Albardas e Alforges... nunca vi nada assim! Minto... já vi!
Segunda-feira, 11 de Outubro de 2010
Fim da Historia

O FIM DA HISTÓRIA?


 


            Naquele estilo de truculenta sapiência que lhe conhecemos, José António Saraiva disparou mais uma enormidade de cariz filosófico-político: “A ideologia já não tem força para se opor ao mercado. É esta a verdade. A luta de classes definitivamente acabou.” (Sol, 3/9/2010). A descoberta destes fins extemporâneos não é inédita. Já nos idos de 1959, o sociólogo norte-americano Daniel Bell tinha prognosticado o “fim das ideologias”. Três décadas depois foi a vez do corifeu do neoliberalismo Francis Fukuyama sentenciar “o fim da História”. Mais recentemente não há bicho-careta que não se atire às canelas do “Estado social” e não invective com vigorosa prosa os seus defensores. Tempos houve em que se previu a impossibilidade do sufrágio universal, da liberdade de expressão ou da igualdade entre homens e mulheres.


            Longe do “fim da História” ouvimos sim repetir a mesma História. Não porque esta tenha acabado ou porque não se vislumbrem alternativas. Mas porque aos interesses ainda dominantes convém a manutenção desta narrativa que, tendo por base a supremacia – supostamente comprovada pela História – do capitalismo liberal frente a outros projectos de organização social, de que se destaca o comunismo, impele as sociedades numa senda imparável de progresso e bem-estar. Sabemos que as coisas não são tão simples e lineares. Sabemos sobretudo que a versão neo deste proclamado idílio terrestre está longe de corresponder à realidade contemporânea da humanidade. Naturalmente, a História… prosseguiu.


            Vivemos o tempo de uma nova ordem. E de uma nova ordem que longe do orgulho triunfante de outras eras, procura dissimular a catástrofe (económica, social, ambiental, mental…) a que conduziu o mundo. Uma ordem em que os trabalhadores se transmutaram em colaboradores, em que os patrões se tornaram empregadores, em que as iniciativas se transformaram em empreendedorismo, em que o trabalho foi substituído por projectos, em que as dificuldades se converteram em desafios, em que a vertigem da novidade esconde a precariedade essencial das existências, em que o efémero passa pelo perene, em que o artifício se torna essencial, em que se banalizam os sentimentos e se ridiculariza a esperança. Assistimos ao presentismo das vivências individuais e colectivas que inviabiliza qualquer perspectiva de mudança e de melhoria de condição, subsumido que está na aflição quotidiana da sobrevivência. Os direitos convertem-se em privilégios. As gerações são lançadas umas contra as outras no perverso pressuposto de que as garantias dos mais velhos comprometem o futuro dos mais novos, na crença de que, por exemplo, os constrangimentos aos despedimentos são exactamente os obstáculos que impedem a contratação.


            Vivemos uma nova ordem em que a inversão de valores, muitas vezes travestido de “terceiras vias”, leva ao descaramento de afirmações tão hipócritas e cruéis como aquela pronunciada por Almeida Santos sobre as medidas de austeridade impostas pelo Governo PS-Sócrates aos portugueses: “O povo tem de sofrer as crises como o Governo as sofre” (Sábado, 7/10/2010). Em que o mundo é dominado por uma “teocracia de mercado” que não hesita em renegar os mais elementares princípios da convivência democrática e da legitimação plebiscitária dos governantes pelos governados, na imposição de uma lógica fundamentalista de usurpação do poder político. Reunidos em conventículos iniciáticos e exclusivos, espécie de “conselho de sábios” (velayat-e faqih) de ayatollahs laicos, arrogam-se no direito de ditar sentenças, impor soluções, coarctar iniciativas, aniquilar expectativas, ao conjunto da sociedade. Vejam-se, a este propósito, as inequívocas declarações do actual governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, segundo as quais os financeiros é que são os “donos da bola”, advogando a criação de uma agência independente para controlar a evolução das finanças públicas e condicionar a acção governamental. A legitimidade política democrática passaria assim a ser substituída pelo mais completo arbítrio de interesses económico-financeiros obscuros e privados. Esta mesma posição podia ser replicada por esse mundo fora. Atente-se no caso de instituições internacionais como o FMI.


É, aliás, espantoso como os responsáveis pela presente crise continuam, impávidos e serenos, a determinar os destinos do mundo. Como aqueles que receberam somas incalculáveis de dinheiro dos contribuintes para remediar as consequências do gigantesco esbulho com fundos de pensões e especulação imobiliária, se acham no direito de exigir os mais pesados sacrifícios a todos os outros, com o singular objectivo da manutenção, por muitos e bons anos, dos seus lucros fabulosos. Sob a capa do discurso “politicamente correcto” e pretensamente responsável, obrigam-nos a alinhar num jogo de soma-zero onde “the winer takes it all”. Onde está aqui a propalada equidade e justiça social? Para que não restem dúvidas, o mesmo Carlos Costa não hesita em sublinhar que a referida agência independente do poder político, tem que ser “realmente independente” (Público, 5/10/2010), distinguindo-se claramente das atribuições da Unidade Técnica de Apoio Orçamental que funciona na dependência da Assembleia da República e que reúne representantes das várias forças políticas, como é normal que aconteça numa sociedade democrática.


            Vivemos uma nova ordem que, na vertiginosa irresponsabilidade da sua vertigem suicidária, procura esquecer a História. Mais do que isso. Procura fazer esquecer a consciência desta. Estigmatiza ideais, ignora personagens, liofiliza efemérides, promove o mais descarado revisionismo do devir da humanidade, deprecia sistematicamente o conhecimento do passado. Opõe um designado pós-modernismo aos ideais modernos de consagração da universalidade dos direitos, liberdades e garantias, da soberania popular e da representação política, da justiça social e da igualdade de oportunidades, renegando o próprio património histórico e civilizacional das revoluções liberais oitocentistas que estiveram na sua génese. Mascara as conquistas alcançadas e toma os legítimos anseios numa vida melhor por tibiezas utópicas. Sobretudo, camufla a realidade da exploração desenfreada, da predação desregrada dos recursos existentes, da furiosa perseguição do lucro máximo, da despudorada especulação de interesses e expectativas, e da manutenção dos mais violentos índices de miséria e desigualdade social.


Não é por acaso que a atitude do poder instalado é a da desvalorização recorrente das ciências sociais e humanas e de toda e qualquer tentativa para um melhor conhecimento do mundo em que vivemos. Compreende-se que assim seja. Este conhecimento podia questionar algumas das certezas proclamadas e perspectivar soluções alternativas de organização social – por isso nos apetece citar a provocação de Paul Valéry, “O que tem sido acreditado por todos, e sempre, e em toda a parte, tem toda a probabilidade de ser falso.”! Ao invés, e numa lógica estritamente economicista, estes campos do conhecimento científico são encarados como improdutivos e desnecessários. Seguindo propósitos meramente instrumentais, aposta-se nas tecnologias e nos saberes com aplicação imediata à máquina capitalista da exploração e do lucro. Esquece-se convenientemente a constatação de que a tecnologia pode conseguir fabricar uma arma poderosa, mas que o entendimento das sociedades pode evitar a guerra.


A desconfiança do pensamento dominante relativamente ao que apelida de grandes narrativas – isto é, teorias sistemáticas de interpretação da história da humanidade – fez dos detractores das revoluções e da ideia da mudança social e da emancipação humana os expoentes intelectuais da contemporaneidade. Resta saber se a apologia ad nauseum da “democracia liberal” e da “economia de mercado” resistem à analogia ontológica com as referidas grandes narrativas. Não se assumem estes princípios ideológico-políticos como ubíquos e omniscientes? Não são eles incontestáveis e inevitáveis, o “fim da história” como proclamou Francis Fukuyama em 1992? Esta evolução universal e necessária em direcção a “sociedades livres”, legitimadora da actual ordem capitalista, não é ela, precisamente, uma grande narrativa? Não enferma das mesmas debilidades teóricas – esquematismo, linearidade, finalismo, teleologia, irreversibilidade, fatalidade – que se apontavam às anteriormente referidas? Por outro lado, está longe de ser despicienda a dúvida se a vontade dos “mercados” corresponde, efectivamente, aos princípios de igualdade e liberdade que presidiram à constituição da ordem democrática-liberal, não sendo antes um expediente instrumental para a legitimação de um statu quo societário que, servido por um “pensamento único”, apresenta características tão totalitárias como aquelas que são atribuídas aos propósitos dos seus adversários políticos.


A des-legitimação de qualquer pensamento alternativo a este estado de coisas – amplamente provido pela eficácia demolidora de uma máquina ideológica omnipresente – serve, de facto, um projecto totalitário de sociedade. A dissidência é permitida (dentro de certos limites), mas totalmente abafada. Mais do que isso. Há uma permanente campanha de desconsideração – quando não mesmo de achincalhamento e humilhação pessoal – de todos aqueles que ousam pensar de forma diferente. Neste estado de falsa tolerância ninguém, em princípio, é eliminado. Mas é completamente marginalizado e ostracizado (práticas indutoras de efectiva coerção). Não matam o indivíduo, mas seguramente matam o cidadão. Os próprios vestígios e monumentos de revoluções passadas são desprezados e condenados ao esquecimento. Ora, como disse um dia aquele que foi considerado o “pai da História negra”, o historiador afro-americano Carter G. Woodson (1875-1950), “When you control a man’s thinking you do not have to worry about his actions.” [“Quando controlamos o pensamento de alguém, não precisamos de nos preocupar com as suas acções”]. Que afirmação tão verdadeira!


 


Hugo Fernandez



publicado por albardeiro às 18:31
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