nível do sector privado e em especial na área dos “media”. Veja-se o caso paradigmático da nomeação do comissário político Luís Delgado para presidente da Lusomundo Média e da Global Notícias, empresas mediáticos que são propriedade da PT – consórcio do Estado que, como se sabe, se encontra fortemente condicionado pelo poder político. As preocupações e o bem-estar das populações pouco lhes interessam. A leviandade das soluções propostas e a arrogância das decisões adoptadas, revelam o mais profundo desprezo por todos aqueles que não alinham no jogo. E, como se sabe, são muitos, mesmo muitos.


É seguindo a mesma lógica de actuação que, num colóquio em Lisboa sobre serviço público de rádio e de televisão, o ministro da Presidência Nuno Morais Sarmento, afirmou que deve ser o Governo a definir o modelo de programação da RTP defendendo, nesse sentido, a existência de “limites à independência” dos operadores públicos de comunicação. E, para que não restassem dúvidas sobre o que pretendia dizer, acrescentou “Não são os jornalistas nem as administrações que vão responder perante o povo” (Público, 20/10/04). A intencional confusão entre Governo e Estado – isto é, a governamentalização do serviço público – nada tem a ver com o Portugal democrático, mas sim com propósitos controladores e limitadores da liberdade de expressão mais próprios dos tempos de Salazar. Não é por acaso que o trabalho da direcção de informação da RTP e de alguns dos seus principais responsáveis, têm estado sob “avaliação” governamental. Não é também por acaso que o próprio Morais Sarmento, que dirige o novo Gabinete de Informação e Comunicação (GIC) do executivo– isto é, a “central de propaganda” do Governo – tutele a televisão e rádio públicas (naquilo que me parece uma clara situação de incompatibilidade das respectivas competências), para além de controlar instituições tão estratégicas para a formação da opinião pública como o Instituto Nacional de Estatística. Recordemos, aliás, que no início da sua actuação ministerial, ainda na vigência do anterior Governo, o mesmo Morais Sarmento silenciou ad hominem o jornalista Carlos Pinto Coelho e o programa “Acontece”, numa clara atitude discricionária e censória. Foi um aviso. Nuno Morais Sarmento e a sua “central” de consultores de marketing político protagonizam a actuação típica daqueles que os americanos designam por “spin-doctors”: fabricar factos favoráveis ao Governo, domesticar a comunicação social ou, no caso de tal não ser possível, recorrer a processos mais obscuros de pressão e silenciamento.


Veja-se, também, a espantosa comunicação do primeiro-ministro ao país em Outubro passado, que obrigou as televisões portuguesas à sua transmissão simultânea e incluída no tempo de antena dos respectivos noticiários – procedimento de duvidosa legalidade e que é, sublinhe-se, uma cópia do que se passava no tempo do Estado Novo – naquilo que justamente o Partido Comunista Português definiu como “requisição civil televisiva”. Sem que nada o justificasse, sem que nenhuma urgência nacional – a não ser a necessidade imperiosa da propaganda – pudesse explicar. No domínio da liberdade de expressão são, aliás, constantes os excessos e atropelos protagonizados pelo actual Governo. Basta lembrarmo-nos de casos como o da utilização de vasos de guerra para silenciar os defensores da interrupção voluntária da gravidez ou do afastamento da opinião pública de vozes incómodas para o poder – o exemplo do professor Marcelo Rebelo de Sousa – na sequência de pressões ministeriais inaceitáveis e com a cumplicidade servil dos homens de mão responsáveis por alguns orgãos de comunicação social. Fechou-se, assim, um círculo. Convenhamos que entre Salazar e Santana há diferenças substanciais, antes de mais de responsabilidade, de dedicação à causa pública e de conhecimento dos assuntos de Estado. Como é evidente, nenhum dos dois é, no entanto, um modelo que interesse ao país.



publicado por albardeiro às 19:46
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Segunda-feira, 25 de Outubro de 2004
Conversas de amigos...!

Conversando!


Talvez uma das melhores relações que mantemos na nossa vida pessoal seja com os amigos, aqueles que realmente escolhemos, admiramos e com quem, por uma razão ou outra, nos identificamos, nos divertimos trocamos experiências e nos encontramos em várias dimensões.


O encontro com os amigos aos de fim de semana, por vezes tem a virtude de elevar as conversas a categorias que são mais do que as intimidades próprias da amizade e assumem uma concepção com dimensão política/social/cultural, ou seja e complicando a coisa, - esta dimensão política da amizade é também a preocupação com a condição humana na “Polis” em que o mundo comum é objecto de diálogo. Até prova em contrário, parece-nos a nós, estamos também a humanizar o mundo e aprendemos a ser humanos.


Vem este paleio todo a propósito de uma conversa entre amigos sobre as injustiças, as gritantes desigualdades, a dimensão social da globalização, as políticas neo-liberais e a sua indiferença pelo social e, sobretudo, a dimensão histórica do fosso entre pobres e ricos. Dessa conversa ficaram alguns dados incompletos e porque é uma conversa obviamente que tinha que ser assim. Para colmatar a lacuna (agora mais documentado) ocorreu-me publicar um “post” sobre o assunto. Vejamos uma pequena parte do que nos atormentava:


O balanço e levantamento realizado pelo Institute for Policy Studies, Top 200: The Rise of Corporate Global Power 2000, informava que, das maiores cem economias do mundo, 52 eram corporações, apenas 48 diziam respeito a países. A pesquisa mostrava o pódio das maiores: A Mitsubishi era a 22ª maior economia do mundo. A General Motors era a 26ª. A Ford era a 31ª. Todas eram economias maiores do que a da Dinamarca, Tailândia, Turquia, África do Sul, Arábia Saudita, Noruega, Finlândia, Malásia, Chile e Nova Zelândia. O mesmo estudo contabilizava que em 1999 o valor das vendas das corporações General Motors, Wal-Mart, Exxon Mobil, Ford Motor e Daimler-Chrysler, em separado, foi maior do que o PIB de 182 países. O valor das vendas das duzentas maiores corporações cresciam mais rápido do que a economia global. No entanto, dizia a pesquisa, que essas duzentas maiores corporações do mundo, responsáveis por quase 30 por cento da actividade da economia global, empregavam menos de 1 por cento da força de trabalho do mundo. Enquanto o lucro delas cresceu 362,4 por cento entre 1983 e 1999, o número de empregos cresceu apenas 14,4 por cento. Essas companhias, ao comprarem competidores, eliminavam empregos duplicados, encerrando empresas competitivas e extinguindo postos de trabalho (veja-se o caso da Bombardier). As mil companhias mais ricas do mundo controlavam mais de 80 por cento da produção industrial do planeta, segundo uma pesquisa do conceituado jornalista internacional americano Robert Kaplan (The Atlantic Monthly, em 1997).


Um estudo da Rural Advancement Foundation International, The ETC Century, 2001, encontrou o mesmo tipo de concentração de poder e lucro na indústria farmacêutica : “Há vinte anos atrás, as vinte maiores companhias farmacêuticas eram responsáveis por 5 por cento do comércio de drogas sob prescrição, no mundo. Hoje, as dez maiores controlam 40 por cento do mercado”. O mesmo estudo mostra o que aconteceu na indústria de equipamentos agrícolas. “Há vinte anos atrás, 65 companhias de químicos agrícolas competiam no mercado mundial. Hoje, nove companhias detêm aproximadamente 90 por cento das vendas de pesticidas, 90 por cento das novas tecnologias e patentes de produtos estão nas mãos de corporações com dimensão global de mercado.”


Mais: sobre toda essa riqueza não precisam de pagar qualquer imposto. “Nos Estados Unidos, a porcentagem de impostos pagos por corporações sobre o rendimento caiu significativamente de 25 por cento pagos nos anos 60 para 9 por cento pagos nos dias actuais” veja-se: Reuven Avi – Yonah, The American Prospect, 2000. O Relatório da ONU, de 1999 (os mais recentes não tive acesso – 2001 e 2003), referia que “a diferença entre o rendimento de um quinto da população do mundo vivendo nos países mais ricos para o um quinto vivendo nos países mais pobres aumentou para o dobro de 1960 para 1990. Em 1998, a relação aumentou de novo”. O mesmo documento informava que a riqueza das “duzentas pessoas mais ricas do mundo tinha aumentado de 40 biliões para mais de 1 trilião de dólares de 1994 para 1998”.


Mais: “Os activos das três pessoas mais ricas do mundo eram maiores do que o PIB dos 48 países mais pobres juntos”. O documento dizia ainda que o número de milionários no mundo tinha aumentado em 25 por cento nos últimos dois anos. A soma da riqueza dos 475 indivíduos mais ricos era maior do que o rendimento de metade da população do mundo. Um quinto (mais rico) das pessoas do mundo consome 86 por cento de todos os bens e serviços, enquanto o quinto mais pobre consome apenas 1 por cento. A expectativa de vida nos países mais pobres era/é de 25 anos menor do que a dos países industrializados, afirmava o ano passado Kevin Watkins, consultor sénior de política da Oxfam, uma confederação de vinte ONGs trabalhando em oitenta países em busca de soluções para a pobreza. Em Abril de 2003, o G-77, formado pelos 77 países mais pobres do mundo, editava uma declaração condenando o FMI e o Banco Mundial e apoiando os protestos dos movimentos antiglobalização. Mas nós sabemos que o sistema discriminatório da globalização constrói os mundos completamente diferentes do Sul e do Norte, alinhados ou não alinhados com o império.


Precisamos de novos “bárbaros”...



publicado por albardeiro às 16:23
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Quinta-feira, 21 de Outubro de 2004
Preceitos de uma... besta!

Alguém disse um dia que do cruzamento entre um burro e uma "cabala", o que resulta?
- Um muar ministro a amuar.





Feira do Naso 2004



Imagens da Associacão para o Estudo e Protecção do Gado Asinino


Outro dia ao comentar um texto do Francisco no Panície Heróica, apontei uma série de requisitos  (dizem os mais entendidos nestas coisas das bestas), que os mesmos (é óbvio que são os reduisitos...) são apanágio deste tipo de gado. Como me parece oportuno, face aos coices de alguns senhores com investidurase funções de ministros, nomeadamente as atordoadas e predisposições Goebellicas no controlo da comunicação social, decidi dar nova “luz” às virtualidades que na altura apontei para as ditas bestas. Reproduzo quase na integra o que então escrevi:


 


Corre por aí e é cada vez mais evidente que desmentindo a fama de teimosos e encrenqueiros, mulas e burros de boa linhagem e passo macio vêm conquistando cada vez mais prestígio, nomeadamente na área do poder.


Eis algumas virtualidades da besta:


1 - Apesar de teimosos, os jumentos são muito inteligentes, demonstrando boa memória (sobretudo quando querem lixar o parceiro...).


2 - O tacto é outro sentido muito desenvolvido nos muares, principalmente através dos cascos (pisam tudo e todos...).


3 - Os muares demonstram grande sensibilidade da audição, assimilando com facilidade e rapidez os comandos vocais no processo da doma.


4 - Alguns muares que durante o dia marcham com orelhas em descanso, à noite estas levantam-se, adquirindo firmeza e mobilidade(pior que morcegos vampiros...).


5 - A inteligência deixa muito a desejar, não admira que seja uma característica de burros e mulas (na verdade, os ditos, os autênticos são bem inteligentes).


6 - Os muares são imbatíveis na eficiência com que se locomovem (um dia são governo, outro gestores, outros bichesa...).


7 - Sob quaisquer circunstâncias de perigo o muar reage com prudência, e não com reacções afoitas (a maior parte das vezes são os responsáveis pelas asneiras... mas livram-se sempre de qualquer condenação!).


8 - Nas cavalgadas, a regularidade e a resistência dos muares são impressionantes (podem dizer-lhes tudo que eles não se importam, desde que lixem o parceiro...).


9 - Ao longo da doma, dizem que o muar solta calor aos poucos e reagem com rebeldia ao processo da doma, mas depois passa-lhe quando sabem da recompensa!


10 - O muar demonstra um incrível senso de direcção e "malandragem". Gosta muito de acompanhar uma "madrinha". E quando não quer trabalhar, procura esconderijos, podem crer -Burro não tem nada de burro, só o nome - vejam as espécies no governo.


11 - Parece que quando bem adestrados, apesar da doma mais difícil , proporcionam boas montarias.


12 - O cigano (velho) Cabeças dizia que era melhor dar um nó na cauda dos muares antes de montar?


13 – Outra coisas que o Cabeças dizia,  é que esquecendo o nó na cauda atado, ao soltar o animal para pastar, no dia seguinte, vinha uma tremenda dor de barriga. Será?


 


... e não podemos dar rédea solta às bestas!



publicado por albardeiro às 02:35
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Segunda-feira, 18 de Outubro de 2004
Recordações da Terra Transtagana

COM DEDICATÓRIA...


(Contra as tiradas de mau gosto e preconceituosas de determinados governantes)



“Entre quem é e chegue-se para o lume” - é o que diz a quem lhe bate à porta (ainda ontem o li em Raul Brandão) a voz grossa do trabalhador alentejano. Não se deteve a perguntar quem era. Entre. Entre quem quer que seja que o lume não é menos de quem chega que de quem está. É lume do Alentejo. Achas de azinho? Hão-de lá estar, já em brasa viva e aliciante - tão belo espectáculo só o das ondas. Mas o lume do Alentejo é feito, princi­palmente, de calor humano, de ternura que se dá sem efusão - simples, discreta, profunda. Entre quem é.


A solidão ai dão ai dão do Alentejo não é de almas. A palavra ecoa, angustiadamente e longamente, é na pla­nície, pela planície fora... Que é das fontes? Mas entre a gente não é assim.. Ainda não consegui, no Alentejo, estar integralmente sozinho; ainda não consegui ter frio. Em vez de solidão, senti à minha volta aconchego, ternura. No ar. Nas pessoas. Até dos que nada dizem e passariam despercebidos a um coração menos atento, sinto que vem até mim, para comover-me, uma onda suave, ou humilde, não sei bem, de compreensão, acolhimento, carinho.


Falam os livros da hospitalidade alentejana. Mas não foi nos livros que eu me habilitei a não estranhar o clima que me recebeu nesta cidade amena e amável. Lá onde a solidão é possível, lá onde a solidão tantas vezes dói, à Lisboa que amo de outro amor - vão dar, e para sempre quedam nostálgicos da paisagem erma que os fez, poetas dos quatro cantos do Alentejo. Exilados, e tristes alguns irremediavelmente, junta-os a mesma saudade e a mesma sede de aconchego. É o Raul de Carvalho, é o Luís Amaro (“velho e fraterno Amigo”, como ainda ontem se dizia ele, a fechar uma longa carta). Junto deles – “Entre quem é e chegue-se para o lume” - é que eu aprendi o Alentejo. Na voz deles, que logo dá a saber, iniludivel­mente, com que amizade e com que franqueza se pode contar; e na sua poesia, onde o Alentejo passa mesmo quando parece esquecido.


“Entre quem é.” Era eu. Bem podia responder: “Sou eu - sou o amigo do Luis e do Raul.” Mas ao alentejano, que falta lhe faz a recomendação?... Entrei. Cheguei-me para o lume. Quentes de entendimento, nem precisaram as nossas mãos de apertar-se. Ali, à volta do lume e no mais quente do lume, era o Alentejo.


(Está aqui quase tudo... Fragmentos de um texto de Sebastião da Gama)


 



publicado por albardeiro às 02:13
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Sexta-feira, 15 de Outubro de 2004
O que se passa em casa do Tio SAM?

Com este “post” não quer dizer que tenha esquecido os néscios e nababos da política doméstica, não, nada disso. Apenas, um ligeiro interregno para postar uma escrita que já me andava a atormentar por falta de oportunidade, uma vez que o essencial do seu conteúdo já para aqui estava alinhavado, só que nos últimos dias o assunto tem sido abordado, não só pela escrita blogueira a que vou deitando o olhar, como pela imprensa, em particular os escribas que tenho imenso gosto em ler(lá mais para baixo digo nomes). Face ao que recentemente se tem dito e escrito sobre as eleições americanas e os candidatos concorrentes, confundindo a realidade com o desejo, e perfilhando as temáticas em moda do contraditório, não podia deixar de postar outra formas de ver a “coisa”, vai daí... e aqui está outro cenário... digamos que é um palco secundário(!), repete os actores, embora a dramatologia tenha nuances.


... está a passar-se alguma coisa lá do outro lado do mar?


“Meus amigos no Partido Democrata, e estou feliz de poder chamar vários deles de meus amigos, garantem-nos que compartilham a nossa convicção de que a obrigação mais importante do nosso governo é ganhar a guerra contra o terrorismo, e não duvido da sua sinceridade (...). Lembremo-nos de que não somos inimigos, mas camaradas numa guerra contra um verdadeiro inimigo”, declarou o senador John McCain no seu discurso, no dia 31 de Agosto, durante a abertura da convenção nacional do Partido Republicano, realizada no famoso ginásio de desportos e centro de convenções Madison Square Garden, em Nova York. O discurso “conciliador” de McCain, pronunciado durante o encontro que oficializou a candidatura de George Bush, explicita a grande questão das eleições presidenciais estadunidenses: a manutenção da estratégia de “guerra ao terror”, quem quer que seja o vencedor. Do ponto de vista do establishment, esse, precisamente, é o ponto que deve permanecer intocado.


Como se sabe, do lado de fora do Madison Square Garden, a polícia armou um esquema de guerra para proteger a convenção não de um suposto ataque terrorista, mas de dezenas de milhares de manifestantes (só no domingo, dia 30, foram algo entre 150.000 e 250.000) que não aceitaram a ideia de ver Bush reeleito. Uma imensa área compreendida por doze ruas próximas ao local ficou fechada ao trânsito, e mesmo o acesso de peões foi extremamente controlado por cerca de 10.000 policias, agentes do FBI (polícia federal), unidades de elite e serviços secretos, segundo informaram, na altura, as agências de notícias. Isso é muito significativo, quando se recorda que Nova York foi o grande alvo do atentado de 11 de setembro de 2001. Se o objectivo do Partido Republicano, ao realizar a convenção em Manhattan, tradicional reduto democrata, era o de capitalizar os sentimentos da população de repúdio ao terror, o tiro saiu pela culatra.


John Kerry, o adversário democrata de Bush, reza pela mesma cartilha da “guerra ao terror”. Todavia, há uma diferença na forma e no tom do discurso: Kerry fala mais em diálogo com os aliados, em operações e estratégias acertadas no quadro das instâncias multilaterais, como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO). Mas não coloca em dúvida o essencial, ou seja, o ponto ao qual McCain faz referência. Nem poderia. A “guerra ao terror” não foi criada por Bush, nem foi realmente motivada pelo atentado de 11 de setembro, que forneceu apenas o pretexto conjuntural para colocar em marcha o processo de ataque ao Afeganistão e a aprovação do Decreto Patriótico (um calhamaço de várias centenas de páginas que não poderia ter sido escrito no prazo de algumas semanas decorrido entre a data do atentado e a de sua aprovação pelo Congresso, em 26 de Outubro). Corresponde a uma estratégia de longo alcance, cujo objectivo é consolidar a hegemonia da superpotência no século XXI. Nesse sentido, é uma plataforma tão “kerryana” quanto “bushista”.


Não tenhamos ilusões, Bush e Kerry vêm do mesmo estrato social. Ambos pertencem a famílias multimilionárias e estudaram em Yale (situada em New Haven, Estado de Connecticut, uma universidade destinada à elite económica dos Estados Unidos), onde frequentaram a mesma associação de alunos, Skull and Bones (crânio e ossos). E Kerry, entre outras coisas já demonstrou o seu perfil alinhado à política externa da Casa Branca, já fez as tradicionais e ritualisticamente obrigatórias juras públicas de condenação a Cuba e de apoio incondicional a Israel, além, de na altura, ter pedido que o novo primeiro-ministro espanhol, José Luis Zapatero, voltasse atrás na intenção de retirar as tropas do seu país do Iraque. Neste registo, assim, se Kerry não é igual a Bush, tampouco é fundamentalmente distinto.


A grande possibilidade de que algo mude de facto nos Estados Unidos, nesse quadro, não vem da “alta política” partidária, mas das movimentações que estão a acontecer na base da sociedade, nomeadamente, manifestações do tipo como as que ocorreram dia 30 de Agosto, diante do Madison Square Garden, também por vários actos realizados nos últimos meses, contra a presença de tropas americanas no Iraque, além de outros sinais mais difusos, mas também importantes, como o acolhimento dado ao documentário de Michael Moore (que, aliás, participou da convenção republicana, como jornalista, onde levou uma tremenda vaia por parte dos cerca de 50.000 presentes). São sinais de que o consenso nacional construído pelo impacto de 11 de Setembro começa a perder os seus efeitos, por mais que a Casa Branca procure manter um clima artificial de pânico, multiplicando advertências de um “possível novo atentado”.


Isso não significa que haverá uma “corrida às urnas” contra Bush, nem significa que será necessariamente derrotado, até porque Kerry, além de não ter nada de fundamentalmente novo a dizer, não é do tipo que empolga multidões, como mostram as pesquisas e os comentários feitos pelos seus próprios partidários. Outra coisa é que a eventual derrota de Bush, independentemente das intenções de Kerry, comportará uma componente mais forte e explícita rejeição ao militarismo, e estimulará os sectores mais mobilizados da opinião pública americana. Pensamos que é uma razão forte e suficiente para fazer com que lideranças do movimento antiglobalização, incluindo Michael Moore, convoquem o voto em Kerry.Se por ora é impossível prever quem será o vencedor, é certo que, em qualquer hipótese, o novo presidente encontrará uma opinião pública menos disposta a apoiar aventuras militares e menos vulnerável à retórica patriótica (o “papelão” no Iraque não dá grandes margens a ufanismos). Todavia, malgrado o seu contrário, nos dias que correm, é um bom augúrio.


Agradecimentos a algumas pessoas que me fazem ler a imprensa, nomeadamente, Miguel Sousa Tavares, César Benjamim, Rogério Rodrigues, E. Prado Coelho, Vital Moreira, Luís Osório e mais dois ou três, sobretudo, para este texto o José Arbex Jr.



publicado por albardeiro às 19:54
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Domingo, 10 de Outubro de 2004
CÍRCULO FECHADO

Será que já cheguei ao ponto de dizer que diariamente perco a fé no poder da liberdade de expressão neste país. Se assim for, é uma derrota séria e triste. Face ao que “paira no ar” e aos prenúncios, começo a desconfiar que embora aparentemente sólida, a minha liberdade garantida constitucionalmente é na realidade ténue. Pior do que apenas ténue, é muito facilmente esquecida quando as partes interessadas tem alguma influência, muito dinheiro, e poucos escrúpulos.


Numa democracia, a imprensa não deve ser controlada pelo governo. Os governos democráticos não têm ministros da informação para decidir sobre o conteúdo dos jornais nem sobre as actividades dos jornalistas; não exigem que os jornalistas sejam investigados pelo Estado; nem obrigam os jornalistas/comentadores a omitir a crítica em órgãos de comunicação mancomunados ou controlados pelo governo.


Uma comunicação social livre informa o público, responsabiliza os dirigentes e proporciona um fórum para o debate das questões locais e nacionais. As democracias apoiam a existência de uma imprensa livre. Um Poder Judiciário independente, uma sociedade civil num Estado de Direito e liberdade de expressão apoiam todos uma imprensa livre. Uma imprensa livre deve ter protecção legal. Parece-me que isto são os mecanismos básicos de qualquer sociedade democrática, consignados na lei que rege o meu país... ou já não é assim?! Segue-se um texto do Hugo Fernandez.


CÍRCULO FECHADO


Entre as mais citadas e polémicas definições de Política está seguramente a de Carl Schmitt, segundo a qual a esfera política seria a expressão acabada da relação amigo-inimigo. A actividade política não seria mais do que o reflexo de um conflito eterno entre a defesa dos amigos e o combate aos inimigos. Ora, um conflito desta natureza e com esta intensidade só podia ser resolvido, em última instância, pelo uso da força. A guerra tornava-se, assim, o instrumento por excelência da dominação política, quer internamente, quer no âmbito externo. Carl Schmitt era um eminente académico na Alemanha dos pós-I Guerra Mundial e durante a República de Weimar. Criticando a fraqueza da democracia parlamentar, que tendia a resolver os conflitos políticos pela negociação e o compromisso, e esbater a dicotomia atrás enunciada pelos conceitos mais fleumáticos de correligionários-adversários, Carl Schmitt acaba por aderir ao Partido Nazi em 1933 – no mesmo ano, sublinhe-se, que também o fez Martin Heidegger.


Claro está que esta suposta solução peca por ser extremamente efémera e, por isso, pouco eficaz. Basta que novos contendores se apresentem para a luta. O que, mais cedo ou mais tarde, inevitavelmente acabará por acontecer. Mas o que é facto é que esta teoria fez o seu caminho e apresenta-se hoje com uma legitimidade renovada. Lembremo-nos da actualização deste maniqueísmo através da caricatura política dos neoconservadores americanos entre as forças do Bem e o Eixo do Mal, com as consequências belicistas que conhecemos. Ou a visão das coisas que é propagandeada por todos os fundamentalismos deste mundo.


Em Portugal também tivemos um longo período de salazarento “quem não está connosco, está contra nós”. Pensaríamos que essa época de silenciamento – quando não de eliminação – dos adversários políticos já tinha acabado. Ultimamente temos, porém, assistido a coisas verdadeiramente extraordinárias. Há pouco tempo, tentou-se silenciar os defensores da interrupção voluntária da gravidez com vasos de guerra. Depois, afastam-se da opinião pública vozes incómodas para o poder, com a cumplicidade servilista dos tiranetes responsáveis por alguns orgãos de comunicação social. Ultimamente falou-se até da crise do marcelismo (triste exemplo!) a propósito da actual situação da governação do país. Resta saber quem, nos dias que correm, representará o papel de Marcelo Caetano.


O sinistro preceito jurídico-político do delito de opinião parece ter voltado. A continuarmos assim, podemos estar certos de uma coisa: a decência e a dignidade serão sempre espezinhadas pela ganância e pela prepotência. Até ver!



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Quinta-feira, 7 de Outubro de 2004
Um discurso para...

Levamos tempos muito incertos, de incertezas até agora inusitadas. Não podemos esperar e muito menos parar. Tempos complexos que aguardam respostas... De fato, há muita subjectividade em jogo, nesta época de claro-escuro moral. Tempos conturbados e contraditórios de desordem disruptiva, aguardo que chegue a vontade de escrevinhar algo de mais racional e analítico, todavia, o que me apetece é gritar... "gritos mudos", o que se segue é o seu reflexo:


Balada ditirâmbica do pequeno e do grande filho-da-puta



O pequeno filho-da-puta é sempre um pequeno filho-da-puta; mas não há filho-da-puta, por pequeno que seja, que não tenha a sua própria grandeza, diz o pequeno filho-da-puta. no entanto, há filhos-da-puta que nascem grandes e filhos-da-puta que nascem pequenos, diz o pequeno filho-da-puta. de resto, os filhos-da-puta não se medem aos palmos, diz ainda o pequeno filho-da-puta. o pequeno filho-da-puta tem uma pequena visão das coisas e mostra em tudo quanto faz e diz que é mesmo o pequeno filho-da-puta. no entanto, o pequeno filho-da-puta tem orgulho em ser o pequeno filho-da-puta. todos os grandes filhos-da-puta são reproduções em ponto grande do pequeno filho-da-puta, diz o pequeno filho-da-puta. dentro do pequeno filho-da-puta estão em ideia todos os grandes filhos-da-puta, diz o pequeno filho-da-puta. tudo o que é mau para o pequeno é mau para o grande filho-da-puta, diz o pequeno filho-da-puta. o pequeno filho-da-puta foi concebido pelo pequeno senhor à sua imagem e semelhança, diz o pequeno filho-da-puta. é o pequeno filho-da-puta que dá ao grande tudo aquilo de que ele precisa para ser o grande filho-da-puta, diz o pequeno filho-da-puta. de resto, o pequeno filho-da-puta vê com bons olhos o engrandecimento do grande filho-da-puta: o pequeno filho-da-puta o pequeno senhor Sujeito Serviçal Simples Sobejo ou seja, o pequeno filho-da-puta


II


O grande filho-da-puta também sem certos casos começa por ser um pequeno filho-da-puta, e não há filho-da-puta, por pequeno que seja, que não possa vir a ser um grande filho-da-puta, diz o grande filho-da-puta. no entanto, há filhos-da-puta que já nascem grandes e filhos-da-puta que nascem pequenos, diz o grande filho-da-puta. de resto, os filhos-da-puta não se medem aos palmos, diz ainda o grande filho-da-puta. o grande filho-da-puta tem uma grande visão das coisas e mostra em tudo quanto faz e diz que é mesmo o grande filho-da-puta. por isso o grande filho-da-puta tem orgulho em ser o grande filho-da-puta. todos os pequenos filhos-da-puta são reproduções em ponto pequeno do grande filho-da-puta, diz o grande filho-da-puta. dentro do grande filho-da-puta estão em ideia todos os pequenos filhos-da-puta, diz o grande filho-da-puta. tudo o que é bom para o grande não pode deixar de ser igualmente bom para os pequenos filhos-da-puta, diz o grande filho-da-puta. o grande filho-da-puta foi concebido pelo grande senhor à sua imagem e semelhança, diz o grande filho-da-puta. é o grande filho-da-puta que dá ao pequeno tudo aquilo de que ele precisa para ser o pequeno filho-da-puta, diz o grande filho-da-puta. de resto, o grande filho-da-puta vê com bons olhos a multipliccação do pequeno filho-da-puta: o grande filho-da-puta o grande senhor Santo e Senha Símbolo Supremo ou seja, o grande filho-da-puta.


O Alberto Pimenta nalgumas coisas lá tinha os seus motivos...



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Quarta-feira, 6 de Outubro de 2004
Nostalgia... telúrica!

Untitled-2copy.jpg A.Bugalho


 Minha junta vai puxando Morosa, lenta, cansada; Que a leiva que vai virando, vai ficando bem virada Passam dois corvos grasnando. E à minha volta mais nada ... A relha que rasga a terra Rasga e beija docemente. -Breve se acaba esta guerra Só de sonhar a semente Nos vales de terra molhada Piam abibes em bando E a leiva sobe na aiveca E vai ficando tombada, Ao seu feitio moldada, Sobre outra leiva lá seca. Minha junta vai puxando Pesada, lenta, cansada ... Ao fundo, no horizonte Só um sobreiro pasmado; Nem um ruído de fonte, Nem um chocalho de gado ... Nem algum cantar perdido De certas horas felizes. Só canta no meu ouvido Este estalar das raízes. A leiva que vou virando Vai ficando bem virada ... (escrita alentejana no Albardeiro)



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Sexta-feira, 1 de Outubro de 2004
Dicas para o bom MILITANTE ...!

Vou ter que recorrer, mais uma vez, a um excerto do texto de ROGÉRIO RODRIGUES, no editorial de hoje na Capital, para introduzir alguns conselhos aos garbosos delegados/congressistas que certamente se irão mostrar ao Maioral e dizer ao dito que est~~ao prontos para ocupar os lugares onde agora estão os outros... ou seja, mais do mesmo!


"Estamos a caminhar para novos modelos de política, para uma outra gastronomia partidária, com o fast food a alimentar a obesidade dos interesses e de uma governação à bolina. José Sócrates tem, a partir deste fim-de-semana, a sua grande oportunidade. Falta saber quem serão as suas companhias. O Governo, nas suas opções e no seu quotidiano, acaba por ser o seu melhor parceiro. Dá-lhe razões e já não precisa de se justificar. Sendo ele o guterrista, o ónus do guterrismo coube a Ferro Rodrigues. E esse ónus já está esgotado. Ferro Rodrigues sai de cena, foi acusado de heranças incómodas, e hoje Sócrates, o delfim do antigo primeiro-ministro, está ungido pelo esquecimento e por oitenta por cento dos votos dos militantes socialistas que querem regressar ao Poder."


Nós pedimos, nós rogamos, nós... Caríssimos, tenham sempre presente estes mandamentos:


1. Mantenha viva a indignação. Verifique periodicamente se você é mesmo de esquerda. Adopte o critério de Norberto Bobbio: a direita considera a desigualdade social tão natural quanto a diferença entre o dia e a noite. A esquerda encara-a como uma aberração a ser erradicada. Cuidado: você pode estar contaminado pelo vírus social-democrata, cujos principais sintomas são usar métodos de direita para obter conquistas de esquerda e, em caso de conflito, desagradar aos pequenos para não ficar mal com os grandes.


2. A cabeça pensa onde os pés pisam. Não dá para ser de esquerda sem "sujar" os sapatos lá onde o povo vive, luta, sofre, alegra-se e celebra as suas crenças e vitórias. Teoria sem prática é fazer o jogo da direita.


3. Não se envergonhe de acreditar no socialismo. O escândalo da Inquisição não fez os cristãos abandonarem os valores e as propostas do Evangelho. Do mesmo modo, o fracasso do guterrismo não deve induzi-lo a descartar o socialismo do horizonte da história humana. O capitalismo, vigente há 200 anos, fracassou para a maioria da população mundial. Hoje, somos 6 biliões de habitantes. Segundo o Banco Mundial, 2,8 biliões sobrevivem com menos de 2 dólares por dia. E 1,2 biliões, com menos de 1 por dia. A globalização da miséria só não é maior graças ao socialismo(!) chinês que, malgrado os seus erros, assegura como pode alimentação, saúde e educação a 1,2 biliões de pessoas.


4. Seja crítico sem perder a autocrítica. Muitos militantes de esquerda mudam de posição (por vezes dão cambalhotas) quando começam a catar o piolho na cabeça de alfinete. Preteridos do poder, tornam-se amargos e acusam os seus companheiros(as) de erros e vacilações. Como o ditado, vêem o cisco do olho do outro, mas não o camelo no próprio olho. Nem se engajam para melhorar as coisas. Ficam como meros espectadores e juizes e, aos poucos, são cooptados pelo sistema. (A sério: a autocrítica não é só admitir os próprios erros, é admitir ser criticado pelos(as) companheiros(as)).


5. Saiba a diferença entre militante e "militonto". "Militonto" é aquele que se gaba de estar em tudo, participar de todos os eventos e movimentos, actuar em todas as frentes. A sua linguagem é repleta de chavões e os efeitos da sua acção são superficiais. Portanto seja um militante: já agora, o militante será o que aprofunda os seus vínculos com o povo, estuda, reflecte, medita; qualifica-se numa determinada forma e área de actuação ou actividade, valoriza os vínculos orgânicos e os projectos comunitários.


6. Seja rigoroso na ética da militância. A esquerda age por princípios. A direita, por interesses. Um militante de esquerda pode perder tudo - a liberdade, o emprego, a vida. Menos a moral. Ao desmoralizar-se, desmoraliza a causa que defende e que encarna. Presta um inestimável serviço à direita. Desconfie, não se esqueça que há pelegos disfarçados de militantes de esquerda. É o sujeito que se engaja visando, em primeiro lugar, a sua ascensão ao poder. Em nome de uma causa colectiva, busca primeiro o seu interesse pessoal – não queira ser um desses...! ATENÇÃO: o verdadeiro militante -como Jesus, Gandhi, Che Guevara- é um servidor, disposto a dar a própria vida para que outros tenham vida. Não se sente humilhado por não estar no poder, ou orgulhoso ao estar. Ele não se confunde com a função que ocupa.


7. Alimente-se na tradição da esquerda. É preciso oração para cultivar a fé, carinho para nutrir o amor do casal, "voltar às fontes" para manter acesa a mística da militância – se tiver dúvidas pergunte a Guterres e ao padre Melícias. No entanto, conheça a história da esquerda, leia (auto)biografias, como o "Diário do Che na Bolívia", e romances como "A Mãe", de Gorki, ou "As Vinhas de Ira", de Steinbeck.


8. Prefira o risco de errar com os pobres a ter a pretensão de acertar sem eles. Conviver com os pobres não é fácil. Primeiro, há a tendência de idealizá-los. Depois, descobre-se que entre eles há os mesmos vícios encontrados nas demais classes sociais. Mas nunca se esqueça que Eles não são melhores nem piores que os demais seres humanos (qual elites, isso são coisas de renegados, tipo JPP). Todavia, a diferença é que são pobres, ou seja, pessoas privadas injusta e involuntariamente dos bens essenciais à vida digna. Por isso, vá lá não custa assim tanto, estamos ao lado deles. Por uma questão de justiça. Lembre-se (mesmo que passe a andar com motorista), um militante de esquerda jamais negoceia os direitos dos pobres e sabe aprender com eles.


9. Defenda sempre o oprimido, ainda que aparentemente ele não tenha razão. Compreenda que são tantos os sofrimentos dos pobres do mundo que não se pode esperar deles atitudes que nem sempre aparecem na vida daqueles que tiveram uma educação refinada. O importante é que tenha presente que em todos os sectores da sociedade há corruptos e bandidos (veja lá não se passe). A diferença é que, na elite, a corrupção se faz com a protecção da lei e os bandidos são defendidos por mecanismos económicos sofisticados, que permitem que um especulador leve uma nação inteira à penúria.


10. Faça da militância um antídoto contra a alienação. Agora a sério porque provavelmente também me incluo e não quero fugir com o rabo á seringa: falamos como militantes e vivemos como burgueses, acomodados ou na cómoda posição de juizes de quem luta.


Tenha um bom congresso... desfrute!



publicado por albardeiro às 18:20
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