Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Terça-feira, 27 de Abril de 2004
Post de um amigo

O albardeiro recebeu este texto... depois, noutra oportunidade, revelamos o seu autor. Isto resulta de um desafio que eu lhe tinha lançado... e como já sabemos que o “não” é um vocábulo absoluto, sempre objectivo e peremptório, que exclui maiores interpretações. Ao contrário, o “sim” é uma abertura para o manejo de uma ideia... para a prática de uma colaboração. Publique-se!


O meu 25 de Abril


Escrevo a uma hora tardia da noite de 25 de Abril de 2004, dia das comemorações dos trinta anos da Revolução. Decidi, este ano, comemorar o dia na solidão. Fiquei em casa, vi os jornais da televisão, saí apenas para comprar os jornais. Comprei muitos e li muito. Penso agora que a solidão de hoje é o estado que melhor se ajusta ao meu dia 25 de Abril de há trinta anos atrás. Era a distância que não me permitia viver os acontecimentos. E nisso não era eu diferente de milhões de portugueses. Não podíamos estar com a tropa no Largo do Carmo, na Praça do Comércio...mas sabíamos que aquilo era para nós também. Não chegámos pouco depois, aclamados por multidões numa estação ferroviária qualquer. Do que se passou, efectivamente, tive sempre, pois, uma curiosidade enorme. Aproveitei a solidão de hoje para saber mais. Sobre a reacção aos ‘revoltosos’, sobre a organização da revolta – interessa-me o lado humano das questões: afinal, para além do que cada um podia representar, um homem (os homens) reagia(m) e organizava(m)-se contra outro homem (outros homens). Folheei longamente os cartazes da edição do Diário de Notícias, comprada na véspera. Fazia falta na minha biblioteca. Mas não vou arrumá-la lá. Vai ficar durante muito tempo aqui na sala em cima da mesa para voltar a ela, amanhã, daqui a um ano, e para servir a um olhar curioso que por aqui passar. Rendo assim silenciosa homenagem aos corajosos que fizeram o 25 de Abril – anónimo nas intenções daqueles que o fizeram, anónimo na gratidão prestada.


Tem este 25 de Abril uma força enorme, e que tenho constatado à medida que anos vão passando: sempre que pensamos nele dizemos que falta ainda fazer alguma coisa. O 25 de Abril está cumprido. Estou de acordo. Mas é maior do que nós esta força que nos vem não sei donde. É logo uma reflexão sobre o que não vai bem. Da educação ao desporto, das nossas vidas às vidas que poderíamos ter...O 25 de Abril continua a mexer connosco e com o país. E isto ultrapassa os ‘corajosos’ que o fizeram, os programas partidários e as interpretações que acabei de ler. Foi assim durante estes trinta anos. Será assim por mais alguns... se não estou enganado.


Ofereço-te, meu caro amigo, estas linhas do meu diário. Tu conheces-me, jamais publicaria fosse o que fosse de forma anónima. Mas já compreendeste que estas linhas teriam que ficar anónimas. Pelo que fica exposto acima. Numa outra altura poderás revelar quem sou. Numa altura em que as linhas escritas sejam sobre este Ensino Superior que teima em não se reformar, para bem daqueles que o utilizam, daqueles que nele trabalham e do saber de que o país precisa. Serão linhas de revolta contra o compadrio, a subordinação, a falta de transparência e o ‘salve-se quem puder’. Um de nós tem que ‘marcar passo’, quando outro, recém-chegado, sobe como o balão. E depois falam em competência... Até breve.


Os textos sobre o "Alentejo: geografia e história", estão no "prelo" bloguista. Qualquer dia vai...



publicado por albardeiro às 16:56
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Domingo, 25 de Abril de 2004
30 Anos
...com poesia, em 25 de Abril.

Liberdade

O poema é
a liberdade

Um poema não se programa
porém a disciplina
-sílaba por sílaba-
o acompanha

Sílaba por sílaba
o poema emerge
-como se os deuses o dessem
o fazemos
(Sophia de Mello Breyner Andresen)


Amigo

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!
«Amigo» é o erro corrigido,

Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!
(O´Neill)


A palavra

A palavra é uma estátua submersa,um leopardo
que estremece em escuros bosques,uma anémona
sobre uma cabeleira.Por vezes é uma estrela
que projecta a sua sombra sobre um torso.
Ei-la sem destino no clamor da noite,
cega e nua,mas vibrante de desejo
como uma magnólia molhada.Rápida é a boca
que apenas aflora os raios de uma outra luz.
Toco-lhe os subtis tornozelos,os cabelos ardentes
e vejo uma água límpida numa concha marinha.
É sempre um corpo amante e fugidio
que canta num mar musical o sangue das vogais.
(Ramos Rosa)


Aos amigos

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
-Temos um talento doloroso e obscuro.
construímos um lugar de silêncio.
De paixão.
(Herberto Helder)


Camões dirige-se aos seus contemporâneos

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós. sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.
(Jorge de Sena)


Ítaca

Não vale a pena suportar tanto castigo.
Procuras Ítaca.Mas só há esse procurar.
Onde quer que te encontres está contigo
dentro de ti em casa na distância
onde quer que procures há outro mar
Ítaca é a tua própria errância.
(Manuel Alegre)


A verdadeira litania para os tempos da revolução

Burgueses somos nós todos
ó literatos
burgueses somos nós todos
ratos e gatos
Mário Cesariny

Mário nós não somos todos burgueses
os gatos e os ratos se quiseres,
os literatos esses são franceses
e todos soletramos malmequeres.

Da vida o verbo intransitivo
não é burguês é ruim;
e eu que nas nuvens vivo
nuvens!o que direi de mim?

Burguês é esse menino extraordinário
que nasce todos os anos em Belém
e a poesia se não diz isto Mário
é burguesa também.

Burguês é o carro funerário.
Os mortos são naturalmente comunistas.
Nós não somos burgueses Mário
o que nós somos todos é sebastianistas.
(Natália Correia)


A Natália merece...
Violentámos a natureza quando matámos as nossas feras

Os homens copiavam os anjos;
Os anjos copiavam os homens;
Ambos copiavam a inocência;
A inocência copiava as feras.

As feras devoraram os homens;
Os anjos devoraram as feras.
A inocência vestiu-se de roxo
Pelo luto das futuras eras.


O Futuro

Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente.

Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente.

Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.

O que é preciso é termos confiança
se fizermos de Maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.
(J. C. Ary dos Santos)

"Havia" muitos mais... óh, se há! Fica para a próxima.


publicado por albardeiro às 01:42
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Sexta-feira, 23 de Abril de 2004
REPETIÇÃO de Abril

 Abril em Abril!


Peço desculpa aos amigos pela repetição do "POST" mas, perante tantos dislates que vi, li e ouvi, tenho que colocar novamente este texto.


A ordem e a conexão das ideias reflectem a ordem e a conexão do mundo e o espaço deste blog tem sido coerente nesse aspecto. Além disso, a história do desenvolvimento dos conceitos e das categorias políticas, “científicas” e sociais, reflecte a história do desenvolvimento da sociedade em que se elabora o conhecimento, e está-lhe indissoluvelmente ligada. Da mesma forma, a prática social histórica, colectiva e não meramente individual nem meramente restrita ao nível da actividade subjectiva, ao elemento dito “espiritual” isolado e abstracto, sem condicionamento e sem raízes, é o fundamento, o alvo e a instância decisória, a base real também do conhecimento político e histórico. Vem isto também a propósito, da hostilidade declarada que alguns sectores sociais e políticos, hoje no poder, estão a ter em relação ao 25 de Abril. Foi a democracia..., o 25 de Abril, que tornou livremente possível a discussão e o debate... mas sem trair! Sem trair a verdade e a justa consciência política da situação histórica que foi o 25 de Abril. É necessário, é justo intervir... contra os rancores que neste momento existem, por parte de alguns charlatães escrevinhadores de calinadas puras e de trapaceiros políticos, que em nome de concepções e sectarismos arrivistas eivados do mais puro ultramontanismo, querem refazer a HISTÓRIA, negando a própria história e colocando em causa o que foi o 25 de Abril. O texto que se segue, da autoria do meu amigo Hugo Fernandez, é, neste contexto, um momento importante no esforço de clarificação conceptual no quadro político e histórico acerca do 25 de Abril e, também, contra um certo obscurantismo de passadistas de toda a sorte, como dizia António Sérgio – espectros do “Reino Cadaveroso”. Aconselho a sua leitura e um pouco de reflexão sobre a “temática”.


QUE 25 DE ABRIL?


Já há muito que o famoso historiador francês Marc Bloch tinha chamado a atenção dos seus colegas de ofício, para as armadilhas da linguagem presentes nas fontes de investigação, que podem advir do facto dos homens não mudarem de vocabulário de cada vez que mudam de regimes políticos ou que vivem nova conjuntura social. Daí o poder atribuir-se designações idênticas a realidades já profundamente diferentes, o que contribui quer para o descrédito das fontes de informação, quer para a desconfiança e inverosimilhança com que o processo histórico é muitas vezes olhado por camadas mais desprevenidas da população.


Ao invés, é também frequente a tentação de um determinado discurso historiográfico de solucionar esta perplexidade, exportando conceitos do presente para o passado – num puro acto de anacronismo – ou reescrevendo de forma oportunista o que aconteceu, para que a História se torne mais inteligível aos olhos e, sobretudo, aos interesses do mundo de hoje. De uma maneira ou de outra, o que parece certo é que os homens pensam recorrendo a conceitos e actuam de acordo com crenças paradigmáticas. E provavelmente não haverá conceito mais carregado de significados que o de revolução. Para todos os efeitos, as revoluções têm sido entendidas como processos de ruptura e transformação radical entre uma qualquer realidade anterior e aquela que lhe sucede. Isto é percebido assim, independentemente de falarmos de dimensões sociais, políticas, artísticas, vivenciais ou do domínio dos fenómenos da natureza.


O aparente catastrofismo do processo revolucionário engendra sempre algo de substancialmente novo, ainda que muitas vezes pintado com as cores de uma restauração ou de uma regeneração. Do que não restam dúvidas é que se trata sempre de uma evolução, se com isto quisermos significar a sucessão de movimentos que constituem o devir histórico e que alteram, em cada momento, o que está. Nem sempre o contrário é verdadeiro. Pode haver evolução sem se assistir a nenhuma revolução. Podemos dizer que se trata até da situação mais comum. Neste caso não se atinge nunca o grau de metamorfose que é apanágio daquela.


A este propósito, todos estamos lembrados de situações recentes da História portuguesa, como a conhecida “evolução na continuidade” do período marcelista. Esta evolução não foi, no entanto, suficiente para responder às aspirações de liberdade e democracia do povo português que acabou por levar a cabo uma revolução. Foi no dia 25 de Abril de 1974. Acabou-se a guerra colonial, possibilitou-se a independência das antigas “províncias ultramarinas”, assistiu-se ao fim da censura, das prisões políticas e da repressão policial. À liberdade de expressão e de imprensa, somaram-se a emergência livre de sindicatos, partidos políticos e movimentos sociais. Foram garantidos constitucionalmente os direitos básicos de cidadania e consagrado o sufrágio universal, directo e secreto. Possibilitou-se a melhoria acentuada das condições de vida e de trabalho da generalidade da população portuguesa. Instituiu-se o salário mínimo, a segurança social e os direitos dos trabalhadores. Promoveu-se a massificação do ensino, o serviço nacional de saúde, o direito ao divórcio. Deu-se esperança e futuro aos portugueses... Não foi pouco! Desta ruptura revolucionária, nasceu uma democracia e acabou uma ditadura fascista.


Com toda a carga político-ideológica que, felizmente, as revoluções sempre têm. Outro conhecido autor francês contemporâneo, Jean-Christophe Rufin, chamou a atenção para o segredo da longevidade dos sistemas democráticos e a sua generalizada vitória face aos regimes totalitários. Concluiu que, enquanto os primeiros eram capazes de se “alimentar” de tudo o que se lhes opunha, constituindo isso a sua fonte de energia vital, os segundos colapsavam na tentativa desesperada de eliminar qualquer oposição. Ao contrário da ideia feita, as democracias revelar-se-iam poderosas e as ditaduras surpreendentemente frágeis. E se estas últimas são sempre criminosas, aquelas podem ser extremamente perversas. Talvez por isso o actual governo pretenda comemorar o 30º aniversário do 25 de Abril, mudando-lhe subrepticiamente o nome e a natureza, e desvirtuando as suas conquistas. Como se o país que temos hoje, não fosse consequência directa desse período tão decisivo. Como se, mais do que esquecer, se pretendesse renegar esse passado e fazer dele algo que nunca foi. Como se a democracia em Portugal se tivesse implantado contra o 25 de Abril. Abril não é, por isso, mera evolução. É muito mais. Abril foi, é e será sempre Revolução.



publicado por albardeiro às 12:03
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Quarta-feira, 21 de Abril de 2004
As futeboladas

Gosto desta prosa do Fernando Madrinha no Expresso on-line; ora vejam!


Enquanto se deslinda o imbróglio do Gondomar – estranho seria que o famoso «sistema» se reduzisse a estas manobras em torno de um clube de terceira linha - aguardam-se novas operações com nomes igualmente apropriados e reinadios. Depois de «apito dourado», a PJ podia avançar para «câmara de cristal», nas autarquias, para «tijolo de prata», na construção civil, para «sabão de cobre», no branqueamento de capitais, para «cunha de bronze», na fuga ao fisco com empenho da administração fiscal e para «voto de níquel», no financiamento partidário. Com uma série de operações deste tipo, levadas até às últimas consequências, certamente que Portugal subiria bastante no «ranking» mundial dos países com menos corrupção.


Mas tem mais... e com algum sentido.



publicado por albardeiro às 19:04
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Terça-feira, 20 de Abril de 2004
"Além-Tejo"

ComUrbs, Taifas e Alentejo


Neste saudável debate acrescentamos:


Os autarcas deviam ter a noção que são herdeiros de um património histórico cultural comum, do Tejo ao Espinhaço de Cão, do Pessegueiro a Noudar, moldado pela Língua e em parte pelo Cante, cimentado na convivência multissecular dos Povos e populações que aí se fixaram, ao longo dos séculos. São eles os legítimos depositários e porta-vozes das expectativas, reivindicações e Esperança das populações que representam, as quais, ciosas das suas identidades e especificidades num mundo conturbado reclamam mais Humanidade e Desenvolvimento duradouro em Paz, Progresso e Democracia. São também, inequivocamente, as autoridades locais o nível mais próximo do cidadão e, por consequência, o mais competente para mobilizar as populações com vista às tarefas colectivas atinentes ao bem-estar comum; por isso, devem estar em condições privilegiadas para serem o alicerce e o cimento futuro de uma nova ordem de solidariedade e cooperação e não de divisão e de discórdias, abertas às contingências de um Mundo em constante renovação e mudança. As transformações impostas pelos fenómenos da globalização e da interdependência mundiais estão a provocar também a universalização das aspirações e dos direitos fundamentais e inalienáveis dos cidadãos, os quais reivindicam legitimamente o combate aos problemas sociais que as fracturas das sociedades vão gerando, agravando as disparidades sociais e económicas e ampliando as causas das assimetrias regionais. O Governo Local, emanação por excelência do sentir e dos anseios dos cidadãos, devia ter o dever indeclinável e a legitimidade própria para ser o nível mais competente no sentido de mobilizar as iniciativas, agregar as vontades e dinamizar os meios com vista as desenvolvimento estratégico sustentado das “nossas” populações e do território que ocupa, no respeito do primado do todo nacional. Por agora, tem avondo! Vamos à História...


Continuação


Alentejo: geografia e História!


No centro do Alentejo está Évora. A sua fortuna vem dele. Nunca, antes de haver «Alentejo», conseguiu suplantar completamente outros centros que lhe disputavam a primazia no Sudoeste da Península Ibérica. Por outro lado, o fracasso de D. Afonso Henriques em Badajoz anunciou a repartição do Sudoeste peninsular em duas áreas de conquista distintas, a leonesa e a portuguesa. Consumada aquela, na centúria de Duzentos, desenrolaram-se dois processos autónomos de organização do território. A cidade estremenha ficou, assim, impedida, pela presença da fronteira que corre ao longo do Guadiana ou dos seus afluentes, de estender para ocidente a sua capacidade polarizadora.


Entre ela e Lisboa, demasiado afastada para se poder afirmar como pólo regional concorrente, estava Évora, plantada no meio de uma planície fértil e ocupada havia muito tempo, quase no centro da comarca administrativa de Entre Tejo e Odiana. Não surpreende que se tenha firmado rapidamente como o natural núcleo ordenador de todo o Alentejo, instalando-se numa indiscutível preeminência que, em medidas e graus diversos, é de anteontem, ontem e hoje. A sua sorte está, por isso mesmo, ligada à da região no seu conjunto, organizando-se com ela, com ela crescendo e com ela, porventura, decaindo. O granito dos seus monumentos quase se pode ler como um gráfico que desenha as flutuações do peso económico e político do Entre Tejo e Odiana.


Uma das personagens da Aparição de Vergílio Ferreira notara já este significado do tecido urbano eborense: «Uma cidade fantástica erguia-se-me imaginada, numa geometria árida de superfícies lisas com faixas de sombra e luz estiradas dos candeeiros às esquinas, com filas de janelas altas e cerradas, túneis de arcarias desertas, flechas de torres de chaminés à altura dos astros, ângulos negros de ruas - imóvel espectro de uma civilização perdida...» Para um observador que, de um qualquer ponto em seu redor, aviste a cidade, o que se impõe por sobre a branca geometria dos seus edifícios é uma construção imensa e aparentemente fora dela - a catedral. Construída em grande parte no século XIII, a Sé está, em Évora, como em Beja a torre de mármore do castelo. O rei junta-se-lhe desde cedo, escolhendo a cidade – a única que durante toda a Idade Média merecia esse título (como se sabe, Beja, Foi elevada à categoria de cidade em 1517) entre o Tejo e a serra algarvia - como frequente local de pousada. A preferência pelo Alentejo e especialmente por Évora, esboça-se sobretudo a partir do fim do século XIII e do reinado de D. Dinis que, de resto, procedeu a uma enorme operação de investimento na região (a Torre de Menagem de Beja data dessa época), criando de novo ou reforçando estruturas militares e contribuindo, assim, de forma decisiva, para a ordenar territorialmente.


O Alentejo e o seu centro urbano mais importante, parecem, pois, ter um protagonismo seguro no interior do eixo político da construção nacional. O destaque político do Alentejo não cessa de se ampliar durante os duzentos anos seguintes, em especial na área directamente estruturada por Évora. O protagonismo político de Évora torna-se ainda mais acentuado pelas longas permanências da corte e, em especial, daquela que ocorre entre 1532 e o fim de 1536, que leva a discutir a ideia de transferir para aí a cabeça do reino.


Este longo crescimento, que afectou, de resto, a maior parte dos centros urbanos alentejanos durante os mesmos séculos, assenta numa sólida base agrícola. É verdade que os solos sobre os quais a cidade foi edificada não permitiam colocá-la ao nível da produção cerealífera dos grandes centros agrícolas concorrentes, como Beja ou Elvas. Mas os rendimentos eram, ainda assim, suficientemente altos para permitirem pingues proventos aos senhorios e ao sistema fiscal da Igreja: a acreditarmos em António de Sousa Macedo, citado pelo autor do Diccionario Geografico, só a freguesia directamente dependente da Sé-Catedral de Évora rendia em dízimos 700 moios anuais. À cultura de sequeiro, cerealífera, havia ainda que juntar o anel que encerrava a cidade apertando-a como um torno, principalmente pelo norte, desde a ribeira de Peramanca, passando pela de Xarrama até ao Degebe; aí dominavam a vinha - até a filoxera levar no passado século a maior parte dela - os ferragiais e as hortas. Esta organização das relações entre a cidade e o campo em três áreas distintas e concêntricas - núcleo urbano, cultura intensiva, cultura extensiva -, repetida, por todo o Alentejo, em Montemor-o-Novo, Arraiolos, Estremoz, mais longe, em Elvas, Moura ou Beja, permitia à cidade abastecer convenientemente uma considerável (para os padrões da época) população urbana e responder sem problemas às solicitações provocados pelas frequentes estadas da corte.


A facilidade de abastecimentos, contrastando com a crónica insuficiência cerealífera de Lisboa, que amiúde desembocava em surtos de fome, bem como as favoráveis condições do sítio, fazem com que alguns dos seus naturais tentassem propô-la para substituir a cidade do Tejo como cabeça do reino. Garcia de Resende explica assim as suas razões ao camareiro-mor do rei: «Aqui está a real corte. Aqui tendes touros, canas, e saraus de nobres damas. Se quiserdes passear, tendes terreiro e rocio e também hortas como lá [em Lisboa], e ruas largas bem chãs, cidade bem assombrada com solenes mosteiros. Se sairdes fora aqui estão os verdes campos, cheios de todalas caças e, se pescar, pescarias, e se desejardes jogar jogo achareis que farte e banquetes mui sobejos», O modelo proposto era afinal o castelhano, com Lisboa/Évora no lugar de Sevilha/Valladolid e depois Madrid - o pólo económico no litoral, o centro político no interior, longe dos perigos que os grandes centros urbanos encerravam.


CONTINUA



publicado por albardeiro às 23:21
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Sexta-feira, 16 de Abril de 2004
AUTARCAS OU TAIFAS

CONTINUAÇÃO da contribuição histórica para os esclarecimentos dos autarcas (Taifas)


O Poder Local é um elemento constitutivo da Democracia Portuguesa, em cujo processo de formação interveio a consciência fundacional da cidadania. Se a autonomia local se inscreveu no património da democracia, ao qual juntou factores de eficácia e de consenso, existe hoje, também, uma consciência generalizada de que entrou numa nova fase de responsabilidade que não pode estar ao “sabor” dos desejos politiqueiros de nababos ou de “Taifas”. Reforçar a capacidade institucional dos territórios, reforçar a capacidade de inovação dos territórios, reforçar a identidade do território, são, em síntese, desafios que se levantam, nomeadamente a regiões como o Alentejo, caminhos que requerem unidade e subsidiariedade, e isso só pode ser trilhado com Autarcas que tenham o sentido e a preocupação do bem comum e não meramente interesses pessoais e partidários.


Agora digam: os indivíduos (autarcas) que foram ao Funchal poder-se-ão rever no que atrás dissemos? Sem comentários...! O que se segue é mais um pouco do contributo para se perceber a História da nossa região.


ALENTEJO: um equívoco ou uma região?


A primeira proposta de divisão bipartida da província parece datar de 1822, quando Francisco Soares Franco escrevia: «No Alentejo se podem formar duas administrações, ou províncias, uma ao norte, que se poderia chamar alto Alentejo, outra ao sul, que se denominaria baixo Alentejo.» No ano seguinte, a Comissão de Estatística, de que ele fazia parte, iria propor que o Alto Alentejo se dividisse em duas comarcas (Portalegre e Évora), e o Baixo Alentejo noutras duas (Setúbal e Beja), absorvendo, portanto, a Estremadura transtagana, que se tinha desenvolvido ao longo do litoral, até atingir a região de Odemira. No entanto, a divisão distrital adoptada em 1835, que perdurou até hoje, voltou a ligar a Lisboa o Ocidente transtagano (até ao sul de Sines), dividindo as terras interiores em três distritos - Portalegre, Évora e Beja -, sendo este o maior de todos os distritos portugueses, por ter incorporado também a região de Odemira.


No entanto, não se nota nenhum contraste climático nítido entre o Norte e o Sul do Alentejo: a diferença é muito mais sensível entre as terras litorais e as interiores, entre o Alentejo do sobreiro, onde penetram ainda os sopros do Atlântico, e o da azinheira. Ou será o contraste resultante do afastamento para com a capital do país, ou seja, uma posição mais ou menos periférica? Talvez se deva realmente procurar nos factores humanos, na maior ou menor integração na vida nacional, a verdadeira diferenciação entre as duas partes do Alentejo: o Alto, mais povoado, mais urbanizado, percorrido por estradas mais frequentadas; e o Baixo, mais periférico, com uma população menos numerosa, e como que ignorado pelas autoridades eclesiásticas e civis.


Observar o Alto e o Baixo Alentejo separadamente é, pois, uma tarefa que implica considerá-los não apenas nas suas singularidades, mas também e, talvez mesmo principalmente, ter em conta as múltiplas continuidades que entre eles se estabelecem. Quem vive debaixo do mesmo sol, trabalha a mesma terra e come o mesmo pão, há-de estar unido por vínculos mais fortes que os das divisões administrativas. Aqui, como noutros lados, as variações locais não chegam para quebrar o sentido de unidade que se desprende do todo.


CONTINUA



publicado por albardeiro às 12:02
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Segunda-feira, 12 de Abril de 2004
Alentejo e as ComUrb

Como já é do conhecimento geral, alguns autarcas do Alentejo (taifas na feliz expressão do Planície Heróica), decidiram encarneirar na pseudo regionalização que os ignaros da coligação decidiram implementar (porque não tem coragem de trazer à discussão aquilo que a contragosto rejeitaram num referendo habilidoso). Então foram para a Madeira, provavelmente buscar a inspiração made Alberto João, para decidirem criar uma ComUrb de uma parte do Alentejo, retalhando aquilo que não pode ser retalhado. Ingenuamente, julgava eu, que esses senhores politiqueiros, que tinham a obrigação de serem diferentes dos Ferreiras Torres, dos Curtos, das Felgueiras, dos nababos que campeiam por essas berças..., na verdade, com este tipo de decisões... são um primor! Palavras para quê... Provavelmente, conhecem pouco da história, do território e das gentes sobre as quais deviam ser os primeiros responsáveis a zelar pela sua defesa, bem como das legítimas aspirações de desenvolvimento e bem-estar dessa grande região que é o Alentejo. Na verdade, é necessário muita leitura... e isso dá trabalho (podiam ter dado uma vista de olhos sobre a obra de José Mattoso e de Suzanne Daveau – Portugal: o sabor da Terra, nomeadamente, os volumes referentes ao Alentejo). Contudo, nós vamos dar um pequeno contributo para que esses senhores tenham um pouco mais de cuidado quando decidem sobre o presente e o futuro das pessoas.


ALENTEJO: um equívoco ou uma região?


A GEOGRAFIA E A HISTÓRIA


Como outras regiões, tirou o nome de um rio. No entanto, ao contrário do que acontece, por exemplo com o Douro, esse rio, o Tejo, é, por assim dizer, exterior à região. Não é um elemento estruturante, integrador, mas um limite, uma margem. Vindo da Meseta, banhando no seu curso Toledo, no centro mítico da Península, acaba derramando-se pelas lezírias de Santarém e pelo largo estuário que inclui o mar da Palha, quase frente a Lisboa. Este velho eixo que liga as duas cidades, o grande porto e centro consumidor ao centro estruturante de uma região agrícola e produtiva, é sem dúvida também o Sul mas não o Alentejo. O Alentejo há que procurá-lo mais longe, deixando entre nós e o rio uma distância. Há que procurá-lo, afinal, além do Tejo.


Palavra densa de significados, esta. E também de paradoxos. Paradoxo de uma região ser conhecida pelo nome de um rio que constitui apenas de forma imperfeita e irregular o seu limite norte, uma vez que uma parte substancial da margem esquerda do Tejo prolonga as características da margem direita e chegou a constituir com ela uma unidade. Paradoxo de perspectiva que a preposição «além de ... » encerra: de facto, só é além do Tejo para quem se situa do ponto de observação constituído pela margem direita, ou, por outras palavras, do setentrião. A própria escolha do nome implica, assim, o triunfo do olhar sobre a região que lhe é exterior, promovido a partir do Norte.


Finalmente, paradoxo último, esse nome triunfou entre os indivíduos que o habitam como forma de se designarem a eles próprios: alentejanos. Como se se tivessem cansado de olhar directamente para si mesmos e apenas pudessem vislumbrar o reflexo que projectam num espelho mais ou menos longínquo. Se atendermos às circunstâncias que rodeiam a formação das unidades regionais, as particularidades que caracterizam o Alentejo tornar-se-ão mais claras, até na maneira como é nomeado.


Antes dos séculos XII e XIII, o «Alentejo» não existe. Há outra coisa em seu lugar. Os Árabes, que haviam dominado politicamente a Península no meio milénio anterior, chamavam al Garb, ao Ocidente. Ou, mais precisamente al Garb al-Andalus, o ocidente do Andalus, da Península. Que o é em relação ao eixo que historicamente a estruturava constituindo simultaneamente a sua parte mais rica e intensamente ocupada - o vale do Guadalquivir, com algumas grandes cidades, Córdova e Sevilha em primeiro lugar, correspondendo à antiga província romana da Bética. A poente de Sevilha, começava então uma região muito vasta e de contornos mal definidos, periférica, não obstante a sua importância, em relação aos centros políticos de decisão e aos centros económicas mais prósperos. A funcionar como eixo estruturador dos territórios adjacentes, sempre havia estado o Guadiana.


Nas suas margens ou próximos delas apareciam os núcleos urbanos mais importantes, de onde uma elite de proprietários e magistrados controlava os anéis de cultura intensiva em torno das cidades e a população rural concentrada nas alcarias. Assim em Mértola, em Beja, ou, subindo o rio, em Badajoz, um dos raros centros que o Islão fundou ex nihilo na Península. Mas o Garb árabe estendia-se muito para além do Guadiana, abrangendo não só o que os Portugueses vieram a chamar Algarve, ou seja, a faixa de terra apertada a sul entre as serras do Caldeirão e de Monchique e o golfo hispano-magrebino, mas também a bacia do Tejo; ou seja, na prática todo o Sudoeste peninsular.


A partir dos meados do século XII, a pressão do Norte começa a fazer-se sentir sobre toda esta vasta região. Quando ela termina, os eixos de organização territorial do Garb estão completamente mudados; começa a concretizar-se uma divisão duradoura que deixará traços indeléveis na paisagem. Com efeito, em 1147, Afonso Henriques, o senhor de Coimbra, como lhe chamam algumas fontes narrativas árabes, assegura o domínio do vale do Tejo com a conquista consecutiva de Santarém e Lisboa. Outras se seguirão: Palmela, Alcácer, Évora, Beja. E ainda a tentativa quase fatal de se apoderar de Badajoz (1169), em que o rei perdeu para o vizinho e concorrente de Leão as aspirações a controlar o Guadiana médio e, assim, a possibilidade de vir a integrar no jovem reino a totalidade do Garb. De resto as circunstâncias das últimas décadas do século XII ditam de forma decisiva a formação do conceito e da realidade Alentejo.


O Ultra Tagum, no latim dos clérigos-juristas, a tradução da expressão em língua romance “além do Tejo” passou a designar, na boca dos conquistadores, toda a vasta área que se estendia a sul do seu olhar. O próprio nome que se dá à região reflecte o processo da sua formação, e traz consigo um olhar, o dos vencedores. Na verdade, o rei português, depois de se ter tomado definitivamente Alcácer do Sal (1217), assegurando assim o controlo efectivo do vale do Sado, isto é, de toda a faixa costeira que constituiria o Alentejo litoral e, a seguir a ele, as ordens militares, principalmente a de Santiago, que despendem boa parte do esforço bélico, vão inflectir para o interior, tomando o vale do Guadiana como via de penetração e eixo das conquistas. Évora era, para o efeito um bom ponto de apoio, e a conquista ou rendição de praças em ambas as margens - Serpa, Moura, Aljustrel, Mértola, Aroche, Aracena - mostrava a intenção de anexar a totalidade da região. Não surpreende, portanto, que, a partir de 1249, os últimos redutos muçulmanos na faixa costeira sul caiam nas mãos dos cristãos. No ano anterior, o rei castelhano-leonês tinha conquistado Sevilha. O Garb desaparecera. Havia agora que dividi-lo. O que não foi tarefa fácil.


Neste processo, a escolha de um obstáculo que pudesse servir de fronteira aos dois reinos passa pelo Guadiana, opção lógica, por constituir o maior acidente geográfico entre Alcácer e Sevilha, se exceptuarmos as secas serranias do Andévalo, de limites muito menos nítidos. Por aqui, desde o Caia, um pouco abaixo de Badajoz, até à foz, em Castro Marim e Aiamonte, correrá a fronteira entre 1271 e 1295. No final do século, será modificada, com a passagem para a Coroa portuguesa de algumas importantes praças da margem esquerda do Guadiana - Olivença, Mourão, Moura, Serpa. No conjunto, porém, o rio ou um seu afluente, o Chança, manter-se-ão como limite. De traço de união, passará a linha divisória. Essa mudança virá a revelar-se decisiva para a formação do Alentejo. Em certo sentido poder-se-á mesmo dizer que ele foi inventado durante este período. Simultaneamente, para os conquistadores, o território recém-adquirido que se estendia entre o Tejo, a serrania que passaremos a designar de algarvia e o Guadiana, apresentava uma unidade.


Na organização territorial que o poder central empreende, corresponde-lhe uma das grandes circunscrições administrativas em que o reino se divide, para efeitos da acção da justiça e do poder central - a comarca de Entre Tejo e Odiana. Com efeito, logo após a ocupação, o rei começa a configurar institucionalmente o novo território, distribuindo terras e jurisdições às ordens que o haviam ajudado a conquistar, negociando com as elites urbanas, através da concessão de cartas de foral, assegurando posições territorialmente significativas para indivíduos da sua confiança, e, por todo o lado, restaurando ou criando do nada castelos e núcleos urbanos.


A todos estes títulos os reinados decisivos são os de Afonso III e D. Dinis - a área coberta pela comarca de Entre Tejo e Odiana apresentava-se como uma realidade politicamente articulada, ao nível do encontro entre os interesses dos grupos urbanos e o programa político da Coroa. Na verdade, pelo menos a princípio, ela, a comarca, disfarça mal alguma artificialidade. A continuidade entre as terras das margens direita e esquerda do Guadiana é, ainda hoje, volvidos setecentos anos, por demais evidente. Nenhuma acção humana, nenhuma fronteira, por mais duradoura que fosse, poderia apagar essa identidade de base.


É certo que, no curso inferior do Guadiana, passado o Chança, um afluente que servirá de separação entre Portugal e Leão depois da entrega de Serpa e Moura ao primeiro desses reinos, o relevo se torna rapidamente mais movimentado – era o cenário da criação extensiva de gado. Mas a transição é suave e, de resto, aquém-Guadiana, havia também um «Andévalo», representado pelo Campo de Ourique e pela serra algarvia. Se subirmos o Guadiana até às proximidades de Elvas, passado o Caia encontramos o mesmo espaço aberto, sem obstáculos que legitimem a divisão. A necessidade da nomeação era evidente, visto tratar-se de uma entidade nova. Já vimos como ela decorria da visão dos conquistadores. À expressão descritiva “além do Tejo”, que deve ter estado em uso na linguagem popular talvez já desde o século XII, vem juntar-se uma outra que, ao menos sob o ponto de vista administrativo, identifica mais rigorosamente as terras que lhe correspondem: «Entre» ou «Antre Tejo e Odiana» -já que só no século XVI a forma Odiana se transforma em Guadiana. Porém, a expressão «além do Tejo», ela própria uma frase descritiva, nunca se havia eclipsado. A partir daqui o nome da província será isso mesmo: um nome. Com o qual os seus habitantes passaram a identificar-se sem sequer notarem que havia vindo de fora de si mesmos. Distante o tempo em que em dois documentos produzidos em Beja os signatários se situam «Aaquem Tejo» (1284).


A região tem agora um nome que é um eloquente indício da forma como se construiu. Um indício afinal de como decorreu o processo de integração no todo nacional. A unidade do nome não é, no entanto, suficiente para escamotear a presença no seu interior de uma diversidade em grande medida ditada pelas condições de relevo e de solo e que fogem, por isso mesmo, ao tempo da História, para se inserirem naquele, muito mais profundo, da Natureza.


Com efeito, e apesar da escassez de acidentes que permitam individualizar sub-regiões muito distintas no seu interior, o Alentejo, a quem o percorra da serra do Algarve a Nisa, ou de Sines a Barrancos, apresenta gradações devidas quer a diferenças climáticas quer do relevo e dos solos, que ditam peculiares condições de ocupação. É assim que, apesar de o clima ser em todo o lado mediterrânico, o litoral e as terras situadas nas bacias hidrográficas do Tejo e do Sado são mais húmidos que o interior. Também podemos afirmar de uma forma genérica que quanto mais se caminha para sul maior a secura, que atinge, no baixo vale do Guadiana, em Mértola, o seu grau mais elevado. Estas condicionantes climáticas determinam a existência nas bacias do Sado e do Tejo de uma cobertura vegetal onde predomina o sobreiro ou mais recentemente, em parte, o eucalipto, enquanto no interior triunfa a azinheira, mais adaptada à escassez de água, que é total no Verão.


Também os solos apresentam acentuada variedade permitindo distinguir diversas áreas: embora as terras de xistos, pobres e magras, onde apenas o milenar trabalho do arado pôde transformar em searas o terreno pedregoso, se apresentem como dominantes, elas são em algumas áreas, como a de Beja, interrompidas por manchas de terras fundas e argilosas, os «barros», cuja alta produtividade cerealífera é em grande medida responsável pelo mito da inesgotável fertilidade que desde há séculos se associa à imagem do Alentejo.


Outro contraste opõe as areias estéreis das bacias sedimentares do Tejo e do Sado, votadas à charneca despovoada, aos solos arenosos resultantes da alteração do granito, de razoável fertilidade. Se quisermos encontrar caracteres que permitam individualizar unidades regionais dentro do Alentejo, teremos que cruzar necessariamente os dados do clima e dos solos com os do relevo e dos cursos de água. Estes últimos são tanto mais significativos quanto se constituem, do ponto de vista do observador, como marcos essenciais de apreensão da paisagem e, simultaneamente, como balizas que permitem dividi-la.


Numa paisagem de relevos atenuados, onde a planície alterna com cabeços gastos, criando uma ilusão de monótona repetição, esse tipo de acidentes reveste um carácter ainda mais decisivo como forma de encontrar e produzir singularidades. É nesse sentido que agem os três rios maiores que atravessam ou limitam o Alentejo: o Sado é o eixo ordenador de uma sub-região, sob o ponto de vista da geografia humana próxima do Alentejo interior, mas em que os arrozais e as salinas da foz contrastam vivamente com as planícies cerealíferas e os montados que compõem a imagem comum do Alentejo, aproximando-a mais dos modelos de ocupação do espaço e dos sistemas de cultura do baixo vale do Tejo. Em toda a margem esquerda deste último rio, os terrenos arenosos e pobres das «baixas do Sorraia», para retomar a designação de Barros Gomes (1875), não permitem, ontem como hoje, mais do que um povoamento muito escasso: um reduzido número de centros urbanos separados entre si por várias dezenas de quilómetros. Alentejo ou transição para o Ribatejo?


A presença do Guadiana individualiza igualmente um território, a «Riba d'Odiana», como se chega a dizer na Idade Média, isto é, os concelhos da margem esquerda. No entanto, apesar de uma consciência de identidade que existe entre a população, os traços de continuidade face à planície de Beja são demasiado fortes para que se possa falar numa subunidade regional.


Até agora falámos essencialmente de zonas marginais. Resta o miolo. Este é definido pelos acidentes do relevo. A sul, a serra algarvia constitui um obstáculo natural que durante séculos se revelou de difícil transposição e, nesse sentido, uma barreira ideal para limitar a região. No centro, a escarpa da Vidigueira, separando com nitidez a planície de Beja da de Évora, constitui-se, do mesmo modo, como uma barreira natural. A velha via romana, que ligava os dois principais centros urbanos do território, teve de a respeitar, contornando-a pelo Torrão. A norte, as serras de Marvão e São Mamede, prolongando os montes de Toledo, limitam setentrionalmente a região transtagana começando a esboçar caracteres de articulação com a Beira Baixa.


A vasta planície central do Alentejo, aqui e ali pontuada por alguns acidentes menores, aparece, assim, como que dividida ao meio pela escarpa da Vidigueira, que separa as áreas de influência de Évora e de Beja, quer geográfica quer historicamente. É neste limite que podemos apoiar uma das maiores cesuras na região, entre o Alto e o Baixo Alentejo. Esta divisão - é hoje geralmente aceite, apesar de a sua origem ser mais erudita do que popular. De facto, ninguém se diz alto-alentejano nem baixo-alentejano, É Alentejano !


CONTINUA...



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Segunda-feira, 5 de Abril de 2004
Abril em Abril!

Abril em Abril!


A ordem e a conexão das ideias reflectem a ordem e a conexão do mundo e o espaço deste blog tem sido coerente nesse aspecto. Além disso, a história do desenvolvimento dos conceitos e das categorias políticas, “científicas” e sociais, reflecte a história do desenvolvimento da sociedade em que se elabora o conhecimento, e está-lhe indissoluvelmente ligada. Da mesma forma, a prática social histórica, colectiva e não meramente individual nem meramente restrita ao nível da actividade subjectiva, ao elemento dito “espiritual” isolado e abstracto, sem condicionamento e sem raízes, é o fundamento, o alvo e a instância decisória, a base real também do conhecimento político e histórico.


Vem isto também a propósito, da hostilidade declarada que alguns sectores sociais e políticos, hoje no poder, estão a ter em relação ao 25 de Abril. Foi a democracia..., o 25 de Abril, que tornou livremente possível a discussão e o debate... mas sem trair! Sem trair a verdade e a justa consciência política da situação histórica que foi o 25 de Abril.


É necessário, é justo intervir... contra os rancores que neste momento existem, por parte de alguns charlatães escrevinhadores de calinadas puras e de trapaceiros políticos, que em nome de concepções e sectarismos arrivistas eivados do mais puro ultramontanismo, querem refazer a HISTÓRIA, negando a própria história e colocando em causa o que foi o 25 de Abril.


O texto que se segue, da autoria do meu amigo Hugo Fernandez, é, neste contexto, um momento importante no esforço de clarificação conceptual no quadro político e histórico acerca do 25 de Abril e, também, contra um certo obscurantismo de passadistas de toda a sorte, como dizia António Sérgio – espectros do “Reino Cadaveroso”. Aconselho a sua leitura e um pouco de reflexão sobre a “temática”.


QUE 25 DE ABRIL?


Já há muito que o famoso historiador francês Marc Bloch tinha chamado a atenção dos seus colegas de ofício, para as armadilhas da linguagem presentes nas fontes de investigação, que podem advir do facto dos homens não mudarem de vocabulário de cada vez que mudam de regimes políticos ou que vivem nova conjuntura social. Daí o poder atribuir-se designações idênticas a realidades já profundamente diferentes, o que contribui quer para o descrédito das fontes de informação, quer para a desconfiança e inverosimilhança com que o processo histórico é muitas vezes olhado por camadas mais desprevenidas da população.


Ao invés, é também frequente a tentação de um determinado discurso historiográfico de solucionar esta perplexidade, exportando conceitos do presente para o passado – num puro acto de anacronismo – ou reescrevendo de forma oportunista o que aconteceu, para que a História se torne mais inteligível aos olhos e, sobretudo, aos interesses do mundo de hoje.


De uma maneira ou de outra, o que parece certo é que os homens pensam recorrendo a conceitos e actuam de acordo com crenças paradigmáticas. E provavelmente não haverá conceito mais carregado de significados que o de revolução. Para todos os efeitos, as revoluções têm sido entendidas como processos de ruptura e transformação radical entre uma qualquer realidade anterior e aquela que lhe sucede. Isto é percebido assim, independentemente de falarmos de dimensões sociais, políticas, artísticas, vivenciais ou do domínio dos fenómenos da natureza. O aparente catastrofismo do processo revolucionário engendra sempre algo de substancialmente novo, ainda que muitas vezes pintado com as cores de uma restauração ou de uma regeneração. Do que não restam dúvidas é que se trata sempre de uma evolução, se com isto quisermos significar a sucessão de movimentos que constituem o devir histórico e que alteram, em cada momento, o que está. Nem sempre o contrário é verdadeiro. Pode haver evolução sem se assistir a nenhuma revolução. Podemos dizer que se trata até da situação mais comum. Neste caso não se atinge nunca o grau de metamorfose que é apanágio daquela.


A este propósito, todos estamos lembrados de situações recentes da História portuguesa, como a conhecida “evolução na continuidade” do período marcelista. Esta evolução não foi, no entanto, suficiente para responder às aspirações de liberdade e democracia do povo português que acabou por levar a cabo uma revolução. Foi no dia 25 de Abril de 1974. Acabou-se a guerra colonial, possibilitou-se a independência das antigas “províncias ultramarinas”, assistiu-se ao fim da censura, das prisões políticas e da repressão policial. À liberdade de expressão e de imprensa, somaram-se a emergência livre de sindicatos, partidos políticos e movimentos sociais. Foram garantidos constitucionalmente os direitos básicos de cidadania e consagrado o sufrágio universal, directo e secreto. Possibilitou-se a melhoria acentuada das condições de vida e de trabalho da generalidade da população portuguesa. Instituiu-se o salário mínimo, a segurança social e os direitos dos trabalhadores. Promoveu-se a massificação do ensino, o serviço nacional de saúde, o direito ao divórcio. Deu-se esperança e futuro aos portugueses... Não foi pouco! Desta ruptura revolucionária, nasceu uma democracia e acabou uma ditadura fascista. Com toda a carga político-ideológica que, felizmente, as revoluções sempre têm.


Outro conhecido autor francês contemporâneo, Jean-Christophe Rufin, chamou a atenção para o segredo da longevidade dos sistemas democráticos e a sua generalizada vitória face aos regimes totalitários. Concluiu que, enquanto os primeiros eram capazes de se “alimentar” de tudo o que se lhes opunha, constituindo isso a sua fonte de energia vital, os segundos colapsavam na tentativa desesperada de eliminar qualquer oposição. Ao contrário da ideia feita, as democracias revelar-se-iam poderosas e as ditaduras surpreendentemente frágeis. E se estas últimas são sempre criminosas, aquelas podem ser extremamente perversas. Talvez por isso o actual governo pretenda comemorar o 30º aniversário do 25 de Abril, mudando-lhe subrepticiamente o nome e a natureza, e desvirtuando as suas conquistas. Como se o país que temos hoje, não fosse consequência directa desse período tão decisivo. Como se, mais do que esquecer, se pretendesse renegar esse passado e fazer dele algo que nunca foi. Como se a democracia em Portugal se tivesse implantado contra o 25 de Abril. Abril não é, por isso, mera evolução. É muito mais. Abril foi, é e será sempre Revolução.



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Sexta-feira, 2 de Abril de 2004
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